Entrevista | Lúcio Maia – “A confiança do Chico Science foi decisiva para que eu continuasse”

Entrevista | Lúcio Maia – “A confiança do Chico Science foi decisiva para que eu continuasse”

Lúcio Maia abre um novo capítulo da carreira solo com o lançamento de seu segundo álbum, disponibilizado nesta quinta-feira (16). O fundador e ex-guitarrista da Nação Zumbi apresenta um trabalho instrumental que mergulha em psicodelia, futurismo e diferentes atmosferas sonoras, ampliando ainda mais a identidade que construiu ao longo de décadas na música brasileira.

O disco traz faixas como “Cogumelo de Vidro”, “Qítara”, “Fetish Motel” e “Tábua das Horas”, combinando texturas eletrônicas, riffs densos e uma abordagem cinematográfica. Em alguns momentos, o álbum flerta com o noir sessentista; em outros, aproxima baião, funk e ambiências psicodélicas, reforçando a proposta de um trabalho que se move entre tradição e futuro.

Produzido pelo próprio Lúcio Maia, o álbum conta com mixagem de Mario Caldato Jr. e Daniel Ganjaman, além da participação de Arquétipo Rafa, Marco Gerez e Pedro Regada. O resultado é um disco que evidencia não apenas a assinatura de sua guitarra, reconhecível desde os tempos do manguebeat, mas também a inquietação artística de um músico que segue explorando novos territórios sonoros.

Na história, o guitarrista foi um dos arquitetos da sonoridade que ajudou a projetar o manguebeat para o mundo. Sua guitarra foi peça central em discos fundamentais como Da Lama ao Caos e Afrociberdelia, obras que redefiniram os limites entre rock, maracatu, dub, funk e música eletrônica nos anos 1990, mesmo que o reconhecimento tenha sido tardio, como ele lembra.

Além da trajetória com a banda, o músico também consolidou uma carreira paralela em projetos solo, trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão, passando por trabalhos como Baile Perfumado, Amarelo Manga e Linha de Passe. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Lúcio Maia falou sobre o lançamento do novo álbum, a evolução de seu timbre ao longo das décadas, o motivo da saída da Nação Zumbi e a expansão de sua carreira para o cinema e as trilhas sonoras.

É a primeira vez que eu falo com um artista que está lançando o álbum no dia. Como são essas primeiras horas e as primeiras impressões?

Cara, eu acho que devo ter lançado uns 15, 20 discos na vida. Na real, para mim, o dia do lançamento é mais como um nascimento. A história começa a ser contada dali para frente. Então, falar do disco no dia em que ele já está nascido, com a criança já no mundo, é mais legal porque as pessoas podem ir ouvir imediatamente.

Com a internet trazendo informação freneticamente 24 horas por dia, você avisa que vai lançar um disco e, no dia seguinte, muita gente já esqueceu. Por isso, eu prefiro falar quando ele já está na plataforma. A pessoa ouve e a conversa acontece no mesmo instante.

O álbum traz uma fusão que vai de Pink Floyd ao baião. Como foi construir essa mistura e quais são seus objetivos de carreira neste momento?

Isso nunca foi planejado. A música sempre flui de forma natural para mim. Eu nasci em Recife, cresci ouvindo a música pernambucana e Luiz Gonzaga. Depois vieram Iron Maiden, Black Sabbath, Led Zeppelin, James Brown, Isaac Hayes, drum and bass, house.

Tudo isso vai entrando espontaneamente. Na hora de compor, as coisas se encaixam. Eu nunca sentei para pensar “agora vai virar baião” ou “agora vai soar reggae”. Vai acontecendo. Para mim, inclusive, reggae e baião têm uma sensação muito próxima, quase a mesma pulsação.

Sua guitarra tem uma identidade muito marcante. Como você enxerga a evolução do seu timbre desde os anos 1990?

Eu vejo isso como a minha digital musical, meu RG. É uma dádiva você ter uma identidade própria. Desde as demos que gravei ainda adolescente em Recife, isso já estava ali.

Hoje, claro, com mais recursos e equipamentos, o timbre evoluiu, mas o DNA continua o mesmo. Eu nunca fui um cara preocupado em imitar alguém. Sempre preferi seguir meu instinto e preservar essa assinatura.

