A passagem tempestuosa (e seminal) do Rollins Band por Santos em 1994

Muito antes da internet facilitar o intercâmbio musical e das turnês internacionais se tornarem rotina no Brasil, a praia do Boqueirão, em Santos, foi palco de um encontro improvável e histórico. Em 5 de fevereiro de 1994, o festival M2000 Summer Concerts reuniu na areia de Santos o hard rock do Mr. Big, o indie rock do The Lemonheads, o fenômeno nacional Raimundos, o pop inocente de Deborah Blando, o peso do Dr Sin e a fúria visceral da Rollins Band. Tudo isso com o testemunho de 180 mil fãs. Para a história da “Califórnia Brasileira”, foi um marco que ajudou a pavimentar a cena local. Mas para Henry Rollins, ex-frontman do Black Flag e ícone do hardcore, a noite foi um misto de dor física, alucinação e um choque de realidade brutal. Anos depois, em um show de stand-up comedy em 2013, Rollins revelou os detalhes sórdidos daquela noite. O que parecia apenas um show com “público frio” revelou-se uma comédia de erros que envolveu ódio gratuito a Evan Dando, um crânio exposto e uma teoria darwiniana que falhou miseravelmente. Rollins Band e a “missão de matar Evan Dando” em Santos A Rollins Band chegava ao Brasil em seu auge técnico. Após a entrada no Lollapalooza de 1991 e o sucesso do álbum The End of Silence (1992), a banda estava prestes a estourar na MTV com o disco Weight. Mas a cabeça de Henry Rollins não estava na música, e sim no ódio ao vocalista do The Lemonheads. Rollins confessou que chegou a Santos com uma missão: “Destruí-lo. Nem vou falar com o Evan quando o vir. Nunca o conheci, mas ele toca aquele tipo de música de garota (…) e as mulheres simplesmente correm atrás dele”. A inveja da atenção feminina que Dando recebia consumia o vocalista da Rollins Band. “Eu olho para esse cara e penso: ‘Você morre hoje à noite. O punho esmagador e inacreditável da Rollins Band vai te transformar em picadinho, seu filho da puta’”, relembrou no stand-up. A ironia? Ao encontrar o “inimigo” nos bastidores da praia santista, a raiva desmoronou. “O Evan é uma das pessoas mais legais que eu já conheci. Um amor de pessoa. Então eu penso: desculpa por ter sido um idiota.” Nocaute: “Eu sinto meu crânio” Sem o inimigo externo, Rollins voltou sua fúria para si mesmo. A banda entrou no palco com a missão de mostrar “suor, músculos e poder do rock”. Mas durou pouco. Logo na primeira música, Low Self Opinion, a intensidade cobrou seu preço. “A banda entra com tudo. Eu ainda não disse uma palavra. Minha cabeça abaixa. Meu joelho subiu. Pá! Me nocauteou na frente de todos eles. Apaguei”, conta Rollins. O relato do vocalista sobre os segundos seguintes é aterrorizante e cômico na mesma medida. Ele apagou em pé por cerca de 20 segundos. Ao acordar, desorientado, ouviu a própria banda tocando como se fosse um som distante e colocou a mão na testa. “Estendo a mão até minha cabeça. Tem um buraco que vai de cima da minha sobrancelha até o fundo da minha sobrancelha (…) Eu enfio a mão e sinto meu crânio. O que eu acho bem legal.” O vocalista do The Lemonheads, Evan Dando, assistiu a tudo da lateral do palco horrorizado. “Sim, me lembro quando Henry (Rollins) bateu no rosto com o próprio joelho e ele estava todo ensanguentado. Íamos jogar uma toalha para ele, mas ele disse ‘não, não, não’. Porque ele era aquela coisa de Alice Cooper. Não sei, ele disse: ‘não, não, não, não quero a toalha, obrigado’. Mas é disso que me lembro principalmente.” Teoria Darwiniana do Rollins Band falha em Santos Com o rosto coberto de sangue e o chão do palco virando um matadouro, Rollins decidiu continuar o show. Não por profissionalismo, mas por uma lógica distorcida de atração sexual. “Na minha mente darwiniana infantil e distorcida, eu acho que as lindas mulheres brasileiras vão ver um cara banhado em luz branca (…) Elas veem sangue. E percebem que esse é o cara (…) Preciso pegar o sêmen de alguém. E imagino ondas de lindas brasileiras, se atropelando umas às outras para chegar até mim”, devaneou o cantor. A realidade da plateia santista, porém, foi o oposto. O público, que já estava frustrado