Entrevista | Carlos Coelho (Biquíni) – “Minha influência veio da música inglesa”

São 35 anos como guitarrista do Biquini Cavadão. Durante todo esse tempo, Carlos Coelho sempre mostrou muita disposição no palco, talento na hora de compor e melodias marcantes. Mesmo que não tenha planos de seguir uma carreira solo, ele mostrou que o nível se mantém lá em cima quando está sozinho. We’ll Roll On, divulgada em maio, é uma boa amostra. Para os fãs do Biquini Cavadão, a canção soará bem familiar. Ela ganhou uma versão em português na voz de Bruno Gouveia, Vou Deixar Tudo Pra Trás, gravada no álbum ao vivo Me Leve Sem Destino (2014). Mas o vocal de Coelho somado de uma composição em inglês trouxeram influências mais claras de rock inglês para o trabalho do guitarrista. “Carrego para o trabalho solo e a vida toda o rock inglês que escutava quando era moleque. Beatles, The Police, Led Zeppelin e Queen, acho o Brian May fantástico. Mas a influência muda, outras bandas apareceram. O The Strokes é uma das melhores bandas que apareceu nos últimos 20 anos. Você não fica preso nas referências do início da carreira. Oasis é outra grande influência, Arctic Monkeys também. O Strokes é americano, mas minha influência basicamente veio da música inglesa”. Parceria internacional Em We’ll Roll On, Coelho tem a companhia de Simon Spire, que o conheceu em Nova York, em 2010. “Estava de férias e vi ele tocando numa loja. Conversei com ele, sempre fui apaixonado pela música inglesa. E eu queria compor de um jeito que não ficasse atrelado à letra, mas a sonoridade. A língua portuguesa é muito mais complexa, algumas palavras não encaixam bem. Na língua inglesa é mais fácil, as palavras são menores. Queria ter essa experiência. No ano seguinte voltei para NY e compomos em duas horas. Ficou faltando um verso, ele completou e me mandou. Direto na melodia, ela arrebata pela melodia. A letra você precisa decorar, pegar desde o começo. É mais fácil aprender a melodia”. Planos com o Biquini Cavadão Falando sobre os planos futuros, Coelho revela que não pretende dedicar o seu foco total na carreira solo. “Não tenho grandes planos. O Biquini tem muita coisa rolando, até pretendo gravar outras faixas, mas não tenho um planejamento. Com a pandemia fiquei sem nada detalhado”. A banda, por sinal, tem planos bem interessantes para os fãs. Além de seguir com a divulgação da versão deluxe do tributo a Herbert Vianna, vocalista do Paralamas do Sucesso, músicas novas também estão no radar. “O Herbert é o maior embaixador do rock nacional. Ele fez incríveis pontes com a MPB, música baiana, reggae, africana. Ele é um cara muito importante para o rock, fabuloso. Tivemos que interromper a turnê no meio, tínhamos a ideia de ficarmos dois anos com ela”. Além das composições inéditas, o grupo também pretendia gravar um acústico em 2020, mas o plano foi adiado. “É algo grande, não é válido para esse momento”. Pandemia Sem poder viajar como antes, Coelho enxerga o lado positivo de ficar mais tempo em casa, já que consegue aproveitar a companhia do filho. “Viajo um terço do ano, uns 120 dias por ano, é como se nos últimos 30 anos tivesse viajado dez anos. Aproveito para ficar muito com ele. Tem seis anos, está sendo alfabetizado, a gente brinca, desenha, vê vídeos no YouTube. Coloco vídeos de furacão, vulcão, filme de bichos, ondas, gosto de mostrar variedades para ele. Lava de vulcão, como funciona, gosto de abrir a cabeça dele. Colocar ele para dormir é a melhor parte do dia”.

Entrevista | Renato Teixeira – “A solução passa por uma atitude maternal”

