O Hot Freaks lança em 23 de outubro de 2026 Soft Body, terceiro álbum de estúdio da banda de indie pop de Minneapolis. O trabalho sucede Hot Freaks Forever (2023) e representa, para o vocalista Leo Vondracek, um processo mais orgânico e próximo daquele vivido no disco de estreia.
Diferentemente do álbum anterior, produzido logo após a inesperada retomada do grupo, o novo material foi desenvolvido depois de alguns anos de convivência novamente como banda, permitindo que os músicos reencontrassem seu próprio ritmo. Soft Body também recupera composições antigas, como “Getting Over You”, cuja primeira versão permaneceu por mais de uma década no SoundCloud de Vondracek antes de finalmente ganhar um lançamento oficial.
Formado em Minneapolis, o Hot Freaks viveu uma trajetória incomum. Depois de uma primeira fase restrita principalmente à cena local, o grupo interrompeu as atividades e passou anos separado até que “Puppy Princess”, música lançada originalmente na década anterior, viralizou no TikTok em 2021. Vondracek nem utilizava a plataforma quando recebeu uma mensagem no Instagram avisando sobre o crescimento da faixa. No dia seguinte, gravadoras já começaram a procurá-lo, embora naquele momento o Hot Freaks nem sequer estivesse reunido. O sucesso levou ao retorno da banda, que desde então lançou um novo álbum, retomou os shows e passou a trabalhar para transformar a segunda chance proporcionada pela internet em uma carreira sustentável.
Às vésperas do lançamento de Soft Body, Leo Vondracek conversou com o Blog N’ Roll sobre a pressão de provar que o Hot Freaks é mais do que um fenômeno do TikTok, a relação da banda com os fãs brasileiros e os planos de levar o grupo para fora dos Estados Unidos. O vocalista também falou sobre o desafio de conciliar a banda com a distância entre os integrantes, revelou que já existem contatos para uma possível passagem pelo Brasil e escolheu três discos pelos quais mantém uma relação afetiva.
Depois de sair do hiato e, inevitavelmente, ficar conhecido por muita gente como “a banda daquela música do TikTok”, existe uma pressão de autoafirmação em Soft Body? De certa forma, este é o álbum definitivo para mostrar quem é o Hot Freaks pós-TikTok e depois da volta?
Foi incrível o TikTok ter nos salvado, ou nos encontrado e abraçado. Sinceramente, se não fosse pela plataforma, não sei se teríamos encontrado um público como esse. É muito legal entrar no TikTok e ouvir pessoas usando nossas músicas o tempo todo.
Mas acho que existe, sim, um desejo de sermos levados a sério também como uma banda que faz álbuns. É ótimo que esse lado esteja funcionando, mas somos uma banda de verdade, que faz discos. É mais do que apenas uma ou duas músicas.
Também existe outro aspecto. Nós nos reunimos depois de termos terminado e praticamente entramos direto no álbum anterior. Este disco foi feito depois de já estarmos juntos novamente havia cerca de três anos, então tivemos mais tempo para encontrar nosso ritmo. Já faz cinco anos desde que nos reunimos.
O primeiro disco que lancei é um disco que adoro e representa muito o que eu queria fazer naquela época. Mas é um trabalho mais experimental, mais denso e mais difícil de assimilar. Ele vai mais para essa coisa da síncope do rap, é mais falado do que cantado, tem muita letra e muita informação.
Você disse que o processo de Soft Body se parece mais com o primeiro álbum. O que vocês recuperaram daquela versão do Hot Freaks?
Quando nossa música ficou popular, nós não estávamos juntos. Então existia essa urgência: “Precisamos nos reunir e fazer um disco novo”. Já o primeiro álbum aconteceu de maneira muito orgânica, com muita tentativa e erro. Cometemos erros, mas acho que isso foi positivo. Fomos devagar e encontramos nossa própria voz.
No disco anterior, foi mais como: “Agora temos recursos, temos dinheiro, vamos terminar este álbum o mais rápido possível”. Tanto no primeiro quanto neste novo disco, de certa forma sofremos durante o processo, mas digo isso de uma maneira positiva. Quando uma boa ideia não aparecia, simplesmente parávamos, recalibrávamos e esperávamos, em vez de pensar apenas no prazo.
