Após tocar Brio ao vivo ano passado no Bar Alto para fãs selecionados, o novo trabalho do Rancore chega pelo selo Balaclava como um dos lançamentos mais densos e significativos da carreira da banda. Longe de soar como um simples retorno, o disco assume o papel de reinvenção, equilibrando a urgência do hardcore com uma abordagem mais ampla e madura.
Há um senso de continuidade, mas também de ruptura. Seria muito fácil a banda se apoiar nos sucessos do passado, mas o novo trabalho se mostra mais focado em redefinir o próprio caminho após anos de hiato, afinal são 15 anos desde Seiva. A sonoridade pós punk dos anos 80 é a grande tônica do alto, que passa também por influências do punk nacional 77 e até música eletrônica e hinos xamânicos.
A sonoridade e diversidade acompanha essa transformação. “Brio” expande o alcance do Rancore no mundo do hardcore com camadas melódicas e atmosferas mais elaboradas, criando um álbum que transita entre a agressividade e momentos mais introspectivos. Há um cuidado evidente na construção dos arranjos e na dinâmica das músicas, reforçando a ideia de maturidade artística. Essa nova fase também passa pela produção de Daniel Pampuri, nome que esteve envolvido em trabalhos de peso como o álbum Cowboy Carter, de Beyoncé, o que ajuda a dimensionar o salto técnico e estético presente no disco.
Esse direcionamento já vinha sendo sinalizado pela banda em apresentações recentes. A conexão com o público segue como elemento central, mas agora ancorada em um repertório novo que sustenta essa intensidade ao vivo. Não se trata de revisitar o passado, mas de construir um novo capítulo com base em tudo o que a banda representa dentro do hardcore nacional.
Em entrevista após participação no festival Arena Hardcore em São Paulo no mês passado, Teco Martins detalhou o processo de construção do disco, começando pela escolha do nome. “Até os 45 do segundo tempo, o álbum ia se chamar ‘Sexo Selvagem’, que é uma música do disco”. Mas havia um incômodo interno, pelo risco de fechar portas ou gerar censura”, contou. A virada veio a partir de uma sugestão próxima ao círculo da banda. “Quando surgiu ‘Brio’, fez sentido na hora. É uma palavra forte, pouco comum, e representa o que a gente mais precisou para manter o Rancore vivo por 25 anos. Nomear tem força, tem peso, e todo mundo comprou a ideia.”, confessa o vocalista”
A incerteza sobre o futuro também aparece de forma transparente. “A vida do artista é cheia de altos e baixos. Às vezes dá vontade de largar tudo, é intenso demais. Mas quando a gente faz um show assim, recarrega e faz valer a pena”, afirmou. Sem promessas, o foco está no presente. “A gente voltou, fez um álbum, está construindo essa turnê. Não sabemos até quando vai, então é aproveitar agora.” Ainda assim, a entrega permanece inegociável. “Um show do Rancore não dá para fazer pela metade.”
O lançamento de “Brio” está chegando e sei que não foi fácil escolher o nome e ele quase foi nomeado como Sexo Selvagem. Como foi esse processo até chegar ao resultado final?
Teco Martins – Até os 45 do segundo tempo, o disco ia se chamar “Sexo Selvagem”, que é uma música do álbum. Mas tinha um integrante que se incomodava com esse nome, achava que poderia fechar portas, gerar censura. Aí o Gabriel, que era fã e hoje é um dos meus melhores amigos e trabalha com a banda, sugeriu “Brio”, que é uma das primeiras palavras da primeira música do disco. Na hora fez sentido. É uma palavra forte, não tão comum, e representa o que a gente mais precisou para manter o Rancore vivo por 25 anos. Nomear algo tem força, tem peso. Quando surgiu, todo mundo concordou e hoje estamos muito felizes.
Vocês deixaram uma mensagem enigmática nas redes sociais sobre o futuro da banda. O público ficou preocupado. Como você vê esse momento?
Teco Martins – Não dá para saber, cara. Manter uma banda é muito intenso, inconstante, desafiador. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir mais para o meio do mato ainda. Mas quando a gente faz um show como o de hoje, é um respiro, vale a pena. A gente recarrega. A vida do artista é cheia de altos e baixos. Então, sinceramente, não sei até quando isso vai durar. Pode durar bastante, mas também pode não durar. Por isso, aproveitem. A banda voltou, fez um álbum, está em turnê. Nosso foco agora é trabalhar esse disco. O que vem depois é um mistério. É possível que dure muito, mas é improvável.
Alexandre Nunes – A gente já ouviu que deveria compor mais, então as coisas estão acontecendo. Estamos construindo essa fase desde que voltamos, ainda é recente. O primeiro passo é trabalhar “Brio”, fazer essa turnê acontecer. Depois a gente vê. Estamos abertos, mas sem garantias.
Há uma percepção muito forte de conexão com o público, quase como algo espiritual. Você sente isso também?
Teco Martins – Eu não iria pela parte espiritual de igreja ou discípulos. A gente não quer isso. Queremos uma troca sincera. No hardcore é tudo muito real, te pega pela alma. Quando subimos no palco, estamos dispostos a tudo, não dá para fazer um show do Rancore pela metade. É muito intenso. Eu acredito sim em uma experiência transcendental. A música é só a ponta do iceberg, tem muita coisa ali que vem do coração.