Entrevista | Crypta- “A Victoria já entrou contribuindo criativamente, isso foi a chave para efetivá-la”

Entrevista | Crypta- “A Victoria já entrou contribuindo criativamente, isso foi a chave para efetivá-la”

A Crypta se prepara para encerrar no Brasil o ciclo de shows do álbum Shades of Sorrow, trabalho que consolidou ainda mais a força do grupo no cenário do death metal mundial. Após uma sequência intensa de apresentações, incluindo 31 shows em 39 dias nos EUA, a banda chega à reta final da turnê nacional antes de voltar para a Europa e suas atenções integralmente ao próximo disco. Depois dessas datas, o repertório do álbum atual deve dar espaço ao novo material, que já está em fase avançada de composição.

O encerramento dessa etapa em território nacional acontece com duas datas de peso em São Paulo: um show no Hangar 110 e a participação no Bangers Open Air, festival que se tornou uma vitrine importante para a banda no país. As apresentações marcam a despedida ao vivo do repertório dos dois últimos discos e também de algumas músicas mais antigas. Em entrevista ao Blog n’ Roll, a baterista Luana Dametto falou sobre a reta final da turnê de Shades of Sorrow, o processo de composição do novo álbum e a entrada definitiva da guitarrista Victoria Villarreal na formação.

Como você avalia esse momento final da turnê de Shades of Sorrow? Houve algum show mais marcante nessa reta final?

É difícil apontar um show mais marcante, porque com certeza teve, mas a gente toca tanto que minha memória dura no máximo até o que eu fiz ontem à tarde. Depois eu já deleto tudo.

Essas últimas turnês do Shades têm sido muito boas. Já estamos tocando essas músicas há bastante tempo, então é como um impulso final, sabe? Tipo: beleza, vamos tocar essas agora e depois focar totalmente no disco novo. Também é a última chance de tocar algumas músicas que a gente não vinha tocando há um tempo, inclusive faixas do Echoes of the Soul que estavam mais abandonadas. A gente pensou: vamos colocar de volta no setlist, já que é a última turnê dessa fase.

Ainda tem uma sequência importante na Europa, entre junho e agosto, e aí sim eu acredito que essa turnê do disco se encerra de vez.

Os shows finais no Brasil serão no Hangar 110 e no Bangers Open Air. Existe um peso especial por serem datas em casa?

Estou achando muito massa que, nessa última sequência de shows no Brasil, a gente teve a oportunidade de tocar no Bangers, que é um festival grande. Como são as últimas datas no Brasil com esse disco, foi importante conseguir uma vaga forte assim para divulgar esse final de turnê.

Além do Bangers, também tivemos o festival em Friburgo, que foi muito bom, e ainda teremos esse show do Hangar. Talvez não sejam tantas datas no Brasil, mas são datas muito boas para fechar esse ciclo.

Também existe a empolgação do público pela oficialização da nova integrante. A gente já tinha tocado com a Victoria antes, então não foi exatamente uma surpresa, mas a confirmação dela trouxe um novo olhar para a banda, inclusive de pessoas que ainda não conheciam o trabalho.

Por que decidiram efetivar a Vitória agora, nessa reta final da turnê?

A gente já queria há algum tempo ter uma nova integrante na banda. Desta vez, ao invés de simplesmente chamar alguém direto, resolvemos fazer diferente: testar em turnê, testar em várias situações e depois decidir.

Tecnicamente, muitas pessoas poderiam assumir o posto. Tivemos músicos testados até mesmo pela internet. Mas o que estávamos procurando ia muito além da parte técnica. Queríamos alguém que agregasse nas composições, alguém com background no death metal e experiência na cena.

A Victoria já entrou contribuindo criativamente. Ela compôs, mandou ideias, e a gente percebeu que aquilo combinava muito com a banda. Isso foi a chave final para efetivá-la.

Então deu tempo dela conseguir colocar o DNA dela no próximo álbum?

Sim. Embora tenha sido oficializada agora, ela já vinha participando desse processo há algum tempo. Durante essa fase de testes, ela já estava compondo com a gente.

