Entrevista | Daniel Gnatali – “Separei o álbum em 2 EPs para explorar os conceitos de cada um”

Entrevista | Daniel Gnatali – “Separei o álbum em 2 EPs para explorar os conceitos de cada um”

Daniel Gnatali lançou nesta sexta-feira (17) o EP “Antes do sol”, primeiro capítulo de um projeto dividido em duas partes que será concluído ainda este ano com “Manhã de festa”. O novo trabalho apresenta seu lado mais introspectivo, reunindo canções que transitam entre o folk-pop, o rock sessentista e a MPB, em uma atmosfera marcada por delicadeza e mistério.

Descrito pelo artista como uma espécie de sonho envolto em névoa, o EP funciona como uma “pré-revelação” de um percurso maior. Faixas como “Ventre a luz do mundo”, que conta com participação especial de Nina Becker, e “Estação”, com sua leveza country-rock, ajudam a construir essa sensação de suspensão. Já “Dear to Me” e “Lady Lo” resgatam composições iniciadas ainda no começo dos anos 2010 e finalizadas agora em estúdio, reforçando a conexão do repertório com referências como The Beatles e The Beach Boys.

O encerramento fica por conta de “Quando me mudei”, faixa que funciona como ponte entre os dois EPs. Ancorada no rock brasileiro dos anos 1970, a música aborda a mudança de Gnatali para Visconde de Mauá como metáfora de autoconhecimento e transformação. O artista aponta a canção como elo entre o universo rarefeito de “Antes do sol” e a concretude luminosa que será explorada em “Manhã de festa”, descrito por ele como a “descida da cachoeira para o mar”.

Produzido por Antonio Guerra, amigo de infância do compositor, o projeto evidencia a assinatura autoral de Gnatali ao unir folk, samba, forró, rock e balada pop sob uma mesma perspectiva poética. Com influências familiares que passam pela Jovem Guarda, pelos Beatles e pela herança musical do maestro Radamés Gnattali, o músico assume a dualidade como essência criativa. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o músico detalhou o lançamento e o futuro da carreira.

Como surgiu a ideia de transformar esse repertório em dois EPs, começando por “Antes do sol”?

Foi uma ideia do Kassin. Um pouco antes da mix eu mostrei o disco pra ele e trocamos uma ideia. Eu queria muito lançar em um disco inteiro, só pela sensação de dizer “lancei um disco”. Mas fui conversar com ele justamente pra ter um parecer de quem tem experiência. E a sugestão de dividir o repertório fez muito sentido, pois já mostrava duas estéticas muito marcantes, com boas composições, mas cada uma à sua maneira. Daí entre lançar um disco “duplo” nas plataformas, preferi separar em 2 EPs para explorar os universos e trabalhar melhor os conceitos de cada um. E a dualidade é um conceito que permeia tudo na vida.

O que diferencia emocional e musicalmente os dois trabalhos e o que o público pode esperar em “Manhã de festa”?

ANTES DO SOL é um início. Ele representa o que ainda não foi revelado, que está em desvelo. As atmosferas das canções são oníricas, sugerindo esse lugar onde o sonho e a realidade se confundem, entre memórias e projeções. Nesse preambulo do despertar, as letras falam de nascimento e pulsão de vida, mas também de nostalgia e resignação, sentimentos que são opostos complementares, como saudade e esperança – por vezes sentidos ao mesmo tempo. Mas entre a dúvida e a sublimação do mistério, os contornos são otimistas, dando ao EP um caráter contemplativo, onde a dor e a alegria convivem em paz.

Em MANHÃ DE FESTA o volátil dá lugar à matéria, deixando o campo do sonho e indo para o corpo, a expressão terrena. Enquanto a primeira parte é marcada por uma identidade folk, sessenta e setentista, a segunda parte aterra na MPB com sambas, groove e forró.

Como foi o trabalho de produção ao lado de um amigo de infância? Foi mais fácil trabalhar dessa maneira?

Foi muito mais fácil e prazeroso. O campo da intimidade pode ajudar ou atrapalhar, mas temos muito respeito um pelo outro e carinho por essa amizade. A arte de estabelecer e aceitar limites sem stress é uma que conseguimos dominar rs. O Antonio é um excelente profissional e um grande amigo. Além dos arranjos fantásticos que ele escreveu, nosso bate-bola (que já era bom desde a escolinha de futebol) deu muito certo. E esses encontros enveredavam também por conversas filosóficas. Eu estava voltando pro Rio depois de morar 4 anos em Visconde de Mauá (onde escrevi “Quando me mudei”) e foi ótimo pra mim ter essa amizade nesse processo. E também, como estreante na música, poder ouvir conselhos de um amigo experiente.

Show em Maio

Daniel Gnatali sobe ao palco do Fino da Bossa dia 06 de maio com o show “Pássaro Noturno”, proposta que aposta na conexão direta com o público por meio da voz e do violão. O repertório percorre diferentes tradições musicais, do samba e do forró à música anglo-americana, reforçando o diálogo entre o popular brasileiro e a linguagem folk. A apresentação ainda ganha peso com as participações especiais de Lucinha Turnbull, pioneira do rock nacional, e da artista multidisciplinar Anna Sartori, parceira de composição de Gnatali.

O espetáculo acontece com início pontual às 20h30, mas a casa abre às 19h, permitindo ao público acompanhar parte da passagem de som e aproveitar o cardápio de comidas e drinks. Os ingressos dão acesso tanto às mesas quanto aos lugares no balcão, no sistema por ordem de chegada, e a casa funciona até as 23h, com consumação mínima por pessoa.

O Fina Bossa fica na Av. Brigadeiro Faria Lima, 473 em Pinheiros – São Paulo.