Entrevista | Djavan – “Eu não viveria se não tivesse isso”

Aos 67 anos, Djavan poderia se dar ao luxo de estar aposentado de sua carreira artística. Nos últimos anos, diversos veículos de imprensa indicaram esse caminho para o cantor alagoano, um dos mais influentes da música popular brasileira. Problemas de saúde, afastamento dos shows e saco cheio da rotina eram alguns dos sinais apontados pela mídia. Mas se quer saber, se ele quer outra vida, não, não. Djavan quer mesmo é viver, sair em turnê e produzir mais álbuns. “Não me vejo fazendo outra coisa. Adoro fazer show, subir no palco. A relação tête-à-tête me emociona e impulsiona. Eu não viveria se não tivesse isso. É uma coisa imprescindível. Quero cantar em todos os anos da minha vida. Não estou nem um pouco cansado de fazer o que eu faço. Sou uma pessoa cheia de projetos. Agora mesmo, estou pensando no meu próximo projeto, um novo álbum para 2017”. Hoje, a partir das 22 horas, no Mendes Convention Center, Djavan dará o terceiro passo da sua mais nova turnê, Vidas Pra Contar. Antes de Santos, somente Juiz de Fora (MG) e São José dos Campos (SP) assistiram ao novo show (os ingressos já estão esgotados). Sincero, Djavan afirma que a escolha por Santos antes de São Paulo, principal mercado do Brasil, não está relacionado a nenhum sentimento especial pelo local. “É uma questão de agenda. A produção vai agendando as apresentações e chegamos a esse calendário. Gosto muito de apresentar meus shows em Santos. É uma cidade linda e tem um público que sempre me recebe de braços abertos”. Nesta apresentação, o intérprete cantará grandes clássicos de sua carreira, como Outono e Eu te Devoro, entre muitos outros e ainda as novas canções, como Encontrar-te (tema de Juliana Paes e Fábio Assunção da novela Totalmente Demais), Se não vira Jazz (tema de Êta Mundo Bom) e Não é um Bolero. Segundo Djavan, seis ou sete músicas do novo trabalho devem compor o set list. “Vou com um repertório pronto. Costumo levar três ou quatro canções que ficam no stand by para tocar de acordo com o show, a casa, o público. No mais, é um repertório pronto para todos os shows”. Um espaço vazio, inteiramente preto, é o cenário, até que um grande livro se abre ao fundo, no centro do palco. Surgem então as primeiras páginas em branco, preenchidas por luzes coloridas e linhas verticais que pouco a pouco invadem o cenário, com escritos em espiral, círculos, grafismos poligonais e Art Nouveau. “É um cenário complexo de montar, mas muito bonito. O público vai gostar”, acredita. Direto nas respostas, mas muito atencioso e gentil, Djavan faz questão de esclarecer que o novo álbum é autobiográfico em algumas partes, mas não se trata de algo apenas sobre a vida dele. “É Vidas Pra Contar porque eu falo de vidas. Da minha, quando eu exponho minha relação musical e afetiva com a minha mãe, coisa que já fiz diversas vezes em entrevistas, mas nunca tinha feito em música. Falo da vida nordestina, dos costumes, hábitos, sofrimentos, da fé do povo. Falo da vida de insetos, bichos, pessoas. Falo do homem na conjuntura atual, nos âmbitos sociais, políticos. Mas também falo de amor e relação humana”. Sobre a vida nordestina, Djavan reconhece que houve avanços na política social desde o início da sua carreira, em Maceió, mas faz uma ressalva. “O Nordeste ainda é uma das regiões que menos se desenvolve no Brasil, que menos evolui. Continuo vendo o Nordeste como uma região carente do poder público, políticas sociais. As coisas não estão avançando como deveria. Isso ainda pode melhorar muito”. Para quem tem fama de reservado, Djavan afirma que se relaciona bem com as redes sociais, mas sem expor sua vida pessoal nos sites. Uma semana antes de iniciar a turnê de Vidas Pra Contar, o músico transmitiu, via Facebook, um ensaio geral para a primeira apresentação. “Uso as redes sociais da forma que penso que ela deva ser usada: um instrumento para divulgar meu trabalho, dar informação aos fãs sobre agenda e produções. Mas não fico muito tempo nela, prefiro meus livros. Tenho uma equipe no escritório que me ajuda com esse relacionamento”. Reconhecimento Em novembro passado, Djavan recebeu no Grammy Latino um prêmio em reconhecimento ao conjunto da obra. Tal honraria deixou o músico realizado. “Esse prêmio é de grande importância porque ratifica a ideia que minha obra é conhecida mundialmente. Acho que estou no caminho certo, as coisas estão caminhando do jeito que planejei”. O MENDES CONVENTION CENTER FICA NA AVENIDA FRANCISCO GLICÉRIO, 206, EM SANTOS.

