Após 15 anos, Superchunk desafia a lógica dos sets engessados e faz show memorável no Cine Joia

Foram necessários 15 anos para o retorno do Superchunk ao Brasil. Mas a longa espera foi recompensada no domingo (31), no Cine Joia, em São Paulo, com um dos shows mais intensos até aqui em 2026. Em quase 90 minutos de apresentação, a banda norte-americana enfileirou seus principais hinos, além de promover uma série de mudanças no setlist na comparação com o show do Rio de Janeiro, que rolou na noite anterior. Aliás, a disposição para alterar o repertório é algo louvável em tempos de turnês com sets engessados. Poucas são as bandas que ousam mudar mais de cinco músicas quando viajam pela América do Sul. No caso do Superchunk, foram 21 faixas executadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas com nove novidades no show paulista, além da total reordenação das canções mantidas. Logo de cara, duas surpresas abriram a noite: This Summer, atendendo ao pedido de um fã e que rendeu uma piada do vocalista Mac McCaughan, dizendo que a escolha era no mínimo inusitada, já que estamos próximos do inverno, emendada propositalmente ou não por Endless Summer. E foi nesse ritmo, entre hinos e improvisações, que o Superchunk fez a festa de um público composto em sua maioria por pessoas entre 40 e 50 anos, dentre eles Evan Dando, vocalista do The Lemonheads, outro grande expoente do rock alternativo dos anos 1990. O clima de improviso, inclusive, fez com que a novata Laura King (ex-Bat Fangs), baterista de turnê que substitui Jon Wurster, desligado do grupo em 2023, errasse algumas entradas. Muito tímida ao microfone, ela se desculpou por três vezes, mas nada que comprometesse o ritmo do show. Pelo contrário: Laura desceu o braço na bateria. No palco, a baixista Betsy Wright, substituta de Laura Ballance nas turnês (embora a fundadora siga gravando em estúdio e à frente da Merge Records), e o guitarrista Jim Wilbur são mais discretos, cada um em seu canto. Enquanto isso, Mac McCaughan distribuía pulos e corridinhas pelo palco. Dentro do cenário alternativo noventista, o Superchunk se manteve como uma referência ética exatamente por ter se negado a virar mais uma banda presa às grandes gravadoras. Eles chegaram a se reunir com a Atlantic Records na época, mas decidiram não assinar nenhum contrato para preservar a autonomia artística. O grupo havia sido um dos primeiros a assinar com o cultuado selo independente Matador. Porém, quando a Matador formou uma parceria justamente com a major Atlantic Records, a banda decidiu agir. Mac McCaughan e Laura Ballance preferiram sair e construir sua própria gravadora do zero: a Merge Records. Durante a década de 1990, eles transformaram a Merge de um pequeno projeto movido por paixão em uma verdadeira potência do indie rock, sendo os responsáveis pelo lançamento de álbuns históricos como In the Aeroplane Over the Sea (Neutral Milk Hotel) e 69 Love Songs (The Magnetic Fields), além de trabalharem anos mais tarde com nomes como Spoon, Arcade Fire e Caribou. No Cine Joia, os momentos de maior catarse coletiva ficaram por conta de Everybody Dies, Driveway to Driveway, Crossed Wires e Slack Motherfucker. O impacto no público foi imediato: além de abrir alguns mosh pits, o som fez coroas emocionados subirem ao palco para pular nos braços dos fãs. Vale destacar que Mac não pareceu muito feliz com os invasores que demoravam a deixar o palco, chegando a dar um leve empurrão em um deles. O fim da apresentação ainda trouxe Learned to Surf e Hyper Enough, coroando o set mais redondo possível. O público saiu emocionado, feliz, suado e estacionou na frente do Cine Joia na esperança de garantir uma foto com a banda. Edit this setlist | More Superchunk setlists
An Evening With Emerson, Lake & Palmer: uma noite de reverência e emoção