O compositor, cantor e violeiro santista Renato Teixeira conquistou o público com vários sucessos ao longo da carreira. Ele é autor de hits como Tocando em Frente (em parceria com Almir Sater), Romaria, Dadá Maria, Frete e Amanheceu. Aos 75 anos, ele segue produtivo, lançou na última semana o single Humanos São Todos Iguais, sua segunda canção religiosa em quase 50 anos de carreira. Composta durante a pandemia, a canção traz uma mensagem de reflexão sobre o atual momento. É um sopro de fé de quem acredita na salvação da humanidade. “A pandemia traz algo bom para o artista. Ela permite muito tempo de disponibilidade para produzirmos. Essa canção levou quase uma semana para nascer”, comenta Teixeira, que conversou com o Blog n’ Roll por telefone. O artista conta que teve uma ajuda divina para poder concluir a composição. “Na metade da música, travei. Quando isso acontece, você para, às vezes joga a letra fora. Mas nesse mesmo período, eu liguei para o padre Zezinho, de Taubaté. Queria saber como ele estava. E ele me disse para concluir o que estava fazendo, logo já pensei na música. Peguei a música e conclui”, comenta, aos risos. Para Teixeira, a canção o fez refletir mundo sobre o mundo atual. Em resumo, ele acredita que o espírito maternal é que vai consertar o mundo. “Perdeu a graça, um mundo tão agressivo. Está faltando aquela mãe que chega e coloca ordem na casa. A solução para todos os problemas do mundo passa por uma atitude maternal”. Mesmo sem citar nomes, o santista também faz críticas aos governantes. “São novas circunstâncias que governam o mundo. Não existe um homem que governa uma nação. O cargo de presidente da República, por exemplo, é figurativo. São as circunstâncias que conduzem as coisas”. Revolução musical O violeiro não pensa, por enquanto, em gravar um álbum cheio de estúdio. Está focado nas mudanças do mercado, que tem apostado cada vez mais em singles ao longo do ano. “É uma revolução absurda, igual quando saímos da carroça para o avião. Algo super radical. A música voltou mais para a mão dos autores, podemos gravar em casa, a remuneração melhorou. Você tem mais de 20 plataformas gerando direitos. Ainda é muito pouco, mas está melhorando”, justifica. Formado em Publicidade e com vários prêmios na carreira, Teixeira também faz uma reflexão sobre o atual Brasil. “Dentro da quarentena, pensando muito, percebi que aquele velho Brasil do Pelé, Tropicália, Ary Barroso, Carmen Miranda, deixou de existir. Surgiu um Brasil mais internacional, globalizado. Os mesmos carros que andam nas ruas de Tóquio, estão por aqui. Você tem a noção dessa globalização”. Mais novidades de Renato Teixeira O próximo single de Teixeira já está definido: Viola Marinheira. Nascido em Santos, mas criado em Ubatuba e Taubaté, o artista explica um pouco da origem da futura canção. “A viola é litorânea, mas a moda é caipira. Quando eu falo amanheceu, peguei a viola, botei na sacola e fui viajar, é porque todos os violeiros no litoral levavam a viola em uma sacola de feira. A viola é marinheira. São Gonçalo de Amarante é o padroeiro dos violeiros e dos marinheiros. E para ficar ainda mais completo, é também dos garçons e das putas. É um combo”, brinca.

Entrevista | MC Carol – “Ser mulher é ter que se impor diariamente por coisas básicas”

Recentemente, eu e o Prof. Dr. Sergio Bento realizamos uma entrevista com Mc Carol ou Carol Bandida como ela mesma cita na entrevista para evocar sua força. Tocamos em vários pontos desde feminicidio até a posição dela quanto ao (des) governo Bolsonaro. Se liga aqui no Blog n’ Roll que tem muita coisa rolando ao mesmo tempo! Falando nisso, você assistiu minhas entrevistas no @blognroll? Não? Está imperdível! Tem Garage Fuzz, O Teatro Mágico, The Mönic, Afrodizia e muuuuito mais. Todas essas foram ações por conta do projeto Juntos pela Vila Gilda. Entrevista – MC Carol Por que o funk representa tão bem a voz da periferia carioca? E como você analisa o funk atual em outros estados? É que o funk é a periferia. O funk, o rap, o samba. Surgiram da gente. Mas agora um momento bem estranho. O funk continua marginal, continua perseguido, mas a favela tá chegando em todo mundo. Não podem mais fechar os olhos pro funk. Só espero que as pessoas não fechem os olhos para a perseguição e usem o funk só quando for conveniente, sabe? “Não foi Cabral” vem sendo usada por vários professores de história em suas aulas. Você acredita que a “História Oficial” que você crítica na canção está finalmente sendo desacreditada? Eu não sei se desacreditada. Mas assim como não podem fechar os olhos pro funk, não podem esconder a verdade. Sempre fico feliz quando ouço que usam minha música na escola. Fico imaginando que meus professores devem pensar disso! (Risos). Como você, mulher, funkeira e feminista, responde a quem acusa o funk de ser machista e objetificar o corpo feminino? Eu falo pra ele prestar atenção nos pagodes, nos rocks, nos sertanejos. Não é o funk que é machista. O mundo que é e precisamos mexer com isso. Não só na mensagem, mas na postura das pessoas. Ser mulher é ter que se impor diariamente por coisas básicas. Mas eu já sou assim desde criança, Carol Bandida. (Risos) Então acho que imponho meu respeito na marra, nem que seja na porrada. E olha que já entrei na porrada. Como você avalia o governo Bolsonaro para a população negra? Olha, nem sei por onde começar. Sabe o que eu disse que ser mulher é ter que se impor por coisas básicas? A gente tá precisando se impor pro coisas básicas, para viver, para ter dignidade. Como mulher, negra e de comunidade, é cansativo… Em tempos de pandemia, como você e sua equipe fazem para sobreviver da arte? A gente sofre! (Risos) Estamos tentando fazer coisas que não envolvam o show, pensar novos lançamentos, ver outras coisas fora da música. Infelizmente tem muita gente que trabalha nesse meio, que vive do show, que tá em dificuldade. Suas letras sempre falam de uma mulher forte, com muita altivez. Você já sofreu relacionamentos abusivos? Se sim, qual conselho você daria às mulheres? Eu já sofri até uma tentativa de feminicidio. O principal é não se calem. Tudo e todos tentam nos calar, não se cale. Meu avô sempre me criou pra eu não abaixar a cabeça pra ninguém e sempre quis ser independente, achava que eu devia ter os mesmos direitos dos meninos que eu andava desde pequena. Queria ser respeitada! Seja na educação ou na base do barraco! (Risos)