Entrevista | CJ Wildheart – “Se tocasse aí, sentiria como se parte do meu coração estivesse voltando para casa”

Membro fundador de uma das bandas mais viscerais e subestimadas do rock britânico dos anos 1990, o The Wildhearts, CJ Wildheart parece ter encontrado na carreira solo a sua verdadeira fonte de juventude. Em uma fase intensamente prolífica, o músico lançou seu mais novo álbum de estúdio, Devil, um trabalho que consolida de vez sua paixão pelo street punk clássico, repleto de refrões feitos para cantar junto, guitarras furiosas e a urgência que sempre ditou os seus melhores momentos nos palcos. Diferente do ecletismo por vezes caótico de sua antiga banda, a jornada solo de CJ Wildheart entrega exatamente o que o fã de punk rock procura: energia pura, riffs diretos e honestidade brutal. O novo disco reflete não apenas suas influências de longa data, que vão de The Clash a Cardiacs, mas também funciona como uma espécie de terapia pessoal para um artista que recusa veementemente o rótulo de preguiçoso, mantendo um ritmo de lançamentos impressionante nos últimos anos. Mas a vida de um músico independente em 2026 vai muito além dos palcos e estúdios. Na conversa com o Blog n’ Roll, CJ Wildheart abriu o jogo sobre as dificuldades de sobreviver na era dos algoritmos e do streaming, um cenário desafiador especialmente para artistas que ainda dependem do formato físico para colocar comida na mesa. Além da música, ele também canaliza sua criatividade em outra paixão intensa: a culinária, comandando sua própria marca de molhos de pimenta artesanais inspirados nas receitas de sua mãe. Para os fãs brasileiros, a entrevista traz um tom de respeito e uma ponta de melancolia. Filho de pai guianense, CJ revela sua forte conexão emocional com a América do Sul e o antigo sonho de excursionar por aqui, um desejo que, embora pareça distante aos 58 anos de idade, permanece vivo em seu imaginário como uma espécie de retorno para casa. Confira a entrevista na íntegra abaixo. Você esteve bastante ocupado nos últimos anos com muitos lançamentos. Agora, está prestes a lançar seu novo álbum. Como foi o processo de gravação? Bom, em todos os meus álbuns solo gravo todas as guitarras, baixo, teclados e vocais sozinho. Trabalho no meu home studio e preparo toda a música e os vocais com uma bateria programada. Assim que termino de gravar as minhas partes, vou para o estúdio do meu produtor, Dave Draper, e nós substituímos a bateria programada por uma bateria ao vivo. O Jason Bowld, do Bullet For My Valentine, tocou bateria nos meus últimos nove álbuns. Depois que a bateria é gravada, eu mixo o álbum com o Dave. Ao gravar a maior parte das coisas sozinho, consigo manter os custos baixos. Criar um álbum é um processo que envolve muita dedicação e inspiração. Durante grande parte da sua carreira, você fez parte de bandas. No entanto, esses últimos anos parecem ser o seu período mais prolífico. Como funciona o seu processo criativo para criar tantas composições? Realmente não sei, tenho tanta música dentro de mim e colocá-la para fora faz bem para a minha cabeça. Música é como uma terapia para mim e, nos últimos dez anos, ela simplesmente jorrou de dentro de mim, talvez precise de uma tonelada de terapia (risos). Alguém que conheci há muitos anos me chamou de preguiçoso, eu olhei para aquele tolo com pena nos olhos, porque uma coisa que não sou é preguiçoso. Tenho muita sede de vida e sou grato por ainda conseguir produzir música. Embora você tenha começado sua carreira no hard rock com o Tattooed Love Boys, formado o Honeycrack, o The Jellies e escrito uma história fantástica com os Wildhearts, o direcionamento do seu trabalho solo parece mais inclinado para o punk rock. Este álbum traz todos aqueles coros clássicos do street punk, guitarras furiosas e até um cover do Soul Asylum. Quais são as suas maiores influências e como você trabalha com todas essas referências? Bem, sempre tive um coração punk, e dá para ouvir isso. Quando tinha 12 anos, era fã do Kiss, mas aí ouvi o The Police e eles mudaram tudo para mim. A música deles não era rock, nem punk, tinha tantos sabores diferentes e o baterista Stewart Copeland era simplesmente incrível, até hoje é o meu baterista favorito, ele e o Bill Stevenson. Mais tarde, me tornei fã de muitos tipos diferentes de música, mas sempre voltei para o punk. Minhas duas bandas britânicas favoritas são The Clash e Cardiacs. Eu pego muita coisa emprestada do The Clash, e o Mick Jones é um dos meus guitarristas favoritos. Nos tempos atuais, em que a indústria musical foi muito impactada pelas redes sociais e plataformas de streaming, sobreviver da música se tornou um pouco mais difícil. Temos relatos de muitos artistas enfrentando crises de burnout devido à pressão de estar presente na internet e trabalhar com algoritmos. Como você lida com isso? Sim, tem sido um pouco difícil tentar acompanhar a velocidade com que o mundo moderno está mudando. Sempre tentei viver o momento, na verdade, nunca fui nostálgico até meus pais falecerem recentemente. Você precisa viver no presente e manter os olhos voltados para o futuro. Sim, faz bem ao coração olhar para trás e relembrar, mas estamos em uma jornada e ela não é em marcha ré. Está cada vez mais difícil sobreviver na indústria da música, especialmente para artistas menores que dependem da venda de produtos físicos para colocar comida na mesa. Vi que você é apaixonado por culinária. Você até tem uma marca de molho de pimenta (hot sauce). De onde veio essa paixão? De ambos os meus pais. Minha mãe era das ilhas Seychelles e meu pai era da Guiana, e a comida era uma parte enorme da cultura deles. Cresci com uma comida picante, ardente, linda e vibrante. Minha mãe sempre fazia seu próprio molho de pimenta porque o molho que vendiam no Reino Unido era uma porcaria, as coisas que você encontra nos supermercados por aqui ainda são. Meu molho de pimenta é baseado na receita da minha