Você comentou sobre seguir o seu instinto ao longo da carreira. Em algum momento do início você imaginava que se tornaria um dos guitarristas mais premiados da música brasileira?

De forma alguma. Quando comecei a tocar, ali com 14, 15, 16 anos, eu nunca me enxerguei como alguém que fosse me profissionalizar. Na verdade, eu nem me achava um grande guitarrista. Sempre me considerei um músico regular, e não alguém tecnicamente impressionante.

Quem teve um papel fundamental nisso foi o Chico. Ele sempre me incentivou muito e dizia que eu tinha alguma coisa diferente. Eu respondia que não sabia exatamente o que era, e ele dizia que isso não importava, que eu precisava seguir esse feeling. Essa confiança dele foi decisiva para que eu continuasse.

A vida inteira eu fui muito movido por instinto e sensibilidade. Nunca foi sobre virtuosismo ou técnica pela técnica. Foi sempre sobre identidade, sobre ter uma voz própria na guitarra. Acho que, olhando para trás, uma das coisas mais certas que fiz foi confiar nisso.

Muitos guitarristas estão abandonando amplificadores e migrando para setups em linha ao vivo. Como está o seu equipamento hoje?

Eu sempre fui muito ligado ao analógico e ainda sou um cara do amplificador. Prefiro gravar com ampli. Mas a tecnologia evoluiu demais.

Hoje uso bastante impulse response porque consigo levar para o palco praticamente o mesmo som do estúdio, sem depender da estrutura do lugar. Para quem toca no circuito alternativo, isso é uma liberdade enorme.

Você comentou que, durante a pandemia, ampliou sua atuação para trilhas, teatro e outros projetos. Em que momento veio a decisão de sair da Nação Zumbi e buscar esse novo formato de carreira?

Isso aconteceu muito durante a pandemia. Eu dei uma desencanada de viajar e estava de saco cheio de turnê, de ficar esperando empresário arrumar show, de depender dessa engrenagem toda. Também estava cansado da dinâmica de banda, de precisar conciliar agenda, negociar datas, esperar um ou outro poder viajar. Depois de 30 anos fazendo a mesma coisa, aquilo começou a me tolher criativamente.

Chegou um momento em que eu percebi que não queria mais viver nessa dependência. Eu sempre fui um artista inquieto, sempre gostei de fazer outras coisas, e comecei a sentir que aquela rotina já não me representava mais. Às vezes você está no palco só de corpo, porque a alma já está em outro lugar, e eu não queria ser desonesto comigo nem com quem estava pagando para ver o show.

Foi aí que decidi abrir meu universo. Montei um estúdio, comecei a trabalhar de forma mais direta com trilhas para cinema, séries, documentários e teatro. Hoje eu me vejo em um formato muito mais amplo, com a carreira solo, a música para audiovisual e outros projetos que me mantêm em movimento. É isso que me motiva hoje: continuar criando e experimentando.

Como você enxerga hoje a sua trajetória e a importância da sua obra na música brasileira e o legado que a Nação Zumbi deixou?

Isso é muito interessante, porque, quando a gente fez aqueles primeiros discos, ninguém dava nada por eles. Estou falando de Da Lama ao Caos, Afrociberdelia e CSNZ, todos nos anos 1990. Na época, muita gente via aquilo como algo estranho, fora do padrão, difícil de encaixar em rádio e televisão.

Curiosamente, a resposta de fora do Brasil foi muito mais rápida. Europa, Estados Unidos, Japão, a própria Sony internacional, todo mundo parecia entender antes a força do que a gente estava fazendo. Aqui, o reconhecimento veio bem depois.

Dez anos depois começou a primeira grande onda de valorização. Vinte anos depois, as pessoas passaram a entender o peso histórico daqueles discos. E, agora, mais de 30 anos depois, eles são vistos como pedras fundamentais da música brasileira.

Eu fico muito feliz com isso. Talvez a gente estivesse 30 anos à frente do nosso tempo. O importante é que a história colocou cada coisa no seu lugar. Hoje é bonito olhar para trás e perceber que aqueles trabalhos realmente mudaram a música brasileira.