Jack Antonoff faz do amor o centro de “everyone for ten minutes”, novo álbum do Bleachers

Jack Antonoff faz do amor o centro de “everyone for ten minutes”, novo álbum do Bleachers

Jack Antonoff nunca foi exatamente discreto. Seja produzindo discos para Taylor Swift, Lana Del Rey ou Sabrina Carpenter, o produtor transformou a própria assinatura em uma das mais reconhecíveis do pop moderno. São 11 discos com Taylor, três com Lana, dois com Sabrina e uma fila interminável de artistas tentando capturar aquele misto de nostalgia, sintetizadores e melancolia suburbana que ele ajudou a transformar em tendência. Só que em “everyone for ten minutes”, o novo álbum do Bleachers, Antonoff parece menos preocupado em criar o próximo grande momento pop da internet e mais interessado em escrever cartas de amor para Margaret Qualley, a famosa atriz do filme A Substância.

E isso muda tudo. O disco inteiro soa como alguém finalmente confortável dentro da própria vida. Não existe mais aquela ansiedade juvenil de “Gone Now” ou a necessidade de transformar qualquer refrão em um hino de estádio. Aqui, Jack troca a grandiosidade pelo detalhe. É um álbum sobre casamento, memória, rotina, saudade e a estranha sensação de perceber que os sonhos continuam existindo mesmo depois da vida adulta chegar.

Muito disso passa diretamente por Margaret. “you and forever”, talvez a música mais imediatamente apaixonante do disco, já entregava isso desde o lançamento do single. O clipe estrelado pela atriz praticamente transformava a faixa em uma declaração pública de amor.

Mas o interessante é como essa devoção aparece espalhada pelo álbum inteiro. “dirty wedding dress” parece dialogar diretamente com “Margaret”, a música que ele escreveu com Lana Del Rey alguns anos atrás. “sideways”, “take you out tonight”, “she’s from before” e “I’m not joking” também carregam essa sensação de intimidade quase doméstica, como se Antonoff estivesse transformando pequenos momentos do relacionamento em música. Faz sentido vindo de alguém que já havia escrito “Tiny Moves” e “Merry Christmas, Please Don’t Call” pensando nela.

E talvez seja justamente isso que faz “everyone for ten minutes” soar diferente do resto da discografia do Bleachers. É um disco menos preocupado em parecer importante. Enquanto muita gente ainda espera que Jack entregue outro “Don’t Take The Money” ou “Rollercoaster”, ele parece mais interessado em fazer músicas que respiram. Tem momentos em que o álbum soa quase cansado da internet, cansado da necessidade de virar trend, cansado da hiperexposição.

“We Should Talk” é um ótimo exemplo disso. A música cresce devagar, quase como uma conversa desconfortável que ninguém queria ter. Já “I’m Not Joking” entra facilmente entre as coisas mais interessantes que Antonoff fez nos últimos anos. Tem alma, tem groove, tem aquele clima meio soul melancólico que encaixa perfeitamente na proposta do álbum.

“Dirty Wedding Dress” provavelmente é o ponto onde tudo funciona melhor. É nostálgica sem virar caricatura e romântica sem parecer calculada. Parece música feita de madrugada, pensando demais na própria vida. E isso vale como elogio.

Ao mesmo tempo, “everyone for ten minutes” talvez seja o disco mais divisivo da carreira do Bleachers. Parte da crítica ainda enxerga Jack preso demais na própria estética “Bruce Springsteen encontra synthpop sentimental”. Outra parte vê justamente aí o charme do álbum.

Pra mim, funciona porque dá para ver que existe verdade ali. Jack Antonoff poderia facilmente continuar vivendo apenas como o produtor mais requisitado do pop atual. Mas o Bleachers continua existindo justamente porque parece ser o único espaço onde ele realmente escreve sem filtro. E “everyone for ten minutes” soa exatamente assim: um disco íntimo, apaixonado, melancólico e estranho na medida certa.

O texto contou com colaboração de Fernanda Melo.