Entrevista | The Menzingers – “Mal posso esperar para tocar novamente no Brasil”

Entrevista | The Menzingers – “Mal posso esperar para tocar novamente no Brasil”

O novo álbum do The Menzingers, Everything I Ever Saw, mostra uma banda confortável com a própria identidade, mas sem cair na armadilha de repetir fórmulas. Em vez de revisitar a nostalgia que marcou boa parte de sua discografia, o quarteto norte-americano volta o olhar para o presente, refletindo sobre a passagem do tempo, as mudanças inevitáveis da vida adulta e a forma como as experiências se repetem sob novas perspectivas. Musicalmente, o disco mantém a combinação entre punk rock melódico e indie rock, mas com arranjos mais refinados e uma narrativa que funciona melhor como uma obra completa do que como uma coleção de singles. É um trabalho que cresce a cada audição e reforça a maturidade artística da banda.

As novas canções também mostram um grupo disposto a transformar momentos pessoais em composições universais. Casamentos, separações, paternidade e recomeços aparecem de forma honesta nas letras, sem perder o poder de identificação que sempre aproximou o The Menzingers de seu público. Mesmo sem buscar o impacto imediato de clássicos como After the Party ou On the Impossible Past, o álbum encontra força justamente na maneira como retrata a vida comum, algo que poucos nomes do punk contemporâneo conseguem fazer com tanta naturalidade.

Formado em 2006, em Scranton, na Pensilvânia, o The Menzingers construiu uma das carreiras mais respeitadas do punk rock das últimas duas décadas. Liderada pelos vocalistas e guitarristas Greg Barnett e Tom May, a banda transformou histórias sobre amadurecimento, amizades, relacionamentos e o cotidiano em canções que atravessaram gerações, consolidando discos como On the Impossible Past e After the Party entre os mais importantes do gênero.

Em entrevista ao Blog N’ Roll, Tom May falou sobre os 20 anos da banda, o processo de criação de Everything I Ever Saw e os planos para retornar ao Brasil.

O The Menzingers completa 20 anos em 2026. Quando vocês começaram a banda, qual era o sonho? Olhando para essa trajetória, vocês chegaram onde imaginavam?

Esse sempre foi o nosso sonho. Talvez pareça pretensioso dizer isso, mas, quando começamos há vinte anos, a ideia era conseguir viver tocando punk rock e viajando pelo mundo. Foi exatamente isso que aconteceu. Sou muito grato por tudo o que vivemos e bastante satisfeito com a trajetória. Fizemos coisas incríveis ao longo desses anos e agradeço por isso todos os dias.

E se o Tom de 2006 encontrasse você hoje, o que mais o surpreenderia: a longevidade da banda, o reconhecimento ou o impacto que a música de vocês teve na vida de tantas pessoas?

Sem dúvida seria o impacto que nossa música teve na vida das pessoas. Naquela época eu não conseguia imaginar o que isso realmente significava. Eu até podia sonhar que a banda duraria muito tempo, mas essa conexão tão profunda com os fãs é algo impossível de explicar para alguém que ainda não viveu isso. Ainda hoje acho difícil colocar esse sentimento em palavras.

Hoje vemos muitas bandas mudando de formação ou encerrando as atividades. Qual é o segredo para manter os mesmos quatro integrantes durante vinte anos?

Parte disso é sorte. Tivemos a felicidade de viver vidas relativamente tranquilas, sem grandes tragédias. Mas existe outro fator importante: todos precisam querer a mesma coisa. Nós quatro trabalhamos muito bem juntos, cada um tem seu espaço criativo e suas responsabilidades dentro da banda. O mais importante é que ninguém queria seguir outro caminho. Nunca houve alguém dizendo que preferia estar em uma banda pop ou abandonar a música para ser advogado ou professor. Sempre compartilhamos o mesmo objetivo, e isso fez toda a diferença.

O novo álbum parece menos preocupado com nostalgia e mais interessado em aceitar a passagem do tempo. Essa direção foi planejada desde o início?

Não. Quando começamos a escrever o álbum, tínhamos apenas um conjunto de músicas. Conforme as letras foram sendo desenvolvidas, elas começaram a revelar uma identidade em comum. Quando estávamos com aproximadamente um quarto ou metade do disco pronto, passamos a discutir conscientemente qual seria o conceito do álbum e os temas que gostaríamos de abordar.

