Entrevista | Rodrigo Cerveira – “A beleza de ser um artista solo é a possibilidade de fazer o que quiser na própria obra”

Entrevista | Rodrigo Cerveira – “A beleza de ser um artista solo é a possibilidade de fazer o que quiser na própria obra”

Após apresentar sua estreia com Life e consolidar parcerias de peso como o duo Silver, ao lado de Felipe Machado (Viper), o cantor e compositor Rodrigo Cerveira dá um passo definitivo em sua trajetória solo com o lançamento de The Searcher. Produzido por Val Santos, o segundo álbum chega às plataformas digitais canalizando uma veia muito mais visceral e direta, na qual a urgência do punk californiano e do pós-punk se funde a melodias marcantes e guitarras enérgicas.

No centro da obra reside o movimento contínuo de deixar o passado para trás e abraçar novas descobertas. Esse ímpeto se reflete tanto na potência de faixas urgentes quanto em momentos de engajamento e sensibilidade. Um dos grandes destaques é Animals, faixa que conta com solo avassalador de Andreas Kisser (Sepultura) para denunciar a violência contra a mulher, projeto cuja arrecadação de direitos autorais e de streaming é revertida diretamente para ONGs de apoio e acolhimento a vítimas.

O disco ainda reserva homenagens e contrastes bem calibrados: a faixa-foco traz uma releitura intimista de Say Hello 2 Heaven, clássico do Temple of the Dog, celebrando Chris Cornell como bússola vocal, além da densa balada acústica Rolling Dice, com violão solo de Hugo Mariutti (Shaman). Para completar o momento, Cerveira já estrutura a nova fase nos palcos acompanhado por Claudio Leal (guitarra), Daniel Botelho (baixo) e Fred Zara (bateria).

Em entrevista exclusiva, Rodrigo Cerveira detalha o processo de composição e produção de The Searcher, comenta os bastidores das participações especiais e reflete sobre o papel transformador da arte diante de temas urgentes. Confira a íntegra da conversa a seguir:

Antes de mais nada, parabéns pelo álbum The Searcher. Achei o trabalho incrível, especialmente as faixas com pegada mais punk como a faixa-título, Sad Girl e Animals, que ficou sensacional. O que você estava procurando, em termos pessoais e artísticos, quando começou a compor esse disco?

Muito obrigado pela oportunidade de conversar. Fico muito feliz que tenha gostado do som. Eu comecei há pouco tempo nessa trajetória solo: meu primeiro disco, Life, saiu em 2023, seguido pelo EP Save The Fire. Depois fiz um projeto com meu grande amigo Felipe Machado, o Silver. Paralelamente, já compunha as músicas que se tornariam o meu próximo álbum solo, The Searcher.

A música nasce muito de um lugar em que acredito profundamente: precisamos estar sempre abertos a novas experiências, descobertas e aprendizados. Ficar estagnado no mesmo lugar, repetindo sempre a mesma rotina, tende a nos deixar desanimados e sem rumo. O conceito de The Searcher é justamente abraçar o novo com empenho e entusiasmo. Quando nos abrimos a novas vivências, evoluímos pessoal e psicologicamente; nos tornamos pessoas melhores. O refrão sintetiza isso: deixar o passado para trás e libertar a alma para viver uma nova fase.

Nota-se uma proposta diferente em relação ao seu álbum de estreia, com influências mais evidentes de punk, pós-punk, grunge e até uma releitura de Temple of the Dog. Como foi essa transição musical do primeiro para o segundo trabalho e quais referências moldaram essa virada sonora?

O rock sempre esteve presente na minha trajetória. Fui criança nos anos 1980 e lembro da minha mãe tocando Hit the Road Jack, do Ray Charles, enquanto eu brincava de tocar guitarra com uma raquete de tênis. Meu pai era baterista focado em jazz e em casa sempre se ouviu muita música.

Na adolescência, comecei a andar de skate, uma cultura intrinsecamente ligada à música. Naquela época, o punk californiano estava em alta com Dead Kennedys, Black Flag e Misfits, somado ao movimento new wave de bandas como Devo e The B-52’s. Isso ficou gravado no meu DNA. Mais tarde, fui absorvendo rock inglês, heavy metal clássico como Iron Maiden e Black Sabbath, além de Led Zeppelin. É um caldeirão amplo.

Componho basicamente no violão, o que me faz estruturar as canções a partir da melodia. O grande desafio surge na hora de definir os arranjos. O primeiro álbum teve um tom mais acústico em várias faixas justamente por essa gênese, embora já contasse com sons diretos como Today e We Are The Hurricane. Para este segundo disco, decidi assumir uma pegada mais pesada, voltada ao hardcore e ao punk californiano, que refletem melhor a minha essência.

