Mesmo após “hiato”, Killswitch Engage demonstra vigor e entrosamento no Ice Stage

Contando com uma legião de fãs dedicados, muitos dos quais se deslocaram até o Memorial da América Latina com o objetivo exclusivo de prestigiar o grupo, o Killswitch Engage foi responsável por entregar o primeiro dos sets mais extensos da programação do dia. Ao longo de 70 minutos de apresentação, a banda norte-americana priorizou uma performance enérgica que evidencia suas raízes e influências do hardcore/metalcore. O fluxo do show foi marcado por poucas interrupções, salvo pelas tradicionais intervenções do guitarrista Adam Dutkiewicz, que trouxe momentos de descontração com piadas no estilo “besteirol estadunidense” sobre o consumo de cerveja, uma marca registrada de sua postura de palco. Confesso que não sou grande fã do Killswitch Engage, mas é inegável que eles entregam muito no palco. O espetáculo visual e performático começou logo na entrada, com Dutkiewicz surgindo no palco aos saltos, utilizando uma bandeira do Brasil como capa. No entanto, o foco central das atenções divide-se com o vocalista Jesse Leach. O frontman demonstrou uma mobilidade constante, percorrendo o palco em toda a sua extensão e culminando sua participação em um contato direto com o público, ao descer para cantar em meio aos fãs durante o encerramento da apresentação. Um detalhe relevante compartilhado pelo guitarrista durante o set foi que a data em São Paulo marcou o primeiro show da banda em um intervalo de quatro meses. Em tom de brincadeira, ele sugeriu que o público teria que lidar com possíveis imperfeições decorrentes desse hiato. Se ele não tivesse falado, seria difícil adivinhar que a banda, que estava bem afiada, voltava de férias. O conjunto mostrou-se extremamente afiado e com um entrosamento que não denunciava o retorno de um período de férias. A apresentação, provavelmente, também angariou alguns novos fãs e foi encerrada com uma versão metalcore de Holy Diver, do Dio. Edit this setlist | More Killswitch Engage setlists

Banda ucraniana Jinjer confirma status de destaque no metal atual

Como mencionado anteriormente, o sábado (25) registrou temperaturas elevadas, atingindo marcas térmicas rigorosas no Memorial da América Latina. Dentre todos os artistas que se apresentaram no intervalo entre o meio-dia e as 18h, é provável que quem mais tenha sentido o impacto do calor tenha sido Tatiana Shmayluk, a vocalista da banda ucraniana Jinjer. A combinação de um figurino elaborado com a exigência física de sua performance tornou a temperatura um desafio visível durante o set. Entretanto, as condições climáticas não impediram que a frontwoman entregasse uma performance absoluta no palco do festival. Reconhecida mundialmente por sua versatilidade vocal, que transita com naturalidade entre passagens melódicas e guturais profundos, Tatiana domina o palco com uma presença cênica singular. Essa entrega justifica o status do Jinjer como um dos nomes mais relevantes e acompanhados do metal contemporâneo, conseguindo extrapolar as bolhas do gênero e atrair um público diversificado pela complexidade de sua proposta. Enquanto Tatiana concentra os holofotes, seus companheiros de banda adotam uma postura mais discreta, embora tecnicamente impecável. O baterista Vladyslav Ulasevych, utilizando um setup de bateria no mínimo incomum para os padrões do metal, executa partes complexas com uma fluidez que faz o difícil parecer simples. O mesmo rigor técnico aplica-se ao baixista Eugene Abdukhanov, cujas linhas de baixo trazem frases nitidamente inspiradas no jazz, e ao guitarrista Roman Ibramkhalilov, responsável por alternar entre riffs pesados e a criação de paisagens sonoras tranquilas que oferecem respiro em meio ao caos rítmico. Este foi, sem dúvida, um dos shows mais aguardados da edição e confirmou-se como um dos pontos altos da programação. No intervalo entre as canções, era possível observar a vocalista, visivelmente encharcada de suor, buscando recuperar o fôlego e trocando olhares que provavelmente queriam dizer “tá quente pra porra aqui” aos seus companheiros. No entanto, assim que a contagem para a próxima música iniciava, qualquer sinal de fadiga era suprimido: lá estava ela novamente dançando e se esgoelando pelo palco. Grande profissional, grande banda. Edit this setlist | More Jinjer setlists