Uma das primeiras decisões foi manter um certo otimismo. Também queríamos falar sobre como enxergamos o tempo hoje. Não foi uma reação à nostalgia dos discos anteriores nem uma tentativa de reinventar a banda. Nós simplesmente escrevemos sobre aquilo que estamos vivendo. Nesta fase da vida percebemos que muitos acontecimentos voltam a acontecer de formas diferentes. Isso muda nossa relação com o passado, o presente e o futuro. No fim, acabamos escrevendo um disco muito mais conectado ao presente.

O álbum nasceu depois de mudanças importantes na vida de vocês. Foi mais difícil transformar essas experiências em músicas?

Para mim, sim. Em alguns aspectos foi mais difícil e, ao mesmo tempo, mais fácil. Foi emocionalmente mais pesado porque eu precisava revisitar sentimentos que preferia deixar para trás. Escrever ajuda a reorganizar esses pensamentos, mas também obriga você a revivê-los.

Por outro lado, justamente por causa dessas experiências, a inspiração apareceu com muito mais facilidade. Alguns bloqueios criativos que existiam em discos anteriores simplesmente desapareceram. Então foi um processo difícil emocionalmente, mas muito rico do ponto de vista artístico.

Houve alguma música que surpreendeu vocês por entrar no álbum ou que foi especialmente difícil de gravar?

A maior surpresa foi “Other People’s Money”. Ela começou apenas como uma música estranha no piano, gravada com bateria eletrônica. Eu não imaginava que acabaria entrando no disco. Todo mundo gostou da ideia e depois tivemos que descobrir como transformá-la em uma música do The Menzingers, acrescentando guitarras e todos os outros elementos.

Já a parte mais difícil da gravação foi tocar piano. Todas as nossas músicas são afinadas meio tom abaixo, então eu precisava tocar praticamente só nas teclas pretas, e eu não sou pianista. O Will Yip até me deu uma chave do estúdio para eu praticar nos fins de semana, e um amigo meu me ajudou bastante. No fim das contas, o maior desafio do álbum não foram as emoções nem as letras, mas aprender a tocar piano direito.

Na minha impressão, este álbum funciona muito mais como uma obra completa do que como uma coleção de singles. Existe alguma música que vocês acreditam que vai crescer muito ao vivo e se tornar um clássico do repertório?

Boa pergunta. Fiquei muito feliz com a reação das pessoas. Acho que “Breathe With Me” tem grande potencial, mesmo não tendo sido escolhida como single. Também acredito bastante em “Romanticism”.

Ao longo da carreira tivemos várias músicas que criaram uma conexão muito forte com um grupo específico de fãs, sem que a gente soubesse exatamente por quê. Quando o álbum foi lançado, recebi muitas mensagens falando justamente dessas duas faixas. Não esperava isso, então acredito que elas possam seguir esse caminho e se tornar muito importantes nos shows.

Vocês voltaram a trabalhar com Will Yip. O que ele consegue extrair do The Menzingers que talvez outro produtor não consiga?

Antes de trabalharmos com ele pela primeira vez, um amigo muito próximo, que conhece bem o Will, nos disse que ele era um “bullshitter”. A princípio não entendemos o que ele queria dizer, mas depois percebemos que ele estava falando da capacidade que o Will tem de motivar as pessoas.

Ele consegue dizer que uma ideia não funciona e, ao mesmo tempo, fazer você sair da conversa se sentindo ainda mais confiante para continuar criando. É um talento impressionante. Além do gosto musical e do enorme conhecimento sobre gravação, estrutura de músicas e produção, ele sabe como ninguém incentivar uma banda. Nunca trabalhei com alguém que tivesse essa habilidade de entusiasmar as pessoas como ele.

Hoje existem inúmeros relatos de pedidos de casamento, homenagens em casamentos e momentos importantes da vida marcados por músicas de After the Party. O que significa saber que a música de vocês faz parte da história de tantas pessoas?

É incrível. É difícil até explicar. Na vida existem poucos momentos realmente transformadores, e saber que tanta gente associa uma música nossa a um desses momentos é algo muito especial.

Isso cria uma conexão imediata e muito profunda com as pessoas. No fim das contas, eu apenas toquei guitarra naquela música, mas ela acabou ganhando um significado enorme para outras pessoas. Isso muda completamente a maneira como enxergamos a banda. Você percebe o quanto pode ser importante na vida de alguém, e essa é uma recompensa enorme por tudo o que construímos até aqui.

Hoje vocês tocam em grandes festivais e casas importantes pelo mundo. Existe algum show que mudou a trajetória da banda?

