Entrevista | A Flock of Seagulls – “Sem a MTV provavelmente teríamos levado dez anos para sermos notados”

Entrevista | A Flock of Seagulls – “Sem a MTV provavelmente teríamos levado dez anos para sermos notados”

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o A Flock of Seagulls finalmente fará sua estreia no Brasil. A banda britânica sobe ao palco do Cine Joia, em São Paulo, no dia 7 de outubro, em apresentação única promovida pela Maraty. Liderado por Mike Score, o grupo traz ao país um repertório que ajudou a definir a sonoridade da new wave e do synthpop nos anos 1980, reunindo clássicos como I Ran (So Far Away), Space Age Love Song, Wishing (If I Had a Photograph of You) e The More You Live, the More You Love, além de músicas do recente álbum Some Dreams, lançado em 2024.

Formado em Liverpool na transição entre os anos 1970 e 1980, o A Flock of Seagulls se tornou um dos principais nomes da chamada Segunda Invasão Britânica nos Estados Unidos. A combinação de sintetizadores, guitarras atmosféricas e uma identidade visual marcante ganhou projeção mundial com a chegada da MTV, enquanto o instrumental D.N.A. rendeu ao grupo o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Rock em 1983. Ao longo dos anos, a banda passou por mudanças de formação, mas Mike Score manteve o projeto em atividade, investindo em releituras sinfônicas, projetos especiais e, recentemente, no primeiro álbum de inéditas em quase três décadas.

A apresentação em São Paulo também marca um momento especial para os fãs brasileiros, já que diversas tentativas anteriores de trazer a banda ao país acabaram não se concretizando. Agora, a formação composta por Mike Score, Pando, Kevin Rankin e Gord Deppe promete um set que mistura sucessos da fase clássica com composições recentes. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Mike Score falou sobre a influência da banda em diferentes gerações, o impacto da MTV na carreira e a aguardada estreia do A Flock of Seagulls no Brasil.

Depois de mais de 40 anos de carreira, vocês conseguem enxergar hoje a verdadeira dimensão da influência que vocês tiveram sobre bandas como U2, The Cure, The Smiths e até grupos mais recentes, como The Killers?

Consigo perceber isso um pouco. Mas acho que essas bandas também nos influenciaram tanto quanto nós as influenciamos. A música funciona de forma circular. Eu escrevo uma música, alguém é influenciado por ela, essa pessoa escreve outra música e, depois, ela acaba me influenciando de volta.

É assim que a música evolui. Eu, por exemplo, não sou um grande fã de heavy metal, mas gosto de alguns guitarristas e bateristas do gênero. Então você absorve essa influência e coloca isso dentro de uma música pop. De repente, ela ganha uma característica diferente. Depois, uma banda de metal pode ouvir isso e pensar: “Gostei da forma como eles usaram aquela guitarra e aquele ritmo”. É um processo contínuo de evolução.

Quando vocês começaram a banda, imaginavam que músicas como I Ran e Space Age Love Song seriam descobertas por novas gerações por meio de videogames, séries e filmes?

Antes de conseguirmos um contrato, costumávamos brincar dizendo que dependeria de nós criar uma grande banda, porque não gostávamos muito do que estava sendo lançado naquela época. Depois assinamos um grande contrato e, de repente, realmente dependia de nós.

Jamais imaginamos que isso duraria mais de 40 anos. Pensávamos que seria incrível viver essa experiência por dois ou três anos, gravar um álbum, talvez ter um sucesso e, com sorte, fazer uma turnê mundial. Mas continuar vendo as pessoas indo aos shows, conhecendo profundamente a banda e mantendo essa conexão tantos anos depois é algo muito além do que esperávamos. Nunca vimos isso acontecer dessa forma.

Hoje o álbum de estreia é considerado um clássico da new wave, mas vocês surgiram em um Reino Unido dominado pelo punk de Sex Pistols e The Clash. Como esse cenário influenciou a banda?

Primeiro é preciso entender que ninguém na banda sabia tocar direito. Eu tocava um pouco de baixo, meu irmão nunca havia tocado bateria e simplesmente decidiu que seria baterista. Compramos uma bateria e começamos. Paul Reynolds tinha apenas 17 anos e pouca experiência.

Nós apenas nos reuníamos para tocar, eu levava algumas ideias e tudo era muito divertido. Só quando começamos a escrever músicas como Space Age Love Song, I Ran e Wishing percebemos que estávamos criando um som diferente. Foi nesse momento que pensamos: “Ninguém soa como nós”. Depois veio o contrato e o resto é história.

Você já ouviu a versão brasileira de I Ran, gravada pelo Supla?

Não, nunca ouvi. Vou procurar quando estiver aí. Normalmente escuto músicas que já conheço. Ouço bastante o começo da carreira do Roxy Music e Pink Floyd. Às vezes alguém me mostra alguma banda nova e fico impressionado ao perceber como a música evoluiu a partir do que fizemos. Também fico orgulhoso de saber que ainda conseguimos influenciar artistas atuais.