Entrevista | Arnaldo Baptista – “Temos diferenças em relação a muitas coisas. Nada de Mutantes”

*Para quem estava com saudade do cantor, compositor e músico Arnaldo Baptista, a oportunidade é hoje, às 20h30, no Teatro do Sesc. O ex-mutante desembarca na Cidade com o show Sarau o Benedito?, responsável por seu retorno aos palcos, no ano passado, após um hiato de vários anos. Aos 64 anos, ele continua afiado, principalmente na hora de falar sobre qualquer tema, embora se diga bem mais tranquilo em relação ao passado. De cara, joga água no chope de quem ainda pensa em vê-lo novamente ao lados dos irmãos Claudio e Sérgio, em um show da banda Os Mutantes. “Não me dou com um deles. Temos diferenças em relação a muitas coisas ligadas à música. Nada de Mutantes”. Por outro lado, se diz feliz em voltar aos palcos e, no caso de hoje, em show solo ao piano. No repertório, vários clássicos como Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki, Não Estou Nem Aí, Jesus Come Back To Earth , Balada do Louco e algumas inéditas do CD Esphera, em compasso de espera (“de patrocínio”), para ser lançado, embora ainda não esteja finalizado. “Compus oito músicas, mas quero que tenha dez ou 12”. Das novas, Arnaldo va mostrar ao menos duas logo mais: I Don’t Care e Walkind in The Sky. “E tem outras coisas diferentes que faço. Tem música infantil para gatinho, música de eletricidade solar, vegetarianismo, amplificadores valvulados e assim por diante. Tudo me inspira. Pode ser que eu cante mais algumas coisa. Não sei, sou muito levado pelo momento. De repente, alguma sereia santista cante para mim e eu para o público”. Certo, porém, é que Arnaldo foca em suas obras temas românticos, bíblicos, materialistas, de meio ambiente… Ele tem diversas cartas na manga. Outra experiência que faz questão de dividir com o público é sonora. Ele utiliza amplificador que passam à plateia exatamente o som como ele está ouvindo no retorno de palco. Cinema mudoRecentemente, o artista foi convidado para participar da abertura do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, no qual tocou, ao piano, uma trilha para a exibição do filme Viagem à Lua (de 1901), de Georges Méliès. “Não toquei a trilha feita no ano passado pela dupla francesa, toquei o que eu sentia durante a exibição. Foi uma experiência muito interessante. O Georges era visionário, um ficcionista maluco”. Apresentação, conta, que o levou ao passado. “Meu avô era pianista e tocava durantes os filmes mudos de Carlitos e de O Gordo e o Magro”. Roqueiro até à medula, Arnaldo Baptista se diz movido pelo gênero. Tem como bandas preferidas Kiss, Yes e Jethro Tull, lendárias desde os anos 1970. Instigado a indicar as que gosta de rock nacional, foi econômico. “Pato Fu, dessas tantas dos anos 1980, não gosto. A máquina (indústria) as consumiu. Para fazer rock é preciso estudar. Não só rimar”. Politicamente, Arnaldo se diz decepcionado com os rumos nacionais comandados por nossos representantes no Legislativo. Mais do que isso, confessa que não entende muita coisa que os políticos fazem, a enorme distância entre discurso e prática. “Não é de hoje. Meu pai foi preso pelo AI 5 e até hoje não entendi o motivo”. Arnaldo curte a ampliação, há uma ano, do sentido de artista. Agora, agrega o plástico. Se entrega aos pinceis, lápis, papéis e telas, graças ao apoio da esposa Lucinha, e do espaço qu dispõe em casa para ‘sujar’ as paredes (brincadeira). No show há um vídeo-cenário com projeções de suas obras como artista plástico. “Como classifico minha arte? Exo-realismo, de êxodo. Pinto algo como um ET de Vagina, não de Varginha”. De março a abril deste ano, as obras de Arnaldo Baptista puderam ser conhecidas na exposição Lentes Magnéticas, na galeria Emma Thomas, em São Paulo. Foi sucesso de público e mídia. Os ingressos para o show custam R$ 5,00, R$ 10,00 e R$ 20,00. Rua Conselheiro Ribas, 136, telefone 3278-9800. ***Texto por José Luiz Araújo