Quando soube que An Evening With Emerson, Lake & Palmer chegaria ao Brasil, sob a batuta do lendário Carl Palmer, confesso que a expectativa e a curiosidade foram grandes, pelas características do espetáculo, diferente de tudo que já vi ao vivo. Ao fim da noite de sábado (30), no Teatro Bradesco, em São Paulo, tudo isso foi superado com louvor. O que vi não foi apenas um show de rock progressivo tradicional, nem apenas uma sessão de nostalgia para antigos fãs. Foi uma experiência que exaltou a presença musical do ELP com uma sensibilidade rara, respeitando o passado, tudo na medida certa. Antes mesmo do show começar, o telão já mostrava imagens raras e referências ao supergrupo britânico em séries e filmes, incluindo cenas hilárias protagonizadas por Homer Simpson na série Os Simpsons, cantando trechos da clássica Lucky Man. Já durante o espetáculo, imagens restauradas de Keith Emerson e Greg Lake (ambos falecidos em 2016) em apresentação no histórico Royal Albert Hall, em 1992, eram projetadas em perfeita sincronia com a performance dos músicos ao vivo, criando uma sensação de diálogo entre passado e presente. Ao lado de Carl Palmer, sua ELP Legacy Band, formada pelo talentoso guitarrista Paul Bielatowicz e pelo virtuoso Simon Fitzpatrick no baixo e chapman stick. Ambos tiveram seus momentos de protagonismo, com solos impressionantes. É notável como Bielatowicz consegue reproduzir na guitarra a linha de teclados de Emerson. Quanto ao repertório, só pedradas. Começando com Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2, que de cara já causou grande impacto e uma conexão imediata com o público. Na sequência, Hoedown, Knife-Edge, Pictures at an Exhibition e Benny the Bouncer, essa última com Carl Palmer cantando. Em seguida, o telão exibiu um vídeo de Keith Emerson executando Creole Dance, outro momento marcante do show. Um detalhe: antes de quase todas as músicas, Palmer se levantava da bateria e conversava com o público, contando “causos” e bastidores da faixa que seria executada, com muito bom humor, criando uma atmosfera de cumplicidade entre ele e a plateia. O público também não deixou por menos e por várias vezes se levantou das poltronas para aplaudir de pé o grupo. Voltando ao repertório, vieram a seguir as épicas Tarkus e Trilogy, a linda From the Beginning e Still… You Turn Me On. Depois, a instrumental “O Fortuna”, de Carl Orff, um dos momentos mais aguardados da noite, pois é no meio da execução desse clássico que ocorre o solo de bateria. E que solo! No auge de seus 76 anos, Palmer mostrou que segue em plena forma, com uma técnica e um virtuosismo impressionantes, além de momentos de irreverência, como um “solo de baquetas”. Uma verdadeira aula. A parte final do show teve Tiger in a Spotlight, Paper Blood, Lucky Man (pausa para secar as lágrimas), Fanfare for the Common Man, encerrando a noite com Peter Gunn. Destaque para Fanfare…, momento em que o telão exibe a performance insana de Keith Emerson, que praticamente destrói seu órgão Hammond C3, chegando a ficar em pé sobre ele. Espetacular! Ao fim do show, concluí que o que diferencia “An Evening With Emerson, Lake & Palmer” de alguns outros tributos e revisitações é a presença de propósito. Não havia exagero de produção, nem a tentativa de repetir literalmente aquilo que já foi. O que houve foi uma reconstrução afetiva e respeitosa, guiada por músicos que entendem o valor de cada acorde e cada silêncio. Eram nítidos o carinho, a emoção e o respeito de todos pelo legado do ELP, e de Palmer pelos seus saudosos amigos. Percebi que não havia presenciado apenas um espetáculo musical, havia participado de um encontro inesquecível entre história, lembranças e presente. De certa forma, me senti reconfortado por não ter tido a oportunidade de assistir ao vivo o ELP com sua formação clássica. Deixei o Teatro Bradesco com os olhos marejados e com a sensação de que a obra de Emerson, Lake & Palmer permanece viva e pulsante, exatamente como deve ser.