Percebi que a magia da banda está justamente em ser um pouco peculiar. Não se trata de sermos uma banda que simplesmente chega e toca com força. Quando escuto alguns dos arranjos, percebo que existem ideias que provavelmente um produtor convencional não teria. Essa é a nossa própria voz.
Há material em Soft Body que estava guardado havia anos. Qual é a música mais antiga e como é terminar hoje algo iniciado por uma versão muito mais jovem de você?
Existe uma coisa estranha acontecendo. Praticamente todas as músicas do Hot Freaks que ficaram populares foram escritas em um período de dois anos, quando eu tinha entre 24 e 26 anos.
“Getting Over You”, por exemplo, estava pronta havia muito tempo. Falávamos sobre ela há anos e gravamos umas três versões diferentes. Ela deveria ter entrado no disco anterior, mas isso não aconteceu. É satisfatório perceber que aquela música era como um raio engarrafado. Poderia ter ficado guardada por mais 20 anos e, quando finalmente saísse, talvez ainda funcionasse.
Ao mesmo tempo, existe um medo: “Será que eu simplesmente não escrevo mais como escrevia?”. É uma loucura ver uma música parada durante tanto tempo, finalmente lançá-la e ela funcionar. Havia uma demo minha de “Getting Over You” no SoundCloud há mais de uma década e ela já tinha uma vida própria. Algumas pessoas até dizem que preferem a versão antiga.
É muito difícil conseguir a atenção das pessoas na economia atual da música. Por isso, ver uma canção antiga conseguir esse tipo de repercussão ainda é algo inacreditável para mim.
Uma característica muito forte do Hot Freaks é o contraste entre melodias alegres, que fazem as pessoas dançarem, e letras sobre insegurança, rejeição e relacionamentos. Isso acontece naturalmente ou é algo que você busca conscientemente?
As duas coisas. Se existe um conselho que eu poderia dar para alguém, embora pareça óbvio, é que existe algo muito poderoso nesse contraste entre uma letra triste e uma melodia feliz. O contrário também funciona. Existem músicas lindas com melodias muito tristes e letras felizes.
Acho que existe algo relacionado ao espírito humano nisso. Canalizamos a dor e a música funciona quase como um curativo, ajudando a processar sentimentos tristes. É assim que geralmente penso. Se existe alegria, você precisa conectá-la ao outro lado, ao yin e yang. Se existe entusiasmo e felicidade, pode usar uma música alegre para atacar seu medo, sua tristeza.
Gosto muito quando a letra possui uma profundidade maior do que a melodia inicialmente sugere. É um espaço muito divertido para trabalhar.
Você já percebe uma comunidade de fãs do Hot Freaks no Brasil? Recebe mensagens de brasileiros pedindo para a banda vir para cá?
Sim. Você já viu nosso Twitter? Existem uma ou duas pessoas que são muito ativas na internet e com quem já tive contato.
Quero muito ir ao Brasil. Está no topo da minha lista porque adoro samba e música brasileira, que são grandes influências para mim. Fui à Cidade do México pela primeira vez e encontrei alguns fãs por lá. Espero poder fazer algo parecido no Brasil, talvez um encontro com fãs, caso ainda não seja possível fazer um show completo, que obviamente é o que queremos.
Recebemos algumas mensagens e isso é muito gratificante. Eu gosto tanto de música brasileira que ver pessoas daí encontrando nossas músicas é muito legal. E participar de entrevistas como esta talvez faça ainda mais pessoas conhecerem a banda. Isso é muito empolgante.
Mas já existiu conversas ou planos para fazer shows no Brasil ou na América do Sul? Porque vocês fizeram uma música em espanhol, certo?
Uma coisa que quero fazer, até para minha própria diversão, é traduzir todas essas músicas. Já conversamos sobre fazer mais coisas desse tipo.
Confesso que fico um pouco envergonhado com nossa música em espanhol porque sei que a pronúncia não ficou perfeita, mas foi feita com carinho.
Queremos ir. O difícil é construir essas relações. Estamos prestes a fazer nossa segunda turnê como atração principal nos Estados Unidos, o que é ótimo, mas esperamos conseguir ir para algum lugar fora do país no próximo ano.
