Resenha: Bom? Bota BON nisso!
Pearl Jam celebra 20 anos com maratona emocional e transforma Morumbi em sala de estar gigante

Quando as luzes se apagaram e os primeiros acordes de Go foram apresentados, o Morumbi virou festa. O Pearl Jam não sabe fazer show morno. Apoiados na celebração de suas duas décadas de vida, eles entraram com uma trinca assassina: Go, Do the Evolution e Severed Hand. A energia era tamanha que parecia final de show logo nos primeiros 15 minutos. Eddie Vedder, munido de suas garrafas de vinho e folhas de papel com “cola” em português, regeu a massa com a paixão de sempre. “Oi, São Paulo! É bom estar de volta!”, gritou, antes de emendar clássicos que definiram uma geração. O que impressiona no Pearl Jam no Brasil é a simbiose. Em Black, o estádio cantou tão alto que a banda poderia ter parado de tocar. O solo de Mike McCready, estendido e emotivo, foi um dos pontos altos da noite, com o guitarrista correndo pelo palco como um garoto. A banda soube equilibrar a fúria grunge de Animal e Porch com momentos de calmaria acústica. Just Breathe, dedicada aos casais, transformou o concreto frio do Morumbi em um cenário intimista. Homenagem aos mestres O respeito pela banda de abertura foi selado no palco principal. Durante o primeiro bis, Eddie chamou John Doe e Exene Cervenka (do X) para uma performance conjunta de The New World. Foi um momento de passagem de tocha, onde os alunos reverenciaram os mestres diante de seu público massivo. Outra surpresa foi a inclusão de Olé, uma faixa simples que a banda costumava tocar nas turnês sul-americanas, funcionando como um canto de torcida. Quando parecia que o show ia acabar, eles voltavam. O segundo bis foi uma surra de hits: Jeremy e Alive levaram o público à exaustão física e emocional. As luzes do estádio se acenderam para Rockin’ in the Free World (cover de Neil Young), criando aquela imagem clássica de milhares de braços para o alto. O encerramento com Yellow Ledbetter, sob a garoa e com as luzes acesas, teve o tradicional solo melancólico de McCready. Quase três horas depois, o Pearl Jam provou que não é apenas uma banda sobrevivente do grunge, mas uma instituição do rock ao vivo que entende o coração do fã brasileiro como poucas. Edit this setlist | More Pearl Jam setlists
X, lenda do punk californiano, dá aula de história para um Morumbi ainda morno

Para a maioria dos 60 mil presentes no Morumbi, a banda X era uma incógnita. Mas para Eddie Vedder, eles são divindades. Trazidos ao Brasil por exigência do Pearl Jam, os veteranos de Los Angeles subiram ao palco com a missão de mostrar de onde veio o DNA do rock alternativo americano. A banda, com sua formação clássica (Exene Cervenka, John Doe, Billy Zoom e DJ Bonebrake), não se intimidou com o tamanho do palco ou com a plateia ainda dispersa. O som foi cru, seco e sem firulas, exatamente como o punk exige. Billy Zoom, com sua postura imóvel e sorriso permanente de quem está se divertindo internamente, desfilou riffs rockabilly precisos em Your Phone’s Off the Hook, But You’re Not e Johnny Hit and Run Paulene. A química vocal dissonante entre Exene e John Doe, marca registrada da banda, ecoou estranha mas fascinante no sistema de som do estádio. Clássicos do álbum Los Angeles dominaram o set curto. The Hungry Wolf e Los Angeles trouxeram um peso que fez as primeiras filas (geralmente os fãs mais “hardcore” de Pearl Jam que conhecem as influências da banda) agitarem. O encerramento com Devil Doll selou uma apresentação digna. O X não tentou ser uma banda de arena; eles transformaram o palco gigantesco em um clube sujo de 1980. Saíram aplaudidos com respeito, tendo cumprido a função de educar musicalmente a multidão antes da catarse que viria a seguir. Edit this setlist | More X setlists
U2 transforma o Morumbi em nave espacial e entrega noite de comunhão e tecnologia

