Era difícil não notar a mudança de densidade que a simples presença de Mano Brown provocava na Arena Heineken, no C6 Festival, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no começo da noite de sábado (23). O público, que foi chegando aos poucos e em cima da hora, transformou o espaço assim que o homem pisou no palco. Acompanhado por uma extensa banda de apoio e pela ilustre presença do rapper Rincon Sapiência, Brown acionou uma reação imediata de flashes, celulares erguidos e olhares atentos. Um registro que já se repetiu inúmeras vezes, mas que nunca perde o impacto. Naquele momento, ficou nítido que sua figura ultrapassava o status de mera atração de festival, era a partilha viva de uma história sobre território, linguagem e diversidade.



Há artistas que precisam conquistar a plateia a cada acorde, Brown parece partir de outro lugar. Antes mesmo de qualquer grande gesto ou palavra, existe uma espécie de respeito institucionalizado e tácito no ar.
Logo cedo, ele se apoiou ao microfone para conduzir Dance, Dance, Dance, faixa emblemática do clássico moderno Boogie Naipe. O groove sofisticado e dançante que marcou essa fase solo de sua carreira dominou a apresentação. O momento funcionou como um respiro e, ao mesmo tempo, como uma afirmação política e estética dentro do sábado: uma lembrança contundente de que, em um festival marcado por forte presença internacional e pela linha editorial indie, a presença de Brown desloca o eixo da programação. Ele não ocupa apenas uma linha no line-up. Mano Brown é um acontecimento em si.
Aliás, a surpresa durante o show ficou para o anúncio que Brown fez já no fim da apresentação: em breve “tem disco novo” do Racionais MCs. Ainda sem título definido, o sucessor de Cores e Valores (2014) deve ser lançado no segundo semestre deste ano.