No C6 Fest, Cameron Winter faz de sua estreia no Brasil o devaneio de um louco

O silêncio falou tão alto quanto o piano ou o potente barítono de Cameron Winter em sua estreia no Brasil, no Auditório Ibirapuera, na noite do último domingo (24). Com os ingressos limitados vendidos separadamente, o show fez parte da programação do C6 Fest, que ocupou o parque paulistano no último fim de semana. Cerca de 800 pessoas assistiram ao nova-iorquino que viu, no último ano, tanto o seu trabalho solo quanto a sua banda do ensino médio, o Geese, estourarem e serem incensados por crítica, público e seus pares. Em Try As I May, segunda música do show e primeira tirada do disco Heavy Metal, único registro solo completo do cantor, Winter descreve, com a sua lírica característica, o que parece ser uma relação romântica. Tal qual a sua voz, que sempre parece embriagada, as composições vão de um mundano que não passa longe das palavras de um lunático até o sublime, muitas vezes no mesmo verso. “Você estava destinada a assistir às minhas cerimônias privadas, todas nos cantos escuros de quartos”, ele canta. Se em disco e no papel parece claro que fala sobre a intimidade de um casal, no Auditório, em versão arrebatadora que chega a tornar difícil retornar para a gravação de estúdio, as palavras ganham outro sentido. O show parece mesmo uma cerimônia privada. O posicionamento do piano, na diagonal, faz com que boa parte do público consiga ver apenas as costas do cantor. Mesmo nos melhores lugares, seu rosto segue oposto à plateia. Em toda a noite, se dirige à audiência apenas uma vez, com um “obrigado” em português ao fim da última música, quase como se estivesse tocando sozinho em seu quarto e todo mundo só pudesse contemplar o artista trabalhando. No palco, além do piano, só a luz: ora do holofote, ora do canhão posicionado atrás do instrumento, ora um calor amarelado que desfaz, por alguns instantes, as sombras, e ora a escuridão. Quando não emenda uma música na outra, as pausas são para arrumar o banco, tomar um gole de água, arrumar o cabelo ou ajeitar as mangas da jaqueta, antes de se curvar novamente sobre o instrumento. Ao invés de prejudicar o show, a postura dá força a ele. Se engana quem pensa que Winter faz o que faz porque ignora ou público ou, pior, porque se coloca em um pedestal muito acima dos meros mortais que pagaram por um ingresso. Pelo contrário, como quem diz muito com pouco, a todo momento ele joga com as expectativas e encontra caminhos diferentes dentro de seu próprio repertório. É assim em “Drinking Age”, por exemplo, que aparece ainda mais cadenciada que em estúdio, com longas pausas propositais que fazem com que quem assiste tenha vontade de prender até a própria respiração antes de a canção chegar em seu grandioso e anticlimático refrão: “hoje eu conheci quem eu vou ser daqui pra frente e ele é um merdinha”. A linha tênue entre a loucura e a iluminação está presente o tempo todo, tendo o seu clímax em um dos momentos em que o público se permite irromper em aplausos e gritos, durante a canção “$0”, quando, no que parece um rompante de alguém que acorda de um sonho febril, Winter declara que Deus existe: “Eu não estou brincando dessa vez, eu não faria piada com isso”. Não é à toa que o artista já tenha levado o seu show para os salões de diversas igrejas durante a sua turnê, ou que muitos chamem a experiência de vê-lo ao vivo de “transcendental”. Houve quem ainda arriscasse um ou outro grito fora de hora, inclusive pedindo por alguma música do Geese. Foram poucos, mesmo com o peso da grande expectativa para a estreia brasileira do músico. No geral, Cameron Winter veio, tocou, cantou e se calou. O público o ajudou com um silêncio entrecortado por soluços e pausas pontuais para aplausos.
