De todas as lendas internacionais que pisaram em Santos, nenhuma criou uma conexão tão profunda e passional quanto o Bad Religion. A banda e o público santista guardam com muito carinho tudo o que rolou por aqui nas duas turnês que passaram pela cidade, em 1999 e 2014.
A primeira passagem foi tão surreal que parece roteiro de filme de ficção, a ponto de merecer destaque na biografia oficial da banda, Do What You Want: The Story of Bad Religion. A segunda, 15 anos depois, foi a coroação de uma história de amor entre os reis do punk melódico californiano e a capital do hardcore no Brasil.
Em resumo, esta é a história das duas noites em que Greg Graffin e seus comparsas descobriram, na prática, o que significa ser a “Califórnia Brasileira”.
ATO I: 1999 – Apocalipse na “Floresta Tropical”, a primeira vez do Bad Religion em Santos

O dia 11 de março de 1999 tinha tudo para ser uma noite histórica na extinta casa Jump (ex-Reggae Night), no Morro da Nova Cintra. A produtora da banda, Michelle Ceasan, havia convidado os locais do White Frogs para abrir os trabalhos, e mais de 4 mil ingressos haviam sido vendidos.
O êxtase dos músicos locais, que pegaram até equipamentos emprestados do pessoal do Altered Mind para a grande noite, logo se transformou em desespero. A chuva começou sem aviso prévio antes mesmo de qualquer instrumento ser tocado.
O vocalista Greg Graffin relatou os bastidores de terror: “Nós estávamos no nosso backstage, uma mini-cabana, desfrutando uma caipirinha, quando um estrondoso trovão e raio desceram dos céus e colidiram com o nosso telhado”. A situação escalou rapidamente. “Se há uma coisa que aprendemos é esta: se os habitantes começam a olhar preocupados, as coisas podem rapidamente azedar”.
Um apagão generalizado tomou conta da cidade. O promotor do evento entrou no camarim em pânico, sugerindo que a banda fugisse: “É melhor sair daqui, os fãs estão furiosos, eles certamente irão matá-los”. Com o som mecânico cortado e o público cantando e assobiando no escuro, o Bad Religion até cogitou um set acústico, mas percebeu que a bateria ensurdecedora de Bobby Schayer abafaria as guitarras sem energia.
Retorno inesperado
A banda voltou para o hotel com a certeza de que o show estava cancelado. João Veloso Jr., do White Frogs, sentiu a tristeza do cancelamento iminente, pois a banda americana tinha voo cedo no dia seguinte.
Mas o improvável aconteceu. “Era meia-noite e a tempestade havia passado. A energia ainda estava desligada, por isso foi à luz de velas e um telefone celular que recebemos a ligação em torno de 1h: ‘Vocês devem voltar para o local agora, nós temos energia'”, relembrou Graffin.
O retorno ao morro foi digno de um cenário pós-apocalíptico. Sem semáforos ou iluminação pública, as ruas estavam caóticas. Punks descontentes que já desciam a montanha faziam o retorno imediato ao ouvirem no boca-a-boca que o show iria continuar.
No palco, a redenção. O White Frogs foi convocado às pressas para subir e tocar enquanto o público retornava à Jump. E, às 2h da manhã, com a casa ainda lotada, o Bad Religion entregou um espetáculo inesquecível, tocando pérolas raras como Anesthesia.
“Tocamos um show inteiro e tivemos o tempo de nossas vidas”, cravou Graffin. “O caos, entusiasmo, emoções oscilantes e a floresta tropical, tudo conspirou naquela noite para nos oferecer uma experiência incrível. Não vamos esquecer tão cedo dele”.
ATO II: 2014 – Redenção, açaí e camisa do Peixe no segundo show
Quinze anos depois, o Bad Religion era anunciado para retornar a Santos, desta vez na Capital Disco, no dia 7 de fevereiro de 2014. A cidade entrou em polvorosa e os ingressos esgotaram rapidamente.
O responsável por trazer o grupo foi Celso Bernardes, fundador da produtora Rock Show e, coincidentemente, um dos “sobreviventes” do apagão de 1999. Celso viveu a saga não apenas como produtor, mas como fã devoto de sua banda favorita.