Nosso empresário já conversou com alguém no Brasil que possui contatos com casas de shows. Estamos abertos a tudo. É algo que queremos fazer e acredito que vai acontecer. Precisamos criar esse movimento e fazer com que as pessoas que possuem essas conexões entrem em contato. Eu quero muito ir.
Falando sobre “Puppy Princess”, quem contou para você que a música estava viralizando no TikTok? Qual foi sua primeira reação?
Foi alguém que me seguia no Instagram. A banda surgiu em Minneapolis e, no começo, tocamos por cerca de um ano, gravamos o disco e praticamente nem saímos da cidade. Nunca promovemos realmente a banda em nível nacional. As pessoas foram encontrando nossa música lentamente pela internet ao longo de seis ou sete anos.
Então alguém me mandou uma mensagem dizendo: “Sua música está popular no TikTok”. Eu nem estava no TikTok. Pensei: “Legal”, mas imaginei que não fosse algo tão grande.
No dia seguinte, comecei a receber e-mails de gravadoras de verdade dizendo que precisávamos conversar. Foi muito estranho e chocante.
Também surgiu um medo: “Meu Deus, será que não estamos preparados para aproveitar este momento?”. Nós nem éramos mais uma banda naquele momento. Havia muita ansiedade, mesmo com algo muito bom acontecendo, porque existia o medo de perder aquela oportunidade justamente por não estarmos preparados.
Quando as gravadoras começaram a procurar vocês, existiu pressão para criar outro hit viral para o TikTok?
Acho que existiu mais pressão no disco anterior. Sentar e tentar escrever um hit viral ou algo universal é muito difícil.
Naquela época, existia uma sensação de que precisávamos encontrar uma continuação para aquele sucesso. Eu também havia passado seis anos tentando fazer coisas diferentes do Hot Freaks. Pensava que talvez as letras fossem peculiares demais e que deveria tentar outra abordagem. Por isso, incorporamos algumas músicas do que eu vinha fazendo mais recentemente.
Foi mais difícil encontrar o foco e entender exatamente o que torna alguma coisa Hot Freaks. Acho que encontramos partes disso, mas havia mais pressão para conseguir outro viral.
Talvez justamente por isso tenha sido mais fácil desta vez. Não sou muito bom trabalhando sob pressão. Gosto quando ninguém está prestando atenção e você pode criar no escuro, sem pressão. É quando consigo realmente fazer alguma coisa.
O álbum foi criado com os integrantes vivendo em lugares diferentes. Como é a vida de vocês agora que a banda voltou? Conseguem viver apenas de música?
A banda se reuniu em 2021, quando a música ficou popular. Eu me mudei para Los Angeles em 2017 e moro lá desde então. O restante da banda está em Minneapolis, onde estou agora.
A música é minha principal atividade. Ainda faço alguns trabalhos paralelos, como tocar em casamentos, para conseguir pagar as contas, mas estou praticamente dedicado à banda. Alguns integrantes ainda possuem empregos, então, de certa maneira, a banda ainda funciona em tempo parcial.
Tenho voado para Minnesota praticamente todos os meses e fico pelo menos alguns dias para ensaiar, produzir conteúdo e trabalhar na banda. Sarah e Cody são de South Dakota, que foi onde os conheci, mas não moramos mais lá.
Quando estou aqui, fico totalmente focado no Hot Freaks durante dois ou três dias e depois volto para Los Angeles. Meu objetivo seria transformar isso em uma atividade em tempo integral para todos, fazer um disco por ano e passar três ou quatro meses por ano em turnê. Estamos trabalhando para chegar lá.
Sem pensar muito: quais são três discos que você guarda com carinho? Não precisam ser os três melhores álbuns de todos os tempos, apenas aqueles com os quais você tem uma relação afetiva ou que trazem alguma memória especial.
1996, do Ryuichi Sakamoto. Também diria Pinkerton, do Weezer. Adoro esse disco.
E vou escolher Wallpaper for the Soul, do Tahiti 80. Adoro esse álbum. Eles são uma banda francesa de indie pop. Esses seriam os três.
Gosto de você ter esclarecido que não precisam ser os melhores de todos os tempos, porque odeio aquela pergunta sobre quais discos levaria para uma ilha deserta. Isso me deixa maluco. Não consigo escolher.