Crítica | Sin After Death – Dirty Grave

O nome da banda já da pistas, mas é ao colocar para rodar Sin After Death, segundo álbum do Dirty Grave, de Orlândia (SP), que o ouvinte se depara com um doom metal sombrio e pesado, com influências óbvias de Black Sabbath, Saint Vitus, Pentagram e Cathedral. O power trio Mark Rainbow (baixo, voz), Pedro Barros (guitarra) e Henrique Lima (bateria) realmente sabiam muito bem o que queriam quando entraram em estúdio, e os resultados são excelentes. Vale lembrar que esse é o segundo álbum do Dirty Grave, sucessor de Evil Desire, de 2017. O som do trio é denso, fúnebre, como todo doom metal deve ser. A voz hipnótica de Rainbow é responsável pelo clima doom em faixas como Slaughter (Human Race is Dead), arriscando inclusive falsetes à King Diamond. Os riffs e solos de guitarra são puro Iommi, ou seja, sem malabarismos inúteis, apenas melodias obscuras que envolvem a música do trio em uma neblina de sujeira. Os destaques do álbum vão para as duas últimas músicas, Slow Journey e When Lucifer Touches Your Soul, a primeira por seu andamento à Saint Vitus e a segunda por pelos seus mais de nove dolorosos minutos de pura viagem doom metal. Confira! Sin After DeathAno de Lançamento: 2019Gênero: Doom Metal Faixas:1-In This Night2-Slaughter (Human Race is Dead)3-Turn Off All My Fears4-Lord of Pain5-Satan´S Wings6-Disposable Toys7-Slow Journey8-When Lucifer Touches Your Soul
Crítica | Cycle of Disaster – Válvera

Formado em 2010 em Votuporanga (SP), o quarteto Válvera chega ao seu terceiro álbum, Cycle of Disaster, uma avalanche potente de heavy/thrash metal que destrói tudo pela frente. O time consiste em Glauber Barreto (voz, guitarra), Rodrigo Torres (guitarra), Jesiel Lagoin (baixo) e Leandro Peixoto (bateria). A exemplos dos dois álbuns anteriores, logo de cara o que chama a atenção é a qualidade da produção, especialmente da guitarra, muito bem timbrada, grave e pesada. Os vocais agressivos de Barreto nos trazem à mente nomes como Phil Anselmo, ou seja, são encarregados de trazer peso ao material. Falando em peso, é isso que iremos encontrar em Cycle of Disaster. Muito peso. Faixas como Nothing Left to Burn, Glow of Death e a canção-título explodem numa violência tão forte que beira o death metal. Não é exagero! Também vale citar o baterista Leandro Peixoto, dono de uma pegada precisa e brutal, especialmente nos bumbos. Pantera, Metallica e Testament estão entre as influências do quarteto. Outros momentos dignos de nota em Cycle of Disaster chegam com O.S. 1977 (pesadíssima), Born on a Dead Planet (que ganhou vídeo) e Bringer of Evil, que encerra o álbum no melhor estilo thrash anos 1980, inclusive com possantes backing vocals. Confira! Cycle of DisasterAno de Lançamento: 2020Gravadora: Brutal RecordsGênero: Heavy/Thrash Metal Faixas:1-Nothing Left to Burn2-Cycle of Disaster3-Glow of Death4-The Damn Colony5-All Systems Fall6-Born on a Dead Planet7-O.S. 19778-Fight For Your Life9-Bringer of Evil
Com músicos do Muse, Jet e Blur, The Jaded Hearts Club debuta com sons da Motown

O supergrupo The Jaded Hearts Club, enfim, lançou o seu debute. Após uma longa expectativa por um disco cheio, You’ve Always Been Here já está disponível nas principais plataformas de streaming. São 11 releituras de alto nível de artistas clássicos da Motown, com destaque para I Put A Spell On You, Love’s Gone Bad, Reach Out I’ll Be There e Nobody But Me. Nem todas funcionam de forma tão especial, mas o registro cumpre bem sua função. The Jaded Hearts Club inclui em sua linha de frente: Miles Kane (The Last Shadow Puppets) e Nic Cester (Jet), os guitarristas Graham Coxon (Blur) e Jamie Davis, além de Matt Bellamy (Muse) no baixo e o baterista Sean Payne (The Zutons). O curioso é a forma como esse supergrupo surgiu. Amigo de Coxon, Davis queria montar uma banda de covers do Beatles para o seu aniversário. Então decidiu convidar músicos britânicos que estavam morando em Los Angeles para o acompanhar. Logo no segundo show da carreira, em janeiro de 2018, The Jaded Hearts Club foi a trilha do desfile de moda de Stella McCartney. Na plateia, Quincy Jones, Katy Perry, James Corden e Ringo Starr aguardavam ansiosamente. E se isso não fosse o bastante, Paul McCartney subiu ao palco e conduziu a banda em I Saw Her Standing There e Helter Skelter. A partir desse momento mágico na vida de todos os integrantes, o The Jaded Hearts Club virou uma realidade. Tocou em vários festivais, eventos beneficentes e expandiu o repertório para outros clássicos do rock britânico dos anos 1960. “Nós simplesmente amamos a história de como o norte da Inglaterra se apaixonou pela música soul americana, mesmo depois que ela parou de ter sucessos e de usar essa música como trilha sonora para uma boa noitada”, comenta Davis. Ouça álbum