Quando ela mandou algumas composições, a reação foi imediata: “isso aqui combina”. Foi aí que entendemos que era o momento certo para efetivar. Então, sim, deu tempo de ela deixar a marca dela no disco.

É, se teve essa química, é melhor não perder a oportunidade. Você pode contar em que estágio está o próximo álbum?

A gente já tem quase o disco todo. Talvez mais um mês para terminar a composição e mais uns dois meses para acertar todos os detalhes. As demos principais da maioria das músicas já estão prontas. O maior desafio é realmente encontrar tempo, porque estamos sempre em turnê. Nos intervalos entre as datas, a ideia é finalizar tudo para conseguir gravar ainda este ano.

O lançamento, muito provavelmente, fica para o ano que vem, porque depois da gravação ainda existe todo o processo de produção, prensagem e lançamento.

Foto: Lucas Shtorache

Então a ideia é entrar em estúdio após os shows finais na Europa?

Exatamente. Talvez um pouco depois, para dar tempo de colocar tudo em ordem e também descansar o corpo após a turnê. Mas o plano é esse: finalizar os shows, organizar tudo e partir para a gravação.

Existe uma ligação enorme de vocês e o Bangers. O show no Bangers terá algo especial?

Sim. Como é um show focado nos dois últimos discos, a gente mudou o setlist em comparação ao que vinha fazendo até agora.

Estamos trazendo algumas músicas que fazia muito tempo que não tocávamos, faixas que a gente achou que talvez nunca mais voltassem ao repertório. Como é a última oportunidade de tocar esse material, resolvemos aproveitar.

Tem como dar um spoiler?

Dá sim. Uma das músicas é “I Resign”, que voltou ao set. Fazia muito tempo que eu não tocava essa música, precisei até assistir ao meu próprio playthrough para lembrar como era. Ainda bem que tinha vídeo, pois eu já tinha esquecido.

E além da Crypta você tem realizado sonhos, né? Como foi participar da homenagem ao Joey Jordison?

Foi uma das coisas mais importantes que já me convidaram para fazer na vida, pelo significado que teve.

A ideia partiu das irmãs dele, que queriam lançar o último disco gravado pelo Joey com o VIMIC. Elas convidaram bateristas que foram amigos dele ou que, de alguma forma, fizessem sentido para o projeto.

Eu fui como fã. Para mim foi incrível. Toquei a última música do set, “She Sees Everything”, usei a bateria do Joey, tive contato com a máscara clássica do Slipknot e com a roupa da era Iowa. Conheci a família dele, o pai, as irmãs e outros músicos importantes. Foi um momento extremamente emocionante.

E além disso teve também a turnê do Tribulation. Como foi essa experiência?

Eu sempre fui muito fã da Tribulation, então quando recebi o convite fiquei muito feliz. Foi uma experiência incrível, tanto como baterista quanto como fã. Tive cerca de um mês para decorar tudo, tocar com tracks, metrônomo e me adaptar a uma dinâmica de palco completamente diferente da Crypta.

Fui para a Suécia fazer um ensaio rápido com eles e depois já seguimos para os shows. Foi intenso, mas uma experiência maravilhosa.

Vocês são uma banda que toca muito internacionalmente, mas tem o outro lado da moeda também, né? Vocês já tiveram até um trailer revirado por um furacão. Existe alguma história de bastidor que mostre esse lado menos glamouroso das turnês?

Tem muita coisa, porque glamour é justamente o que menos acontece. Uma das últimas experiências mais traumáticas foi em Seattle. O banheiro da casa de shows era inacreditável. A banheira parecia ter restos de unha e cabelo de dezenas de músicos que passaram por ali. A água não descia, então você ligava o chuveiro e a água já vinha com tudo aquilo grudando na perna.

Nosso roadie ainda disse que, enquanto eu tomava banho, estava pingando no primeiro andar, onde ficava o palco. Então não parecia ser exatamente o lugar mais seguro do mundo. Mas estrada é isso mesmo, faz parte da vida de turnê.