“Pitty”, sexto álbum de inéditas de Pitty, chegou nesta sexta-feira (16) pela Deck e encerra um intervalo de sete anos desde “Matriz” (2019). São 13 faixas que apresentam uma artista disposta a revisitar suas origens sem transformar o passado em uma fórmula. O rock continua sendo a espinha dorsal do trabalho, mas agora divide espaço com hip-hop, blues, elementos eletrônicos e ritmos que aproximam algumas composições da pista de dança.
A cantora descreveu o processo de criação como a sensação de estar fazendo seu primeiro disco. E essa declaração ajuda a compreender o resultado. Depois de um período de pausa e reorganização, Pitty voltou a compor sozinha com o violão, como fazia na adolescência, em Salvador. A diferença é que, desta vez, assumiu também boa parte da construção instrumental, desenvolvendo riffs, batidas, arranjos e estruturas antes de apresentar as músicas ao produtor Rafael Ramos.
Essa autonomia aparece como uma das principais características do álbum. Em vez de um trabalho montado a partir de ideias fragmentadas e posteriormente organizadas em estúdio, “Pitty” nasceu de composições praticamente prontas, desenvolvidas em menos de dois meses. O resultado preserva uma identidade bastante reconhecível, mas permite que a artista explore caminhos que nem sempre caberiam nos primeiros discos de sua carreira.
A abertura (clipe acima) com “Sobremesa” é uma escolha certeira. O riff de guitarra estabelece imediatamente uma conexão com a Pitty que conquistou o público nos anos 2000, enquanto o refrão demonstra que sua capacidade de construir melodias marcantes continua intacta. Não é uma tentativa de reproduzir “Admirável Chip Novo”, mas existe uma familiaridade que ajuda a estabelecer o ponto de partida para as experiências seguintes.
Em “Armadura”, a cantora mostra que peso e ritmo dançante não precisam ocupar espaços opostos. A faixa encontra uma maneira de preservar a presença das guitarras enquanto amplia o movimento da música. Já “DESOBEDIENTE”, produzida também por Nave, incorpora uma batida de hip-hop e demonstra uma disposição maior para brincar com estruturas e referências. São escolhas que reforçam a versatilidade do álbum, embora nem todas as mudanças de direção tenham o mesmo impacto.
A aproximação com a pista de dança continua em “Sobriedade Seletiva” e “Pileque de Poeta”, ambas com coprodução de Felipe Vassão. As duas ajudam a estabelecer uma característica importante do disco: Pitty parece menos preocupada em defender uma ideia rígida do que significa fazer rock. As guitarras permanecem, mas não precisam dominar todos os espaços. “Não à Deriva” segue por esse caminho, reforçando a diversidade de ritmos.
Essa liberdade, no entanto, também traz algumas irregularidades. A quantidade de caminhos explorados faz com que o álbum nem sempre apresente a mesma coesão de trabalhos anteriores. Há momentos em que a experimentação acrescenta personalidade às composições e outros em que a mudança de linguagem parece mais interessante como proposta do que como resultado. Não chega a comprometer o disco, mas impede que suas 13 faixas mantenham o mesmo nível de impacto.
A dimensão lírica também merece atenção. Em “Caminhada”, Pitty aborda parceria e sororidade, valorizando a importância das relações de apoio em momentos de vulnerabilidade. “Amiga” amplia essa abordagem com novas camadas de percussão, enquanto “Álbum de Casamento” encontra espaço para referências ao blues. São exemplos de uma compositora que continua interessada em observar relações humanas, contradições e transformações pessoais, sem depender exclusivamente da indignação que marcou parte de seu repertório inicial.
Talvez o aspecto mais interessante de “Pitty” esteja justamente nessa relação com o passado. Seria fácil apostar em um disco inteiramente construído sobre riffs pesados, refrões explosivos e referências ao início dos anos 2000. Existe público para isso, especialmente em um momento no qual a nostalgia daquela década ocupa tanto espaço no mercado musical. Mas a artista prefere não ficar presa à própria história.
Também seria injusto tratar essa diversidade como uma novidade absoluta. Ao longo da carreira, Pitty já demonstrou interesse por diferentes linguagens, especialmente em trabalhos como “Chiaroscuro” (2009) e “Setevidas” (2014). O que muda agora é a maneira como essas influências convivem dentro de um mesmo repertório, com uma produção que permite alternar momentos mais crus e passagens de maior elaboração sonora.
O álbum não precisa superar “Admirável Chip Novo” ou “Anacrônico” para justificar sua existência. Aqueles discos pertencem a momentos específicos da carreira da cantora e da própria música brasileira. Compará-los exclusivamente pela quantidade de riffs ou de possíveis hits seria ignorar mais de duas décadas de amadurecimento artístico.
No balanço final, “Pitty” é um trabalho que ganha pontos pela liberdade criativa, ainda que essa mesma característica provoque algumas oscilações. Seus melhores momentos aparecem quando a experimentação surge naturalmente dentro das canções, sem deixar que a produção se sobreponha à composição. Não é um retorno às origens, tampouco uma reinvenção completa. É o retrato de uma artista que conhece muito bem sua identidade, mas ainda encontra motivos para questioná-la.
A nova fase também chega aos palcos imediatamente. A turnê estreia neste sábado (17), em São Paulo, com ingressos esgotados, situação que se repete em Belo Horizonte, Porto Alegre e Vitória. Até dezembro, a cantora também passará por Curitiba, Recife, Ribeirão Preto, Sorocaba, Balneário Camboriú e Leopoldina, com novas apresentações previstas para serem anunciadas.
Sete anos depois de “Matriz”, Pitty entrega um álbum que não procura respostas definitivas sobre seu lugar no rock brasileiro. E talvez seja justamente essa inquietação, mais do que qualquer riff ou refrão, o elemento que melhor conecta a artista de hoje àquela que surgiu no começo dos anos 2000.