Crítica | Cenas Brutais – Eskrota
Nuno Mindelis volta às raízes com o álbum Angola Blues
Freud explica? O que a série sobre Sigmund Freud diz sobre o pai da psicanálise
Entrevista | Lucas Boombeat – “A música veio da minha necessidade de me curar”
Faixa por Faixa: confira 3.15.20, de Childish Gambino

Depois do sucesso irrefutável de Awaken, My Love!, de 2016, Donald Glover levou longos quatro anos de prosa para concluir seu próximo álbum. Mais conceitual, complexo e contemplativo, ele propõe 3.15.20, lançado de surpresa. Uma peça importante em tempos de auto-isolamento, a obra de Childish Gambino ousa mais uma vez, construindo uma narrativa própria. Com isso, Glover prova-se novamente um dos artistas mais multifacetados de nossos tempos. É nítido que carrega sua bagagem pelo cinema como matéria-prima na criação do álbum 3.15.20, entretanto, não é uma peça fácil de entender. Longe do simples entretenimento, é um disco extremamente sensorial, que guia para uma nova experiência. Com exceção de Algorhythm e Time, todas as canções são intituladas conforme o tempo que aparecem no disco. Algumas delas tinham nomes antes da versão final, mas acabaram apenas rotuladas a números. Glover também renasce em seus princípios e sentimentos, mostrando aos fãs outro momento de sua vida. Temas como sexo, drogas, paternidade, preconceito racial e auto-aceitação são encarados de forma ainda mais profunda, partindo do tema principal: amor. É uma imersão garantida, como um experimento científico! Confira a resenha faixa por faixa do quarto álbum de Childish Gambino, 3.15.20: 0.00 Com quase 3 minutos, a abertura de 3.15.20 é o prelúdio ao conceito experimental. Não é cantada, nem conta com instrumental contínuo. Traz vocalizações pontuais e um som ambiente crescente, quase como um mantra para meditar. Em meio ao caos que está prestes a abordar nas próximas canções, Glover tira o momento inicial como um grande respiro. Ele nos prepara para o que está por vir, despertando nossos sentidos. Algorhythm Algorhythm tem um trance com batida dançante, mas trata de um tema que assusta: a decisão humana sobre o desenvolvimento de inteligências artificiais. A carga crítica traz uma teatralidade à música, que conta com narrativa própria, como boa parte de 3.15.20. A atmosfera é bem densa e futurista, com vozes robóticas, cortes mecânicos e batidas firmes. É uma das faixas mais pesadas no disco, inspirada no estilo industrial. Entretanto, nos últimos segundos da faixa, as batidas se transformam em batidas cardíacas, atribuindo um senso “humanizado”. Time Mais próxima do pop, trap e soul, Time relembra a premissa de Feels Like Summer, falando da constante ameaça humana ao meio ambiente e os perigos do comportamento egoísta. Nesta canção, conta com a participação de Ariana Grande, que aparece de forma quase angelical. Em meio às batidas, Glover canta com paixão. A música suaviza bem no meio, trazendo um aspecto gospel que remonta às raízes do artista. É difícil em certo ponto discernir os gêneros incorporados na faixa, que vão se atrelando como uma fórmula química. 12.38 Da ficção científica à comédia satírica, Glover retorna ao rap, pop e R&B. Retoma temas como atração e sedução, que sempre entram em suas composições de formas “sinceronas”. Por meio da tensão sexual entre dois amantes, faz um jogo de flerte. Entretanto, a paquera real é uma nova experiência com uma droga que o locutor desconhece. Explícita, a faixa acompanha os acontecimentos dessa noite confusa. 