Entrevista | Kneecap – “Vimos em primeira mão como o lobby sionista pode tentar retirar uma banda de festivais e grandes apresentações”

Entrevista | Kneecap – “Vimos em primeira mão como o lobby sionista pode tentar retirar uma banda de festivais e grandes apresentações”

O trio norte-irlandês Kneecap fez sua estreia no Brasil na última sexta-feira (23), no Cine Joia, em São Paulo, encerrando sua turnê pela América Latina. A apresentação reuniu hip-hop, música eletrônica, atitude punk e manifestações políticas, características que transformaram o grupo em um dos nomes mais provocativos da música contemporânea. Com uma performance intensa e mensagens de apoio à Palestina, o Kneecap protagonizou uma noite marcada pela interação com o público e pela combinação de música e ativismo.

Formado em Belfast por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí, o Kneecap ganhou projeção internacional ao misturar rap, batidas eletrônicas e letras interpretadas principalmente em irlandês, idioma cuja preservação ocupa um lugar central na identidade do grupo. Suas músicas abordam questões sociais, políticas e culturais da Irlanda do Norte, frequentemente utilizando humor ácido e sátira para questionar autoridades e instituições. Embora sua sonoridade esteja associada ao hip-hop, a energia dos shows aproxima o trio do punk e de bandas como Rage Against the Machine.

A repercussão internacional levou o Kneecap a grandes festivais e abriu espaço para colaborações com artistas como Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine. Ao mesmo tempo, as manifestações políticas do grupo provocaram controvérsias e pressões sobre suas apresentações. Em entrevista ao Blog n’ Roll, os músicos falaram sobre a passagem pela América Latina, a relação com o rock, a colaboração com Morello, os limites da liberdade artística e a importância de manter suas convicções mesmo diante do crescimento comercial.

Vocês ouviram muitos comentários sobre o público brasileiro antes de vir para cá? Como tem sido tocar na América do Sul e o que sentiram em relação ao público durante esta turnê?

Mo Chara: Está sendo ótimo, porque ouvimos muitas histórias sobre o público da América do Sul e da América Latina. Diziam que as pessoas eram completamente malucas e agitadas, e elas corresponderam às nossas expectativas. Passamos por México, Colômbia, Argentina e Chile, e agora terminamos no Brasil.

O Brasil tem um padrão muito alto para alcançar, porque o Chile, onde tocamos anteontem, foi incrível. A Argentina foi inacreditável, assim como a Colômbia e o México. Todo mundo foi sensacional. Este é nosso último show na América Latina, então a pressão está sobre vocês, Brasil!

Móglaí Bap: Também sinto que existe um espírito indígena na América Latina com o qual realmente nos identificamos em todos esses países. Acho que é por isso que estamos nos divertindo tanto aqui.

Conseguimos conhecer e aprender muito mais sobre as culturas indígenas desses países. Sei que existem povos indígenas no Brasil, no México, na Colômbia e em outros lugares. Isso nos conecta muito, porque a cultura e a língua indígenas são aspectos extremamente importantes para o Kneecap.

Vocês são definidos como um grupo de hip-hop e música eletrônica, mas a atitude de vocês é muito punk e hardcore, principalmente no palco. Vocês se identificam com essa comparação? Quais bandas de rock influenciaram vocês?

DJ Próvaí: Já nos compararam ao Rage Against the Machine, e acho que foi por isso que Tom Morello entrou em contato conosco e perguntou se gostaríamos de gravar uma música com ele. Lançamos essa faixa, “Unconquered”, algumas semanas atrás, em setembro.

Foi um elogio enorme, porque, como você mencionou, a energia que eles têm no palco é algo que queremos alcançar.

Quanto às bandas de rock, não tenho tanta certeza. Quando éramos mais novos, costumávamos ouvir um grupo irlandês chamado Rubberbandits. Nem sei exatamente em qual gênero musical eles se encaixam.

