Entrevista | Rafael Witt – “Fui escolhido pelo próprio Lumineers. Foi um sonho que virou realidade”

Entrevista | Rafael Witt – “Fui escolhido pelo próprio Lumineers. Foi um sonho que virou realidade”

Hoje começa no Rio de Janeiro um dos momentos mais simbólicos da trajetória de Rafael Witt. O cantor e compositor gaúcho dá início nesta terça-feira (22) à série de apresentações como atração de abertura da turnê brasileira do The Lumineers, com show no Vivo Rio. A participação de Witt nos três concertos da banda no país, que ainda passa por Curitiba e São Paulo, nasceu de uma mobilização nas redes sociais: após publicar um vídeo no Instagram pedindo a oportunidade, o artista viu sua comunidade de fãs impulsionar a campanha com centenas de comentários e compartilhamentos, movimento que chamou a atenção da produção da turnê.

Mais do que um passo importante na carreira, a abertura dos shows carrega um peso afetivo e artístico. Foi justamente no indie-folk de The Lumineers e Mumford & Sons que Witt encontrou algumas de suas principais referências ainda na adolescência. Agora, a influência que ajudou a moldar sua identidade musical se transforma em realidade no palco, em uma conexão direta entre formação artística e projeção profissional. O momento também reforça a consolidação de seu nome dentro do circuito folk contemporâneo, após passagens recentes por turnês ao lado de Seafret e Hollow Coves no Brasil.

Natural de Caxias do Sul, Rafael Witt vem construindo carreira de forma independente, com turnês pelo Brasil, Europa e América do Norte, além de números expressivos nas plataformas digitais. Seu álbum Wanderer, lançado em 2024, já ultrapassa 1,5 milhão de streams no Spotify, consolidando uma trajetória marcada por composições em inglês, forte apelo autobiográfico e temas como pertencimento, transformação e deslocamento. A estreia da turnê com The Lumineers nesta noite, no Rio, marca um capítulo decisivo e emblemático para o artista.

Como surgiu a campanha para abrir o show do The Lumineers e como foi receber a notícia?

Foi muito engraçado. Eu tenho essa tradição na minha carreira, desde o início, de compartilhar com os fãs os meus sonhos e vontades. Algumas coisas se concretizam, outras ainda não, mas a galera já está acostumada com a minha cara de pau de simplesmente dizer: “gente, eu quero isso, vamos ver se a gente consegue fazer acontecer”.

Nesse caso, eu tive a audácia de gravar um vídeo bem produzido, falando em inglês diretamente para o Lumineers. Quase como um portfólio. Eu mostrei tudo o que já fiz, os shows que já abri, as cidades em que tenho público, as turnês na Europa e nos Estados Unidos, além de reforçar que meu som tem tudo a ver com eles. Inclusive mostrei um vídeo meu, com 14 anos, tocando uma música da banda. Pedi para a galera comentar, marcar o Lumineers e a Live Nation, e o vídeo acabou ganhando uma repercussão enorme.

Duas semanas depois, recebi a mensagem da Live Nation perguntando se eu tinha as datas disponíveis. Falei brincando “Deixa eu olhar na minha agenda” (risos). Claro que eu tinha. Depois veio a confirmação de que eu tinha sido escolhido pelo próprio Lumineers. Foi um sonho de infância que começou na internet e virou realidade.

Que conselho você daria para bandas e artistas que estão começando e sonham com oportunidades como essa?

Eu acho que o principal é desenvolver a carreira de forma consistente. Não basta só querer estar naquele palco, você precisa estar preparado para isso. No meu caso, eu cuido muito das composições, da qualidade dos vídeos, da apresentação ao vivo e do meu posicionamento como artista autoral.

Também acho importante jogar os sonhos para o universo. Falar sobre eles, compartilhar, fazer acontecer. Às vezes as pessoas têm vergonha de pedir, de tentar. Eu nunca tive isso. Mas claro que não é só pedir: você precisa mostrar que merece estar ali. No fim, a banda e a produção fazem uma curadoria, então tem que fazer sentido artisticamente.

