Com harmonias vocais etéreas e composições que flutuam entre o sonho e a realidade, os irmãos australianos Angus e Julia Stone abrem um capítulo visivelmente mais festivo e solar em sua carreira. O ponto de partida dessa nova jornada é o álbum Karaoke Bar, lançado na última sexta-feira (4).
Gravado em estúdios espalhados pela França, Austrália e pela mística ilha grega de Hydra, conhecida pelo refúgio histórico de Leonard Cohen, o álbum deixa de lado a introspecção melancólica do antecessor Cape Forester para abraçar um clima dançante, espontâneo e coletivo.
Para falar sobre o novo momento, o processo de composição e as lembranças marcantes de suas passagens pelo país, o duo australiano conversou com o Blog n’ Roll. Durante o bate-papo, Julia revelou uma emocionante história de amizade construída no Rio de Janeiro antes mesmo do sucesso internacional da banda, enquanto Angus arriscou versos de Chris Isaak.
O single Karaoke Bar fala sobre como a música quebra barreiras entre estranhos. Na era digital e das redes sociais, vocês sentem que a música ao vivo e esses momentos espontâneos se tornaram ainda mais urgentes e necessários?
Julia Stone: Sim, acho que a música sempre serviu como uma espécie de tecido conectivo para o espírito humano. Em uma era de desconexão, onde passamos tanto tempo no mundo online, a música tem a capacidade de aproximar pessoas de diferentes origens, mesmo virtualmente. O lado bonito da interconectividade digital é que cada um consegue achar o som exato para si, encontrando sua comunidade.
Quando éramos crianças, eu sentia com frequência uma sensação de não pertencimento. Aí ouvia Leonard Cohen e pensava: “Tem alguém lá fora dizendo algo que me conecta. Não estou mais sozinha”. A música faz você se sentir parte de uma família de pessoas que compartilham dos mesmos sentimentos.
Em um ambiente de karaokê, todo mundo tem a oportunidade de cantar e ser ouvido. Como foi traduzir essa energia democrática e festiva para a assinatura dreamy folk de vocês?
Julia Stone: Como o Angus e eu trabalhamos juntos há quase duas décadas, o próprio processo de gravação no estúdio é profundamente democrático. Criamos um espaço livre e justo onde ambos somos ouvidos. O respeito mútuo pela criatividade do outro se reflete diretamente na sonoridade das faixas. Quanto mais amadurecemos essa convivência ao longo dos anos, mais essa dinâmica transparece no resultado final do nosso som.
Se vocês dois entrassem em um karaokê hoje à noite, longe dos palcos profissionais, qual seria a escolha de cada um no microfone?
Julia Stone: Eu provavelmente cantaria qualquer faixa do Jagged Little Pill, da Alanis Morissette. (risos)
Angus Stone: Para mim, seria Wicked Game, do Chris Isaak. “I never dreamed that I’d meet somebody like you…”
A ilha de Hydra, na Grécia, tem uma mística musical enorme associada ao Leonard Cohen. Como a energia do local influenciou a composição do disco?
Angus Stone: Havíamos acabado de encerrar uma turnê exaustiva e estávamos em Paris. Queríamos unir o melhor de dois mundos: curtir férias no Mediterrâneo, bebendo bom vinho e comendo bem, enquanto gravávamos no estúdio em Hydra. Foi uma atmosfera mágica que nos entregou exatamente o equilíbrio que estávamos buscando.
O álbum foi registrado na Grécia, na França e na Austrália. Como conectar texturas de lugares tão distintos e ainda assim manter uma unidade estética?
Angus Stone: Nossa vida profissional sempre aconteceu em trânsito e em diferentes estúdios pelo mundo. Para nós, a coesão de um disco não vem do espaço físico, mas das nossas vozes, dos instrumentos que escolhemos e das composições. Usamos métodos muito específicos de gravação. O que mantém a unidade de ponta a ponta é o sentimento que compartilhamos durante esses meses: estarmos profundamente felizes, gratos e celebrando a chance de fazer música juntos.
O que mudou na engenharia de som e na dinâmica de produção em comparação ao intimismo de Cape Forester?
Julia Stone: Cape Forester era mais introvertido e melancólico. Queríamos recriar a atmosfera dos nossos primeiros passos, quando tocávamos na sala de estar da casa do nosso pai ao voltar da escola. Todo o álbum e a turnê refletiram essa estética minimalista. Já este novo disco nasceu na estrada, tocando em teatros antigos e sentindo a energia da multidão. Nós nos sentimos muito mais solares. O disco convida o público a ficar de pé, dançar e compartilhar a experiência.
Vocês começaram essa parceria oficial em 2007 com o EP Chocolates and Cigarettes. Qual é o maior superpoder e o principal desafio de manter uma carreira profissional com um irmão?
Julia Stone: O maior desafio é exatamente a nossa maior recompensa. Quando você cresce na mesma casa e divide a mesma infância, é fácil cair na armadilha de achar que o outro ainda é aquela pessoa de 10 ou 15 anos atrás. O grande aprendizado foi dar permissão para o outro evoluir e mudar constantemente. Permitir que o outro se transforme em um novo artista a cada dia nos ajudou a transformar uma relação que poderia ser complexa em algo raro e afetuoso. É preciso aceitar quem a pessoa é hoje, não quem ela foi ontem.
Para os fãs que se apaixonaram pela levada de Karaoke Bar, o que esperar do restante do álbum?
Angus Stone: Encaramos cada disco como uma expedição pelas nossas próprias possibilidades. Neste projeto, mergulhamos de cabeça em nos divertir com a música. Pegamos o espírito despretensioso de “Karaoke Bar” e exploramos vários caminhos dentro dessa proposta. Estamos empolgados para ver como as pessoas vão receber essa energia.
O público brasileiro é muito conectado com o folk e a obra de vocês. A turnê do novo disco deve passar pelo Brasil em breve?
Julia Stone: Esse é o nosso grande sonho! Nós temos um amor verdadeiro pelo Brasil. Viajamos para o país quando éramos mais jovens. Houve uma época em que o Angus precisou voltar para a Austrália para terminar os estudos e eu passei uma temporada no Rio de Janeiro, morando com uma família brasileira. Eu ainda estava dando os primeiros passos na composição e costumava tocar minhas canções para eles na sala, o acolhimento deles foi inesquecível.
Anos mais tarde, antes das redes sociais, a garota daquela casa conheceu um australiano cujo pai enviou nossas músicas recomendando o som. Ela reconheceu o meu nome, mandou uma mensagem para a nossa equipe e descobriu que era eu mesma! Ela acabou se mudando para a Austrália e restabelecemos contato. Além disso, nosso show em São Paulo teve uma das plateias mais calorosas da nossa carreira. Queremos muito voltar.