A multi-instrumentista e artista visual Kelsey Lu está de volta com seu mais novo e aguardado projeto de estúdio, So Help Me God. Conhecida pela atmosfera suntuosa, devocional e orquestral de sua estreia com Blood, a artista agora convida o público a testemunhar uma virada radical em sua jornada criativa. Longe de ser um manifesto de cura pacífica, o novo trabalho é descrito como um verdadeiro acerto de contas com o passado, onde Lu decide caminhar pelas próprias sombras para resgatar a pureza de sua arte.
O estopim para essa transformação profunda aconteceu em 2020, quando o violoncelo que acompanhava a artista há mais de duas décadas rachou em suas mãos logo no início da pandemia. Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, Kelsey Lu revelou que o incidente simbólico a mergulhou em um luto profundo, forçando-a a abandonar sua zona de conforto e a reconstruir sua identidade musical longe do instrumento que antes lhe servia como escudo. O resultado é uma produção multifacetada, moldada por anos de isolamento, superação e reconexão espiritual.
Além das barreiras sonoras, o processo criativo do álbum transbordou para as artes plásticas. Kelsey Lu explicou como o tarô e desenhos em larga escala feitos em seu ateliê servem para que ela decifre as histórias visuais de suas composições. Essa fusão de linguagens já ganhou vida em performances imersivas na Europa, onde o público participou ativamente da criação de obras de arte sob o chão de palácios históricos, um conceito de “escavação de si mesma” que ela planeja estender para suas futuras apresentações ao vivo.
Durante a conversa, a artista não escondeu o entusiasmo ao falar sobre o Brasil e o desejo de trazer a nova turnê ao país. Demonstrando grande admiração pela cultura local, Kelsey Lu revelou considerar o português um dos idiomas mais bonitos e rítmicos do mundo, destacando o “fogo” e a musicalidade natural do povo brasileiro. Para os fãs que aguardam ansiosamente por sua estreia em solo nacional, o aceno da cantora acende a esperança de uma performance histórica em breve.
So Help Me God já está disponível em todas as plataformas digitais. Você pode conferir a entrevista completa com Kelsey Lu abaixo.
Seus brincos são lindos, combina com o esse desenho aqui em cima.
Sim, lindo! Eu pratico tarô. Então, quando estou no processo de tentar entender e descobrir qual é a história de cada música, quando estou tentando decifrar as histórias visuais e tudo mais, meio que me baseio no que está aparecendo nas minhas leituras diárias de tarô. Mas também escrevo as letras bem grandes.
Eu meio que as deixo na minha parede por um tempo para, de certa forma, queimarem no meu subconsciente. Assim consigo tentar entender exatamente sobre o que estava falando, porque muitas vezes no meu processo de escrita e gravação, não sei necessariamente com quem ou sobre o que estou falando, ou ao que estou me referindo. Então preciso passar um tempo meditando sobre isso depois para entender melhor. E este é mais ou menos o meu processo.
E com Portrait of a Lady on Fire, eu continuava tirando o Ás de Espadas. Então este é o meu desenho baseado nisso. E depois esse tipo de coração e fogo no centro.
É lindo. É algo que você desenvolveu sozinha ou algo que aprendeu?
Sim, é algo que desenvolvi por conta própria. Na verdade, tenho uma prática de desenho desde pequena. Meu pai é retratista. Então cresci nesse ambiente, e o ateliê dele ficava em casa.
Por isso, cresci muito perto de pastel a óleo… ele trabalha com pastel a óleo, carvão e todo esse tipo de coisa. Cresci muito em torno disso e tive uma prática secreta por muito tempo. E isso tem sido, sim, a minha prática no que diz respeito à composição. Mas isso geralmente vem depois que escrevi uma música, ou até mesmo no meio da escrita, quando preciso tentar descobrir como será o resto dela.
Gosto de fazer as coisas em grande escala. Assim consigo realmente sentir a emoção, especialmente enquanto estou escrevendo, sabe? Porque, por exemplo, esta aqui, Running the Pain, a escrita, o estilo, o sentimento e o movimento através das linhas das palavras são tão diferentes do que são nesta outra. Então, sim.
Sim. E você pensa em usar isso nos seus shows ou algo assim?
Sim, já pensei sobre isso. Fiz uma performance em Veneza há algumas semanas chamada Penumbra. E foi uma instalação em escala realmente grande, onde preenchi todo o espaço, o último andar deste palazzo, com terra. E debaixo da terra, coloquei esses rolos grandes de papel. Depois, espalhei pedaços de carvão e também um pouco de pó de carvão.
E esse dançarino com quem colaboro, o Josh Johnson… ele e eu fizemos esses movimentos, esses diferentes tipos de movimentos sobre isso enquanto ouvíamos o álbum. Depois cobri com camadas finas de terra, mais um pouco de carvão e mais terra. Então, todos que estavam assistindo à performance também foram participantes ativos na criação do desenho que surgiu depois.
E após a performance, eu escavei todos os desenhos e eles estão incríveis. Estão com uma aparência tão, tão… são realmente muito especiais. Vou voltar lá no começo de julho para fazer outra abertura e exibição das obras no palazzo.
Mas acho que é algo que eu adoraria fazer porque, sabe, com o álbum em si, é uma profunda exploração e escavação de si mesma. E também um esforço para se conectar consigo mesma, mas também com o mundo. Acho que, enquanto fazia isso, percebi quantas paredes de medo construí ao longo do tempo.
