Entrevista | Moyses dos Santos – “A estrada ensina coisas que nenhuma escola consegue ensinar”

Entrevista | Moyses dos Santos – “A estrada ensina coisas que nenhuma escola consegue ensinar”

Depois de duas décadas construindo uma sólida carreira em Londres ao lado de artistas como Nile Rodgers, Janelle Monáe, Gregory Porter, Omar e Emeli Sandé, o baixista brasileiro Moyses dos Santos inicia um novo capítulo com Maria, seu primeiro álbum solo. Inspirado pelas lembranças da infância e pela influência da mãe, que dá nome ao disco, o músico reúne maracatu, baião, samba, frevo, jazz, soul, funk e disco em um trabalho que conecta suas raízes nordestinas à cena contemporânea do jazz britânico.

O álbum ainda conta com participações de nomes de peso, como Arthur Verocai, Theo Croker e Lynda Dawn, e nasceu após uma reconexão do músico com a cultura brasileira durante uma turnê ao lado do Azymuth e do baterista Ivan “Mamão” Conti. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Moyses dos Santos fala sobre esse reencontro com a música brasileira, os bastidores da criação de Maria e a experiência de construir uma carreira internacional sem perder a identidade brasileira.

Você comentou que a turnê com o Azymuth fez você se reconectar com a música brasileira. O que aconteceu durante essa experiência para despertar esse sentimento?

Foi uma experiência muito grande. Depois de quase 20 anos morando em Londres, tocando com muita gente daqui e também nos Estados Unidos, entre Londres, Los Angeles e Nova York, a música americana acabou tendo uma influência muito forte na minha vida. Em alguns momentos, a gente acaba deixando um pouco de lado de onde veio.

Sempre faço questão de dizer que o Brasil é um país impressionante musicalmente. A cultura, as pessoas, os ritmos… tudo isso faz parte de quem eu sou. Estava faltando alguma coisa e conhecer o Mamão foi muito importante nesse processo. Durante cerca de dois meses e meio de turnê, ele sempre dizia: “Você é brasileiro, não pode esquecer disso”. Não que eu tivesse esquecido, mas ele foi uma influência enorme. As histórias que contava e as conversas sobre os ritmos brasileiros me fizeram lembrar de tudo o que minha mãe me ensinava sobre partido alto, maracatu e tantos outros estilos.

A turnê com o Azymuth abriu essa porta para eu voltar às minhas origens e entender novamente quem eu sou musicalmente.

E em que momento você decidiu que esse álbum precisava existir?

Foi logo depois da turnê. Conversei com a gravadora e falei que queria fazer um disco que unisse o lado brasileiro com a cena do jazz britânico. Eu sentia que finalmente estava preparado para apresentar esse trabalho ao mundo.

Em uma jam session em São Paulo toquei uma música minha e pensei: “Esse álbum vai se chamar Maria“, que é o nome da minha mãe. A partir dali decidi que faria um disco totalmente conectado às minhas raízes brasileiras, porque esse é o lugar de onde eu vim. Acho muito bonito quando uma pessoa consegue voltar às próprias origens.

Às vezes a gente esquece o quanto a música brasileira é respeitada no mundo. Quando toquei nessa jam e senti a reação das pessoas, tive certeza de que esse álbum precisava existir.

Durante o processo de composição, teve algum ritmo brasileiro que você redescobriu?

O baião foi um deles, mas principalmente o partido alto. Como comecei tocando na igreja desde criança, o partido alto ainda era algo relativamente novo para mim. Toda vez que eu tentava tocar, errava alguma coisa. O Mamão sempre me explicava como funcionava.

Além da parte musical, tinham as histórias que ele contava sobre encontros com Fela Kuti, Jaco Pastorius e tantos outros músicos.

O próprio Félix Pastorius, filho do Jaco e amigo meu, sempre fala que o brasileiro tem melodia. Acho que precisamos olhar mais para a nossa própria música. Ela é realmente incrível.