Não existe nada comparável à estrutura da 360° Tour. Quando as luzes se apagaram e a fumaça começou a sair da “garra”, ao som de Space Oddity (David Bowie), o Morumbi parecia estar prestes a ser abduzido. O U2 entrou em cena com Even Better Than the Real Thing, e imediatamente o telão cilíndrico se expandiu, criando uma experiência visual que fazia a arquibancada se sentir dentro do palco. Diferente da chuva torrencial da primeira noite (sábado), o domingo ofereceu um clima mais ameno, o que permitiu à banda e ao público uma conexão mais limpa e eufórica. Clássicos e raridades O setlist foi um equilíbrio fino entre o gigantismo do pop e a nostalgia. O bloco inicial com I Will Follow e Get On Your Boots manteve a energia alta, mas foi em Magnificent e Mysterious Ways que a banda mostrou seu “groove” de estádio. Para os fãs mais dedicados, a noite reservou pérolas. A execução de Zooropa, uma faixa que passou anos fora dos repertórios, foi um momento de transe psicodélico, casando perfeitamente com a estética futurista do palco. Coração político e emocional Como de costume, Bono transformou o show em missa. Sunday Bloody Sunday foi cantada com a urgência de sempre, mas o momento de maior impacto visual veio em City of Blinding Lights e Vertigo, onde a “garra” parecia pulsar luz. A homenagem aos direitos humanos e a conexão com o Brasil apareceram em Miss Sarajevo, com Bono assumindo a parte lírica de Pavarotti de forma surpreendentemente competente. O estádio, iluminado por milhares de celulares (e isqueiros), virou uma galáxia particular durante Pride (In the Name of Love). Apoteose O bis foi uma sequência de golpes baixos emocionais. One, com seu discurso de unidade, fez 90 mil pessoas se abraçarem. Em seguida, a introdução de sintetizador de Where the Streets Have No Name causou a explosão habitual: as luzes se acenderam e o Morumbi pulou como se fosse gol em final de campeonato. O encerramento solene com Moment of Surrender trouxe a nave de volta à terra. O U2 provou, mais uma vez, que entende a arquitetura da emoção como ninguém. A 360° Tour não foi apenas um show de rock; foi um evento de engenharia, marketing e fé, executado pela maior banda do planeta em seu auge técnico. Edit this setlist | More U2 setlists
Muse ignora a ‘garra’ do U2 e faz show de headliner com peso e virtuosismo

Colocar o Muse para abrir um show é um risco para qualquer banda principal, até mesmo para o U2. Na noite deste domingo (10), o trio britânico subiu ao palco montado no centro do gramado não para aquecer o público, mas para competir. Com a luz do dia ainda presente, Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard entregaram um som maciço que fez a estrutura da “garra” tremer. A banda vivia o auge da turnê The Resistance, e a confiança era visível. A abertura com Plug In Baby foi um ataque sônico: o riff agudo e distorcido cortou o ar do Morumbi, acordando até quem estava nas arquibancadas mais distantes apenas esperando por Bono. Prog-rock de estádio O que impressionou foi como o som do Muse preencheu o estádio. Em Uprising e Supermassive Black Hole, o baixo distorcido de Wolstenholme funcionou como um terremoto controlado. A banda não se intimidou com o palco 360º; eles o usaram a seu favor, correndo pelas passarelas e interagindo com os fãs que cercavam a estrutura. Momentos mais teatrais, como United States of Eurasia (com sua pegada Queen), mostraram a versatilidade vocal de Bellamy. Mas foi nos hits radiofônicos, como Time Is Running Out e Starlight, que o público, majoritariamente fã de U2, se rendeu e cantou junto, batendo palmas no ritmo. Final épico O encerramento já se tornou folclore em shows de estádio. A introdução de gaita de Man with a Harmonica (Ennio Morricone) preparou o terreno para a cavalgada espacial de Knights of Cydonia. Com um final frenético e pesado, o Muse saiu de cena deixando a sensação de que aquele palco também pertencia a eles. Foi uma abertura curta, grossa e tecnicamente impecável, elevando o sarrafo lá no alto para os donos da festa. Edit this setlist | More Muse setlists