Robert Plant encerra C6 Fest com show irretocável focado no folk e resgate sutil do Led Zeppelin

Ficou para Robert Plant, lendário vocalista do Led Zeppelin, o encerramento da noite de domingo (24) na Arena Heineken, o palco principal montado do C6 Fest no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Há muito tempo distante dos gritos explosivos que o transformaram em uma das vozes mais emblemáticas da história do rock, o britânico vive, desde os anos 1990, uma fase totalmente voltada à exploração de sonoridades que genuinamente dialogam com seu atual momento artístico. Ao lado da cantora Suzi Dian e de sua banda de apoio, a Saving Grace, Plant agora mergulha em sonoridades muito mais suaves, explorando de forma profunda influências da música americana, da tradição celta e do folk britânico, em um álbum justamente batizado de Saving Grace. Coube à capital paulista receber o último show da turnê de divulgação desse projeto. Conhecido historicamente como o “Deus Dourado”, Plant subiu ao palco pontualmente às 20h30 e mostrou exatamente porque o apelido ainda faz todo sentido. Com a serenidade de quem atravessou o auge da música popular e não demonstra interesse em reviver o passado a qualquer custo, o cantor deixou claro logo na abertura do show, com a faixa The Very Day I’m Gone, que sua antiga persona rockeira ficou definitivamente para trás. Maturidade e a contenção vocal Normalmente, artistas que construíram suas carreiras inteiras apoiados na potência vocal do rock clássico acabam enfrentando o peso do tempo de forma evidente e prejudicial. Não é o caso de Robert Plant. O músico britânico encontrou uma nova maneira de cantar, sem exageros ou tentativas frustradas de alcançar notas altas que já não pertencem mais à sua voz atual, transformando justamente essa contenção técnica em sua principal força no palco. Sua interpretação no C6 Fest remeteu muito mais às baladas calmas do Led Zeppelin do que aos momentos mais explosivos da banda setentista, mas agora carregada pela maturidade de alguém que entende exatamente os limites e as reais possibilidades da própria voz. Outro sinal claro de sua “divindade” artística esteve na forma magnética como Plant conduziu o público paulistano ao longo de toda a apresentação, amparado apenas por sua presença imponente e carismática. Em músicas como It’s a Beautiful Day Today, o silêncio absoluto entre uma nota e outra era perfeitamente audível no Parque do Ibirapuera, mesmo diante de uma imensa multidão. Todos permaneciam quietos, compenetrados e atentos a cada nota do dueto afinado entre Plant e Suzi Dian. Generosidade e simplicidade no palco Apesar dessa aura quase mística que carrega no palco, impressiona a generosidade que Robert Plant demonstra com o público e com seus companheiros de banda. Essa postura ficou evidente em diferentes momentos da noite no Ibirapuera: Nem mesmo a tentativa de uma fã, que tentou invadir o palco para abraçá-lo à força, tirou a calma e a humildade que o lendário frontman demonstrou durante toda a apresentação no festival. Legado do Led Zeppelin reimaginado Talvez como o maior defensor moral de todo o espólio do Led Zeppelin, Plant não deixou a história de lado e tocou versões de músicas de sua antiga banda, porém todas completamente adaptadas à sua nova maneira de cantar e explorar sua musicalidade folk. Assim, os clássicos históricos: Todas elas ganharam versões novas e suaves, que remetem perfeitamente às suas formas originais de estúdio, mas agora com a graça e a leveza que o nome de sua banda atual, Saving Grace, ostenta. “Faz muito tempo desde que eu toquei um rock and roll.” Com uma performance considerada irretocável do início ao fim, Robert Plant escolheu justamente o clássico Rock and Roll para encerrar sua apresentação no C6 Fest. E aqui, no Parque do Ibirapuera, a letra desse clássico ganhou outro significado na atual fase de vida do cantor: “Faz muito tempo desde que eu toquei um rock and roll”. E tudo bem, Robert Plant. Essa sua nova forma de existir e criar na música contemporânea também tem muito a oferecer.
