Entrevista | Usted Señalemelo – “Sempre tentamos buscar coisas novas”

Um dos maiores nomes do indie rock e da música alternativa sul-americana contemporânea, o trio argentino Usted Señalemelo aterrissa em São Paulo na noite deste sábado (27) para uma apresentação que promete ser histórica no Bar Alto. Acostumados a lotar arenas na Argentina e a rodar grandes festivais pelo mundo, incluindo uma passagem recente pelo Lollapalooza Chicago, os músicos trazem à capital paulista um formato intimista. O grande combustível da noite é o quarto álbum de estúdio do grupo, Términos & Condiciones, lançado no início de 2026. Sucessor do aclamado TRIPOLAR (indicado ao Latin Grammy), o novo trabalho marca uma virada corajosa do trio em direção às pistas de dança. Com uma sonoridade retrofuturista rica em synth-pop, texturas sombrias de eletrônica e batidas de drum and bass, o álbum quebra as fórmulas do rock tradicional e convida o público a habitar o movimento e a experimentação digital. Para esquentar os motores antes de subirem ao palco, o baterista, Lucca Beguerie Petrich, conversou com o Blog n’ Roll. Em um papo franco e descontraído, Lucca revelou os bastidores do processo de composição feito inteiramente em computadores, detalhou as inéditas parcerias de estúdio com o mexicano Jay de la Cueva e com os norte-americanos do Portugal. The Man, e analisou como o minimalismo estético do novo trabalho serve de manifesto contra o excesso de telas na sociedade moderna. A conexão do Usted Señalemelo com o Brasil não é de hoje, e Lucca fez questão de reforçar o carinho pelo público local. Relembrando o início da carreira, quando tocaram em São Paulo para apenas duas pessoas que já conheciam suas letras, o baterista celebrou o retorno à cidade ao lado de bandas parceiras da cena brasileira, como Boogarins e Terno Rei, e destacou o quanto o público do país é caloroso e aberto a novas e ousadas experiências sonoras. A apresentação de hoje no Bar Alto é uma oportunidade única de testemunhar a evolução de uma banda que se recusa a estagnar. Os ingressos para o evento estão disponíveis na Ingresse. Confira a seguir a íntegra da entrevista! Términos y Condiciones traz uma virada clara para as pistas de baile, mesclando synth-pop, drum’n’bass e disco. O que motivou o Usted Señalemelo a buscar essa sonoridade mais eletrônica e retrofuturista logo após o sucesso de TRIPOLAR? É um disco que, na hora de compor e começar a fazer as canções, nós o fizemos com muita gente. Foi a primeira vez que, na etapa de composição, incorporamos outros compositores ou produtores. Então isso nos deu um leque, uma quantidade de possibilidades de músicas que, quando começamos a pensar no álbum já como um corpo de trabalho e não como faixas isoladas, o eletrônico unia muito bem tudo o que tinha acontecido na composição. Além disso, nós sempre tivemos elementos eletrônicos nos nossos discos, sempre usamos sintetizadores, baterias eletrônicas, samplers, um pouco de tudo. Então, este disco foi uma aposta: vamos fazer com que o eletrônico seja um pouco o eixo do que está acontecendo a nível estético, algo que nunca tínhamos feito de forma tão explícita quanto agora. Foi um processo longo, muito digital. É um disco muito digital, feito inteiramente no computador e não em grandes estúdios, um processo bem diferente daqueles a que estávamos acostumados, que no geral eram mais orgânicos e de gravações clássicas de um disco de rock. Neste álbum foi como: vamos tentar fazer algo mais atual, com a forma como estamos trabalhando e as ferramentas que temos hoje, e ver o que acontece. O disco tem estruturas ousadas e mudanças inesperadas, como em Eso que llaman luz. Como foi o processo de composição e produção junto aos produtores para alcançar texturas complexas e imprevisíveis? Nós sempre nos caracterizamos por buscar dinâmicas nas músicas ou nos discos que talvez fujam do que estamos acostumados em termos de estruturas, melodias ou formas de compor. Sempre tentamos buscar coisas novas na hora de compor e gravar, caminhos que ainda não tínhamos trilhado para que nos levem a novos resultados. Sempre estivemos experimentando; há muitas músicas deste disco que tiveram várias versões, tanto em estrutura quanto em arranjos. Por isso, foi um trabalho que envolveu muito mais produção do que pré-produção. Foi muito mais sobre começar a gravar e começar a mudar tudo uma vez que já estava gravado, testando coisas novas. Há músicas que gravamos e terminaram completamente diferentes no disco, da primeira versão até a última. Nós nos damos essa liberdade de poder experimentar porque acreditamos que faz parte da nossa identidade e da nossa busca. Então não importa se é mais eletrônico, se é mais rock ou mais pop, sinto que sempre haverá esse selo nosso de buscar algo diferente, mesmo que esteja ligado a um gênero, entende? E, pela primeira vez na história do Usted Señalemelo, vocês tiveram colaborações de estúdio, com o mexicano Jay de la Cueva e com o Portugal. The Man. Como surgiram esses convites e como foi equilibrar a identidade de vocês com a deles? Nós assistimos ao show deles (Portugal. The Man) e tivemos uma conexão muito bonita. Eles são do Alasca, que fica bem ao norte dos