Violator leva o “show de bueiro” e discurso político ao palco do Bangers Open Air

Por volta das 14h, o fluxo de pessoas no Memorial da América Latina já indicava um aumento considerável de público. Esse preenchimento do espaço tornou o deslocamento entre os palcos principais e o Sun Stage um exercício de paciência maior para os presentes. O trajeto, realizado obrigatoriamente através de uma ponte que conecta as áreas do Bangers Open Air, ficou mais congestionado, embora o percurso ainda pudesse ser completado em um intervalo inferior a dez minutos, permitindo o trânsito entre as atrações sem grandes prejuízos ao cronograma dos fãs. O palco secundário recebeu um contingente grande de espectadores para a apresentação dos brasilienses do Violator, que protagonizaram um dos momentos de maior destaque de todo o primeiro dia do festival. “O underground chegou no Bangers”, anunciou o vocalista e baixista Pedro Arcanjo, dando início a uma sequência de composições de thrash metal “direto e reto”, estilo que o grupo refina há duas décadas. A sonoridade técnica e veloz da banda serviu como uma demonstração da vitalidade do metal nacional dentro de um line-up repleto de nomes estrangeiros. Além da parte musical, o Violator não se furtou de reforçar seu histórico posicionamento político. A apresentação foi permeada por mensagens explícitas, que incluíram desde a exposição de uma bandeira da Palestina no palco até uma dedicatória direta, antes da canção False Messiah (Falso Messias), ao ex-presidente brasileiro investigado e preso por tentativa de golpe de Estado. Tais intervenções trouxeram uma camada de protesto social ao evento, característica intrínseca à trajetória do grupo. O público respondeu à altura, não apenas ocupando todo o espaço disponível, mas também organizando intensas rodas de mosh, o que evidenciou a força do cenário underground. Para a parcela minoritária que demonstrou incômodo com os discursos, o recado de Arcanjo foi enfático: “Foda-se, não estamos nem aí”. Nas palavras do próprio vocalista, foi um “show de bueiro” transportado para o palco do maior festival do gênero na América Latina. Foi lindo!

Com substituição na bateria, Evergrey abre sequência de peso nos palcos principais

Ao mover o foco para a área que abriga os dois palcos principais do festival, os suecos do Evergrey iniciaram sua apresentação. Esta, inclusive, não será a última menção a músicos da Suécia ao longo desta cobertura, dada a forte presença do país no line-up do dia. O grupo apresentou um repertório fundamentado no equilíbrio entre o peso característico do gênero e a complexidade do metal progressivo, estabelecendo o tom para a sequência de composições rítmicas e variações técnicas que marcariam as horas seguintes do evento. A banda demonstrou entrosamento no palco, incluindo a participação do norueguês Simen Sandness, que assumiu as baquetas em substituição ao baterista Jonas Ekdahl. Durante a execução do setlist, o grupo intercalou composições recentes com os temas mais consolidados de sua discografia. O público presente no Memorial da América Latina acompanhou a performance de forma participativa, especialmente nos momentos de maior notoriedade da banda, nos quais era possível notar parte expressiva da plateia entoando as letras em uníssono. >> LEIA ENTREVISTA COM EVERGREY Um ponto de observação negativa, embora com baixo impacto no resultado estritamente musical, diz respeito às projeções exibidas nos telões de LED. As imagens apresentaram uma estética considerada simplória ou, em termos mais diretos, “tosca”, destoando da complexidade sonora do grupo. Este aspecto visual, contudo, é um tópico que transcende a apresentação do Evergrey, tendo sido observado em outros momentos do festival. O episódio reforça a máxima de que, em cenários de grandes produções, muitas vezes a simplicidade pode ser mais eficaz que recursos visuais mal executados. Edit this setlist | More Evergrey setlists

