Milky Chance esbanja carisma em show repleto de hits na Audio

Texto: Tassio Ricardo O Milky Chance retornou ao Brasil após seis anos de sua apresentação no Lollapalooza 2018, quando foi coadjuvante frente à um lineup grandioso. No fim de semana, a banda alemã passou por Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Na Audio, no domingo (19), foi headliner do evento que contou com a abertura do cantor e surfista americano Donavon Frankenreiter. Liderado pela dupla Clemens Rehbein e Philipp Dausch, o Milky Chance foi muito bem recebido com um público altamente fiel que encheu o local. Pontuais, os músicos abriram o show com Synchronize, hit da coletânea Trip Tape 2 (2022). Surpreso com o entusiasmo de seus fãs, Clemens Rehbein arriscou várias palavras em português, fugindo bastante do perfil mais reservado. “Muito brasileiro” e “que fofo” foram alguns dos comentários ouvidos no meio da plateia. Do lado da banda, mais comentários elogiosos: “best night on this planet”. >> Confira entrevista com o Milky Chance Foi visível a conexão e a dedicação de seus ouvintes que sabiam de cór todos os sons apresentados. A dupla cantou uma versão acústica da música Scarlet Paintings, além de um cover de Tainted Love. O último single, lançado em 2024, Reckless Child, também foi muito bem recebido pelos fãs. Aliás, o repertório foi muito bem equilibrado. Contemplou o que há de melhor em cada um dos discos de estúdio, com um destaque maior para Sadnecessary (2013), maior sucesso comercial, e Living in a Haze (2023), o disco mais recente dos alemães. Seguindo para o final do show, o vocalista abraçou a bandeira do Brasil e cantou um dos seus maiores sucessos, Stolen Dance. Após uma hora e meia de show, a banda se despediu curiosamente ao som da música brasileira Conselho, do grupo Samba de Raiz, esbanjando carisma até seu último minuto em cima do palco. Edit this setlist | More Milky Chance setlists
Squid faz show de gente grande e conquista público no C6 Fest

Os primeiros horários dos festivais brasileiros de música nem sempre são os mais celebrados. A maior parte do público ainda não chegou, outros tantos ainda se acomodam e reconhecem o território, explorando as tendas de alimentação e as ativações de marketing tradicionais desse tipo de evento. Mas, no segundo dia do C6 Fest, que rolou no Parque Ibirapuera, em São Paulo, a banda inglesa Squid minimizou todas essas questões e aproveitou o espaço para mostrar as vantagens de chegar cedo aos festivais de música. O quinteto foi escalado para abrir os trabalhos na Tenda Metlife. Após lançar, em 2023, seu segundo disco, O Monolith, que foi muito elogiado entre os mais aficionados por lançamentos contemporâneos — saindo, inclusive, em várias listas de melhores do ano —, a banda seguiu o protocolo e partiu em turnê para divulgar suas novas músicas. Já havia ali, na tenda, um público aguardando o início dos shows quando os cinco rapazes de Brighton entraram sob alguns aplausos e deram a ignição à música do dia. Desde a primeira execução, com Swing (in a Dream), os caras mostraram muita disposição e focaram em executar com muita segurança suas músicas, sem se importar muito com o tamanho do público ou mesmo se eles sabiam acompanhar as letras. Aos poucos, os desavisados que estavam passando por perto foram se aproximando, interessados no som tocado com maestria pelo Squid. Coisa de gente grande, apesar do pouco tempo de banda. No Squid, todos os seus integrantes tocam mais de um instrumento, às vezes ao mesmo tempo. O baterista/vocalista Ollie Judge toma a frente, mas sempre muito bem arranjado pelos instrumentos de apoio, que vão das guitarras ácidas até o trompete, que irrompe em muitos momentos dando toques “jazzísticos” ao pós-punk contemporâneo do grupo. Nota-se também que a banda não se apega à estética ou gêneros específicos, brincando com experimentalismo e dando acentos ou passagens inteiras que remetem ao indie rock ou à música ambiente. Foram apenas oito músicas que preencheram o desfile musical da banda. Parece pouco, mas a intensidade do som do Squid, as viagens instrumentais e a nítida empolgação dos membros para marcar território no Brasil fizeram com que a apresentação marcasse quem passou por ali. Certamente, muitos dos desavisados que foram ao C6 Fest e passavam naquele horário pela Tenda Metlife apenas para tomar uma cerveja ou encontrar amigos, também passaram a conhecer e admirar o incrível Squid, e fizeram com que os aplausos finais fossem maiores e mais intensos que os iniciais. Edit this setlist | More Squid setlists
NOFX encerra 40 anos de história com maratona de hits, polêmicas e The Decline em Madri