Estados Unidos, nas montanhas, na neve, e nós somos de Mendoza, que é um pouco semelhante sob certo aspecto: somos da montanha, estamos longe das grandes cidades. Então já existia algo ali que nos conectava por si só, o fato de sermos bandas de rock de lugares fora do eixo onde as coisas costumam acontecer, com tudo o que isso custa para uma banda. Naquela noite, ficamos conversando um tempão sobre a vida, ficamos muito amigos, e eles estavam muito interessados em tudo o que estava acontecendo na cena alternativa em espanhol. Eles já tinham escutado bandas e artistas do México, da Argentina, então já estavam conectados com isso. Conversando, dissemos que um dia deveríamos fazer música juntos, como algo bem descompromissado, tranquilo, e eles toparam de primeira. Quando começamos a fazer essa faixa, que se chama Dando Vueltas, era uma música que imaginávamos com
Raimundos lança clipe de “Dia Bonito” com imagens exclusivas da tour

Os Raimundos estão em um momento de pura catarse. Nesta sexta-feira (26), a banda liberou o videoclipe de Dia Bonito, faixa que integra o seu mais recente álbum, XXX. O vídeo não é apenas uma peça de divulgação, mas um registro documental intenso da fase atual do grupo, capturando a conexão visceral entre palco e público. Dirigido por Miguel Rivero, o clipe é um compilado emocionante que intercala cenas de estúdio com registros brutos da vida na estrada. A produção ganha um brilho especial ao revisitar a recente e marcante turnê da banda ao lado do Guns N’ Roses, onde os Raimundos provaram sua força diante de multidões gigantescas, conquistando até mesmo novos fãs para o seu repertório clássico. Essência da road trip em Dia Bonito, do Raimundos A música, que prega a felicidade nas pequenas coisas e a valorização das relações, encontrou no clipe o cenário perfeito. A estética crua e dinâmica das imagens retrata a cumplicidade entre os membros da banda, revelando o que acontece entre um show e outro. “O clipe de Dia Bonito foi feito despretensiosamente com imagens de estrada, shows e backstage! Ilustra bem o ótimo momento atual que a banda vive! É nítido o clima descontraído, cheio de paz e cumplicidade nas apresentações”, comenta Digão. O vocalista também destacou a renovação no time: “A evolução do som tanto em estúdio quanto ao vivo salta aos ouvidos! Vale ressaltar também a presença do Jean (baixista) que reforçou bastante a linha de frente da banda, assumindo o posto que eu fazia na formação original e reforçando a interação com a plateia!”.
Entrevista | Kelsey Lu – “Quando aquele violoncelo quebrou, não consegui levantar da cama”

A multi-instrumentista e artista visual Kelsey Lu está de volta com seu mais novo e aguardado projeto de estúdio, So Help Me God. Conhecida pela atmosfera suntuosa, devocional e orquestral de sua estreia com Blood, a artista agora convida o público a testemunhar uma virada radical em sua jornada criativa. Longe de ser um manifesto de cura pacífica, o novo trabalho é descrito como um verdadeiro acerto de contas com o passado, onde Lu decide caminhar pelas próprias sombras para resgatar a pureza de sua arte. O estopim para essa transformação profunda aconteceu em 2020, quando o violoncelo que acompanhava a artista há mais de duas décadas rachou em suas mãos logo no início da pandemia. Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, Kelsey Lu revelou que o incidente simbólico a mergulhou em um luto profundo, forçando-a a abandonar sua zona de conforto e a reconstruir sua identidade musical longe do instrumento que antes lhe servia como escudo. O resultado é uma produção multifacetada, moldada por anos de isolamento, superação e reconexão espiritual. Além das barreiras sonoras, o processo criativo do álbum transbordou para as artes plásticas. Kelsey Lu explicou como o tarô e desenhos em larga escala feitos em seu ateliê servem para que ela decifre as histórias visuais de suas composições. Essa fusão de linguagens já ganhou vida em performances imersivas na Europa, onde o público participou ativamente da criação de obras de arte sob o chão de palácios históricos, um conceito de “escavação de si mesma” que ela planeja estender para suas futuras apresentações ao vivo. Durante a conversa, a artista não escondeu o entusiasmo ao falar sobre o Brasil e o desejo de trazer a nova turnê ao país. Demonstrando grande admiração pela cultura local, Kelsey Lu revelou considerar o português um dos idiomas mais bonitos e rítmicos do mundo, destacando o “fogo” e a musicalidade natural do povo brasileiro. Para os fãs que aguardam ansiosamente por sua estreia em solo nacional, o aceno da cantora acende a esperança de uma performance histórica em breve. So Help Me God já está disponível em todas as plataformas digitais. Você pode conferir a entrevista completa com Kelsey Lu abaixo. Seus brincos são lindos, combina com o esse desenho aqui em cima. Sim, lindo! Eu pratico tarô. Então, quando estou no processo de tentar entender e descobrir qual é a história de cada música, quando estou tentando decifrar as histórias visuais e tudo mais, meio que me baseio no que está aparecendo nas minhas leituras diárias de tarô. Mas também escrevo as letras bem grandes. Eu meio que as deixo