Santos sempre foi uma bússola na trajetória de Rodolfo Abrantes. Foi no palco do M2000 Summer Concerts, em 1994, que ele viu sua vida mudar ao dividir o line-up com gigantes mundiais e conhecer um jovem Chorão na grade do show. Foi também na cidade que ele enfrentou seu momento mais sombrio, após a tragédia durante o lançamento da turnê Lapadas do Povo, em 1997. Agora, mais de duas décadas depois, o ciclo se fecha, e se renova.
O Rodox, banda que marcou o início dos anos 2000 com uma mistura explosiva de hardcore, nu metal e letras viscerais, está de volta. O que começou como uma ideia de turnê pontual de reencontro para o segundo semestre de 2026, transformou-se em um renascimento criativo. Com a química restabelecida e a promessa de um novo álbum de inéditas, Rodolfo e seus companheiros desembarcam nesta sexta-feira (15) no Arena Club. Ainda há ingressos à venda.
Nesta entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista abre o jogo sobre as cicatrizes do passado, a energia da fase atual e o que esperar de um show que promete lavar a alma dos fãs santistas com a potência característica de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional.
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O retorno do Rodox é pontual para esses shows ou você já pensa em gravar um álbum de inéditas?
Quando tivemos a ideia de voltar com a turnê, pelo tempo todo que ficamos longe, sem nos vermos, a gente teve que se conhecer de novo, né? Por mais que existisse o carinho, tivemos que nos redescobrir. Então, a princípio, antes de tudo começar, a ideia era fazer alguns shows só de reencontro mesmo no segundo semestre.
A questão é que a gente se reencontrou, cara, e todo mundo se amou. Meu, a gente está hoje muito melhor do que já foi algum dia, entre a gente, né? Então a coisa tomou outra proporção: o que era para ser só o primeiro semestre já virou o ano inteiro. E a gente só pensa em gravar músicas novas, estamos doidos para curtir esse momento.
Talvez seja um reencontro do público com as músicas antigas, mas percebemos que estamos muito mais afiados. O entendimento do que a banda é e de onde queremos chegar está muito mais claro na cabeça de todo mundo. Então, sim, vai ter álbum novo. A gente quer fazer um retrato, um registro do que está vivendo hoje.
Tem sons guardados da primeira fase da banda ou pretendem começar do zero? Já tem faixa nova pronta?
Seria algo com composições completamente inéditas. Existem aquelas músicas que rolam na internet, como Taco Bell e Psychobilly, mas aquilo foi sobra de estúdio. Foram faixas que gravamos e achamos que não tinham muito a ver com o álbum na época, então as deixamos de fora e elas acabaram indo para a internet. Temos um carinho por elas, principalmente pelo carinho que as pessoas têm com essas músicas, mas queremos fazer algo que seja um registro deste momento da nossa vida.
Como você define o som do Rodox nessa nova fase? O que você tem escutado de som e tem influenciado você no dia a dia?
Uma das coisas mais legais sobre o som do Rodox é que ele é muito eclético. Não temos nem como rotular ou dizer que é uma banda de nu metal ou de hardcore, porque tem nu metal, tem hardcore, tem punk rock, tem hardcore melódico, hardcore berrado… tem ska, tem música alternativa, tem balada… Enfim, acho que quando conquistamos isso, passamos a ter uma liberdade absurda para fazer o que quisermos.
Mas de uma coisa você pode ter certeza: é a energia que estamos vivendo ao vivo. Essa é uma banda de verdade, não é uma banda de estúdio que vai levar uma coisa pronta para o palco. Não, estamos fazendo aquele caminho natural de experimentar ao vivo para registrar isso depois em estúdio.
Você tem uma relação muito marcante com Santos em vários sentidos. Qual é o sentimento de retornar a Santos, que foi palco de muitas alegrias e uma tristeza marcante na sua carreira?
A cidade de Santos é uma daquelas no Brasil que me viram em todas as minhas fases, né, cara? Desde o começo da minha carreira, sempre estive passando por aqui. A cidade foi testemunhando a minha transformação ao longo do tempo. Então, vai ser incrível poder retornar com o Rodox agora, sendo que, ok, é uma banda que existiu há mais de 20 anos, mas é uma banda completamente nova. O que a gente vai levar para o público santista é algo que realmente ainda não mostrei em Santos.