Como está sendo a preparação para abrir o maior show da sua carreira? Como você monta o setlist?

Estou muito animado e, ao mesmo tempo, nervoso. É o maior palco em que já subi na vida. Acho que o palco é maior do que todos os shows que já fiz somados. Isso exige muita concentração e muita dedicação.

Mas eu levo isso com humor. Nos shows de abertura, sempre falo para o público que sei que eles não foram ali para me ver, mas que já estão presentes e podem curtir aquele momento. Acho que essa honestidade aproxima as pessoas. Também preparei algumas surpresas no repertório, incluindo um cover inesperado de “Lose Yourself”, do Eminem, em uma versão bem diferente. É sempre um momento divertido e ajuda a quebrar o gelo.

Além de Lumineers e Mumford and Sons, quais são as principais influências do seu trabalho?

No meu som, as maiores referências são The Lumineers, Mumford & Sons e Of Monsters and Men. Também tem muita influência de Ed Sheeran, John Mayer e até de Taylor Swift.

Mas quando eu era mais novo, era muito ligado ao rock e ao metal. Ouvi muito Metallica, Slipknot e Linkin Park. Acho que isso também aparece de alguma forma na minha identidade musical.

Suas músicas são bem intimistas, como funciona o seu processo de composição? As histórias são verdadeiras e autobiográficas?

Ele é muito autobiográfico. Eu comecei a escrever músicas como uma forma de terapia. Escrevia em inglês porque tinha vergonha de expor exatamente o que estava sentindo para as pessoas próximas.

Sempre foi uma forma muito honesta de colocar para fora inseguranças, medos, amores, transformações pessoais e momentos difíceis. As músicas falam muito sobre a minha vida, sobre relações e sobre esse processo de amadurecimento.

Pode dar um exemplo de história para gente?

Eu escrevi “Space and Time” no começo de um relacionamento. Essa história é até engraçada e meio dolorida ao mesmo tempo. Eu sempre brinco que vou ter que tocar essa música pelo resto da minha vida e, inevitavelmente, lembrar da minha ex-namorada, porque é a música que as pessoas mais gostam e sempre pedem nos shows.

Naquele momento, eu vinha de uma fase em que não queria me apaixonar de novo. Eu queria ficar sozinho porque estava com medo de sofrer e também com medo de machucar outra pessoa. A música nasceu justamente desse conflito, desse receio de me entregar e viver algo novo.

Já que você tocou no assunto e deu spoiler que é uma ex-namorada, quem partiu o coração de quem?

O irônico é que, no fim, aconteceu exatamente aquilo que eu temia. Eu não tive o coração partido. Quem acabou tendo o coração partido foi ela. Nós terminamos antes de eu me mudar para São Paulo e isso fez a música ganhar um significado ainda mais forte para mim. É quase um paradoxo, porque eu escrevi sobre o medo de sofrer e, no final, fui eu quem causou essa dor.

Talvez por isso ela ainda me toque tanto. O lado complicado de escrever músicas tão autobiográficas é que elas continuam muito vivas dentro de mim. Cada vez que eu canto, revisito aquele momento, aquelas emoções e aquela história. Acho que as pessoas sentem essa verdade quando eu estou no palco. Existe uma vulnerabilidade muito real ali, e talvez seja isso que faça tanta gente se identificar com a música.

Para quem vai no show e ainda não te conhece, quais músicas você recomenda para ouvirem primeiro?

Sem dúvida, “Space and Time” e “Don’t Cry”. Bom, já falei de “Space and Time” e é a música pela qual muita gente me conhece.

Já “Don’t Cry” é muito especial para mim porque nasceu em um dos momentos em que mais pensei em desistir da carreira. Foi uma música que literalmente me salvou e me fez seguir em frente. É uma canção muito verdadeira, e isso faz com que ela emocione bastante nos shows.