Como em toda festa de aposentadoria, chega o momento do discurso final. Mas, tratando-se do NOFX, o discurso vem acompanhado de distorção e sarcasmo, como no encerramento da noite em Madri, na Espanha. Após 40 anos revirando a indústria e o underground, a banda subiu ao palco do WiZink Center sob um banner simples, quase “faça você mesmo”, para dizer adeus. A introdução com os riffs de Riff Raff (AC/DC) serviu como o aquecimento circense para o que viria: uma banda que, mesmo à beira do fim, ainda atesora uma velocidade impressionante. Quando Dinosaurs Will Die e Perfect Government explodiram em sequência, a entrega do público foi absoluta, transformando a arena em um coro de reverberação coletiva. Diálogos e ritmo do NOFX em Madri Se musicalmente o NOFX entregou hinos como Leave It Alone e Bob (com o trompete inconfundível de El Hefe), a dinâmica do show trouxe a marca registrada, e para alguns, o calcanhar de Aquiles, do grupo: os longos diálogos entre as músicas. Fat Mike não poupou o público de suas divagações. De piadas sobre orgasmos e críticas a Israel até a eterna rivalidade “Madrid vs. Barcelona” e comparações entre Rancid e The Clash. Se por um lado isso quebra o ritmo, por outro, é a essência do que o NOFX sempre foi: uma banda que se recusa a apenas tocar. A presença da tecladista e vocalista Karina Denike (Dance Hall Crashers) trouxe um frescor necessário, especialmente no ska-punk de All Outta Angst, equilibrando a crueza de faixas rápidas como Fuck the Kids e Juice Head. Clímax com Linonleum O bloco principal se fechou com a trinca Murder the Government, The Brews e a obrigatória Linoleum, descrita como a “forma absoluta” de encerrar o set, levando o público banhado em cerveja e suor ao delírio. Mas foi no bis, após uma pausa justificada pelas reclamações de El Hefe de que precisava urinar, que a banda reencontrou o foco total. Com um Fat Mike menos falastrão e mais músico, The Separation of Church and Skate (citada por ele como sua favorita) e Don’t Call Me White transformaram a pista em um campo de batalha festivo. Grande obra para encerrar o show Para a despedida definitiva, não houve escolha segura. A banda executou a épica The Decline. A obra-prima de 18 minutos contou com um reforço de luxo: Frank Turner assumiu a guitarra, enquanto El Hefe comandava os metais. Foi o encerramento digno para uma carreira de quatro décadas. O NOFX saiu de cena provando que, mesmo entre piadas ruins e pausas longas, eles deixam um legado de independência e trilha sonora que, ao contrário da banda, não vai se aposentar tão cedo.
Circle Jerks promove aula magna de hardcore com 24 músicas em 40 minutos

Se Frank Turner trouxe o polimento, o Circle Jerks trouxe a história. Quando Keith Morris e Greg Hetson subiram ao palco às 20:10, a sensação não foi de um show de abertura, mas de uma lição de casa. Eles são os arquitetos do hardcore californiano que permitiram que bandas como o NOFX existissem. A apresentação foi um exercício de urgência e resistência. O guitarrista Greg Hetson, incombustível, correu pelo palco provando que o punk preserva. A banda entregou um set “cravado” em 40 minutos, sem gordura, sem discursos longos, apenas descarga sonora. Sem jogos de luzes, apenas porradaria no show do Circle Jerks Visualmente, o show foi um retorno às raízes. Com uma luz fixa e crua, sem os jogos de luzes coloridas típicos de arenas, o WiZink Center ganhou ares de “casa abandonada”. Essa estética “suja” casou perfeitamente com a sonoridade primitiva da banda. A abertura com Deny Everything e Letterbomb deixou claro que a proposta era a velocidade. Blocos temáticos de ritmo se formaram, com destaque para a execução celebradíssima dos clássicos Beverly Hills e When the Shit Hits the Fan. Metralhadora de clássicos O repertório foi um presente para os puristas, com metade do show (12 músicas) dedicado ao seminal álbum Group Sex. A intensidade era tanta que faixas de dois minutos, como o cover de Wild in the Streets (de Garland Jeffreys), pareciam épicos longos em comparação aos petardos de hardcore de 50 segundos como Don’t Care. Houve espaço para navegar pela discografia com Moral Majority e Live Fast Die Young, mantendo o público em um estado constante de mosh e stage diving, conferindo um tom nostálgico e violento à pista. A reta final com Wasted abriu caminho para o encerramento caótico com Red Tape. O Circle Jerks provou que, mesmo em uma “festa de aposentadoria” (a do NOFX), eles, os veteranos, ainda têm gasolina no tanque. Foi o prato principal perfeito para saciar a fome de violência sonora antes da sobremesa agridoce da despedida.
Em Madri, Frank Turner & The Sleeping Souls ensina como dominar o palco em 40 minutos