Per Gessle e Lena Philipsson celebram legado do Roxette com casa cheia em São Paulo

Na noite desta terça-feira (14), o Espaço Unimed, em São Paulo, não foi apenas uma casa de shows, foi uma máquina do tempo. Com casa cheia e um público ávido por nostalgia, o Roxette encerrou sua turnê brasileira com uma apresentação que equilibrou a dor da ausência com o êxtase de um catálogo recheado de hits atemporais. Cérebro e a nova voz do Roxette Assistir a Per Gessle aos 67 anos é entender a engenharia por trás do pop perfeito. Conservado, enérgico e com seus icônicos violões quadriculados, ele provou por que Marie Fredriksson o descrevia em sua biografia como uma “máquina de sucessos”. Gessle não é apenas o guitarrista, ele é o arquiteto de cada melodia que dominou as rádios brasileiras nas últimas décadas. A missão de dividir o palco com ele coube a Lena Philipsson. Aos 60 anos, a cantora (amiga de longa data de Per) foi cirúrgica: não tentou mimetizar Marie. Com um timbre diferente e uma presença de palco autêntica, ela e Per deixaram claro que não há espaço para comparações. “Eu sei que nem todo mundo gosta do fato de eu estar ali no lugar da Marie. Tento fazer justiça às canções e deixá-la orgulhosa”, já havia declarado Lena anteriormente. No palco paulista, essa honestidade se traduziu em respeito. Homenagens que tocam o céu O momento de maior nó na garganta veio antes de It Must Have Been Love. Lena dedicou a canção à antiga parceira de Per: “Esse é para Marie. Vocês sentem muita falta dela e eu também. Talvez ela consiga ouvir no céu”. O público, que já havia ovacionado Lena durante sua apresentação em Dressed for Success, respondeu com lágrimas e aplausos efusivos. Opções técnicas Musicalmente, o show optou por um caminho mais “clean”. A banda, que conta com veteranos da história do grupo como o tecladista Clarence Öfwerman e o guitarrista Jonas Isacsson, priorizou a equalização das melodias radiofônicas. Se por um lado isso destacou os vocais, por outro, tirou um pouco do “punch” rock’n’roll de faixas como Sleeping in My Car e How Do You Do!. Outro ajuste técnico notável foi a transposição de tons. As músicas foram tocadas um tom abaixo para acomodar a extensão vocal de Lena, já que Marie alcançava notas consideravelmente mais agudas. O resultado foi um som confortável e tecnicamente impecável, embora menos explosivo que nos anos 90. Interação e hino nacional Sem telões laterais (por decisão da banda, apenas uma tela de fundo com animações), o foco total foi na performance. Per Gessle assumiu o papel de frontman absoluto, regendo a plateia que cantou diversas faixas à capela. O tempero local ficou por conta do guitarrista Christoffer Lundquist. Vestindo a camisa da Seleção Brasileira, ele tocou o Hino Nacional no meio do set, além de arriscar riffs de Highway to Hell (AC/DC), trazendo a dose de adrenalina que o público roqueiro esperava. Inventário de hits Durante pouco mais de 1h30, o Roxette desfilou por álbuns fundamentais como Look Sharp! e Joyride. Do início vibrante com The Big L. ao encerramento emocionante com Queen of Rain, o que se viu foi a prova de que boas canções são à prova de tempo e luto. Como o próprio Per Gessle mencionou em entrevistas recentes, o Brasil tem uma conexão única com a banda, a ponto de os hits ganharem versões em forró e tecnobrega. No Espaço Unimed, a versão original retomou seu trono, provando que, mesmo com uma formação renovada, o “estilo sueco” de fazer hits segue atemporal. Setlist – Roxette em São Paulo