Os bastidores dessa segunda passagem foram marcados por um clima muito mais amistoso e curioso do que o apocalipse climático de 99. O baixista Jay Bentley desceu ao palco de chinelos para o reconhecimento do terreno e, em poucas palavras trocadas com Celso, perguntou sobre açaí. A resposta do produtor foi exagerada: ele mandou buscar um fardo de dez quilos do produto para o camarim.
O nível de fanatismo do produtor chegou à pele. Em uma sala ao lado do camarim, antes do show, Celso tatuou o famoso logo da “Crossbuster” no braço esquerdo. O barulho da máquina atraiu Brian Baker, Jay Bentley e o baterista Brooks Wackerman, que ficaram honrados com a atitude. Greg Graffin chegou em seguida, surpreendeu-se com a homenagem e posou para fotos com o produtor tatuado.
Bayside Kings, NLO e o caldeirão na Capital Disco
Na madrugada de sábado, a casa noturna ferveu com o encontro de gerações de fãs. Quem abriu os trabalhos foi o Nem Liminha Ouviu (NLO), liderado pelo radialista Tatola Godas. A banda apresentou versões nostálgicas como O Concreto Já Rachou (Plebe Rude) e Surfista Calhorda (Replicantes).
Em seguida, a prata da casa: o Bayside Kings. Recém-chegados de uma turnê bem-sucedida na Argentina, a banda liderada por Milton Aguiar incendiou o moshpit. O setlist brutal, mesclando faixas dos discos The Way Back Home e Warship, incluiu ainda um cover furioso de Cyco Vision, do Suicidal Tendencies. O Bayside Kings provou estar pronto para ser uma das principais representantes do hardcore santista.
À 0h30, ao som de música clássica, o Bad Religion assumiu o palco. Com 35 anos de carreira e 16 álbuns nas costas, os californianos engataram um show coeso, técnico e empolgante, descarregando 30 canções em uma hora e meia.
Eles abriram de forma agressiva com Fuck You, puxando logo na sequência uma quadra de clássicos absurda: I Want to Conquer the World, New America, Stranger Than Fiction e Los Angeles Is Burning. Pista e palco viraram uma verdadeira piscina de suor.
O clima era de tanta interação que o baixista Jay Bentley até brincou com um fã que segurava um cartaz pedindo Only Entertainment, dizendo que não sabia mais tocá-la. Nem mesmo um escorregão de Graffin no palco tirou o bom humor do vocalista. Hinos cantados em uníssono, como Raise Your Voice, Generator, Suffer, Do What You Want e Infected, fizeram a alegria tanto de quem buscava o revival quanto dos mais jovens.
A camisa 10 e a consagração
Foi no bis, no entanto, que o show transcendeu e marcou o nome de Santos na história do Bad Religion mais uma vez. Nos bastidores de apoio, o produtor Celso Bernardes aguardava com uma camisa do Santos Futebol Clube nas mãos, personalizada com o nome do vocalista nas costas. “Ele a pegou das minhas mãos tal como uma troca de camisas entre jogadores no final da partida”, conta Celso.
Para delírio da plateia, Greg Graffin retornou ao palco uniformizado como o novo “camisa 10” do Santos. Com o manto alvinegro, o vocalista anunciou Fuck Armageddon… This Is Hell e engatou os últimos golpes da noite com Punk Rock Song e a apoteótica American Jesus.
No final do espetáculo, a caminho do camarim, Graffin demonstrou ter estudado a cidade e comentou com o produtor que a vibe de Santos realmente se assemelhava muito à Califórnia. Celso não perdeu a deixa: “Nós somos a Califórnia Brasileira”.
Desta vez sem apagão, sem temporais e sem ameaças de morte, o Bad Religion venceu com goleada, entregando um show maduro que não deixou ninguém descontente. A certeza que ficou naquela madrugada foi uma só: o hardcore nunca vai morrer na alma da galera do surf e do skate na eterna Califórnia Brasileira.