Dois dias depois de subir ao Palco Mundo do Rock in Rio, a Nova Twins chegou a São Paulo para mostrar de perto por que se tornou um dos nomes mais interessantes da nova geração do rock britânico. No domingo (6), Amy Love e Georgia South comandaram o É Tudo Delas, no Cine Joia, em seu primeiro show como headliner no Brasil e na América do Sul. The Mönic e MC Taya completaram uma noite que, mais do que reunir três atrações lideradas por mulheres, apresentou três maneiras bastante diferentes de entender a música pesada contemporânea.
Confira também a entrevista do Blog N’ Roll com a Nova Twins
Coube à The Mönic abrir os trabalhos. Foi a quarta vez que acompanhei a banda ao vivo e a evolução é evidente. A cada encontro, o quarteto soa mais seguro, pesado e, principalmente, mais confortável em transformar o palco em extensão da pista. Se existe uma distância convencional entre artista e público, elas parecem pouco interessadas em respeitá-la.
Isso ficou evidente quando a banda contrariou a orientação da segurança e permitiu que fãs subissem ao palco. Dani Buarque foi ainda mais longe e desceu para a pista para participar de um mosh pit. E não é somente um gesto calculado, mas consequência natural da maneira como a The Mönic conduz seus shows. Depois de passagens por Rock in Rio e Knotfest Brasil, a banda demonstra cada vez mais domínio sobre esse tipo de situação.
Na sequência, MC Taya mudou completamente a linguagem sem diminuir a intensidade. O chamado Metal Mandrake parte do peso das guitarras para incorporar funk, trap e rap da periferia. Mais importante do que encontrar um rótulo exato para a mistura é perceber como o trio reivindica seu lugar dentro do metal.
Essa afirmação aparece até na forma como o nome MC é apresentado. Ali, significa Mestre de Cerimônias e funciona como equivalente ao papel de frontwoman de uma banda de metal. Entre uma música e outra, Taya abriu espaço para discursos sobre minorias, ataques sofridos na internet, educação e ascensão social. Em um dos momentos, destacou que os integrantes da banda possuem formação universitária e falou sobre a importância do diploma. O discurso social não aparece separado das músicas. Faz parte do conceito do projeto e da maneira como a banda ocupa aquele espaço.
Nova Twins mostra que o impossível também pode sair de um baixo
Quando a Nova Twins entrou, porém, ficou claro por que Amy Love e Georgia South eram as headliners. Há uma diferença importante entre ouvir a quantidade de elementos presentes nas gravações da dupla e assistir à engenharia necessária para reproduzi-los no palco. Boa parte da experiência do show está justamente em tentar entender de onde cada som está vindo.
A resposta, muitas vezes, está aos pés de Georgia South. O baixo é praticamente um instrumento mutante dentro da Nova Twins. Com uma enorme combinação de pedais e efeitos, ela produz graves próximos da música eletrônica, distorções que poderiam facilmente ser confundidas com guitarras, ruídos, oitavas e texturas que ocupam praticamente todo o espectro sonoro. Em algumas músicas, a guitarra é deixada de lado, com Amy somente nos vocais, com o espaço inteiro preenchido com o baixo.
É justamente aí que a Nova Twins deixa de parecer apenas mais uma banda que mistura rock com elementos eletrônicos. Amy e Georgia fazem questão de construir grande parte dessa eletrônica organicamente no palco. Em vez de depender da reprodução de camadas previamente gravadas para sustentar a identidade das músicas, instrumentos tradicionais são manipulados até assumirem funções que normalmente pertenceriam a sintetizadores e programações.
A abertura com “Antagonist” e “Cleopatra” apresentou imediatamente essa proposta. São músicas construídas para provocar movimento e que funcionaram como uma declaração de intenções. “Taxi” e “Soprano” mantiveram a pressão antes de “Hide & Seek” e “Parallel Universe” mostrarem melhor a elasticidade do repertório.
Se Georgia chama atenção pela inventividade instrumental, Amy Love domina o outro lado da equação. Seu carisma é imediato. A cantora passou boa parte da apresentação sorrindo e estabelecendo contato com o público, mas o que realmente impressiona é a facilidade com que muda de registro vocal.
Amy consegue sair de linhas melódicas limpas para versos rápidos próximos do rap, alcançar notas em voz de cabeça e entrar em screams sem que essas mudanças pareçam exigir uma preparação. Ao vivo, sua voz preserva a precisão das gravações, mas ganha uma agressividade adicional. É uma performance bastante técnica que, felizmente, nunca soa como demonstração gratuita de técnica.
“N.O.V.A” aproveitou especialmente bem a relação com o público, enquanto “K.M.B.” e “Drip” recolocaram a pista em movimento. Nesta última, as referências ao drum’n’bass ajudam a demonstrar como a banda absorve música eletrônica sem simplesmente colocar guitarras por cima de uma batida. Tudo parece pertencer ao mesmo organismo.
“Choose Your Fighter” e “Piranha” mantiveram a parte mais física da apresentação antes de “Hummingbird” oferecer outro destaque para Amy. Com espaço maior para melodia, a faixa reforçou que a cantora não depende do peso para impressionar. A reta final com “Monsters” e “Glory” encerrou um repertório de 14 músicas que conseguiu condensar diferentes faces da dupla sem perder intensidade.
Um show que explica o crescimento da Nova Twins
O mais interessante é que o show no Cine Joia aconteceu justamente quando a trajetória da Nova Twins começa a ganhar outra dimensão. A parceria com o Bring Me the Horizon em “1×1” colocou Amy e Georgia diante de uma audiência gigantesca, enquanto turnês com Foo Fighters, Evanescence e Spiritbox aproximaram a dupla de públicos diferentes dentro do rock pesado.
São Paulo já dava sinais de que existia espaço para esse crescimento. A capital paulista aparecia entre as cidades que mais escutam Nova Twins no Spotify e, depois da passagem pelo Rock in Rio, ultrapassa Londres e se torna o local com mais ouvintes.
Essa proximidade também ajudou a revelar o principal mérito da apresentação. A Nova Twins possui uma sonoridade que, no estúdio, poderia facilmente levantar dúvidas sobre quanto dela seria possível reproduzir ao vivo. No palco, a resposta veio sem dificuldade: praticamente tudo aquilo que parece eletrônico, processado ou impossível de identificar ganha uma origem diante dos olhos do público.
Ao final do É Tudo Delas, as três atrações haviam defendido, cada uma à sua maneira, uma ideia semelhante de expansão das fronteiras do rock pesado. The Mönic pela energia coletiva, MC Taya pela aproximação entre metal e sons da periferia e Nova Twins por uma linguagem na qual baixo, guitarra, rap, grime, metal e eletrônica deixam de disputar espaço. O evento teve produção e idealização da CultMix Live.