NOTA DA REDAÇÃO: A música “Cena de Ciúmes” é creditada como uma versão do A Flock of Seagulls e está presente no álbum Menina Mulher (2004). O trabalho reúne covers de artistas nacionais que influenciaram Supla. O clipe (acima) conta com participação de Luciana Gimenez.

Qual foi o papel da MTV na história do A Flock of Seagulls e na chamada Segunda Invasão Britânica dos anos 1980?

Sem a MTV provavelmente teríamos levado cinco ou dez anos para sermos notados. Antes dela, as bandas precisavam fazer turnês, conquistar espaço nas rádios e crescer lentamente.

Quando a MTV surgiu, estávamos na sala de estar das pessoas. Elas podiam nos ver e ouvir ao mesmo tempo. Se gostassem do que viam, viravam fãs rapidamente. Para nós, sinceramente, acho que não teríamos chegado tão longe sem a MTV.

Para retratar os anos 80, a série Friends usou um penteado no personagem Chandler Bing inspirado no Mike Score

Seu penteado virou um dos maiores símbolos dos anos 1980 e até foi homenageado em Friends. Como você vê isso hoje?

Acho engraçado. Nunca levei meu cabelo tão a sério. Ele combinava com a estética da banda e chamava atenção, que era exatamente o que queríamos.

Naquela época era importante ter uma imagem forte. David Bowie tinha a dele, Alice Cooper também. Quando surgiu aquele penteado, ele acabou se tornando parte da identidade da banda. A MTV adorava aquilo. As pessoas comentavam e continuam comentando até hoje. É curioso olhar para trás e perceber que, depois daquele visual, tudo realmente decolou. Mas hoje acho que ficou claro que não eram apenas os cabelos. As músicas também eram boas.

Vocês já tocaram em outros países da América do Sul, mas nunca no Brasil. Existe algum motivo específico? Vocês já chegaram perto de vir em outras vezes?

Não. Nós adoramos tocar em qualquer lugar. Já houve algumas oportunidades para irmos ao Brasil, mas, por algum motivo, elas não aconteceram. Isso nunca teve relação com a banda.

Antes de um show acontecer existe muita política entre empresários, agentes e produtores. Tudo precisa estar alinhado. Quando alguma apresentação no Brasil não deu certo, nós simplesmente seguimos para outro compromisso. Estamos realmente empolgados para finalmente tocar aí. Sabemos que temos fãs brasileiros e queremos fazer o melhor show possível.

Como foi a recepção do público sul-americano? E o que você já ouviu sobre os fãs brasileiros?

Ouvimos dizer que os brasileiros são um pouco malucos (risos), mas no melhor sentido possível.

Sim, nos somos (risos)

Pois é, dizem que amam música e são extremamente fiéis às bandas. Nunca ouvimos nada negativo sobre fazer shows no Brasil. Queremos fazer uma grande apresentação e voltar o mais rápido possível.

Pode dar algum spoiler do repertório?

Posso dizer apenas que vamos tocar a maioria dos grandes sucessos, algumas músicas novas e talvez algumas canções que ainda estamos ensaiando.

Também gostamos de nos desafiar e colocar algo inesperado no repertório. Será uma boa mistura entre o material clássico e o mais recente.

Some Dreams marcou o primeiro álbum de inéditas da banda em muitos anos. O que motivou esse retorno ao estúdio?

Tenho um estúdio na minha casa e estou sempre compondo. Quando chegou a hora de fazer Some Dreams, eu tinha cerca de vinte músicas prontas.

A gravadora perguntou se poderia transformá-las em um álbum. Achei que era o momento certo. Muitos fãs também perguntavam quando lançaríamos material novo. Tudo aconteceu naturalmente.

Depois de tantos anos, de que maneira você acha que esse álbum representa uma evolução da banda? E como você enxerga o atual resgate da sonoridade dos anos 1980 no pop e até no metal, principalmente com uso de sintetizadores?

Acho que o que chamam de nostalgia nem sempre é nostalgia. Quando escuto Beatles, por exemplo, não penso que estou ouvindo uma música de 1962. Apenas penso que é uma grande canção.

Acho que as pessoas gostam dessas bandas porque as músicas continuam funcionando. Ao mesmo tempo, a evolução também é importante. A tecnologia melhora, surgem sintetizadores melhores, microfones melhores, novas formas de gravar. Tudo isso amplia as possibilidades.

Um músico que faz sempre a mesma coisa deixa de explorar a música. É preciso experimentar, testar acordes diferentes, inverter ideias e descobrir novos caminhos.

Para quem conhece apenas os clássicos da banda, existe alguma faixa de Some Dreams que você gostaria que mais pessoas descobrissem?

Acho que Him é uma ótima música. Ela tem uma sonoridade muito ligada aos anos 1980.

Na verdade, o álbum inteiro mantém essa identidade, mas também apresenta algumas evoluções. A faixa-título, Some Dreams, também representa muito bem esse espírito.

É, do álbum, Some Dreams é a minha favorita

Ela é uma música de rock, é uma música pop e acredito que toca as pessoas. Eu jamais a teria escrito se não acreditasse nisso. Para quem gostava da banda nos anos 1980, eu diria que este é o álbum certo para conhecer.