John Lydon celebra 70 anos com show memorável do Public Image Ltd no Cine Joia

John Lydon - PIL no Cine Joia, em São Paulo, 8 de abril de 2026

Após um hiato de 34 anos, John Lydon finalmente retornou ao Brasil com o seu Public Image Ltd (PiL). O reencontro, que aconteceu na noite desta quarta-feira (8) no Cine Joia, em São Paulo, provou que o tempo parece não ter diminuído a urgência artística do grupo. Recentemente, a banda desafiou a lógica do mercado fonográfico ao lançar, no fim de março, o disco Alive exclusivamente em formato físico. Essa recusa em ser refém das plataformas de streaming reafirma que o PiL segue sendo uma entidade provocativa, criativa e dona de uma personalidade inabalável. O que se testemunhou no palco foi uma verdadeira aula de rock. A banda apresentou-se vibrante, entregando versões irrepreensíveis de clássicos que moldaram o que convencionalmente chamamos de pós-punk. A abertura veio com a densa Home, do aclamado Album (1986), seguida pela energia de Know Now, extraída de What the World Needs Now… (2015), estabelecendo uma conexão imediata entre o legado oitentista e a produção mais recente. Lydon, nitidamente feliz e à vontade, entregou uma performance hipnótica. Sua presença de palco continua sendo um espetáculo à parte: uma mistura de sarcasmo, autoridade e entrega emocional. Um dos grandes destaques da noite foi a execução de World Destruction. Fruto de uma colaboração histórica entre Lydon e Afrika Bambaataa em 1984, a faixa surgiu em uma versão revigorada, fazendo a ponte perfeita entre o rock e as batidas eletrônicas experimentais. Dançante, intrigante e mantendo aquele DNA anárquico, o show contagiou o público que aguardou décadas por esse momento. Hinos como This Is Not a Love Song, Flowers of Romance e a seminal Public Image foram pontos altos, mas nada se comparou à força de Rise. O maior hit da banda foi entoado a plenos pulmões por todos os presentes, criando um momento de catarse coletiva. No encerramento, o medley old school composto por Annalisa, Attack e Chant sacramentou o show. Aos 70 anos recém-completados, John Lydon prova que ainda é o visionário inquieto de sempre: uma figura ameaçadora e fascinante que não vive apenas de glórias passadas. Apoteótico e caótico na medida exata para incendiar a pista, o retorno do PiL a São Paulo foi, sem dúvidas, memorável. Edit this setlist | More Public Image Ltd setlists

Mac DeMarco reafirma o trono do indie em noite de catarse e irreverência na Audio