Você foi para a Inglaterra para estudar, mas acabou largando tudo pela estrada. O que a estrada ensinou que nenhuma escola poderia ensinar?

Boa pergunta! Acho que a música é uma língua universal. Estudar, aprender teoria e ler partitura é importante, mas a estrada ensina coisas que nenhuma escola consegue ensinar.

Tocar todos os dias, conhecer repertórios diferentes, passar por estilos como jazz, soul, música brasileira. Isso forma qualquer músico.

Foi por isso que saí da faculdade. Quatro anos depois eu estava tocando com alguns dos meus próprios professores. Eles falavam: “Você aprendeu o groove na rua. Continua assim”.

E a lenda Arthur Verocai participa do álbum. Como surgiu esse convite?

E eu inda não conheci o Arthur pessoalmente, acredita? Mas espero que isso aconteça em breve.

Quem fez essa ponte foi a afilhada dele, com quem trabalhei. Eu falei que existia uma música em que seria um sonho ter a participação dele. Nem sabia se ele aceitaria, porque o álbum ainda nem tinha sido lançado.

Quando mandei a música, ele gostou e gravou os arranjos de cordas no Rio de Janeiro com uma orquestra. Quando recebi aquilo, pensei: “Agora essa música está pronta”.

Foi um momento inesquecível. Sou muito grato por ele ter aceitado participar.

O disco reúne músicos de diferentes partes do mundo. Como funciona esse processo de colaboração?

Muitas vezes começa com uma ideia muito clara na minha cabeça. Na música Brazilian Spirit, por exemplo, eu já imaginava o Theo Croker tocando.

Gravamos primeiro um trombonista fazendo uma referência ao solo que eu imaginava para o trompete. Depois mandei para o Theo.Ele ouviu, entrou no estúdio e gravou praticamente tudo em um take.

Depois voltou apenas para trocar uma única nota. Às vezes você precisa confiar na sua intuição. Nem sempre dá certo, mas, quando dá, é mágico.

Você sempre foi do time dos amplificadores. Continua assim?

Até duas semanas atrás, sim. Um amigo que trabalha comigo falou que eu precisava experimentar alguns pedais e montou um setup para mim.

Ainda estou aprendendo, vamos ver.

O baixo aparece bastante no álbum, mas nunca tenta roubar a cena. Isso foi pensado desde o início? Porque é um álbum de baixista sem que você assuma o protagonismo em prol da música.

Sim. Eu sempre começo compondo a partir de uma linha de baixo. Foi assim com Boa Viagem.

Depois vêm os acordes e o restante da música. Mas eu não queria fazer um disco para mostrar técnica. Slap e essas coisas fazem parte da rotina de qualquer baixista. Neste álbum eu queria algo mais sofisticado.

Queria que o saxofone aparecesse, que as percussões brasileiras tivessem destaque. O baixo seria o centro, mas sustentando tudo ao redor, sem precisar ficar chamando atenção.

Você já citou Michael Jackson como uma grande influência. Hoje, quem chama sua atenção dentro da música pop?

Acredita que o Randy Jackson virou um grande mentor para mim nos últimos anos? Também acompanho há muito tempo um cantor chamado Joseph Lawrence. Conheci o trabalho dele quando tinha apenas 18 anos.

Recentemente passamos dois meses gravando um álbum com o produtor Jeff Bhasker, e acho que esse menino vai muito longe.

Além disso, gosto muito de artistas do mainstream como The Weeknd, Harry Styles, RAYE e Sienna Spiro.

Também escuto muita música africana e muita música brasileira. A música é universal.

Pensando em um segundo álbum solo, qual seria a colaboração dos sonhos?

É difícil escolher porque tenho muitos amigos e muitas referências. Mas adoraria gravar com Djavan.

Também gostaria muito de fazer algo com Marcos Valle, Milton Nascimento e Kamasi Washington. Tem muita gente incrível.

Quem sabe até algum músico do rock brasileiro. Eu sempre admirei muita gente dessa cena também.