Isso como resultado da maneira como fui criada, que é temer o mundo e temer as pessoas. E, sabe, a música para mim sempre foi essa espécie de salvadora e uma forma de me conectar com as pessoas. Ao longo da minha jornada lançando música e me conectando com pessoas pelo mundo todo… sabe, quando lancei meu último álbum, houve muitas coisas vindas tanto da indústria quanto da gestão que meio que envenenaram essa fonte.
E então construí todas essas novas paredes de medo. Os últimos sete anos têm sido como desmontar isso lentamente e me conectar com a fonte novamente, me conectar com a pureza de criar música, fazer arte e me conectar com as pessoas, me conectar com amigos, me reconectar com fãs, o que tem sido realmente muito lindo. Conforme comecei a lançar músicas do álbum, tem parecido algo sagrado.
Sabe, quero dizer, a música é realmente sagrada, e meio que integrar o poder, o propósito e a paixão de fazer música enquanto faço o lançamento… isso tem sido muito especial. E, sabe, acho que sim, ser capaz de integrar essas diferentes práticas em performances ao vivo é definitivamente um objetivo, algo que eu adoraria fazer.
É incrível ouvir sobre o seu processo, como você se envolve com todos os diferentes tipos de arte. So Help Me God não é um disco de cura, mas sim um acerto de contas. Considerando que a sua estreia, Blood, foi muito exuberante, orquestral e devocional, qual foi o processo psicológico e artístico por trás da decisão de sentar no escuro e encarar essas partes mais sombrias de si mesma para este novo trabalho?
Sim, acho que eu não tinha outra escolha, porque sinto que se eu não fizesse isso… sim, acho que se eu não fizesse, eu simplesmente não estaria aqui. Acho que não estaria conversando com você agora se não tivesse entrado na escuridão e encarado… sim, encarado as sombras. Acho que ou eu estaria falando com você, mas talvez estivesse, sei lá, completamente pirada ou precisando estar sob o efeito de substâncias de alguma forma que me permitisse continuar, ou eu simplesmente não estaria mais aqui.
Houve muitos momentos durante a criação deste álbum em que eu não queria mais viver porque me sentia muito sem esperança. E as coisas pareciam um pouco fora de controle. Meu amor pela vida e paixão pela música… eu não conseguia mais sentir.
Então, sim, tive que entrar na escuridão do porquê disso e o que isso… sabe, qual é a fonte desses sentimentos, e sentar com o desconforto de tudo aquilo. E por isso foi necessário. Acho que, sabe, claro que houve cura, mas foi um acerto de contas com as decisões que tomei na minha carreira musical e que meio que me trouxeram a esse lugar de desconfiança.
Sabe, eu tomei a decisão. Eu tomei todas essas decisões. Ninguém me forçou a fazer isso. Sabe, em muitos momentos, acho que surgiram sinais de alerta. Mas eu simplesmente pensava: “Vou ignorar isso, sabe? Vou conseguir o que quero disso aqui”. Mas acho que sou um pouco profunda demais, profunda demais na minha verdade e na verdade das coisas para conseguir ignorar isso.
E acho também que havia certas coisas às quais eu ainda estava amarrada no meu passado, e pessoas, e crenças nas quais fui criada, às quais eu estava presa e que realmente precisei cortar os laços para poder viver de verdade a minha verdade, sem concessões, ou para ter certeza de que sou eu quem quer o que eu quero, e que isso não está vindo de nenhum outro lugar a não ser de mim mesma.
Falando em desconforto, em 2020, logo no início da pandemia, o seu violoncelo de estimação de mais de 20 anos rachou nas suas mãos. Olhando para trás, você realmente vê esse incidente como o marco zero simbólico para o que o álbum viria a se tornar? E como foi reconstruir a sua identidade musical longe do seu instrumento mais antigo?
Sim, aquilo foi uma loucura. Foi definitivamente simbólico. Quer dizer, acho que foi simbólico porque, naquele momento, entrei em um estado de luto, um luto profundo. Sabe, quando aquele violoncelo quebrou, eu não consegui levantar da cama por três dias. E isso meio que definiu o rumo de sete anos de luto. Sabe, acho que morri de várias maneiras.
E foi… eu sinto que os últimos sete anos foram como um cortejo fúnebre, e depois um casamento, e depois me casar comigo mesma, e depois me matar, morrer, tipo… e depois me casar comigo mesma novamente. E, sabe, acho que o violoncelo para mim também era como um escudo, era como… uma proteção, algo que era tão familiar. E eu tive que me desprender daquele conforto.
E me lembro de que, em um certo momento, eu estava pensando em como iria escrever essas músicas. E eu estava tão acostumada a escrever, a começar o processo de composição no violoncelo com o meu pedal de loop. E eu pensei: “Não consigo fazer isso agora”. E isso meio que me forçou a focar nas minhas outras habilidades de produção, a me afastar daquilo e tentar algo diferente. E, sabe, foi desconfortável, porque é algo que você conhece e com o qual tem familiaridade. Mas é meio que dar um passo em direção ao desconhecido. E era importante fazer isso.
E há planos de fazer shows no Brasil para promover o So Help Me God?
Ah, meu Deus, espero que sim! Eu adoraria.
Você é familiarizada com a música brasileira?
Sim, sou. Acho que o português é uma das línguas mais bonitas do mundo. Eu realmente acho. É, hum… tem tanto fogo.
É, nós falamos como se estivéssemos cantando.
Sim, é verdade. É muito rítmico. Mas sim, eu adoraria. Seria incrível.