na minha parede por um tempo para, de certa forma, queimarem no meu subconsciente. Assim consigo tentar entender exatamente sobre o que estava falando, porque muitas vezes no meu processo de escrita e gravação, não sei necessariamente com quem ou sobre o que estou falando, ou ao que estou me referindo. Então preciso passar um tempo meditando sobre isso depois para entender melhor. E este é mais ou menos o meu processo. E com Portrait of a Lady on Fire, eu continuava tirando o Ás de Espadas. Então este é o meu desenho baseado nisso. E depois esse tipo de coração e fogo no centro. É lindo. É algo que você desenvolveu sozinha ou algo que aprendeu? Sim, é algo que desenvolvi por conta própria. Na verdade, tenho uma prática de desenho desde pequena. Meu pai é retratista. Então cresci nesse ambiente, e o ateliê dele ficava em casa. Por isso, cresci muito perto de pastel a óleo… ele trabalha com pastel a óleo, carvão e todo esse tipo de coisa. Cresci muito em torno disso e tive uma prática secreta por muito tempo. E isso tem sido, sim, a minha prática no que diz respeito à composição. Mas isso geralmente vem depois que escrevi uma música, ou até mesmo no meio da escrita, quando preciso tentar descobrir como será o resto dela. Gosto de fazer as coisas em grande escala. Assim consigo realmente sentir a emoção, especialmente enquanto estou escrevendo, sabe? Porque, por exemplo, esta aqui, Running the Pain, a escrita, o estilo, o sentimento e o movimento através das linhas das palavras são tão diferentes do que são nesta outra. Então, sim. Sim. E você pensa em usar isso nos seus shows ou algo assim? Sim, já pensei sobre isso. Fiz uma performance em Veneza há algumas semanas chamada Penumbra. E foi uma instalação em escala realmente grande, onde preenchi todo o espaço, o último andar deste palazzo, com terra. E debaixo da terra, coloquei esses rolos grandes de papel. Depois, espalhei pedaços de carvão e também um pouco de pó de carvão. E esse dançarino com quem colaboro, o Josh Johnson… ele e eu fizemos esses movimentos, esses diferentes tipos de movimentos sobre isso enquanto ouvíamos o álbum. Depois cobri com camadas finas de terra, mais um pouco de carvão e mais terra. Então, todos que estavam assistindo à performance também foram participantes ativos na criação do desenho que surgiu depois. E após a performance, eu escavei todos os desenhos e eles estão incríveis. Estão com uma aparência tão, tão… são realmente muito especiais. Vou voltar lá no começo de julho para fazer outra abertura e exibição das obras no palazzo. Mas acho que é algo que eu adoraria fazer porque, sabe, com o álbum em si, é uma profunda exploração e escavação de si mesma. E também um esforço para se conectar consigo mesma, mas também com o mundo. Acho que, enquanto fazia isso, percebi quantas paredes de medo construí ao longo do tempo. Isso como resultado da maneira como fui criada, que é temer o mundo e temer as pessoas. E, sabe, a música para mim sempre foi essa espécie de salvadora e uma forma de me conectar com as pessoas. Ao longo da minha jornada lançando música e me conectando com pessoas pelo mundo todo… sabe, quando lancei meu último álbum, houve muitas coisas vindas tanto da indústria quanto da gestão que
Capacetes em chamas e pistola de raios alfa: a abdução do Man Or Astro-man? em Santos, em 1999

Considerada uma das maiores bandas de surf music do mundo, com repertório praticamente inteiro instrumental, o Man Or Astro-man? visitou Santos em sua segunda turnê ao Brasil, em 26 de setembro de 1999. A apresentação histórica aconteceu na extinta casa noturna Millenium (Av. Ana Costa, 554B, no Gonzaga), com abertura do Garage Fuzz e do Sonic Sex Panic. Menos de um ano antes, a banda do Alabama (EUA) havia feito sua primeira turnê no Brasil. O rolê foi tão bem-sucedido que eles não pensaram duas vezes antes de retornar, e o motivo era uma verdadeira paixão pelo país. Em entrevista para a Folha de Londrina, em 1999, o baterista e membro-fundador Brian Teasley (o Birdstuff) declarou que o Brasil era o seu país favorito. O músico fez questão de exaltar a energia local: “Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas sentam em suas poltronas e ouvem música de forma muito polida, muito correta. Vocês (brasileiros) aí vivem a música, todo mundo tem banda e parece que a música é uma parte significativa das vidas de vocês”. A ligação da banda com o país foi além das palavras. Revelando admiração por Mutantes e Chico Science, Birdstuff foi poético: “Minha vida não estaria completa se não fosse o Brasil. Funcionou como uma inspiração para nós, por isso gravamos o disco aí”. De fato, a segunda turnê, que passou por 12 cidades brasileiras, serviu para divulgar o nono álbum da banda, Eeviac, gravado no estúdio móvel deles (o Zero Return) em Belo Horizonte durante a primeira passagem pelo país. Risco do Garage Fuzz e a gafes da imprensa Apesar do status cult da banda, o show em Santos quase não aconteceu. Segundo resenha da época feita pelo fanzine Surfcore, assinada por Marco Casado e Victor Martins, se não fosse pelo esforço do pessoal do Garage Fuzz, o público da Baixada teria que “subir a Serra de novo”. O Surfcore detalhou que o aluguel dos