Após um hiato de oito anos, Mac DeMarco retornou a São Paulo no último sábado (4) para o segundo show de sua extensa turnê de nove datas pelo Brasil. Divulgando seu mais recente álbum, Guitar (2025), o canadense provou que a aposta da produtora Balaclava em uma série tão longa de apresentações foi certeira: com ingressos esgotados, a fila que dominava a calçada da Audio já denunciava a ansiedade de um público que chegou cedo para garantir um lugar rente ao palco. “Jizzy Jazzy” em solo brasileiro Qualquer sinal de impaciência pelo leve atraso de 15 minutos evaporou assim que Mac pisou no palco, visivelmente confortável e feliz. Sua marca registrada, o som frequentemente rotulado como “jizzy jazzy”, uma mistura de indie lo-fi com grooves relaxados e guitarras limpas, traduziu-se naturalmente em sua performance corporal. O repertório foi um equilíbrio preciso entre o novo e o clássico. Abrindo com Shining, do disco novo, Mac desfilou hinos de seus 14 anos de carreira, como For The First Time, Salad Days e Ode to Victory, intercalando-as com as recentes Sweeter, Phantom e Rock And Roll. O que se viu na plateia foi uma renovação notável: uma forte presença de um público jovem que canta cada verso, provando que a base de fãs de DeMarco segue em expansão. Conexão com Pedro Martins Um dos grandes trunfos da noite foi a escolha de Pedro Martins para a abertura. Se o brasiliense ainda busca o reconhecimento do grande público nacional, seu currículo já fala por si no exterior, com colaborações com gigantes como Eric Clapton, Thundercat e Tyler, The Creator. A sonoridade de Pedro, uma fusão sofisticada de jazz com a MPB oitentista de Guilherme Arantes e Beto Guedes, preparou o terreno com perfeição. Sua habilidade na guitarra foi um dos pontos altos da noite, não apenas em seu set solo, mas também quando retornou para integrar a banda de apoio de DeMarco, adicionando profundidade e solos pontuais que elevaram as composições do canadense. Dinâmica de palco e virtuosismo Ao vivo, as canções de Mac DeMarco ganham camadas que os discos, por vezes propositalmente secos e “desgastados”, não revelam. A banda que o acompanha nesta turnê é de um calibre absurdo: o baixista Daryl Johns esbanjou groove e carisma, enquanto o baterista Phil Melanson trouxe explosões rítmicas que deram um tom mais rock ‘n’ roll ao show. Mac, sempre bem-humorado, manteve o público na mão. Brincou, fez piadas, plantou bananeira e aceitou presentes dos fãs com a leveza de quem domina o que faz, mas se recusa a levar o “estrelato” a sério. Essa irreverência, somada à competência musical, é o que torna a experiência tão envolvente. Ao longo de 1h40 de apresentação, o vínculo entre Mac DeMarco e o público paulista foi não apenas reafirmado, mas fortalecido. Entre momentos de improviso, jams e um mar de luzes de celulares, ficou claro que a música indie encontrou em DeMarco um de seus guardiões mais autênticos. Ao se despedir com a promessa de voltar em breve, ele deixou a certeza de que o indie segue pulsando forte e encontrando novos ecos a cada passagem por aqui. Edit this setlist | More Mac DeMarco setlists

Guns N’ Roses prova no Monsters of Rock que o gigantismo e a história superam qualquer crítica

Se durante as 12 horas de festival diversas bandas tentaram roubar a cena, o encerramento no sábado (4), no Allianz Parque, deixou claro: quando o logo da pistola e das rosas brilha no telão, o posto de “maior do mundo” é indiscutível. Em uma apresentação de cerca de 2h30, ligeiramente mais enxuta que as maratonas de três horas de outrora, mas ideal para um público já exausto, o Guns N’ Roses entregou uma aula de rock de arena. Química inabalável e sustos no palco A abertura com Welcome to the Jungle foi o gatilho necessário para incendiar o estádio e fazer o cansaço ser esquecido. A química entre Axl Rose, Slash e Duff McKagan continua sendo o pilar de sustentação do grupo. Mesmo após anos de reunião, vê-los juntos ainda é o ponto alto da noite. Um momento curioso (e tenso) ocorreu logo no início, durante Slither (sucesso do Velvet Revolver). Em um movimento brusco de Slash, Axl acabou levando uma “braçada” acidental da guitarra no rosto. O susto não abalou o vocalista, que seguiu o show firme, rindo da situação. De “Banda Mais Perigosa” a “Banda Mais Familiar” Nos bastidores e nas laterais do palco, o clima era de reunião de família. A antiga “banda mais perigosa do mundo” deu lugar a um ambiente acolhedor: famílias dos integrantes assistiam ao show, incluindo a família santista de Axl Rose. O vocalista chegou a brincar com um bebê no colo da mãe, enquanto Duff trocou um carinhoso selinho com a esposa após seu momento solo. Voz de Axl e a genialidade de Slash Sobre a voz de Axl Rose, o consenso (ou o que deveria ser) é claro: ele não tem mais o alcance de 1991, e está tudo bem. Adaptado, magro e visivelmente mais feliz, Axl corre, grita e mantém a chama acesa com uma leveza contagiante. Ele até brincou que o setlist estava sendo decidido na hora e que poderiam tocar Macarena. Do outro lado, Slash reafirmou por que é um ícone imortal. Mesmo após um dia repleto de guitarristas virtuosos no palco do Monsters, o homem da cartola mostrou que seu feeling e seus riffs são a alma do Guns. Duff McKagan também brilhou ao assumir os vocais em New Rose (The Damned), resgatando a aula de punk rock do álbum The Spaghetti Incident?. Raridades e homenagens emocionantes no show do Guns n’ Roses Para os fãs casuais, a ausência de baladas como Don’t Cry e Patience foi sentida, mas os “die-hard fans” foram presenteados com raridades como Dead Horse e a surpreendente Bad Apples, que não aparecia em um setlist desde 1991. Aliás, só havia sido tocada duas vezes na história, a primeira no Rock in Rio de 1991. O momento de maior emoção foi a estreia de Junior’s Eyes (cover de Black Sabbath), dedicada a Ozzy Osbourne, falecido no ano passado. O clima de tributo seguiu com a obrigatória Knockin’ on Heaven’s Door. Reta final apoteótica do Guns n’ Roses A celebração atingiu o ápice em Estranged, com o público arremessando golfinhos infláveis em uma referência nostálgica ao videoclipe, e o mar de luzes em Sweet Child O’ Mine. A tríade final com Axl ao piano em November Rain, a explosiva Nightrain e o hino Paradise City encerrou o festival em estado de catarse. O Guns N’ Roses fez jus ao topo do cartaz. Ninguém rouba o posto deles. Agora, a banda segue em turnê pelo Brasil até o fim do mês, provando que o “momento mágico” de um show do Guns ainda é a experiência definitiva do rock. Edit this setlist | More Guns N’ Roses setlists