pela ausência de covers do Black Flag e desconhecia as músicas novas e pesadas como Liar e Disconnect, reagiu com repulsa. “A multidão estava se afastando de mim. Não encontrei uma única brasileira em três dias”, lamentou Rollins. “Tudo o que eu fiz foi: ‘Oi, meu nome é Evan, você vai lá para baixo no corredor e entra na fila’. Então não precisei de nenhuma.” Sangue vs. pijamas O show terminou com a Rollins Band tocando músicas inéditas para um público atônito e um vocalista mutilado. A imagem final que Rollins guarda daquela noite no Boqueirão resume perfeitamente o choque de culturas do festival M2000. De um lado, ele: “Me sinto um deus do rock furioso. O sangue escorre pelo meu rosto. Eu só penso: ‘É isso aí’”. Do outro, o “rival” Evan Dando: “A melhor coisa foi ver o Evan sair depois. De pijama. Ele toca de pijama. ‘Oi, eu sou um cara legal’. E eu estou imerso no meu próprio sangue.” Frustração dos fãs com a Rollins Band em Santos Enquanto Rollins sangrava, parte do público sangrava por dentro, mas de decepção. Havia uma expectativa latente de que a banda tocasse clássicos do Black Flag. Marco Casado Lima, fã presente no show, resume o sentimento da “velha guarda” punk que foi à praia naquela noite. “No meu caso era o Rollins Band. As pessoas da cena hardcore até conheciam, mas meu conhecimento se restringia ao álbum End of Silence. Estava lá com a ilusão de ouvir eles tocando músicas do Black Flag.” O setlist, contudo, olhava para o futuro. O repertório ignorou solenemente a antiga banda de Rollins e focou no peso do vindouro álbum Weight. Faixas inéditas para o público, como Civilized, Disconnect
Black Flag retorna a São Paulo em show com Garotos Podres e Cólera

A seminal banda punk norte-americana Black Flag retorna a São Paulo, com show no dia 27 de outubro, no Carioca Club. O evento, cuja venda de ingressos começa em julho, também terá dois ícones do punk rock nacional, Cólera e Garotos Podres. A produção é da Powerline Music & Books. Nesta nova passagem pela capital paulista, três anos após a estreia no Brasil, no mesmo Carioca Club, em março de 2020 (também realizado pela Powerline), a banda vai celebrar os quase 40 anos do segundo disco, My War, além de tocar mais hits, em um set de cerca de 2 horas. O Black Flag é uma instituição do punk rock, um sólido pilar que desde 1976 sustenta o estilo, seus cacoetes e é influência para um incontável número de bandas que surgiram a partir da década de 1980 até os dias atuais, inclusive como a força motriz do que viria a ser e soar o hardcore. Além do começo arrebatador e marcante do punk/hardcore com o álbum Damaged (1981), o Black Flag se manteve impactante três anos depois com My War (1984). Traz seis músicas que originalmente figuraram no álbum de estreia, o lado B do disco apresentava barulhos tensos e uma sonoridade punk obscura. My War é um Black Flag ainda mais rápido e pesado, que por mais inusitado que pareça, tem influência de Black Sabbath e até hoje é um álbum importante e influente para a cena sludge metal e pro grunge. Para esta tour no Brasil, o Black Flag é Greg Ginn (membro fundador), Mike Vallely, Harley Duggan e Charles Wiley.
White Lazy Boy: Melvins e Mudhoney se juntam em EP inédito

O Melvins e o Mudhoney tem muita coisa em comum. Em resumo, ambas foram criadas em Seattle e tiveram o baixista Matt Lukin como um de seus fundadores. Vale lembrar que o artista não participa de mais nenhuma das duas. Ademais, ambas também foram criadas na década de 80 e foram peças chave no famoso cenário grunge de Seattle. Mas qual o motivo de todas essas curiosidades? Os grupos se juntaram recentemente para gravar um EP. Intitulado White Lazy Boy, o trabalho traz quatro canções. Aliás, este não é um projeto dividido, é como se as bandas se tornassem uma só. Das quatro faixas, duas são inéditas, e dois covers – um do Black Flag e outro do Crazy Horse e Neil Young – complementam o EP. Lançamento Ao que tudo indica, o trabalho foi divulgado na semana passada, apenas em mídias físicas. Contudo, algumas pessoas que já compraram a obra decidiram liberar as faixas na internet.