19.10 “Tudo que é dado, é pego de volta“, canta Glover. Qual o preço da violência? Como o medo molda a realidade? Algumas dessas questões são levantadas pelo artista, que nesta faixa, está recebendo conselhos de seu pai. No diálogo, o pai deixa nas entrelinhas as incertezas do mundo, a violência às vidas negras e o perigo iminente de se perder do lugar ao qual “você pertence”. Para fortalecer a mensagem, Glover se inspira no funk, resgatando as raízes da black music. Também embala um pop ao estilo de Prince. Além de levantar questionamentos pertinentes sobre a questão racial, a canção também homenageia as raízes da cultura afro-americana. 24.19 Nesta faixa, Glover reflete em um relacionamento. Sua “canção de amor” é mais um questionamento sobre si mesmo e seu valor, sobre o quanto merece ou não ser amado. Como a canção mais longa do álbum, 24.19 é extremamente sensível, atravessando sentimentos conflitantes. Uma ode aos errantes, que também serve como análise de uma mente ansiosa, antecipando seus fracassos e autossabotagens. Mais uma vez, a referência a Prince é inegável em cada verso da balada. O instrumental cresce e suaviza de forma equilibrada, conduzindo a história. Cheio de dúvidas, o personagem caí na entrega à paixão, recupera o fôlego pós crise e alcança o clímax do prazer, como uma história de superação contada através do sexo. 32.22 Inicialmente chamada Warlords, 32.22 usa múltiplos recursos para dar uma sensação de selva: sons sintéticos, ruídos dispersos e o beat constante como uma busca. Viajando por ondas e frequências, Glover brinca com sua voz. Os versos em constante repetição dão uma sensação claustrofóbica que vai se intensificando. Frenética, a canção tem textura própria, mesmo turbulenta. 35.31 E no meio de toda a revolução dos beats, havia espaço para uma brincadeira em pegada country em 3.15.20. A faixa mantém os beats de fundo, com um rap divertido em cima. O momento de descontração quebra um pouco a narrativa do álbum, mas vai retomando sua linguagem no fim da canção. Em certo ponto, cantando sobre movimento, um verso é tocado ao contrário. 39.28 “Dois tiros e um corpo / Dois tiros e um corpo“, “Alguns esperam todos os dias pela ligação“, “Luto é um oceano parado / eu nunca nadei a menos que você nadasse“. Os versos falam por si só, não é mesmo? Com uma auto-harmonização a capella, Glover deixa implícitas algumas mensagens à nossa interpretação, descrevendo uma cena de perda. Ademais, também fala de amor próprio, lembrando como é difícil amar a si mesmo quando esta pessoa perde seu grande amor. 42.26 Feels Like Summer é renomeada para 42.26, revisitando um grande momento de Childish Gambino em seu discurso socioambiental. Com margem para diferentes interpretações desde seu lançamento, em 2018, a faixa serve como lembrete das últimas produções do artista. Remontando ao R&B, soul e pop, o hit é desconfortável e agradável na mesma medida, ao ponto que entender seu contexto contrasta com a melodia suave. 47.48 Quase
Faixa por Faixa: Dua Lipa lança Future Nostalgia

“Sabe quando você trabalha muito e algo meio que foge das suas mãos e sai mais cedo? É decepcionante, claro”. Com fortes incertezas sobre um lançamento adiantado, Dua Lipa antecipou a estreia de Future Nostalgia, seu segundo álbum. Em entrevista à Kiss FM UK, Dua comentou as dúvidas sobre o lançamento, que ocorre em meio à uma pandemia. Portanto, a esperança é de garantir um ‘respiro’ aos fãs. “Espero que tire as pessoas um pouco do que tá rolando no mundo e dê um momento de felicidade, diversão”. Entretanto, sob forte campanha de divulgação desde o lançamento dos primeiros singles, o álbum já tinha tudo para ser um sucesso. Agora, a prova foi lançada ao mundo. E vamos partir pra resenha. Confira uma análise faixa-por-faixa de Future Nostalgia, de Dua Lipa! Future Nostalgia A faixa-título tem diversas influências, de hip hop a música eletrônica. Realmente, cria um clima retrô futurístico, com uso de sintetizadores, recursos estilísticos e visuais modernos. Dua arquiteta a canção mais desconstruída do álbum, com montagem moderna e um som que dá para visualizar artisticamente. Um quê de Janelle Monáe e St. Vincent, talvez? Don’t Start Now Não tem como não se identificar com a batida deste single. Ademais, a melodia é eletrizante, voando do disco ao soul em poucos versos. Os vocais, que embalam tons