Entrevista | Opeth – “Estar no palco e vivenciar isso traz uma sensação indescritível”

Entrevista | Opeth – “Estar no palco e vivenciar isso traz uma sensação indescritível”

Consagrado como um dos nomes mais vitais e imprevisíveis do metal progressivo global, o Opeth está de volta ao Brasil no início de novembro para encerrar o ciclo do The Last Will & Testament. Desta vez como atração principal, o quinteto sueco sobe ao palco da Ópera de Arame, em Curitiba (5/11), e do Espaço Unimed, em São Paulo (6/11), trazendo uma produção visual completa e um repertório que ultrapassa as duas horas de duração.

Lançado com enorme impacto crítico e vencedor do prestigiado Grammis sueco de Melhor Álbum de Hard Rock/Metal, The Last Will & Testament é o 14º trabalho de estúdio do grupo e o primeiro totalmente conceitual de sua trajetória de mais de três décadas. Ambientada nos anos 1920 como um thriller psicológico sobre ganância familiar e herança, a obra marcou época tanto pela atmosfera claustrofóbica e participações estelares (como Ian Anderson, do Jethro Tull) quanto pelo aguardado retorno dos vocais guturais de Mikael Åkerfeldt.

Para dissecar essa fase criativa, os bastidores de gravação e os detalhes da reta final da turnê sul-americana, o Blog n’ Roll conversou com com o guitarrista Fredrik Åkesson. Do seu estúdio particular na Suécia, onde aproveita os intervalos de turnê para finalizar seu primeiro disco solo, o músico detalhou a construção dos solos e riffs do novo trabalho, a química de palco com a cozinha rítmica, resgates de pérolas antigas no repertório e a relação apaixonada que mantém com o público brasileiro.

Confira a entrevista completa com o guitarrista da Opeth abaixo:

Fredrik, como funciona a divisão dos solos de guitarra entre você e o Mikael no The Last Will & Testament? Ele já traz as ideias totalmente prontas ou você tem liberdade total para compor suas partes?

Eu diria que tenho praticamente liberdade total para criar minhas partes. Geralmente ele delega para mim os solos mais técnicos, mais rápidos (shreddy), e prefere tocar os solos mais calmos, com uma pegada mais relaxada. No meu primeiro álbum com a banda, o Watershed, nós fazíamos mais aquelas trocas de licks, duelo de guitarras, o que eu adoro. Sou um grande fã da velha guarda do Iron Maiden, Judas Priest e coisas do tipo, e acho o Mikael um guitarrista solo extraordinário também.

Mas diria que tenho total liberdade quando o assunto são os solos. Às vezes ele tem algum pedido específico, tipo: “Pensei nisso aqui, você conseguiria começar nessa nota específica e sustentá-la?”, ou algo assim. O que é muito divertido. Eu gosto de ser criativo, alguns solos são mais improvisados e outros são mais planejados. Depende muito da música e da seção.

No The Last Will & Testament, os solos são curtos. Se eu apenas sustentar uma nota, o solo já acabou! Então precisei pensar em algo cheio de ação, porque queria colocar muitos ingredientes ali dentro. Gosto de enxergar o solo como uma pequena composição em si. Pode soar um pouco pomposo, talvez, mas acho solos fundamentais e é instigante tentar evoluir e trazer novidades a cada disco novo. Esse é meu objetivo, pelo menos.

E como o retorno dos vocais guturais do Mikael impactou a sua dinâmica com os backing vocals nos shows da Opeth?

Sim! Ao vivo, tendo a fazer os backing vocals de forma mais agressiva, especialmente nas músicas novas. No álbum, nas partes em que canto, você está perguntando sobre os vocais de apoio, certo?, tenho tentado fazer algo mais rasgado. Quando tocamos a §1 (Paragraph 1), por exemplo, tento colocar uma voz mais distorcida e potente, em vez de reproduzir exatamente aqueles vocais limpos, quase em falsete, que estão no disco.

Em algumas faixas reproduzo como está lá, mas nessas músicas mais agressivas acho que funciona muito bem ao vivo. E é divertido testar o que consigo fazer vocalmente. Não pretendo ser vocalista principal nem nada disso, mas se traz uma energia legal no palco, por que não?

