Entrevista | D.R.I. – “Nunca pensamos em abandonar o punk. Só queríamos usar todas as nossas influências juntas”

Entrevista | D.R.I. – “Nunca pensamos em abandonar o punk. Só queríamos usar todas as nossas influências juntas”

O D.R.I. está de volta ao Brasil. Formado no início dos anos 1980, no Texas, a banda é uma das bandas mais influentes da história do hardcore punk e do thrash metal. Inicialmente associado ao hardcore rápido e direto, o grupo acabou se tornando referência mundial ao fundir esse estilo com elementos mais pesados do metal, ajudando a definir o que viria a ser conhecido como crossover.

Ao longo de mais de quatro décadas, o D.R.I. construiu uma trajetória marcada por turnês incessantes, letras críticas e uma ética independente que influenciou gerações de músicos ao redor do mundo.

Em entrevista ao Blog N’Roll, o vocalista Kurt Brecht fala sobre a evolução musical do grupo, a criação do termo crossover, a forma como a tecnologia transformou a vida em turnê e o impacto contínuo do D.R.I. tanto nas cenas punk e metal quanto em novas gerações de bandas que ainda hoje se inspiram em sua postura e agressividade, além dos shows no Brasil.

O D.R.I. se apresenta no Brasil nas seguintes datas e cidades:
São Paulo – 22/03 com o Ratos de Porão no Cine Joia
Porto Alegre/RS – 17/03/2026 no Ocidente
Curitiba/PR – 19/03 no Tork n’ Roll
Rio de Janeiro/RJ – 20/03 no Circo Voador
Belo Horizonte/MG – 21/03 no Mister Rock

O D.R.I. nasceu de um senso de urgência criativa muito forte nos anos 80. O que daquele pensamento inicial da sua juventude ainda guia a banda hoje?

A diferença é que, quando você é jovem, tudo é diferente. Com o tempo, aprendemos muitas coisas sobre turnês, sobre o negócio da música e sobre como tudo funciona. Hoje é muito mais fácil divulgar seus próprios shows usando a internet. Antigamente, para montar uma turnê pelos Estados Unidos ou para vir ao Brasil, era tudo feito por telefone ou cartas, esperando que alguém divulgasse o show e que as pessoas ficassem sabendo. Hoje você consegue garantir que o público tenha informação, e isso facilita muito.

O Brasil tem uma relação longa com o D.R.I. O que você mais lembra da primeira vez que tocou aqui?

A incerteza, eram outros tempos. Você nunca sabe se tudo vai funcionar, se vai receber pagamento, se o show vai ser bom. Existe muita incerteza quando você toca pela primeira vez em outro país, especialmente.

O Brasil tem uma cena punk muito forte. Como você percebe a energia do público brasileiro em comparação com outros países?

A América do Sul, em geral, sempre rende shows muito bons e muito enérgicos, e o Brasil está incluído nisso. É sempre muito divertido. Nessa mesma viagem, também tocamos na América Central.

D.R.I. na sua última vinda ao Brasil em 2023 – Fotos por Eugênio Martins (Mannish Blog)

Existe algum show do D.R.I. no Brasil que se destaca como o mais intenso ou inesquecível?

Existem muitos, mas para destacar um, tocamos uma vez em Belo Horizonte com o Misfits e o Sepultura. Foi em um estádio ao ar livre, fazia muito calor, mas foi um show enorme e muito divertido.

Falando sobre a conexão com o Ratos de Porão, em que momento você percebeu que essa relação foi além de apenas dividir o palco?

Nós simplesmente nos conectamos com eles. Tocamos muitos shows juntos e continuamos tocando. É sempre a mesma coisa: eles trazem um ótimo público, nós também trazemos pessoas, e juntos funciona muito bem. Acho que os fãs realmente gostam de ver a gente tocando juntos.

E depois de tantas visitas ao Brasil, ainda existe algo que te surpreende sempre que você volta?

Eu gostaria de tocar aqui todo ano, mas nosso agente prefere que a gente venha uma vez a cada três anos. Às vezes tocamos em cidades diferentes, ou em lugares onde não tocávamos há muito tempo. Mas São Paulo é uma cidade que sempre parece fazer parte da rota. É uma cidade grande, com um grande show, algo que sempre fica marcado na memória. É sempre um show insano.

