Jack White nunca foi um artista preocupado em seguir tendências. Desde o fim do White Stripes, sua obsessão sempre foi outra: provar que guitarra, amplificador valvulado e um punhado de riffs ainda são suficientes para fazer um grande disco de rock. Em Frozen Charlotte, seu sétimo álbum solo, ele reforça essa convicção sem pedir licença. O resultado não é revolucionário, mas também está longe de soar acomodado. É um disco que vive da tensão, do improviso e da sensação de que tudo pode desmoronar a qualquer momento.
Quem esperava algo na linha experimental de Boarding House Reach pode estranhar a direção escolhida. Assim como aconteceu em No Name, Jack White aposta novamente em um rock cru, pesado e direto, mas agora com uma produção mais encorpada. E eu gosto deste lado dele.
Como parte da banda, Patrick Keeler, Dominic Davis e Bobby Emmett não funcionam apenas como músicos de apoio. Eles participaram ativamente da construção das músicas, dando ao álbum uma energia de banda tocando ao vivo, sem excessos de produção ou polimento.
A abertura com “G.O.D. and the Broken Ribs” já deixa claro que o álbum não pretende ser burocrático. White mistura referências de blues, garage rock e um senso quase teatral de caos para criar uma atmosfera que atravessa praticamente todo o trabalho. Em seguida, riffs explosivos conduzem faixas como “Dollar Bill”, a minha favorita, “Thick As Thieves”, “Making Contact” e “I Can’t Believe What I’m Hearing”, mostrando um guitarrista que continua encontrando novas formas de extrair personalidade de elementos que conhece há décadas. O disco soa intenso, sujo e divertido, como se tivesse sido gravado com a urgência de quem ainda tem algo a provar.
Ao mesmo tempo, Frozen Charlotte também evidencia algumas limitações. Na reta final, a insistência na mesma fórmula faz algumas músicas perderem impacto, quase como um repeat voltando ao começo do álbum. A falta de variedade me deixou a sensação de que o álbum era um pouco mais longo do que realmente é, principalmente quando comparado ao dinamismo de No Name. Não chega a comprometer a experiência, mas reduz aquela sensação de surpresa que sempre acompanhou os melhores trabalhos de Jack White.
Ainda assim, há algo admirável na forma como Jack White encara sua carreira em 2026. Enquanto muitos artistas buscam desesperadamente se adaptar aos algoritmos ou modernizar o próprio som, ele segue suas regras. Não há participações inesperadas, experimentos eletrônicos ou concessões às tendências. Há apenas um músico completamente obcecado pelo rock, transformando blues, garage, glam e hard rock em um álbum intenso e honesto. Talvez essa seja justamente a maior qualidade de Frozen Charlotte: ele não tenta convencer ninguém de que o rock ainda está vivo. Apenas toca como se isso nunca tivesse deixado de ser verdade.