Beirut aposta em chamber pop e versão de Caetano Veloso para aquecer C6 Fest

Dando sequência às atrações da Arena Heineken no domingo (24), o segundo dia do C6 Fest, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, foi a vez dos americanos do Beirut se apresentarem ao público brasileiro. Liderado por Zach Condon, o grupo opera no palco quase como uma pequena orquestra, combinando com maestria os gêneros do chamber pop e do folk lo-fi em canções conhecidas por sua atmosfera melancólica e delicada. O som da banda é construído minuciosamente a partir de instrumentos de sopro e cordas, como o ukulele e o violão, que se entrelaçam em arranjos suaves. Desafios do som e a apoteose em português Prejudicado pelo volume excessivamente baixo do palco principal do C6 Fest, o Beirut enfrentou dificuldades e demorou para criar a atmosfera necessária para que sua música de tons sutis envolvesse um público numeroso como o de um festival de grande porte. Em uma apresentação inicialmente morna por conta das condições técnicas, a empolgação da plateia paulistana cresceu de verdade apenas nos momentos finais do show. O ápice foi impulsionado pela bela versão de Leãozinho, clássico de Caetano Veloso, que foi cantada por Zach Condon em um português impecável, garantindo a conexão final com o público no Ibirapuera.
Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi fazem encontro histórico no C6 Fest

No cenário principal do C6 Fest, a Arena Heineken recebeu no domingo (24), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, um encontro de gigantes da música brasileira. Os cariocas dos Paralamas do Sucesso dividiram o palco com os pernambucanos da Nação Zumbi. De início, os Paralamas apresentaram clássicos incontestáveis de sua discografia, como Lanterna dos Afogados e Uma Brasileira, cantadas espontaneamente por um público que já incorporou essas composições ao inconsciente popular. No palco, Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro estavam acompanhados pelos tradicionais instrumentos de sopro, que enriquecem o consagrado rock com ska da banda. União dos ritmos no Ibirapuera O ponto alto da apresentação, porém, foi a entrada da Nação Zumbi. Após uma introdução sólida, Paralamas e Nação se uniram para apresentar versões pesadas e grooveadas de: A combinação funcionou de maneira totalmente natural. As sonoridades das duas bandas convergiram no palco principal, e a plateia respondeu com muito entusiasmo. Depois de mais uma sequência de músicas dos Paralamas sozinhos, a Nação Zumbi retornou ao palco para executar, ao lado da banda carioca, os hits O Calibre e Manguetown, ambas potencializadas pela bateria sempre certeira e marcante de João Barone. Equívoco da produção no encerramento A única mancha da apresentação veio de um equívoco direto da produção do festival, que desligou o microfone de Herbert Vianna antes que ele pudesse se despedir do público e comentar o encontro histórico proporcionado pelo C6 Fest no Parque do Ibirapuera. Herbert Vianna e os demais músicos no palco mereciam, sem dúvida, um encerramento melhor.
Benjamin Clementine traz poesia, spoken word e conexão com o público no C6

Cada vez mais consolidado entre os grandes festivais de música do país, o C6 Fest teve sua edição de 2026 encerrada neste domingo (24), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. O evento se destaca pelo DNA de sua curadoria corajosa em plena evidência, unindo nomes da velha guarda a artistas que despontam em cenas menos populares da música contemporânea. Sem apostar nas atrações mais populares do rock e do pop atual, como fazem Lollapalooza e Rock in Rio, por exemplo, o C6 Fest mira artistas em ascensão e veteranos que seguem influenciando e reverberando na música de hoje. Trata-se de um “lado B” que tem muito a oferecer. Naturalmente, isso causa estranhamento em quem olha o cartaz do festival e desconhece boa parte dos nomes presentes ali. Ainda assim, é justamente essa disposição do C6 em fugir do óbvio que o transforma em um dos festivais mais relevantes do circuito brasileiro. Experiência sonora com Benjamin Clementine na Tenda MetLife Entre os artistas que passaram pela Tenda MetLife no domingo (24), durante o segundo e último dia do festival no Parque do Ibirapuera, esteve o britânico Benjamin Clementine, dono de uma sonoridade difícil de rotular. Suas composições, centradas no piano, remetem ao soul de Nina Simone, mas filtradas por batidas eletrônicas e por um vocal que, por vezes, se aproxima do spoken word. Extremamente participativo com o público, Benjamin demonstrou gratidão pelos aplausos efusivos vindos da plateia paulistana. Seja sentado ao piano, seja de pé conduzindo o microfone, o artista entregou uma apresentação sóbria, que exigia do público imersão para absorver a poesia e a sutileza de faixas como Toxicaliphobia e Condolence. Esta última, inclusive, contou com o refrão adaptado para o português e foi inteiramente acompanhada em coro pela plateia presente no Ibirapuera.