espaços de shows estava muito caro e que a Millenium, local escolhido para o evento, era novata no ramo de rock, enchendo apenas “de vez em nunca de funkeiros ou playboys”. Isso fez com que os donos da casa duvidassem do sucesso do evento, mas a aposta do Garage Fuzz e a boa divulgação lotaram a discoteca, surpreendendo os proprietários. A ironia do evento, no entanto, ficou por conta da imprensa. O fanzine relatou, com indignação, que a rádio, os jornais e os cartazes trataram o gigantesco Man or Astro-man? como uma banda de suporte para o Garage Fuzz. “O jornal apenas dizia ‘uma banda bem legal que toca vestida de uniformes da Nasa’ e o resto do texto todo falando do GF”, destacou a publicação. Skate rock, mosh e os “roadies alienígenas” do Man Or Astro-man? A noite começou quente com o Sonic Sex Panic. A banda entregou um HC melódico e agressivo, definido pelo zine como “skate rock”, tocando músicas novas em português que retratavam problemas pessoais, uma possível influência do novo baixista, Medina (também do Sociedade Armada). O Garage Fuzz subiu na sequência, misturando os clássicos do primeiro CD com faixas mais recentes. A resenha pontuou, com certa irritação, que os fãs exaltados atrapalharam: “Mais uma vez os idiotas do stage diving atrapalharam o show”. Essa invasão repetiria-se no show principal, mas em menor escala, pois a “maioria dos chatos” já havia ido embora. A longa espera para a atração principal justificou-se pela complexidade do palco. “Os integrantes travestiram-se de funcionários de usina nuclear com macacões e capuzes brancos com máscara de oxigênio e óculos escuros”, relatou o Surfcore sobre a equipe técnica. Os “roadies alienígenas” montaram um verdadeiro laboratório sonoro, espalhando projetor de imagens super-8, um laptop ligado ao P.A., samplers e inúmeras mangueiras pelo palco da Millenium. Abdução: macacões da Nasa e espetáculo classe A Do nada, Birdstuff (bateria), Blazar the Probe Handler (guitarra), Trace Reading (guitarra) e Coco the Electronic Monkey Wizard (vocal e mentor) surgiram vestindo macacões vermelhos da Nasa. Para o Surfcore, o que se viu a seguir não foi um show, mas um espetáculo “Classe A”. Com movimentos robóticos enquanto tocavam, os integrantes entregaram um setlist focado no futurista Eeviac, mas recheado de faixas do aclamado Destroy All. Embora tenham deixado de fora clássicas como Popcorn Crabula, a destruição sonora foi garantida com músicas como Reverb 10,000, a viajante Bermuda Triangle Shorts, Bombora e Destination Venus. Os pontos altos da noite uniram técnica e insanidade. A plateia foi ao delírio quando Coco e Blazar dividiram o mesmo baixo de dois braços para tocar, e o choque foi total quando Coco incendiou seu “capacete combustível”, repleto de mangueiras, em cima da própria cabeça. Para resumir o nível daquela noite alienígena em Santos, o fanzine fechou sua resenha pegando emprestada uma frase do jornalista André Barcinski: “Quem perdeu este show merece ser dizimado por uma pistola de raios alfa”.
Godspeed You! Black Emperor fará primeiro show no Brasil em novembro em São Paulo

A Balaclava Records anunciou a vinda inédita da emblemática banda canadense de post-rock Godspeed You! Black Emperor ao Brasil. O grupo, formado em Montreal em 1994, realizará apresentação única no país no dia 23 de novembro de 2026, na Audio, em São Paulo. Os ingressos já estão disponíveis nos setores Pista e Camarote por meio da plataforma Ingresse, além da opção de compra física sem taxa de conveniência no Takkø Café, localizado na Vila Buarque. Reconhecidos por redefinir a música de protesto com composições instrumentais longas de rock de câmara, os álbuns da banda lançados entre 1997 e 2002 — com destaque para F#A#∞ (1997) e Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven (2000) — tornaram-se referências fundamentais do gênero. A identidade do grupo também se sustenta em suas apresentações ao vivo, marcadas pelo uso de múltiplos projetores analógicos de 16mm, e por uma postura avessa ao culto à personalidade: o coletivo nunca manteve redes sociais, site próprio ou lançou videoclipes, priorizando que a obra fale por si mesma. Após um hiato iniciado em 2003, a banda retornou aos palcos em 2010 e consolidou uma nova fase prolífica, que rendeu quatro álbuns aclamados pela crítica, culminando no lançamento de No Title as of 13 February 2024 28,340 Dead em 2024. Serviço do Godspeed You! Black Emperor em São Paulo
Frutas, stage dives e “my mame is Dangerous”: a apoteose krishnacore do Shelter em Santos, em 1996