Eu me considero um vocalista acima de tudo. Por isso, prezo muito por melodias bem construídas e interpretações fortes, sem abrir mão da crueza e da energia do punk. Uma grande referência para mim é o Chris Cornell, capaz de aliar técnica, potência e nuances emotivas. Decidi fazer um disco com essa sonoridade mais robusta, mantendo apenas uma balada acústica e trazendo uma homenagem ao Temple of the Dog totalmente descolada da versão original.

Em Say Hello 2 Heaven, quis fugir do padrão habitual. Fiz uma versão mais despojada (stripped), com vocal sem drive e clima quase intimista de blues, deixando o arranjo crescer em intensidade até um desfecho épico. Já a faixa acústica Rolling Dice nasceu no violão com forte inspiração na poesia sóbria e nos graves de Leonard Cohen. Convidei o Hugo Mariutti para gravar o violão solo e a química foi imediata; ele imprimiu uma identidade brilhante à canção.

Chama a atenção essa versatilidade: você transita da energia crua do início do disco até a modulação mais intimista e contida de Rolling Dice, além de encarar o repertório de Chris Cornell. Como você enxerga o trabalho da voz e a dinâmica de surpreender o ouvinte dentro de uma mesma obra?

Para mim, o mais importante na música é transmitir energia e autenticidade. O próprio Chris Cornell exemplificou muito bem essa evolução: começou cantando sempre nos limites dos agudos no Soundgarden e, aos poucos, foi refinando nuances e quebras de dinâmica sem comprometer a força melódica.

Gosto dessa variedade. Não aprecio vocais lineares, onde todas as faixas soam previsíveis. Dentro de um disco, criar essas alternâncias é essencial: você abre com a voltagem alta de The Searcher, Sad Girl e Animals, e de repente insere o recolhimento acústico de Rolling Dice, apoiado apenas em voz, violão e percussão leve. A liberdade da carreira solo permite justamente essa amplitude: explorar desde a crueza do rock até o senso melódico do pop e do rock britânico, como Beatles e Oasis, construindo uma tapeçaria rica e coesa.

A faixa Animals aborda de maneira direta o combate à violência contra a mulher, um tema urgente no Brasil, inclusive diante de declarações recentes no cenário político que tentam desmerecer a gravidade do feminicídio. O que serviu de gatilho para você compor essa faixa e como se desenhou a parceria com o Andreas Kisser e a destinação social dos recursos?

O incômodo foi o ponto de partida. Como filho, irmão, marido e pai de mulheres, acompanhar as estatísticas alarmantes e o noticiário diário causa profunda indignação. Não podemos aceitar que essa realidade seja tratada com indiferença ou normalizada.

A arte sempre foi um instrumento poderoso para despertar consciência e romper barreiras de polarização, como demonstraram obras de artistas que vão de Pablo Picasso a Bob Dylan. Falar apenas em estatísticas muitas vezes soa distante; já uma canção toca o ouvinte e desperta a reflexão. O título Animals reflete exatamente essa ironia: na natureza, as espécies preservam suas contrapartes por sobrevivência; o ser humano é o único capaz de violentar os seus.

Construí a canção em parceria com meu produtor, Val Santos, já prevendo a inserção dos dados em português no meio da música para reforçar a gravidade da mensagem. Desde o início, decidi que todos os direitos autorais e receitas de streaming seriam revertidos a ONGs que atuam no acolhimento direto a mulheres em situação de vulnerabilidade e perigo, como a Fala Mulher, a Nova Mulher e a Recomeçar, na Grande São Paulo.

Em conversas com o coletivo de arte LÖU, criado pelo Andreas Kisser e sua esposa, Maria Carolina Greco, surgiu a ideia de unir forças para dar visibilidade à causa. O Andreas adorou a proposta, abraçou o projeto desde a raiz e gravou o solo da faixa. A música se torna, assim, uma ferramenta prática de apoio: basta ouvi-la nas plataformas para contribuir ativamente com essas instituições. É também uma resposta contundente a qualquer tentativa política de minimizar a violência de gênero: a realidade precisa ser enfrentada, e a música tem o dever de ser um canal de conscientização e ação social.

Quando o público poderá conferir esse repertório ao vivo?

A banda já está montada e estamos em fase intensa de ensaios. Muito em breve anunciaremos as primeiras datas de shows para levar essa energia aos palcos.