Com certeza! E o que significou para a banda faturar o Grammis sueco de Melhor Álbum de Hard Rock/Metal com esse disco?

Já tínhamos sido indicados algumas vezes antes e não levamos o prêmio. O Opeth só havia vencido uma vez, com o Ghost Reveries, que foi o trabalho anterior à minha entrada. Então a gente sempre ficava com aquela postura de: “Nem vamos perder tempo indo a essa premiação boba”. Mas, desta vez, nós ganhamos. Foi muito divertido, teve uma festa ótima e foi bacana ver que quem nos entregou o troféu em mãos foi o Tobias Forge, do Ghost, com quem trabalhei um pouco, como você deve saber. Somos amigos, então foi especial.

E, claro, na Suécia isso tem um peso grande; as pessoas comentam bastante. É um prêmio com um apelo mais comercial aqui, bem focado no pop, mas eles têm a categoria de metal e hard rock. Ficamos contentes, sem dúvida, embora isso não seja tudo na vida. É apenas uma conquista legal.

E o que é mais importante para você na Opeth, musicalmente falando?

No que diz respeito ao Opeth, o mais importante é darmos o melhor de nós e, se possível, ir além. Seja gravando um álbum ou tocando ao vivo, nossa intenção é sempre elevar o nível, ser extremamente perfeccionista com os detalhes e entregar a melhor performance possível.

Temos essa obrigação moral com quem gosta do nosso trabalho; precisamos fazer o ingresso do fã valer a pena. Por exemplo: nós nunca bebemos antes dos shows. Jamais valeria a pena cometer um erro no palco por causa de álcool, isso não seria correto com o público. Depois do show, aí sim podemos tomar umas cervejas.

Uma postura muito profissional e atenciosa.

É que são muitas partes para lembrar e muito do material do Opeth é delicado. Você salta de um riff pesadíssimo direto para uma passagem acústica dedilhada, e muitas vezes precisa cantar ao mesmo tempo. No fim das contas, trata-se de fixar tudo na memória muscular. Com frequência, no palco, a gente se pega conversando: “Como é que eu consigo lembrar de tudo isso?”, porque as músicas têm muitas camadas e seções contrastantes. Quando entra na memória muscular, você não precisa ficar pensando racionalmente no palco, o que é libertador.

Se você bebe antes, fica mais propenso a falhas, fica tenso e complica sua própria vida. Sei que alguns músicos tomam uma cerveja para acalmar os nervos antes de entrar, e não vejo problema nisso. Às vezes até nos faria bem meia cerveja para relaxar, principalmente após um longo hiato sem tocar, quando você ainda precisa “voltar à sela”. Mas mantemos essa disciplina.

No Monsters of Rock do ano passado a Opeth fez um show de festival mais curto. O que os fãs podem esperar de diferente agora que serão os headliners no Espaço Unimed?

Vamos tocar um repertório bem diferente. Trocamos várias faixas. Claro que ainda faz parte da turnê do The Last Will & Testament, inclusive serão as últimas apresentações deste ciclo, então tocaremos três músicas do disco novo. Mas mudamos bastante coisa em relação à nossa última passagem por aí, pensamos nisso com muito carinho.

O show será bem mais longo e teremos uma produção de palco completa. Na última vez não tínhamos essa estrutura, mas evoluímos isso: na turnê pelos Estados Unidos e Europa usamos duas carretas com iluminação e cenografia dedicadas. Vamos levar isso para vocês. Nosso show como atração principal costuma durar cerca de duas horas. Depende também de quanto o Mikael resolve falar, algumas noites ele fala mais que outras! Adoro essa dinâmica ao vivo porque você nunca sabe exatamente o que ele vai soltar no microfone. Ele interage com o público: se alguém grita algo da plateia, ele puxa assunto, faz piada… Vamos ver o que rola!

Você é amplamente reconhecido pela sua técnica apurada e gravou as guitarras do Impera, do Ghost. Como é a sua rotina diária de estudos e aquecimento na estrada? Já que você mencionou que não bebe…

Pelo menos não de manhã! (risos) Você quer dizer a minha rotina de treino especificamente na turnê, certo?

Isso, durante a turnê da Opeth (risos).