O ano era 1996 e o hardcore dominava a MTV Brasil. Se você ligasse a TV em qualquer tarde daquele ano, era questão de tempo até o clipe de Here We Go invadir a tela com sua energia contagiante. A faixa catapultou o álbum Mantra (1995) e transformou o Shelter, banda americana liderada por Ray Cappo (ex-Youth of Today), em um fenômeno global. A sonoridade agressiva contrastava com a mensagem pacifista e espiritual de orientação hindu, criando um subgênero próprio: o krishnacore. E foi exatamente no auge dessa febre, em junho de 1996, que a banda desembarcou no Brasil para uma turnê histórica. Além de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a rota incluiu uma parada obrigatória na Baixada Santista. O resultado? Um dos shows mais caóticos, divertidos e inusitados da história de Santos. Palco improvável e a ironia do destino do Shelter em Santos A ironia de uma banda estritamente vegetariana tocar em um antigo restaurante chinês não passou despercebida. O relato histórico do fanzine santista Surf Core detalhou perfeitamente a atmosfera daquela noite. O Cadillac Café, na Avenida Conselheiro Nébias, 788, provou ser um cenário impecável para o hardcore: com dois andares, palco na altura ideal e duas caixas de som gigantes, a estrutura parecia ter sido feita sob medida para os stage dives. A abertura foi uma celebração à parte. O Cólera, com o saudoso Redson, subiu ao palco em formato power trio e entregou um set rápido e agressivo. Em seguida, o Garage Fuzz, que estava há tempos sem tocar em casa por conta da composição de novas músicas, matou a saudade e fez “todo mundo pogar”, com o então vocalista Alexandre Sesper (Farofa) dedicando o show a todos os animais que haviam sido sacrificados ali no passado. O Blind fechou o suporte mostrando sua forte influência do punk rock dos anos 80. Quando o Shelter finalmente assumiu os instrumentos, a catarse foi imediata. Para Marco Casado Lima, fã que esteve presente, a escolha do local refletia a essência da cena na época: “Punk/HC é foda… sempre que um lugar abria espaço, é porque já tava ruim das pernas. Era tipo a última cartada dos donos desesperados”. Quando o Shelter subiu ao palco, a catarse foi imediata. “A galera dava stage dive do mezanino, aquilo me impressionou. Me senti num show do Bad Brains em Nova York no início dos anos 80”, relembra Marco. Camarim vegano para o Shelter em Santos e a ajuda divina Para o produtor do show, Alexandre Macia, o Pepinho, a noite marcou sua estreia com atrações internacionais. “Foi super bem-sucedido, deu sold out. Foi fácil de vender porque Here We Go estava tocando não só na MTV, como nas rádios de rock. Acabaram os ingressos e ainda tinha gente querendo”, conta. Mas se os números de bilheteria eram de rockstars, o rider (lista de exigências) do camarim pegou o produtor de surpresa. Acostumado a comprar cerveja e uísque para bandas de metal, Pepinho se viu em um cenário diferente com os devotos de Krishna, que na época contavam com ninguém menos que Roy Mayorga (que depois brilharia no Soulfly e Stone Sour) na bateria. “Os caras só queriam fruta! Eu fiz a feira pela primeira vez na minha vida graças ao Shelter, comprando mamão papaya, banana… E os caras eram muito gente fina, de boa”, diverte-se o produtor. A logística ainda contou com uma “intervenção divina”: “O templo Hare Krishna de Santos fez questão de levar a banda para almoçar no dia do show. Isso foi uma maravilha, economizei um bom dinheiro de rango!” “Hi, my name is Dangerous” O clima amigável de Ray Cappo rendeu uma das histórias mais hilárias dos bastidores santistas. Pepinho havia prometido ao seu funcionário da loja Metal Rock, apelidado de “Perigoso” e fã do Shelter, que o apresentaria ao ídolo. Durante a montagem do palco, Cappo pediu para tomar uma água de coco. Pepinho topou, com a condição de passarem na loja primeiro. “Quando eu entro na loja com o Ray Cappo, o Perigoso quase desmaiou”, relembra o produtor. Tomado pela emoção e querendo impressionar o ídolo em inglês, o fã cometeu um erro de tradução fatal na hora de se apresentar. “O Perigoso, em vez de falar o nome, traduziu o próprio apelido. Ele soltou um: ‘Hi! My name is Dangerous!’. O Ray Cappo chorou de rir de encostar na parede. Ele ria e falava: ‘Ok, sorry, you are dangerous!’. Puta, coitado do Perigoso”, gargalha Pepinho. Caos no mosh, cusparada e a debandada dos “modistas” O sucesso estrondoso de Here We Go nas rádios e na TV cobrou seu preço na pista. Se o produtor Pepinho celebrou o sold out, o fanzine Surf Core relatou o que isso significou na prática: foram mais de mil ingressos vendidos para um espaço que, teoricamente, não comportava aquele volume de pessoas. “Não cabe isso tudo, mas coube”, resumiu a publicação. Essa superlotação misturou a velha guarda do punk com o público novato atraído pela MTV, gerando atritos. A empolgação com os saltos do mezanino e invasões de palco fugiu do controle. Em determinado momento, os “babacas de plantão” invadiram tanto o espaço da banda que uma das músicas do Shelter acabou sendo tocada de forma quase totalmente instrumental, pois Ray Cappo mal conseguia cantar. O clima, que era de festa, atingiu um pico de tensão com uma atitude inaceitável. Sempre pregando o pacifismo e o respeito, o vocalista parou o show e ameaçou não continuar após um fã dar uma cusparada na intérprete que estava no palco tentando traduzir as mensagens da banda para o público. Apesar do estresse, a apresentação teve um “filtro” natural. Assim que o super hit Here We Go foi executado, ocorreu um fenômeno clássico dos anos 90 relatado pelo fanzine: os “modistas” deram a noite por encerrada e foram embora para casa. Foi só a partir desse momento, com a pista respirando um pouco mais, que os fãs reais de krishnacore puderam absorver a agressividade musical do Shelter
Entrevista | Jalen Ngonda – “Não quero ficar preso em uma caixa chamada soul”