Lynyrd Skynyrd traz peso e emoção com tributo a Gary Rossington no Monsters of Rock

Há quem torça o nariz para bandas com formações muito alteradas, mas o Lynyrd Skynyrd transcende o rótulo de “tributo”. O vocalista Johnny Van Zant lidera o grupo há quase 40 anos, acompanhado por um trio de guitarristas excepcionais, um baixista preciso, um tecladista de técnica apurada e um baterista seguro, sem esquecer das duas backing vocals que conferem o toque de “magia” sulista ao espetáculo. Mantendo o legado vivo do Lynyrd Skynyrd Como co-headliner do Monsters of Rock, realizado no último sábado (4), no Allianz Parque, o Lynyrd Skynyrd demonstrou plena consciência de sua missão: preservar um legado histórico. Como o próprio Johnny reforçou em entrevista ao Blog n’ Roll: “Vamos garantir que as pessoas saibam que estivemos aqui e vamos carregar o legado”. Além de Van Zant, a linha de frente conta com o icônico Rickey Medlocke, que curiosamente foi baterista da banda em sua primeira fase (1971-1972) antes de assumir as guitarras na formação atual. Noite de homenagens Os 90 minutos de show foram pontuados por celebrações à memória de ex-membros. Com mais de dez integrantes falecidos ao longo das décadas, o telão tornou-se um memorial durante a execução de Free Bird. O momento atingiu o ápice com um dueto virtual entre os instrumentistas e o saudoso irmão de Johnny, Ronnie Van Zant, resgatado de gravações históricas. Outro ponto alto de sensibilidade foi Tuesday’s Gone, dedicada a Gary Rossington, o último membro fundador a deixar o grupo, falecido em 2023. A canção serviu como pano de fundo para uma belíssima homenagem ao guitarrista que atravessou todas as eras da banda. Catarse coletiva O show equilibrou com maestria a melancolia dessas perdas com a euforia de clássicos dançantes como What’s Your Name, Gimme Three Steps e That Smell, além do hino absoluto Sweet Home Alabama. Foi nesse misto de emoções que o grupo conquistou um público tão diverso, sendo ovacionado por fãs de todas as vertentes do rock presentes no estádio. No meio desse turbilhão, ainda houve espaço para a densa Simple Man, capaz de emocionar até o mais durão dos espectadores. O encerramento, com o duelo final de guitarras em Free Bird, gerou uma catarse coletiva que certamente ecoará na memória dos fãs por muitos anos.