Como surgiu o rótulo “crossover” e como foi a recepção do álbum de mesmo nome quando foi lançado?

Na verdade, foram os fãs que começaram a chamar nossa música de crossover por conta da mistura de punk e metal. A gente ouviu as pessoas usando esse termo, e foi assim que soubemos. Não fomos nós que criamos o nome, apenas usamos no álbum. Quando Crossover saiu, alguns punks não gostaram, porque as músicas eram mais lentas e tinham mais influência de metal. Por outro lado, ganhamos muitos fãs do metal. Perdemos alguns fãs e ganhamos outros.

Em que ponto você percebeu que era possível evoluir musicalmente sem perder a agressividade e a identidade da banda?

Acho que isso acontece com qualquer banda. Você escreve músicas que gosta, e se todo mundo na banda gosta, espera que o resto do mundo goste também. Às vezes funciona, às vezes não. Nós crescemos ouvindo metal pesado, então nunca foi uma questão de abandonar o punk. Queríamos usar todas as nossas influências e juntar tudo em músicas que todos nós gostássemos.

As letras do D.R.I. sempre foram diretas e críticas. Como você vê essa abordagem hoje?

Acho que minhas letras envelheceram bem. Não escrevo todas as letras da banda, mas recentemente lancei um livro com todas as letras que escrevi, organizado de A a Z, além de poesias. Muitas bandas dizem que fomos uma influência musical e lírica, e até os filhos dessas pessoas estão tentando escrever músicas como o D.R.I., o que é um grande elogio.

O hardcore e o metal mudaram muito desde os anos 80. O que ainda chama sua atenção nas bandas mais novas?

Muitas bandas novas abrem shows para a gente, e eu vou assistir. Às vezes são bandas de death metal ou misturas estranhas de estilos. Se eu gosto, eu gosto. Gosto de bandas que não param, que vêm com tudo. É isso que me chama a atenção.

Existe alguma fase da discografia do D.R.I. que você acha que merece ser redescoberta pelos mais novos?

Talvez Crossover, mas Dealing With It! também é muito popular e já mostrava um pouco dessa mistura. O D.R.I. sempre soou um pouco diferente das outras bandas, então é difícil apontar uma década específica.

A ausência de lançamentos frequentes é uma falta de tempo ou uma escolha consciente?

É uma escolha consciente. Hoje sobrevivemos basicamente das turnês. Antes, quando estávamos em gravadoras como a Metal Blade, eles nos davam um dinheiro para parar de excursionar e gravar discos. Hoje não é assim. Se pararmos, perdemos a banda e a nossa renda. Levou muitos anos para descobrir como fazer turnês da forma certa. Já viajamos de carro velho, ônibus, carro novo, e agora usamos uma van pequena.

Com um catálogo tão extenso de mais de 4 décadas, como vocês montam o setlist? Usam algum dado, como o Spotify?

Nós já sabemos quais músicas as pessoas gostam e quais gostamos de tocar. Tentamos tocar algo de cada álbum e músicas que funcionem bem juntas.

Hoje a música é consumida de forma muito mais rápida, porém por muitas vezes isso se torna descartável. Isso muda a forma como você pensa o impacto de um show ao vivo, já que vocês consolidaram uma carreira antes do streaming?

Entendo o que você quer dizer, mas não penso muito nisso. Antigamente, para conhecer uma banda, você precisava achar alguém com o disco ou ir a uma loja. Hoje, em poucos minutos no Spotify, você conhece toda a discografia de uma banda. De certo modo, isso nos ajuda.

Existe algum show que você considera um ponto de virada na história do D.R.I.? E existe algum lugar do mundo que você ainda deseja tocar?

A primeira vez que fomos para a Califórnia, tocando em San Francisco e Los Angeles, e a primeira turnê pela Europa foram marcantes. Sobre lugares que nunca tocamos, algumas bandas conseguiram ir para a Israel, nós nunca fomos lá. Eu sei que algumas bandas foram para Cuba também. Bem, de resto, nós praticamente fomos em todos os lugares que eu gostaria de ter ido, acredite ou não, ao longo dos anos.

Para encerrar, cite três álbuns essenciais para você, seja de punk ou metal.

Vou no punk. T.S.O.L. – Dance With Me, The Adolescents – The Adolescents e Black Flag – Damaged. Eu gosto muito do som do punk rock de Los Angeles.