Novo álbum Blue Morpho mostra Ed O’Brien longe das sombras do Radiohead

Novo álbum Blue Morpho mostra Ed O’Brien longe das sombras do Radiohead

Ed O’Brien sempre foi aquele tipo de músico que parecia confortável em ficar na sombra. Mesmo sendo peça fundamental do Radiohead, nunca teve a necessidade de disputar protagonismo com Thom Yorke ou Jonny Greenwood. Mas Blue Morpho mostra justamente o contrário do que muita gente imaginava: talvez ele só estivesse esperando o momento certo para construir algo realmente pessoal. E aqui não existe pressa. O disco inteiro parece respirar no tempo dele próprio, como uma caminhada sem destino em meio a uma floresta úmida no interior do País de Gales.

Se Earth ainda soava como um artista procurando identidade fora da própria banda, Blue Morpho finalmente encontra esse lugar. E não por acaso. O álbum nasce de um período de depressão profunda vivido por Ed após a pandemia, transformando sessões longas de guitarra, isolamento e contemplação em combustível criativo. A produção de Paul Epworth ajuda a transformar essa vulnerabilidade em paisagens sonoras que flutuam entre psych folk, ambient, trip hop e texturas cinematográficas.

“Incantations” abre o disco como um mantra hipnótico de quase oito minutos, enquanto a faixa-título transforma guitarras e cordas em algo quase líquido, guiado pela ideia de cura através da natureza. Em muitos momentos, Ed parece menos interessado em construir músicas tradicionais e mais focado em provocar sensação. Talvez por isso os vocais frequentemente apareçam escondidos no meio da mixagem, quase como mais um instrumento dentro daquele universo nebuloso. E funciona. Blue Morpho tem aquela atmosfera de disco feito para ser absorvido lentamente, sem ansiedade por refrão ou explosão.

“Teachers” quebra um pouco essa névoa contemplativa com um groove mais pulsante, quase krautrock em alguns momentos, enquanto “Solfeggio” e “Thin Places” mergulham de vez em um estado meditativo que beira o espiritual. Tudo culmina em “Obrigado”, faixa de quase dez minutos que encerra o álbum como um transe lento e emocional. É ali que Ed finalmente abandona parte da contenção e deixa a guitarra falar de forma mais emotiva, sem perder a elegância minimalista que domina o restante do trabalho.

Existe também uma sensação constante de renascimento atravessando o disco inteiro. Não à toa, Blue Morpho marca o primeiro trabalho solo lançado oficialmente sob o nome Ed O’Brien, abandonando a sigla EOB usada em Earth. Parece detalhe, mas simboliza exatamente o que o álbum representa: um músico que finalmente parou de se esconder atrás do papel de coadjuvante.

Blue Morpho não tenta ser “o disco solo do guitarrista do Radiohead”. E talvez esse seja justamente o maior mérito dele. Ao invés de perseguir grandiosidade ou experimentalismo exagerado, Ed O’Brien entrega um álbum profundamente humano, contemplativo e melancólico. Um trabalho que parece existir muito mais para sentir do que para entender.