13 grandes nomes do punk que se aventuraram no cinema

Ultimamente temos relembrado boas histórias do movimento punk aqui no Blog n’Roll. Além disso, também listamos mais de 30 documentários sobre o gênero divididos em diversas plataforma de streaming. Contudo, hoje apresentaremos o outro lado da moeda. Será que vocês sabem que alguns artistas e bandas consagradas na música punk já participaram de produções de audiovisual de baixo custo e até filmes de Hollywood? Confere com a gente. Henry Rollins (Black Flag) Em síntese, não podemos falar desta ligação sem citar Henry Rollins. Com participações nas bandas State of Alert e Black Flag, o artista já participou de 23 filmes. Entre eles, temos Bad Boys II (2003), Floresta Maldita (2007) e Fogo contra Fogo (1995). Em Bad Boys II, Rollins é o responsável por comandar a equipe de Will Smith e Martin Lawrence na hora de caçar os integrantes do KKK. Iggy Pop (The Stooges) Uma das maiores vozes da música, Iggy Pop também já fez algumas pontinhas na telona. Além de Sid & Nancy (1986), o vocalista também contracenou em O Corvo (1996). O líder do The Stooges também fez pontas em dois filmes de Johnny Depp: Cry Baby (1990) e Homem Morto (1995). Billie Joe Armstrong (Green Day) Certamente, um dos queridinhos dos fãs, Billie Joe Armstrong participou de boas produções no cinema. É o caso do filme Mundo Ordinário (2016), onde ele vive um pai de família revivendo seu passado quando era vocalista de uma banda punk. Joe Strummer (The Clash) Ademais, o vocalista do The Clash, Joe Strummer, também usou parte de seu tempo para se aprofundar no mundo do cinema. Aliás, Strummer na maioria das vezes participou de produções independentes, como A Caminho do Inferno (1986) e Candy Mountain (1987). O vocalista também faz uma rápida aparição no longa O Rei da Comédia (1983), do diretor Martin Scorsese, que serviu de inspiração para Coringa (2019). Aqui, inclusive, com o companheiro Mick Jones. Tim Armstrong (Rancid) O Rancid também está representado na lista com Tim Armstrong. Em resumo, o músico contracenou em Larry is Dead (1995) e Maldito Coração (2004). Também fez ponta em um episódio de Arquivo X. Cherie Currie (The Runaways) A vocalista da banda The Runaways apresentou seus talentos de interpretação em O Parasita (1982) e No Limite da Realidade (1983). Todavia, é importante lembrar que a artista deve lançar um novo disco em breve, cheio de parcerias. Blink-182 Além de estar presente na trilha sonora de American Pie (1999), com Mutt, o Blink-182 aparece com todos os seus membros em parte do filme. A banda também marcou presença em um episódio da série Two Guys And A Girl (1998 a 2001), que tinha Ryan Reynolds novinho no elenco. Misfits De fato, outra banda punk que participou com todo o seu conjunto em filmes foi o Misfits. O grupo aparece nos suspenses A Máscara do Terror (2000) e Campfire Stories (2001). David Johansen (New York Dolls) O vocalista do New York Dolls, David Johansen, também se testou em frente as câmeras no clássico do terror trash Contos da Escuridão (1990). Aliás, é importante destacar a semelhança absurda entre o vocalista e o ator William H. Macy. The Offspring e Tom DeLonge (Blink-182 e Angels and Airwaves) Em peso, o The Offspring fez uma participação no longa A Mão Assassina (1999). Contudo, Tom DeLonge, do Blink-182, também tem o seu momento na produção. Vale conferir. Jello Biafra (Dead Kennedys) Jello Biafra já foi de tudo nessa vida. Político, dono de gravadora, músico, compositor, mas também atuou bastante em filmes. Entre ficções, documentários e curtas são quase 30 créditos. Highway 61 foi um deles. Debbie Harry (Blondie) A vocalista do Blondie é insuperável. Se somarmos as participações em séries de TV, filmes e games, são quase 100 aparições. Fez a voz de Dolores em Grand Theft Auto: Vice City e atuou como Cassandra em Sabrina, Aprendiz de Feiticeira. No cinema, foram várias atuações. Inclui nessa conta Cop Land (1997), Ruas Selvagens (2002) e Para Sempre Lulu (1987). Ramones Com aparições em Simpsons e outras produções, o Ramones fez o próprio filme. Rock and Roll High School é a prova mais viva que tem da banda nos cinemas.
Black Flag faz sua estreia no Brasil em julho
Ouvi No Filme #4 – Como o heavy metal e hard rock embalam os Reis de Dogtown