Ângelo Cantalupo de Maria, ou simplesmente Angel (e Uruka, para os clientes de tatuagem), está prestes a completar 63 anos, mas a energia gutural que ajudou a moldar o heavy metal extremo na América do Sul segue intacta. Após décadas como frontman do Vulcano, banda santista que é referência mundial no estilo, Angel agora escreve um novo capítulo: uma carreira solo que já nasceu cruzando fronteiras.
O pontapé inicial dessa nova fase aconteceu no início deste ano. Após uma participação especial com o Vulcano em um show com a banda americana Obituary, em São Paulo, o telefone tocou. Era um produtor de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, maravilhado com a performance e interessado em levar o vocalista para um show.
“Eu falei: ‘Bom, vou te dar uma opção. Eu posso ir solo, mas vou precisar de uma banda de apoio’”, relembra Angel.
A solução veio de Assunção, no Paraguai, com a banda Atomic Curse. Formada por músicos que já eram fãs declarados do Vulcano, a química foi instantânea. Com passagens pagas para ensaiar no país vizinho, o vocalista se surpreendeu com o preparo dos paraguaios.
“Tudo de primeira, cheguei a ligar as aparelhagens. De primeira ali, os caras já… foram nove músicas do Vulcano, baseadas no Live! até o Bloody Vengeance. No outro dia tocamos, tudo perfeito. Até hoje estou impressionado e agradecido de ter encontrado eles”.
O projeto engrenou. O primeiro show oficial ocorreu em maio, em Assunção. Logo na sequência foi a vez da Bolívia, em Santa Cruz de La Sierra. Para 2027, Angel já possui alguns shows agendados na Europa. E a nova formação, que viaja sob o nome Angel, já planeja o lançamento de um EP conjunto, com quatro composições inéditas do vocalista e faixas do Atomic Curse.
Nascimento da voz de Angel e a influência sobre o Sepultura
Nascido em Montevidéu, no Uruguai, e registrado em Porto Alegre, Angel desembarcou na Baixada Santista ainda pré-adolescente. Seu primeiro contato com a música pesada foi com a banda Satanic, de Praia Grande, no final dos anos 1970. Mas foi em 1984 que a história mudou. Convidado inicialmente apenas para participar de uma foto por conta de seu visual roqueiro (“tinha o cabelão na cintura”), ele acabou fazendo um teste para o Vulcano.
Foi durante esse ensaio, improvisando em cima de uma base pesada do guitarrista Johnny Hansen e do líder Zhema, que a identidade vocal de Angel surgiu.
“Ó, vou tocar aqui na guitarra e você canta o que você quiser”, disseram a ele. “Já comecei a botar uma gutural lá, umas coisas assim bem gutural. Aí parou, cinco minutos, um olhou para a cara do outro. O Zhema falou: ‘Amanhã a gente começa a ensaiar’”.
Essa voz marcou o disco Bloody Vengeance (1986), considerado um clássico do metal extremo. A sonoridade chamou a atenção de um jovem Max Cavalera. Segundo Angel, Max chegou a declarar que aquela era a música mais pesada que já havia escutado. A conexão com os mineiros, aliás, é um orgulho para a cena santista.
“O Zhema sempre estava como promotor para promover o Vulcano. Não foi nem um, nem dois, foram três shows que eles (Sepultura) foram convidados, até então nunca tinham tocado em São Paulo. O Zhema proporcionou o empurrãozinho no início do Sepultura”.
O impacto não parou no Brasil. A brutalidade do Vulcano atravessou o oceano e forjou a base do black metal no norte da Europa, influenciando gigantes da Dinamarca, Finlândia e Noruega.
Lendas, ossos e igrejas em chamas
No rock, a música caminha lado a lado com a mística, e a trajetória de Angel é repleta delas. Uma das maiores polêmicas envolveu um ensaio fotográfico para a Revista Veja, em um cemitério de São Paulo. A banda levou ossos humanos reais, emprestados de uma faculdade de medicina por um amigo. O problema? A matéria foi publicada com uma frase inventada, afirmando que os ossos haviam sido “surrupiados de um cemitério de Mongaguá”.
A brincadeira virou caso de polícia. O baterista Laudir Piloni chegou a ser indiciado. Para evitar um flagrante, a banda tomou uma medida drástica.
“Pegamos, martelamos ele, quebramos tudo e jogamos no canal lá na Praia Grande. O Laudir quis falar que era de plástico. Ninguém ali era caçador de ossos! Mas fez barulho. E rock’n’roll é isso, vocês fazem barulho e se projeta”, diverte-se o vocalista.
Outra lenda famosa envolve a capa do disco Bloody Vengeance (1986), que trazia uma igreja e um padre em chamas. Poucos anos depois, a onda de incêndios criminosos em igrejas varreu o norte da Europa, capitaneada por membros da cena black metal. O álbum do Vulcano chegou a ser censurado no continente europeu, saindo com uma capa preta. Angel teria inspirado os crimes?
“Os caras olharam a capa e pensaram: ‘Que ideia legal, como a gente não pensou em queimar uma igreja?’. Não confirmo nem desminto. Deixa como lenda, né? Cada um tire sua conclusão”.
Uruka, arte na pele e na estrada
Paralelamente aos palcos, Angel construiu uma sólida carreira como tatuador. Sob a alcunha de Uruka, ele empunha máquinas desde 1981. Apesar de lamentar a atual crise de desvalorização do mercado da tatuagem no Brasil, ele encontrou uma forma de unir suas duas paixões na atual turnê.
“É juntar o útil ao agradável. Inclusive nesses locais que eu tô indo, eu tô levando a máquina de tatuagem, já tem uma pré-divulgação para os fãs e conhecidos que quiserem tatuar comigo. Chego um ou dois dias antes do show e uso os dias que antecedem”.