Se você tem acompanhado as playlists de música preta ou os algoritmos de streaming nos últimos dois anos, as chances de ter esbarrado no falsete hipnotizante de Jalen Ngonda são gigantescas. O cantor e compositor norte-americano, criado em Maryland e radicado no Reino Unido, transformou seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), em um verdadeiro passaporte para o topo da nova cena soul mundial. Emplacando o hit viral If You Don’t Want My Love, o artista rapidamente deixou as pequenas salas de show para trás, carimbando aparições em programas icônicos da TV britânica e americana, como o The Late Show with Stephen Colbert.
Agora, Jalen Ngonda se prepara para o teste mais desafiador na carreira de qualquer fenômeno recente: o segundo disco, Doctrine of Love, pela lendária gravadora Daptone Records, que chegou hoje às plataformas digitais. O trabalho promete consolidar o cantor não apenas como um intérprete talentoso, mas como um canal contemporâneo para os anos de ouro da música negra.
Longe de ser um mero exercício de nostalgia ou um “clichê vintage”, o novo trabalho mergulha de Jalen Ngonda fundo na virada dos anos 1960 para os 1970, costurando a urgência do pop e do R&B modernos com a elegância de arranjos que remetem aos grandes tempos da Motown, da Stax e do Philly soul.
A maturidade sonora apresentada nos singles recentes, como a suingada Hang it On The Shelf, reflete uma rotina intensa de quem passou os últimos meses cruzando continentes. A vida na estrada, inclusive, rendeu frutos que vão muito além de sua discografia solo. Apontado pela crítica como uma voz “uma em uma geração”, Jalen Ngonda recentemente chamou a atenção de ninguém menos que Damon Albarn, que o convocou para emprestar suas cordas vocais à faixa The Mountain, no mais recente e elogiado álbum do Gorillaz.
Essa bagagem acumulada de Jalen Ngonda se traduz em um álbum feito com mais autonomia. Enquanto a estreia foi lapidada quase inteiramente em estúdio ao lado dos produtores de Nova York Vince Chiarito e Michael Buckley, quando mal se conheciam, Doctrine of Love começou a ganhar vida de forma solitária em hotéis ou em parcerias no Reino Unido. O resultado é um repertório que flerta discretamente com nuances de folk rock, doo-wop e a crueza do rock ‘n’ roll primitivo de Nova Orleans dos anos 1950, expandindo os limites daquilo que o público costuma rotular simplesmente como “soul music”.
O Blog n’ Roll bateu um papo exclusivo com Jalen Ngonda às vésperas desse grande lançamento. No meio de uma concorrida agenda europeia, que inclui arenas lotadas ao lado de Olivia Dean e palcos principais de festivais como o Mad Cool e o North Sea Jazz, o músico destrinchou seu processo criativo, rechaçou os rótulos pesados da imprensa, falou sobre a liberdade que busca como artista e mandou um recado direto para os fãs brasileiros, garantindo que a turnê deve desembarcar em solo sul-americano muito em breve. Confira a entrevista na íntegra abaixo.
Jalen Ngonda, parabéns pelo novo trabalho. O seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), teve uma recepção estrondosa. Como foi entrar em estúdio para criar o Doctrine of Love após todo esse sucesso? Você sentiu algum tipo de pressão ou o processo fluiu com mais naturalidade?
Fluiu naturalmente. Para ser bem sincero com você, o sucesso (do primeiro disco) se resumiu a fazer shows. Eu acho que se esse sucesso significasse ir a várias cerimônias de premiação e coisas do tipo, eu provavelmente teria me sentido de um jeito diferente. Mas estava apenas tocando em tantos shows após o lançamento do álbum… Então, não senti nenhuma pressão para fazer o Doctrine of Love. Só escrevi algumas músicas, é simples assim.
O release do álbum menciona que Doctrine of Love se situa cronologicamente no final dos anos 1960. O que especificamente nessa virada de década te fascina tanto musicalmente, e como você buscou traduzir essa atmosfera nas novas composições?