Fomos a um show deles e a apresentação tinha uma energia absurda. Pensamos: como podemos capturar isso? Acho que é um pouco dessa energia que vocês vão encontrar no nosso show.

Stiff Little Fingers é uma banda punk da Irlanda do Norte. Eles tinham uma música chamada “Alternative Ulster”, que falava sobre um período de muitas divisões sectárias e assassinatos dos dois lados do conflito. A ideia deles era tentar unir as pessoas por meio da música. Acho que é isso que também esperamos fazer: aproximar as pessoas em vez de dividi-las.

Na semana passada, vimos alguns músicos dizendo que política e música deveriam ser coisas separadas. Mas é muito fácil dizer isso quando você trata seus fãs como mercadorias, apenas para ganhar dinheiro com eles.

A política faz parte da vida cotidiana. Quando alguém tenta censurar uma pessoa por dizer “Palestina livre”, já escolheu um lado.

Quando está acontecendo um genocídio no mundo, permanecer em silêncio também significa tomar partido. Todo mundo deveria usar sua voz para se manifestar contra uma das piores coisas que aconteceram durante nossas vidas.

Vocês mencionaram o Rage Against the Machine e Tom Morello. Como foi a experiência de gravar uma música com ele?

Mo Chara: Bom, estamos na era moderna, então nunca estivemos na mesma sala. Ele nos enviou a música, nós gravamos nossa parte e mandamos de volta. Depois, ele fez o videoclipe e todo o restante.

Infelizmente, ainda não tivemos o prazer de conhecer Tom Morello pessoalmente. Como você pode imaginar, ele é um homem muito ocupado, assim como nós. Esperamos encontrá-lo no futuro. Quando alguém que é um ícone musical como Tom Morello convida você para gravar uma música, é praticamente impossível não aceitar.

Vocês já enfrentaram controvérsias por causa de suas posições políticas. Isso alguma vez fez vocês mudarem a maneira de escrever músicas? Existe algum limite para as composições ou letras por medo de cancelamento?

Mo Chara: Não, definitivamente.

Vocês combinam essas mensagens com um humor ácido, de uma maneira muito particular. Esse humor e a reação do público influenciam a forma como vocês escrevem as músicas e pensam nas apresentações ao vivo?

Mo Chara: Com certeza. Pensamos bastante nisso. Dan Carey foi ao nosso show na Wembley Arena e acho que foi a primeira vez que ele realmente conseguiu assistir à nossa apresentação ao vivo.

Como temos a sorte de tocar em arenas em algumas partes do mundo, ele queria produzir um álbum que tivesse capacidade de preencher esses espaços. Um disco com sonoridade suficientemente grande para funcionar não apenas em casas pequenas, mas também em arenas.

Sabemos que os momentos mais marcantes dos nossos shows costumam acontecer durante as músicas de maior energia. Então queríamos explorar ainda mais esse aspecto. Faixas como “Big Bad Mo” já pareciam ótimas para tocar ao vivo, mas não imaginávamos que se tornariam um dos pontos altos da apresentação.

Essa é a beleza de produzir um álbum e depois levá-lo aos palcos. As músicas ganham uma vida completamente nova quando são tocadas ao vivo.

DJ Próvaí: Em relação ao humor, os irlandeses têm uma longa tradição de utilizar a sátira para desafiar pessoas que ocupam posições de autoridade e abusam do poder.

Por exemplo, na Irlanda antiga existiam os reis e, ao lado deles, os poetas. O poeta era a segunda pessoa mais poderosa do reino, porque podia escrever um poema contando o que o rei estava fazendo com a população.

Isso mantinha o rei sob vigilância. Quando você conseguia envergonhar publicamente alguém que estava no poder, diminuía a autoridade dessa pessoa.

Por isso, é muito importante utilizar a sátira como uma ferramenta para responsabilizar quem exerce o poder.

A música de vocês mistura hip-hop e eletrônica com uma atitude muito próxima do rock. Nos últimos anos, o Kneecap cresceu muito e passou a tocar em grandes festivais. Como vocês conseguem manter o espírito provocador e independente enquanto se tornam parte da indústria musical?