Há bastante tempo ocioso para preencher. Mas nesta etapa pela América do Sul e Central viajamos muito, então os dias são mais corridos. Quando eu tinha 16 ou 17 anos, eu e um amigo guitarrista tiramos duas peças de Paganini para violino. Elas são excelentes exercícios de aquecimento para sincronizar a palhetada com a mão da escala: em vez de ficar subindo e descendo escalas de forma mecânica, você trabalha uma melodia real, cheia de saltos amplos de intervalos, o que exige muito mais precisão. É algo que sempre pratico.

Fora isso, gosto de improvisar sobre diferentes acordes buscando notas-guia, ou toco algum solo clássico do heavy metal, como I am a Viking do Yngwie Malmsteen ou Tornado of Souls do Megadeth, aquele solo sensacional do Marty Friedman. É chato ficar apenas parado no camarim. Costumo ligar o amplificador portátil, colocar uma backing track, às vezes uma base no estilo do Pink Floyd, e improvisar em cima.

Também passo trechos do próprio repertório e aqueço a técnica de dedilhado acústico (fingerpicking), já que é uma pegada totalmente diferente, onde é preciso tocar com muito mais sutileza e leveza. Varia um pouco, de vez em quando também entro no modo nerd e fico no YouTube tirando licks novos.

E há algum clássico antigo da discografia do Opeth que você vive insistindo para colocar no setlist, mas o Mikael resiste em tocar?

Sim! Já tocamos na América do Sul no passado, mas não na turnê anterior: Burden. Muitos na banda adoram tocar essa música, mas, por alguma razão, o Mikael não é muito chegado em colocá-la no set. Outra é Blackwater Park, que é uma das grandes favoritas dos fãs e tem seções instrumentais longas.

Nós até ensaiamos, mas o Mikael fica reticente: “Não sei, não sinto firmeza nessa faixa…”. E todas as vezes em que tocamos ela funcionou incrivelmente bem! Mas entendo o lado dele: é ele quem tem que cantar todas aquelas partes exigentes.

Para esta etapa resgatamos algumas surpresas: vamos tocar Godhead’s Lament, do Still Life, uma música pesada que não tocávamos há anos, então quem curtir essa fase vai gostar. E também resgatamos Hex Omega, do Watershed, que estava fora há muito tempo. Tem sido ótimo tocá-las.

O público brasileiro é famoso por cantar até os riffs de guitarra. Essa intensidade ajuda ou chega a atrapalhar a concentração em passagens mais intrincadas?

Não atrapalha em nada, só me dá mais gás! Fico extremamente feliz. Estar no palco e vivenciar isso traz uma sensação indescritível: a adrenalina dispara e você sente uma conexão real com o público. É algo lindo de verdade.

Brincando com o conceito de testamento do álbum: se você tivesse que escolher um único solo ou riff de toda a sua trajetória para ser o seu grande legado musical, qual seria?

Tenho orgulho de vários. Adoro a parte rápida de palhetada (shred), mas há solos calmos que fiz dos quais gosto muito. Me foge o título agora, mas me refiro à balada do álbum anterior, o In Cauda Venenum… Isso, a balada desse disco anterior, Minnets Yta. Gosto bastante daquele solo. Ele tem um valor emocional muito forte para mim, pois meu pai adorava aquele trecho e veio a falecer alguns anos depois. É uma passagem muito significativa.

Há também uma faixa-bônus do In Cauda Venenum, Width of a Circle, que é uma canção mais cadenciada, com um solo extenso e virtuoso em que desenvolvo frases sobre várias mudanças harmônicas. Mas no The Last Will & Testament tentei compor solos bem diferentes de tudo o que fiz no passado. Trabalhei exaustivamente neles, sentado aqui em casa, experimentando ideias distintas para tentar criar algo novo, que é sempre o meu objetivo em cada álbum. É isso o que torna o instrumento fascinante: tentar subir de nível constantemente. Tento fazer isso sempre, torcendo para acertar um pouco mais a cada trabalho.

E com certeza você tem conseguido! Fredrik, foi incrível conversar com você. Muito obrigada pela atenção e nos vemos no Brasil!

Estou muito ansioso para voltar! Obrigado pela conversa!