Sendo o mais simples possível: eu apenas amo essa música. E eu não sei o porquê, não entendo por que meu cérebro é atraído por esse som, mas ele é. Quando fizemos o primeiro álbum, estávamos na época da covid. E havia aquela vibe de… naquele momento, nós estávamos ouvindo muito, e quando digo “nós”, me refiro aos produtores do álbum com quem estava no estúdio, havia muito Philly soul tocando por ali. Estávamos ouvindo muito daquele Marvin Gaye do início dos anos 70, aquele som de arranjos muito grandes e luxuosos de Tom Bell, Gamble & Huff, Curtis Mayfield… Tinha muito disso rolando na sala. E acho que a música refletiu isso. Tirando a faixa So Glad I Found You, que tem um som mais de meados dos anos 60, acho que estávamos todos sentindo aquele trem dos anos 70.
Para complementar, grande parte do primeiro álbum foi escrita com eles. Acho que houve apenas duas músicas que escrevi com outras pessoas, o resto do álbum foi escrito com o Mike (Buckley) e o Vince (Chiarito). Já desta vez, passei muito mais tempo em turnê e muito mais tempo de volta ao Reino Unido, onde escrevi sozinho ou com outras pessoas que tinham influências de outras coisas, como indie rock ou algo assim.
E quando escrevo sozinho, muito do que faço tem um estilo mais voltado para o início ou meados dos anos 60, não necessariamente todas as músicas, claro. Havia muitas canções que foram para o segundo álbum que eu meio que já trouxe prontas. E acho que, conforme a Daptone e os produtores foram me conhecendo melhor, porque mal nos conhecíamos quando escrevemos o primeiro álbum, tínhamos acabado de nos conhecer, eles perceberam que gostava mais dos sons mais antigos. Então, eles meio que defenderam e me apoiaram um pouco mais nesse som. É por isso que o disco tem um som ligeiramente mais antigo. Mas quem sabe? Talvez o terceiro álbum soe como os anos 80. Nós não sabemos, simplesmente não sabemos.
Além do soul e do funk tradicionais, o novo disco traz nuances de folk rock, doo-wop e daquele rock ’n’ roll primitivo de Nova Orleans dos anos 1950. Como foi o processo de reunir esses estilos tão distintos sem perder a sua identidade central?
Bem, acho que isso é apenas o que estava ouvindo e tenho ouvido enquanto fazia o segundo álbum. Acho que as influências de folk rock aparecem mais no aspecto lírico do que na música em si, até porque não há violões acústicos acontecendo nesse álbum, exceto na faixa Love Is Gone.
E sobre o som doo-wop, sim… Quer dizer, Good Good Love tem um pouco de… na verdade, não é bem doo-wop, acho que é mais rhythm and blues. Mais soul do que doo-wop, porque não há harmonias correndo ao longo da faixa, na verdade. Mas só posso ser eu mesmo quando se trata de identidade. Então, acho que mesmo se fosse fazer algo diferente, ainda seria eu mesmo. Vou dar o meu melhor para que a minha música continue soando como conforme o tempo passa.
Você recentemente colaborou com o Gorillaz, do Damon Albarn, na faixa The Mountain. Como foi essa experiência e de que maneira trabalhar com um projeto tão disruptivo quanto o Gorillaz influenciou a sua visão artística atual?
Bem, foi uma experiência muito agradável. Foi ótimo trabalhar com o Damon Albarn. Sabe, quando entrei na sala, a música já estava praticamente pronta. Eu não tive nenhuma participação na parte da composição. Ele me deu algumas letras e apenas disse: “apenas cante junto com essa faixa e veja o que sai”. Então, fiz alguns takes das letras que ele me deu e ele me deu algumas direções. Mas não, não conheci nenhum dos outros cantores do disco. Ele fez aquelas sessões em momentos diferentes. Então nunca conheci o Asha Putli. Nunca conheci… quem mais está naquele disco? Bem, definitivamente não conheci o Bobby Womack, ele aparece nos vocais (via arquivo/samples). Acho que são apenas várias sessões diferentes que ele compilou na música, e sou apenas uma das vozes. Mas foi uma experiência adorável.
Sua voz é frequentemente descrita como “uma em uma geração”. Quem foram as suas maiores referências vocais na infância e quem você ouve hoje em dia que te inspira a continuar evoluindo?