Existe um lugar lendário na Filadélfia chamado First Unitarian Church. É o porão de uma igreja e praticamente todas as bandas importantes da cena punk passaram por lá. Quando nos mudamos para a Filadélfia, há quase vinte anos, lotar aquele lugar parecia um sonho impossível.

Quando finalmente conseguimos esgotar os ingressos pela primeira vez, tivemos a sensação de que tudo aquilo era real. Passamos a nos sentir parte da cena da cidade e percebemos que éramos, de fato, uma banda respeitada. Foi o momento em que pensamos: “Agora podemos conquistar qualquer coisa”. Já fizemos shows muito maiores desde então, inclusive o maior da nossa carreira aconteceu no ano passado. Tocamos em Londres, no Brasil e em vários lugares incríveis, mas aquele primeiro show na First Unitarian Church foi o que realmente mudou a nossa história.

Falando em Brasil, já fazem sete anos desde a primeira visita de vocês ao país. Quais são as lembranças mais fortes daquela turnê?

Tenho uma lembrança muito específica de São Paulo. Estávamos sentados em cadeiras de plástico do lado de fora de um bar, tomando alguma coisa antes do show. Curitiba também foi maravilhosa. Visitamos o estádio de futebol, o Jardim Botânico e passeamos bastante pela cidade.

Mas aquela cena em São Paulo ficou gravada na minha memória. Era exatamente como eu imaginava o Brasil pelos filmes e fotografias que via quando era mais novo. Tinha um cachorro correndo pela rua, pessoas dançando, copos plásticos vermelhos sobre as mesas. Pode parecer uma lembrança simples, mas foi um daqueles momentos em que pensei: “Estou aqui com meus amigos, em um lugar que nunca imaginei conhecer, por causa da nossa música”. Essa talvez seja minha memória favorita daquela viagem.

Depois do lançamento de um álbum novo, imagino que vocês recebam muitas mensagens dizendo “Come to Brazil”. Existe algum plano para voltar ao país?

Eu adoro quando as pessoas escrevem “Come to Brazil”. Ainda não existe nada confirmado para esta turnê. Se existisse, eu contaria.

Mas temos planos de voltar. Ainda não posso dizer quando, mas posso garantir que isso vai acontecer. Espero que nada atrapalhe esses planos, porque mal posso esperar para tocar novamente no Brasil.

O The Menzingers sempre foi reconhecido como uma grande banda ao vivo. Vocês pensam nos shows enquanto escrevem músicas novas?

Com certeza. Todas as músicas que escrevemos são pensadas para serem tocadas ao vivo, porque é assim que vivemos. É no palco que encontramos nossos fãs e é fazendo shows que construímos nossa carreira.

Ao mesmo tempo, é muito legal quando você termina uma música e percebe que determinado trecho vai funcionar perfeitamente ao vivo. Às vezes surge uma parte em que o público pode cantar sozinho ou uma parte grande crescendo que imaginamos imediatamente acontecendo no palco. Não escrevemos músicas pensando exclusivamente nisso, mas essa preocupação sempre está presente. Afinal, nunca vamos escrever uma música cheia de violinos se não temos ninguém para tocar violino na banda. (risos)

Ao longo de todos esses anos na estrada, qual foi o público que mais surpreendeu vocês?

Acho que a Alemanha. Nunca imaginei que tanta gente por lá conhecesse e gostasse da nossa banda.

Além disso, existe uma diferença cultural interessante. O público alemão é um pouco mais reservado do que as pessoas dos Estados Unidos, da América do Sul, do Reino Unido ou da Irlanda. Eles também enlouquecem durante os shows, mas de um jeito diferente. Foi algo que me surpreendeu bastante nas primeiras vezes em que tocamos lá.

Para terminar, no primeiro álbum era possível perceber muitas influências do punk rock, do hardcore melódico e até do emocore. Quais são as suas influências hoje, vinte anos depois?

Essa é uma ótima pergunta. Hoje, com os serviços de streaming e o YouTube, tenho descoberto muitos artistas que passaram despercebidos quando eu era mais novo. Estou ouvindo muita música eletrônica dos anos 1990, especialmente big beat.

Tenho escutado bastante Orbital, The Chemical Brothers e The Prodigy. Não sei exatamente como isso vai aparecer nas próximas músicas do The Menzingers, mas não consigo parar de ouvir esse tipo de som. Vamos ver como essa influência acaba surgindo no futuro.

The Prodigy e The Chemical Brothers também foram grandes nomes da era de ouro da MTV.

Exatamente. Com certeza.