crescentes a cada parte da estrutura, criam um clímax delicioso no refrão. Aqui, Dua cria a atmosfera perfeita para construir toda a essência do álbum. Don’t Start Now foi uma escolha bem assertiva como single, pois traduz por completo o conceito do disco. Cool Aqui, vamos de experimentos com música eletrônica e synth pop. Porém, ironicamente, essa é a faixa que mais ressoa à atualidade: soa como um pouco de Taylor Swift, Katy Perry e músicas pop da última década. Com movimento, Cool flui de forma bem gostosa, aproveitando cada detalhe para testar um novo recurso. Physical Muita gente comparou título, coreografia e pegada estética com o hino Let’s Get Physical, de Olivia Newton-John, de 1981. A inspiração é inegável, e extremamente assertiva. Afinal, como criar uma atmosfera oitentista sem recorrer a alguns amuletos da época? Mais uma trilha que te faz pedalar uma bicicleta imaginária, mesmo que você não frequente academias. Baseada nos graves, a faixa é pesada, noturna e sensual, mas ao mesmo tempo mantém o clima nas alturas. Aposto em uma inspiração no pós-punk gótico britânico, com referências a The Cure e Joy Division, além de um bom industrial. Levitating Romântica e dançante, a canção é bem leve e completa bem as outras composições. Não tem muito destaque, mas é uma boa pedida para curtir um som agradável. É uma cereja no bolo da influência disco, com corais divertidos harmonizando a canção. Pretty Please Os beats embalam uma pausa deliciosa da energia frenética, porém, novamente, seguindo a marca dos graves. O pós-disco fica evidente, com uma pegada mais suave, que lembra os tempos da brilhantina sem deixar claras suas inspirações. Focando em sexo e paixão, embala em sensualidade, mas sem deixar de posicionar a força feminina nas relações. Hallucinate Os beats continuam com força total. O ritmo é ingrediente essencial do álbum, compondo toda a atmosfera dançante neo-futurista. Portanto, esta faixa tem papel importante na composição do disco, além de ser divertida, dançante e contagiante. Love Again Todos amamos ouvir Dua Lipa falando sobre amor. Pautada em dúvidas e sentimentos conflitantes, a cantora solta a voz para as desilusões da paixão. As vibes de Whitney Houston, Tina Turner e George Michael trazem um senso de identidade bem forte, delicioso para os fãs do dance. Break My Heart O mais recente single lançado tem um potencial estilístico gigante. Além do clipe muito bem produzido, a canção também conta com muito cuidado na produção. Somada às influências disco, a faixa lembra alguns artistas pop atuais que gostam de mesclar conceitos retrô. Entre eles, Bruno Mars e Justin Timberlake são destaque. Good in Bed Uma batida à moda de Amy Winehouse, com versos divertidos e ousados a la P!nk. O piano é aplicado de forma bem rítmica, mas destoa um pouco das outras canções. O tom debochado abre a parte mais autêntica em letras, como uma despedida das canções românticas, seguindo uma tendência também utilizada por Lizzo em Cuz I Love You (2019). A estratégia oferece uma quebra da narrativa, sem papas na língua, voltando a entoar a Dua Lipa rebelde e girl power que conhecemos em seu primeiro disco. Boys Will Be Boys A faixa tem uma levada mais pop, mas conta com instrumental encorpado. Para bom entendedor, meio verso basta: satírica, a letra fala de papéis sociais e patriarcado. Disfarçada em uma melodia angelical que normatiza o machismo, a música comenta situações que as mulheres enfrentam no cotidiano em relação à violência. Um exemplo são as chaves entre os dedos, nos punhos fechados, quando voltam para casa. No fim das contas, ela reforça a força feminina: “garotos serão garotos e garotas serão mulheres”. Saldo geral: positivo! Não falta ritmo nos embalos de Dua Lipa. O álbum é um prato cheio para os fãs de música disco e eletrônicas, mas também conta com letras divertidas e identificáveis. Ideal para motivar os treinos em casa durante a quarentena! Além disso, conta com todo tipo de canções: faixas divertidas, românticas e críticas. Dua Lipa não perde o tom e mantém seu disco afiado, portanto, mantendo sua essência. Um prato cheio no entretenimento, Future Nostalgia também é um ótimo tributo aos anos 1980, mas sem perder sua atualidade.