Com a volta da formação clássica e benção de Ney Matogrosso, Barão Vermelho faz show irretocável em SP

A minha primeira tentativa de ver o Barão Vermelho em um estádio foi em 1995, na abertura do terceiro dia do Hollywood Rock, em São Paulo. Frejat e companhia tocariam antes de Rita Lee, Spin Doctors e Rolling Stones, em sua histórica primeira turnê pelo Brasil. No entanto, uma tempestade avassaladora atingiu o Estádio do Pacaembu, e a única lembrança daquela tarde foi Frejat ao microfone avisando que a apresentação seria cancelada pelos riscos de segurança. À época, as bandas de abertura não tinham direito à cobertura do palco e Peninha, o saudoso percussionista, correu contra o tempo para tirar a água dos instrumentos enquanto os músicos lidavam com o risco real de choques elétricos. Trinta e um anos depois, na noite de sábado (23), o Allianz Parque finalmente recebeu o Barão Vermelho com casa cheia. Sob um frio paulistano e a ameaça constante de uma chuva que, felizmente, não deu as caras, o Barão entregou uma apresentação completa de quase 2h30. Desta vez, com um superpalco inteiro à disposição e uma infraestrutura de som e luz de dar inveja a muita atração gringa. A atual turnê, que marca o primeiro reencontro desde 1989 da formação clássica com Roberto Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi, é pura nostalgia. O show passeia por toda a discografia do grupo e abre espaço para releituras cirúrgicas de Cazuza, Rita Lee, Raul Seixas, Angela Ro Ro, Legião Urbana, Bezerra da Silva e Eduardo Araújo. Tal como aconteceu na estreia do Rio de Janeiro, mas que não deve se repetir nas próximas praças, Ney Matogrosso foi a grande surpresa da noite. Dono de uma ligação íntima com o início do Barão, o cantor foi ovacionado ao subir ao palco em dois momentos distintos. O reconhecimento veio do próprio Frejat: “Sem ele, acredito que nada teria acontecido”. No primeiro bloco, Ney começou com a emocionante Poema, emendando em sequência Jardins da Babilônia (Rita Lee) e Blues da Piedade (Cazuza). Diferentemente da performance carioca, a banda optou por deixar de fora Ideologia e Exagerado, substituídas por duas faixas sem a participação do convidado. Mesmo sem Ney em cena, os highlights da primeira metade do show mantiveram a arena em alta voltagem com Bete Balanço, Meus Bons Amigos e Down em Mim, anunciada por Frejat como o “hino dos bares”. O clima nostálgico é permanente. A abertura com Maior Abandonado, por exemplo, é executada exclusivamente pelo quarteto original. A partir da segunda faixa, o palco ganha o reforço de um timaço de apoio: o guitarrista Fernando Magalhães (parceiro de estrada desde 1985), Rafael Frejat (filho de Roberto) também na guitarra, e o percussionista Cezinha (irmão de Peninha). Completam o grupo a backing vocal Jhusara e o trio de metais formado por Marlon Sette, Diogo Gomes e José Carlos Bigorna. Era visível a alegria e a emoção de Frejat diante do estádio lotado, celebrando o fato de que, após mais de 40 anos de estrada, o Barão Vermelho continua gigante e relevante. A versatilidade e a fusão de influências, do blues clássico à MPB e ao classic rock, sempre foram marcas registradas da banda, permitindo viradas de chave surpreendentes no roteiro. Após um bloco romântico irretocável com Todo Amor Que Houver Nessa