DJ Próvaí: Eu mostro meus mamilos! (risos) É uma maneira de provocar alguma reação no público.

Mo Chara: Acho que, durante muito tempo, especialmente na Irlanda, as pessoas produziam música e arte pensando no público dos Estados Unidos ou de Londres. Agora isso mudou.

É por isso que vemos tantos artistas irlandeses chegando ao mainstream. Existe uma autenticidade nisso e uma confiança coletiva que está crescendo na Irlanda.

Quando estamos no palco, obviamente somos provocadores. Mas isso também é bastante subjetivo. Não consideramos provocador dizer “Palestina livre”, mas algumas pessoas acham que isso é uma provocação.

Estamos simplesmente fazendo aquilo que acreditamos ser correto enquanto produzimos música. Como dizem os bascos, é preciso festejar, mas também lutar. Acho que as duas coisas são igualmente importantes.

DJ Próvaí: Mesmo na Irlanda, quando estávamos crescendo, falar irlandês era considerado algo confrontador ou provocativo. Imagine: falar irlandês na própria Irlanda! É uma coisa ridícula, mas era assim e continua sendo.

Estamos lutando para colocar placas de rua em língua irlandesa e, toda semana, elas são arrancadas ou vandalizadas. Então, como ele estava dizendo, a provocação é algo muito subjetivo.

O hip-hop e o punk nasceram como vozes de comunidades marginalizadas. Vocês acham que, com a popularização desses gêneros e sua aproximação com o mainstream, a música perdeu parte da capacidade de questionar o poder?

Móglaí Bap: Acho que, em alguns aspectos, ficou muito mais difícil para as bandas serem independentes, porque dependemos de determinadas formas de ganhar dinheiro.

Por outro lado, hoje temos o Instagram e as redes sociais. As bandas conseguem construir suas próprias plataformas e estabelecer contato direto com os fãs, com base em seus próprios valores, suas posições políticas ou qualquer outra coisa.

Então, acho que a situação piorou em alguns aspectos, mas melhorou em outros. Há 30 anos, você precisava tocar no rádio. Hoje, mesmo que sua música nunca seja executada em uma rádio, ainda é possível construir uma carreira de sucesso.

Existem vantagens para as bandas independentes que querem preservar sua própria voz. As redes sociais têm um lado negativo, mas também podem ser utilizadas de maneira positiva para construir uma plataforma própria.

DJ Próvaí: Também percebemos que, quando você chega a determinado nível, surgem outras pressões. Por exemplo, quando tocamos no Coachella, dissemos algo que eles não queriam ouvir: “Palestina livre”.

Vimos em primeira mão como o lobby sionista pode tentar retirar uma banda de festivais e grandes apresentações, enviando e-mails para proprietários de casas de shows e empresas de produção.

É um ambiente muito sombrio e cheio de interesses ocultos. Mas você não pode enfraquecer seus ideais apenas para conseguir chegar a esses lugares. Foi algo que também vimos acontecer com Macklemore.

Como foi a experiência de visitar o Club Deportivo Palestino, no Chile?

Mo Chara: Foi ótimo! Uma experiência inacreditável. Eles fizeram algo especial para nós, um corvo com o nome do Kneecap.

Foi impressionante porque o Chile abriga a maior diáspora palestina fora do mundo árabe, o que é incrível. O clube foi fundado em 1920, 28 anos antes da criação do Estado de Israel.

Então, quando algumas pessoas dizem que a Palestina não tem direito de existir, havia clubes de futebol com o nome Palestina 28 anos antes de Israel se tornar um Estado. Ficamos completamente emocionados e fomos muito bem recebidos durante a visita.

Eles nos mostraram os murais e também têm um lema. Não consigo lembrar o final, mas começa com algo como “mais do que apenas um clube”. E foi exatamente isso que sentimos quando estivemos lá. O Palestino é muito mais do que apenas um clube.