Olha, fico muito lisonjeado com essa afirmação. Para começar, não sei se é “uma em uma geração”, e não acho que existam muitos cantores que possam ser rotulados assim. Mas sim, crescendo, minhas referências foram David Ruffin, Sam Cooke, Marvin Gaye, Aretha Franklin, Levi Stubbs do The Four Tops… Sim, muitos cantores. E hoje em dia, são cantores que descobri recentemente, tipo deep cuts, sabe? Discos de soul difíceis de encontrar. Tem uma música que venho ouvindo muito de uma cantora chamada Terry Bryan, que é uma cantora de soul desconhecida dos anos 60. Isso tem influenciado a maneira como tenho cantado nos últimos shows.
A imprensa e os críticos já te apontam como um dos grandes porta-estandartes para o futuro da música soul. Como você enxerga o seu papel dentro dessa linhagem histórica do gênero?
Bem, estaria em apuros se mudasse o meu som, não é? (risos) Eu tento não focar nisso porque, como artista, acho que é bastante inevitável que eu provavelmente mude e evolua para outra coisa, até porque não sabemos qual gênero será inventado no futuro. Não sabemos para onde a música vai. Então, não faço música pensando nessas frases e afirmações. Eu apenas me expresso.
Os escritores e jornalistas dizem uma coisa, mas não me vejo assim, me vejo apenas como um artista. Fico até com medo de, se um dia eu lançar uma música folk, as pessoas falarem: “por que ele fez isso? Ele deveria ser a voz da soul music”. Eu não quero ficar preso em uma caixa chamada soul. Quero me sentir livre como artista para explorar outras coisas, e acredito que isso vai acontecer e já acontece.
Não que isso já tenha sido lançado ou algo assim, mas aprecio esse tipo de amor e carinho, mas, ao mesmo tempo, saibam que eu não vou ser sempre o mesmo. Eu preciso de liberdade.
Você repetiu a parceria com os produtores e colaboradores Vince Chiarito e Michael Buckley neste álbum. Qual é o segredo dessa química de estúdio e como eles te ajudam a moldar o som da sua música?
Bem, essa química evoluiu. Sabe, nós não apenas escrevemos e produzimos discos juntos, nós também tocamos juntos e fomos a shows juntos. Houve um período em que eu morei em Nova York por cerca de seis meses, entre o final de 2021 e o início de 2022. Então, isso veio de nos conhecermos pessoalmente, musicalmente, e de cada um de nós evoluir como compositores individualmente. Mas sim, não escrevo com eles desde o final de 2024. Então, é interessante ver como escreveríamos agora. Tenho certeza de que seria algo parecido, mas levou tempo para se desenvolver.
E o single Hang it On The Shelf já mostra um groove absurdo e atemporal. Pode nos contar um pouco sobre a história por trás dessa faixa e como ela nasceu?
Essa foi escrita em Londres. Escrevi com um cara chamado Andrew e outro chamado Owen. Não foi a primeira vez que escrevi com o Andrew, na verdade, mas passei uma semana compondo músicas com ele. Nós escrevemos uma música com um produtor, depois outra com outros produtores, e Hang it On The Shelf foi a segunda que fizemos. Ela nasceu muito rápido. Nós estávamos nos revezando sobre o que tocar no piano, os acordes. Acho que eu criei os acordes do verso, ele veio com a primeira metade dos acordes… Enfim, não quero entrar tão fundo nisso, mas juntamos os acordes, escrevi a letra em cerca de 10 minutos e depois gravamos a demo. Acho que escrevemos e demonstramos essa música no espaço de meia hora. E passamos o resto do dia trabalhando em outra música que nunca viu a luz do dia (risos). Mas sim, essa música nasceu muito rápido e é uma das minhas favoritas do álbum.
Existe o plano ou o desejo de trazer a turnê de Doctrine of Love para o Brasil em breve? Deixe um recado para os seus fãs brasileiros, Jalen Ngonda.
Olá, Brasil! Bem, eu tenho toda a intenção de levar a minha música para aí. Minha música já está na América do Sul, tenho certeza de que está tocando nas rádios por aí. Para as pessoas lindas do Brasil: eu estarei no seu país tocando música muito em breve. Realmente espero por isso e estou contando os dias.