Se você tem acompanhado as playlists de música preta ou os algoritmos de streaming nos últimos dois anos, as chances de ter esbarrado no falsete hipnotizante de Jalen Ngonda são gigantescas. O cantor e compositor norte-americano, criado em Maryland e radicado no Reino Unido, transformou seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), em um verdadeiro passaporte para o topo da nova cena soul mundial. Emplacando o hit viral If You Don’t Want My Love, o artista rapidamente deixou as pequenas salas de show para trás, carimbando aparições em programas icônicos da TV britânica e americana, como o The Late Show with Stephen Colbert. Agora, Jalen Ngonda se prepara para o teste mais desafiador na carreira de qualquer fenômeno recente: o segundo disco, Doctrine of Love, pela lendária gravadora Daptone Records, que chegou hoje às plataformas digitais. O trabalho promete consolidar o cantor não apenas como um intérprete talentoso, mas como um canal contemporâneo para os anos de ouro da música negra. Longe de ser um mero exercício de nostalgia ou um “clichê vintage”, o novo trabalho mergulha de Jalen Ngonda fundo na virada dos anos 1960 para os 1970, costurando a urgência do pop e do R&B modernos com a elegância de arranjos que remetem aos grandes tempos da Motown, da Stax e do Philly soul. A maturidade sonora apresentada nos singles recentes, como a suingada Hang it On The Shelf, reflete uma rotina intensa de quem passou os últimos meses cruzando continentes. A vida na estrada, inclusive, rendeu frutos que vão muito além de sua discografia solo. Apontado pela crítica como uma voz “uma em uma geração”, Jalen Ngonda recentemente chamou a atenção de ninguém menos que Damon Albarn, que o convocou para emprestar suas cordas vocais à faixa The Mountain, no mais recente e elogiado álbum do Gorillaz. Essa bagagem acumulada de Jalen Ngonda se traduz em um álbum feito com mais autonomia. Enquanto a estreia foi lapidada quase inteiramente em estúdio ao lado dos produtores de Nova York Vince Chiarito e Michael Buckley, quando mal se conheciam, Doctrine of Love começou a ganhar vida de forma solitária em hotéis ou em parcerias no Reino Unido. O resultado é um repertório que flerta discretamente com nuances de folk rock, doo-wop e a crueza do rock ‘n’ roll primitivo de Nova Orleans dos anos 1950, expandindo os limites daquilo que o público costuma rotular simplesmente como “soul music”. O Blog n’ Roll bateu um papo exclusivo com Jalen Ngonda às vésperas desse grande lançamento. No meio de uma concorrida agenda europeia, que inclui arenas lotadas ao lado de Olivia Dean e palcos principais de festivais como o Mad Cool e o North Sea Jazz, o músico destrinchou seu processo criativo, rechaçou os rótulos pesados da imprensa, falou sobre a liberdade que busca como artista e mandou um recado direto para os fãs brasileiros, garantindo que a turnê deve desembarcar em solo sul-americano muito em breve. Confira a entrevista na íntegra abaixo. Jalen Ngonda, parabéns pelo novo trabalho. O seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), teve uma recepção estrondosa. Como foi entrar em estúdio para criar o Doctrine of Love após todo esse sucesso? Você sentiu algum tipo de pressão ou o processo fluiu com mais naturalidade? Fluiu naturalmente. Para ser bem sincero com você, o sucesso (do primeiro disco) se resumiu a fazer shows. Eu acho que se esse sucesso significasse ir a várias cerimônias de premiação e coisas do tipo, eu provavelmente teria me sentido de um jeito diferente. Mas estava apenas tocando em tantos shows após o lançamento do álbum… Então, não senti nenhuma pressão para fazer o Doctrine of Love. Só escrevi algumas músicas, é simples assim. O release do álbum menciona que Doctrine of Love se situa cronologicamente no final dos anos 1960. O que especificamente nessa virada de década te fascina tanto musicalmente, e como você buscou traduzir essa atmosfera nas novas composições? Sendo o mais simples possível: eu apenas amo essa música. E eu não sei o porquê, não entendo por que meu cérebro é atraído por esse som, mas ele é. Quando fizemos o primeiro álbum, estávamos na época da covid. E havia aquela vibe de… naquele momento, nós estávamos ouvindo muito, e quando digo “nós”, me refiro aos produtores do álbum com quem estava no estúdio, havia muito Philly soul tocando por ali. Estávamos ouvindo muito daquele Marvin Gaye do início dos anos 70, aquele som de arranjos muito grandes e luxuosos de Tom Bell, Gamble & Huff, Curtis Mayfield… Tinha muito disso rolando na sala. E acho que a música refletiu isso. Tirando a faixa So Glad I Found You, que tem um som mais de meados dos anos 60, acho que estávamos todos sentindo aquele trem dos anos 70. Para complementar, grande parte do primeiro álbum foi escrita com eles. Acho que houve apenas duas músicas que escrevi com outras pessoas, o resto do álbum foi escrito com o Mike (Buckley) e o Vince (Chiarito). Já desta vez, passei muito mais tempo em turnê e muito mais tempo de volta ao Reino Unido, onde escrevi sozinho ou com outras pessoas que tinham influências de outras coisas, como indie rock ou algo assim. E quando escrevo sozinho, muito do que faço tem um estilo mais voltado para o início ou meados dos anos 60, não necessariamente todas as músicas, claro. Havia muitas canções que foram para o segundo álbum que eu meio que já trouxe prontas. E acho que, conforme a Daptone e os produtores foram me conhecendo melhor, porque mal nos conhecíamos quando escrevemos o primeiro álbum, tínhamos acabado de nos conhecer, eles perceberam que gostava mais dos sons mais antigos. Então, eles meio que defenderam e me apoiaram um pouco mais nesse som. É por isso que o disco tem um som ligeiramente mais antigo. Mas quem sabe? Talvez o terceiro álbum soe como os anos 80. Nós não sabemos, simplesmente não sabemos. Além do soul e do funk tradicionais,