Em Santos, o Raimundos fez um dos seus primeiros shows, no M2000 Summer Concerts, em 1994. O que você recorda desse show? Tem alguma história curiosa desse show com o Rollins Band, Mr Big e Lemonheads?
Eu me lembro que foi o primeiro show gigante que a gente tocou, né? Tinha um ônibus para levar a gente de São Paulo para Santos e depois trazer de volta. Ficamos em um hotel, meu… top! Tudo isso era um absurdo de novo para nós naquela época. Ver o Henry Rollins tocando, eu era muito fã dele e do som dele, e ver aquilo acontecendo ao vivo foi muito didático. Aprendi muita coisa.
Lembro que caiu uma chuva terrível naquela noite, que alagou a cidade toda. E tem uma coisa muito interessante: quando eu saí do palco, foi a primeira vez que encontrei o Chorão. Ele estava ali na grade com o pessoal, ouviu o som da minha banda e me deu um CD do Charlie Brown, quando o Charlie Brown ainda era bem metal. Foi muito legal. Essas coisas não saem da memória, não.
A tragédia em 1997, no lançamento da turnê do Lapadas do Povo, certamente foi um dos momentos mais tristes da sua carreira. Como foi superar a tristeza daquele momento e seguir em frente?
Realmente acho que foi o pior momento da minha vida. Aquele acidente que rolou no show de Santos, com toda aquela fatalidade, me fez repensar muita coisa, sabe? Eu entrei em uma certa crise, cheguei a pensar em desistir da música. Eu falava: ‘Cara, isso é extremo demais’.
Era outro tempo no Brasil, volta e meia sempre tinha briga nos shows e essas coisas, mas aquele nível de fatalidade realmente estragou muita coisa dentro de mim. Mas, ao mesmo tempo, a gente entendeu que não era tempo de se esconder ou de tentar se preservar. Eu lembro que a gente foi na missa de sétimo dia, pudemos conhecer as famílias e, cara, aquele abraço que recebemos dos familiares foi uma cura para que pudéssemos continuar tocando depois.
O que o público pode esperar dessa apresentação? O set é o mesmo que vem sendo apresentado nos primeiros shows ou tem espaço para alguma surpresa?
O show está muito legal. Montamos um setlist que contempla quase todas as músicas dos dois álbuns, algumas que eram muito datadas, que já não têm muito a ver conosco, acabamos deixando de fora. Mas é um show muito enérgico. Você pode ter certeza de que, quando termina, está todo mundo com a língua de fora!
É tudo muito dinâmico e está ficando cada vez melhor, né? Cada vez que a gente toca, a coisa fica mais afiada. Vai ser incrível. Tenho certeza de que Santos vai experimentar algo muito bacana e a gente também, né? Porque o povo de Santos tem uma cena de hardcore e de música alternativa muito forte. Então, estamos doidos para encontrar essa galera que entende o que a gente está falando.
Quais os três álbuns que mais te influenciaram na carreira? Por que?
Talvez os três álbuns que mais me marcaram… Essa é uma pergunta doida, né? Porque eu poderia citar um monte, mas vamos lá, de bate-pronto…
O primeiro álbum de rock que tive na vida foi do Kiss, chamado Lick It Up. É o primeiro álbum deles sem máscara e aquele ali me marcou muito. Eu era molequinho, vi eles tocando, passando no Fantástico um trecho do show no Brasil… Aquilo me marcou demais.
Um outro que foi muito forte para mim foi o Kaya, do Bob Marley. Foi o primeiro disco dele que comprei e, cara, a sonoridade do reggae eu amo até hoje, faz parte da minha história como músico. As linhas de baixo, principalmente… Eu amo o instrumento, e o Kaya foi muito presente na minha vida.
E acho também que o Never Mind the Bollocks, dos Sex Pistols. Aquele disco é icônico, para mim era a coisa mais visceral que eu já tinha ouvido. Aquele punk rock berrado, aquelas letras doidas… Um álbum ‘tosco’, de uma banda que só teve um disco e acabou. Uma coisa muito louca! Então, são esses três aí.
RODOX EM SANTOS
- Data: Sexta-feira, 15 de maio.
- Local: Arena Club (Av. Pinheiro Machado, 33 – Vila Matias).