Se as bandas anteriores lutaram contra as adversidades técnicas típicas de shows de abertura, a entrada de Frank Turner & The Sleeping Souls às 19:25, em Madri, marcou uma mudança de patamar na noite. O britânico não é apenas um músico, é um operário do palco que sabe exatamente como conquistar uma casa de shows, seja como headliner ou convidado de luxo. Acompanhado de sua banda completa, o som que ecoou no WiZink Center foi, para dizer o mínimo, espetacular. A “parede sonora” do folk-punk preencheu todos os cantos do ginásio, mostrando que a noite estava apenas começando a esquentar. Setlist com tiros curtos e diretos Frank Turner não perdeu tempo. A abertura com Do One já veio com um “agrado” estratégico: os primeiros versos cantados em espanhol, arrancando a simpatia imediata dos madrilenhos. O setlist foi construído para não deixar a peteca cair: sem pausas longas, sem discursos intermináveis, apenas música direta e contundente. A sequência com Never Mind the Back Problems e o hino Photosynthesis transformou a pista, já bem mais cheia, em um coro uníssono. É impossível não notar o domínio de palco de Frank Turner, algo que ficou evidente na execução de Girl From the Record Shop e No Thank You for the Music, ambas do álbum Undefeated (2024). Clímax e promessa de Frank Turner em Madri Mesmo com o tempo curto, Turner conseguiu passar por momentos de alta energia, como na explosiva 1933 e no convite à anarquia doméstica de Try This at Home. A reta final foi desenhada para a consagração. I Still Believe soou como um culto religioso ao rock and roll, preparando o terreno para o encerramento com Four Simple Words, a faixa que, tradicionalmente, transforma qualquer lugar em uma fest punk. Ao sair do palco, prometendo um retorno breve à Espanha, Frank Turner deixou a sensação de que poderia ter tocado por mais duas horas sem cansar ninguém. Foi o “aquecimento” perfeito para a brutalidade hardcore que viria a seguir com Circle Jerks e NOFX.
The Meffs e G.A.S. Drummers, fúria britânica e orgulho local acendem o pavio para a despedida do NOFX em Madri

Coube ao The Meffs a missão de transformar o clima ainda frio do WiZink Center, numa terça-feira (14), em um caldeirão para o público que aguardava o show de despedida do NOFX em Madri, na Espanha. E a dupla britânica não desperdiçou a oportunidade em sua estreia por essas bandas. Com uma postura de quem tem urgência em dizer o que pensa, o duo cuspiu raiva desde os primeiros acordes. O setlist foi um recorte cru da discografia recente, focado quase inteiramente na série Broken Britain. A abertura com Stand Up, Speak Out e a niilista No Future serviram como cartão de visitas: punk rock minimalista, direto e barulhento. Apesar do horário e do público ainda escasso, a vocalista Lily e o baterista Lewis entregaram performance de gente grande. Faixas como Clowns e Wasted on Women ecoaram pela casa de shows com a ferocidade necessária para acordar quem estava chegando. Eles cumpriram o papel com louvor: incomodaram, gritaram e deixaram o palco aquecido. G.A.S. Drummers veio na sequência do The Meffs Na sequência, a responsabilidade de manter o nível alto caiu no colo do G.A.S. Drummers. Únicos representantes locais na noite, a banda de Jerez de la Frontera trouxe para o palco do Winzik Center a bagagem de quem viveu o auge do punk rock melódico no final dos anos 90. A apresentação foi um exercício de resiliência. Como é comum para bandas de abertura em grandes arenas, eles enfrentaram a “maldição do som embolado” e uma iluminação tímida. No entanto, a banda soube jogar com o que tinha de melhor: a proximidade com o público e um repertório nostálgico. Não é à toa que Tim Armstrong (Rancid) se interessou por eles no passado. Quando clássicos como We Got the Light, Phoenix e American Bliss foram executados, a conexão foi instantânea. Eles driblaram as adversidades técnicas com a experiência de quem já rodou o mundo, revalidando seu cancionero diante de uma plateia ávida por velocidade. Foto por: Musikalia.com
Megadeth faz show curto, mas empolga com sinfonia destruidora no Espaço Unimed
Royal Blood para os fãs e em um ambiente fechado tem um peso muito diferente
Adi Oasis e Alfa Mist promovem noitada de neo-soul e jazz na Audio