Entrevista | Laure Briard – “Eu amo Santos! Já fui umas quatro vezes aí”

O público brasileiro tem um lugar cativo no coração de Laure Briard, e a recíproca é absolutamente verdadeira. Conhecida por sua capacidade de flutuar entre o pop sessentista e o indie contemporâneo, a cantora e compositora francesa já cruzou o Atlântico diversas vezes, deixando como rastro parcerias memoráveis com os goianos dos Boogarins e raridades cantadas em um português carregado de charme e sotaque. Para os lados de cá, ela já não é apenas uma visitante, mas parte da nossa própria cena alternativa. Agora, Laure apresenta ao mundo Voyage Mental, seu mais novo álbum de estúdio, que chegou hoje às plataformas digitais pelo selo Midnight Special Records. O trabalho marca uma virada estética sensível na carreira da artista. Se o elogiado antecedente Nevers To Blue buscava oxigênio e imensidão nas paisagens áridas e geográficas do deserto da Califórnia, o novo registro propõe uma expedição de coordenadas muito mais íntimas: um mergulho direto para dentro de si mesma. Essa nova fase, despida de excessos e focada em arranjos mais puros guiados pelo violão folk, reflete um momento de profunda transformação pessoal, Laure recentemente deu à luz gêmeos. O primeiro vislumbre dessa calmaria reflexiva veio com o single Rocking Chair, uma faixa que evoca o movimento de vai e vem dos pensamentos e que resgata anotações feitas por ela há mais de uma década, provando que certas inquietações artísticas são atemporais. Para dar forma visual e sonora a esse universo, Laure manteve por perto o que chama de “experiência familiar”, cercando-se de amigos de longa data e parceiros de total confiança, como os músicos Gaetan Nonchalant e Clementine (Norma). Essa rede de afeto serve de porto seguro para uma artista que se assume abertamente nostálgica, mas que sabe equilibrar o peso do passado com o frescor do presente de maneira totalmente orgânica. Em uma conversa descontraída via Zoom direto de Paris, Laure Briard revelou detalhes sobre o processo de composição em francês e inglês, relembrou com carinho suas andanças por Santos, cidade que visitou várias vezes e cuja arquitetura peculiar dos prédios tortos ficou guardada na memória, e confessou o misto de ansiedade e empolgação que antecede o lançamento de um disco gerado com tanto cuidado. Laure, vamos começar? Falo do Brasil. De qual cidade? Santos Santos! Sabia que eu já fui para Santos muitas, muitas vezes? Sério? Sim! Eu tenho um amigo, um amigo brasileiro, e a mãe dele mora em Santos, então fui acho que umas quatro vezes. Eu amo Santos! Onde você esteve por aqui? Você se lembra? Nós temos aqueles prédios tortos. Sim, sim, sim, sim! Vocês têm uma vibe muito boa, é completamente diferente. São Paulo também é legal, mas é completamente diferente de Santos, né? É completamente diferente, mas é legal. Laure, o título do seu novo álbum é Voyage Mental. Após um álbum geograficamente inspirado pelo deserto da Califórnia, Nevers To Blue, esse novo trabalho é uma jornada para dentro de si mesma? Como surgiu esse conceito? O conceito veio do fato de que, para este álbum, eu queria algo mais… não mais introspectivo, mas mais, como posso dizer, mais puro, sem muitos arranjos. Algo mais folk, com violão acústico e sem todos os instrumentos que eu costumava ter nas minhas músicas. Eu queria algo mais… não calmo, mas talvez com um andamento mais lento (low tempo). Não sei se há uma ligação com a minha situação pessoal na época, porque estava grávida, tive gêmeos, e talvez estivesse mais focada em mim mesma, e talvez haja uma ligação com tudo isso, mas queria algo novo. O single Rocking Chair nasceu de um momento de introspecção, talvez como você disse, em uma busca por equilíbrio. A cadeira de balanço (rocking chair) funciona quase como uma metáfora para esse movimento de vai e vem dos seus pensamentos? Conte-nos um pouco sobre o processo de composição dessa faixa. Escrevi essa música com um amigo meu, um músico, o nome dele é Gaetan Nonchalant, ele é um músico francês, então ele me ajudou com a letra e fez a música. Então vim com uma ideia, algo como… eu estava dizendo algo pacífico, alguém que estava se perguntando, introspecção, ele me acompanhou nessa ideia. E é engraçado porque, neste texto, nessa letra, usei versos que escrevi há uns dez anos, talvez mais, e quando olhei no meu diário, nas minhas notas, achei que combinava e disse: “Ah, sim, é o sentimento que sinto hoje em dia”. E sim, algo sobre imaginação, alguém que está… eu estava “imaginando”, “imaginando”? Eu estava “imaginando”? Não. Eu imaginei uma pessoa em um deserto, como um caubói solitário caminhando com o cavalo, que se senta à beira da fogueira, olha para as estrelas e… sim, há a imagem de um universo nisso. Você mencionou o Gaetan, mas também tem a Norma, certo? Sim. Como é para você trazer pessoas do seu círculo íntimo e afetivo para moldar a identidade visual deste lançamento? Gosto muito, muito de trabalhar com amigos, com certeza. Na minha música, todos os meus músicos, desde que comecei a gravar, há uns dez anos, são sempre amigos, porque para mim é uma experiência… uma espécie de experiência familiar, sabe? Estar em todo o processo, a escrita, a composição e depois a gravação, e depois, quando tocamos ao vivo. Realmente gosto de estar com pessoas em quem confio, que sei que posso confiar, e é sempre divertido, e faz sentido para mim fazer isso com meus amigos. E com a Norma, Clementine, o nome dela é Clementine, é muito… eu tenho sorte de ter amigos tão talentosos, porque é sempre divertido fazer vídeos assim. Éramos apenas nós duas no set, e às vezes três pessoas, mas é tão legal porque compartilhamos as mesmas ideias visuais, temos uma imaginação cinematográfica, compartilhamos tantos gostos no cinema… e é mais fácil para mim porque, como eu disse, me sinto bem perto de pessoas que conheço, em quem confio, e sim, é super legal. Laure, sua voz e estilo são frequentemente descritos como algo que pertence
Após 15 anos, Superchunk desafia a lógica dos sets engessados e faz show memorável no Cine Joia

Foram necessários 15 anos para o retorno do Superchunk ao Brasil. Mas a longa espera foi recompensada no domingo (31), no Cine Joia, em São Paulo, com um dos shows mais intensos até aqui em 2026. Em quase 90 minutos de apresentação, a banda norte-americana enfileirou seus principais hinos, além de promover uma série de mudanças no setlist na comparação com o show do Rio de Janeiro, que rolou na noite anterior. Aliás, a disposição para alterar o repertório é algo louvável em tempos de turnês com sets engessados. Poucas são as bandas que ousam mudar mais de cinco músicas quando viajam pela América do Sul. No caso do Superchunk, foram 21 faixas executadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas com nove novidades no show paulista, além da total reordenação das canções mantidas. Logo de cara, duas surpresas abriram a noite: This Summer, atendendo ao pedido de um fã e que rendeu uma piada do vocalista Mac McCaughan, dizendo que a escolha era no mínimo inusitada, já que estamos próximos do inverno, emendada propositalmente ou não por Endless Summer. E foi nesse ritmo, entre hinos e improvisações, que o Superchunk fez a festa de um público composto em sua maioria por pessoas entre 40 e 50 anos, dentre eles Evan Dando, vocalista do The Lemonheads, outro grande expoente do rock alternativo dos anos 1990. O clima de improviso, inclusive, fez com que a novata Laura King (ex-Bat Fangs), baterista de turnê que substitui Jon Wurster, desligado do grupo em 2023, errasse algumas entradas. Muito tímida ao microfone, ela se desculpou por três vezes, mas nada que comprometesse o ritmo do show. Pelo contrário: Laura desceu o braço na bateria. No palco, a baixista Betsy Wright, substituta de Laura Ballance nas turnês (embora a fundadora siga gravando em estúdio e à frente da Merge Records), e o guitarrista Jim Wilbur são mais discretos, cada um em seu canto. Enquanto isso, Mac McCaughan distribuía pulos e corridinhas pelo palco. Dentro do cenário alternativo noventista, o Superchunk se manteve como uma referência ética exatamente por ter se negado a virar mais uma banda presa às grandes gravadoras. Eles chegaram a se reunir com a Atlantic Records na época, mas decidiram não assinar nenhum contrato para preservar a autonomia artística. O grupo havia sido um dos primeiros a assinar com o cultuado selo independente Matador. Porém, quando a Matador formou uma parceria justamente com a major Atlantic Records, a banda decidiu agir. Mac McCaughan e Laura Ballance preferiram sair e construir sua própria gravadora do zero: a Merge Records. Durante a década de 1990, eles transformaram a Merge de um pequeno projeto movido por paixão em uma verdadeira potência do indie rock, sendo os responsáveis pelo lançamento de álbuns históricos como In the Aeroplane Over the Sea (Neutral Milk Hotel) e 69 Love Songs (The Magnetic Fields), além de trabalharem anos mais tarde com nomes como Spoon, Arcade Fire e Caribou. No Cine Joia, os momentos de maior catarse coletiva ficaram por conta de Everybody Dies, Driveway to Driveway, Crossed Wires e Slack Motherfucker. O impacto no público foi imediato: além de abrir alguns mosh pits, o som fez coroas emocionados subirem ao palco para pular nos braços dos fãs. Vale destacar que Mac não pareceu muito feliz com os invasores que demoravam a deixar o palco, chegando a dar um leve empurrão em um deles. O fim da apresentação ainda trouxe Learned to Surf e Hyper Enough, coroando o set mais redondo possível. O público saiu emocionado, feliz, suado e estacionou na frente do Cine Joia na esperança de garantir uma foto com a banda. Edit this setlist | More Superchunk setlists