Vida (com direito a um dueto em vídeo com Cazuza), Codinome Beija-Flor, Por Você e o cover de Amor, Meu Grande Amor (Angela Ro Ro), o grupo mudou o clima sem aviso. Na sequência, engataram a dançante Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Eduardo Araújo) e o samba-rock Malandragem Dá um Tempo (Bezerra da Silva), com Maurício Barros assumindo os vocais principais. O fôlego seguiu com Torre de Babel, Declare Guerra, Cuidado e Não Me Acabo, faixa do álbum Carnaval (1988) e uma das novidades no setlist paulista. Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (Legião Urbana) e Puro Êxtase fecharam a primeira parte de quase duas horas ininterruptas. O bis trouxe o quarteto original de volta, sozinho, cantando Bilhetinho Azul em uma plataforma elevada ao fundo do palco. Logo após, Frejat prestou um tributo emocionante ao guitar hero Luiz Carlini (líder do Tutti Frutti e parceiro histórico de Rita Lee), falecido recentemente. Além de exaltar o legado de Carlini, o Barão tocou uma versão tocante de Ovelha Negra. Ainda marejado, o vocalista cravou: “Por isso é importante fazer as homenagens em vida”. O Poeta Está Vivo preparou o terreno para o retorno triunfal de Ney Matogrosso ao palco de 84 anos esbanjando vitalidade. A dobradinha final com Por Que A Gente É Assim? e Pro Dia Nascer Feliz (hit do Barão que Ney gravou em 1982 e que catapultou a banda nacionalmente) garantiram um encerramento apoteótico. Em um sábado frio e disputando público com grandes concorrentes na Capital, como a Virada Cultural e o C6 Fest, o Barão Vermelho provou que o Allianz Parque continua sendo o quintal de sua história. Edit this setlist | More Barão Vermelho setlists
The xx encerra sábado do C6 Fest expandindo o minimalismo em pista de dança

O The xx encerrou o recorte do sábado do C6 Fest com a elegância de quem entende que nem todo grande show precisa operar pelo excesso… Pelo menos não antes do fim. A banda sempre fez do espaço vazio uma linguagem: poucas notas, versos econômicos, luz precisa e uma intimidade que, curiosamente, cresce quando encontra uma multidão. Ao vivo, essa contenção ganha outra escala. O que em disco soa mínimo, no palco se expande sem perder a discrição. Esse magnetismo não se apoia apenas nas presenças frontais de Romy (guitarra e voz) e Oliver Sim (baixo e voz), mas ganha corpo pela “mão invisível” do produtor Jamie xx, capaz de transformar a atmosfera melancólica em uma pista de dança pulsante, onde o som reverbera e estremece a plateia. The xx desfilou sucessos que carregam o faro eletrônico de Jamie, como On Hold e Say Something Loving, ambas do álbum I See You (2017). O repertório também reservou espaço para a individualidade do grupo, contemplando faixas dos elogiados projetos solo de cada um dos três integrantes. Depois de um dia atravessado por chuva, atrasos, ruídos, confissões íntimas e encontros de diferentes gerações, o show funcionou como um fechamento coerente: não exatamente uma explosão óbvia, mas uma suspensão no tempo. Foi um jeito bonito de lembrar que a música pode recuar e avançar sem perder o encanto, restabelecendo a identificação que aproxima ídolos e fãs. No fim, sob as luzes do Ibirapuera, sobrou a certeza de que somos todos movidos pela arte e pelo contato humano. Edit this setlist | More The xx setlists