Ecca Vandal estreia no Brasil misturando The Distillers com hip hop, mas deixa a desejar

Embora muitos brasileiros tenham tido o primeiro contato com Ecca Vandal apenas no anúncio da Loserville Tour, a artista sul-africana radicada na Austrália carrega uma trajetória de uma década marcada por um ecletismo radical. Com apenas um álbum de estúdio lançado, o elogiado disco homônimo de 2017, e um longo período de hiato que interrompeu sua ascensão, sua vinda ao Brasil cercava-se de curiosidade sobre como seu “caos organizado”, que funde punk rock, hip hop e música eletrônica, se comportaria em um estádio. A proposta de Ecca é fascinante: em seus melhores momentos, sua agressividade vocal remete à crueza de Brody Dalle (The Distillers), mas envelopada em batidas eletrônicas e uma estética urbana moderna. No entanto, no palco do Allianz Parque, no último sábado (20), abrindo para o Limp Bizkit, a execução esbarrou em questões técnicas que comprometeram a experiência. A escolha por um formato reduzido de banda, focada essencialmente em bateria e baixo, com alternâncias pontuais para guitarras e sintetizadores, acabou soando esvaziada. O excessivo volume da bateria engoliu as camadas mais ricas do som, tirando o peso industrial e a profundidade que tornam seu trabalho de estúdio tão impactante. Apesar dos problemas de mixagem, a presença de palco de Ecca foi inegável. O ponto alto da apresentação foi o single Cruising to Self Soothe, lançado no início de 2025. A faixa injetou uma dose necessária de energia pesada no set, permitindo que a cantora explorasse seus vocais rasgados e demonstrasse a atitude visceral que a tornou uma queridinha da crítica internacional anos atrás. Econômica nas interações para otimizar os 40 minutos de palco, Ecca Vandal não deixou de prestar sua homenagem à cultura anfitriã. Em um gesto de reverência à música pesada brasileira, apresentou-se vestindo uma camiseta do Sepultura, reforçando sua conexão com as raízes do metal e do punk. Foi um show de contrastes: uma artista talentosa e visualmente impactante, mas que ainda parece buscar o equilíbrio ideal para transpor sua complexidade sonora para arenas de grande porte.

Pierce the Veil reforça conexão com o Brasil em show intenso e participativo

Pierce the Veil passou pelo Brasil com a turnê “I Can’t Hear You”, incluindo apresentações em Curitiba e São Paulo. Na capital paulista, em apresentação realizada na última terça (16), a banda norte-americana entregou um show marcado por intensidade constante, equilíbrio entre diferentes fases da carreira e uma conexão direta com o público do Espaço Unimed. A abertura da noite ficou por conta do Health, que preparou o ambiente com um set denso e atmosférico, baseado em camadas eletrônicas, peso industrial e climas sombrios. A proposta funcionou como aquecimento eficiente antes da entrada do Pierce the Veil, com o público já atento e participativo desde os primeiros momentos. Quando a banda principal subiu ao palco, a reação foi imediata. O início do show colocou a pista em movimento, com o público cantando em coro e ocupando cada espaço disponível. O repertório alternou faixas recentes com músicas que ajudaram a consolidar a trajetória do grupo, criando uma dinâmica que manteve a atenção do começo ao fim. Ao longo da apresentação, o Pierce the Veil construiu momentos de explosão coletiva e passagens mais melódicas, sem perder intensidade. A condução segura do set, aliada à resposta constante da plateia, transformou o Espaço Unimed em um grande coro, com poucas pausas e energia elevada mesmo nos momentos de respiro. Mais do que revisitar a própria história, a banda mostrou estar confortável com o presente. A execução precisa, a comunicação direta e a escolha de repertório reforçaram a relevância do Pierce the Veil no circuito atual, confirmando em São Paulo uma relação sólida com o público brasileiro. Confira o Setlist abaixo:1. Death of an Executioner2. Bulls in the Bronx3. Pass the Nirvana4. I’m Low on Gas and You Need a Jacket5. I’d Rather Die Than Be Famous6. Yeah Boy and Doll Face7. She Makes Dirty Words Sound Pretty8. I Don’t Care If You’re Contagious9. Wonderless10. May These Noises Startle You in Your Sleep Tonight11. Hell Above12. Emergency Contact13. Circles14. Disasterology15. Hold On Till May16. King for a Day Foto: Marcos Oliveira

P.O.D. inicia turnê sul-americana em show explosivo no Carioca Club

O encontro de P.O.D., Demon Hunter e Living Sacrifice transformou o Carioca Club em uma noite dedicada ao rock cristão. As três bandas dividiram o palco em um evento que reuniu gerações e estilos diferentes dentro do metal. Living Sacrifice abriu a noite em sua primeira passagem pelo Brasil, seguido pelo peso característico do Demon Hunter, que aqueceu a plateia antes da entrada do P.O.D. Quando subiu ao palco, o P.O.D. iniciou com Southtown, uma escolha pouco comum para abrir os shows e que já incendiou a plateia. Em seguida vieram faixas que mantiveram o público em alta, como Rock the Party (Off the Hook) e Boom, além de momentos mais recentes que mostraram a fase atual da banda, destaque para o cover de The Beatles “Don’t Let Me Down”. Mesmo com a energia alta e uma performance consistente, o repertório deixou uma ausência sentida pelos fãs mais antigos. A clássica Satellite não apareceu no setlist, assim como outros sucessos de época que muitos esperavam ouvir. O show teve cerca de 1h15 e foi direto, sem bis, com Alive encerrando a noite. A apresentação abre a turnê sul-americana e valorizou a união de três nomes importantes do rock cristão. A soma delas trouxe peso, variedade e uma atmosfera particular que dificilmente será repetida em outra turnê. Setlist do P.O.D.SouthtownRock the Party (Off the Hook)BoomDropI Got ThatDon’t Let Me Down (The Beatles cover)BreakingMurdered LoveLost in ForeverSleeping AwakeI Won’t Bow DownSoundboy KillaWill YouYouth of the NationAfraid to DieAlive Turnê A turnê do P.O.D. e Demon Hunter segue da seguinte maneira: Rio de Janeiro (06/12 – Sacadura 154 – com Living Sacrifice)Recife (07/12 – Armazém 14)Curitiba (09/12 – Tork N’ Roll)Belo Horizonte (10/12 – Mister Rock)Brasília (12/12 – Toinha Brasil Show)São Paulo (13/12 – Carioca Club) O último show já está com cerca de 90% dos ingressos vendidos, indicando que a segunda apresentação na cidade deve ter casa lotada e a possibilidade de surpresas no repertório para quem ainda espera ouvir clássicos deixados de fora. A organização é da Estética Torta e En Hakkore Records.

TBT – Dez anos sem Scott Weiland: relembre o show do Velvet Revolver em São Paulo

Scott Weiland, de 48 anos, ex-vocalista do Stone Temple Pilots e do Velvet Revolver, foi encontrado morto em 3 de dezembro de 2015, dentro do ônibus de sua banda, a Scott Weiland & the Wildabouts, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. A causa da morte foi overdose. Hoje, dez anos após a morte do vocalista, relembramos o histórico show do Velvet Revolver no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando abriu para o Aerosmith. A apresentação rolou em 12 de outubro de 2007. Velvet Revolver prova que supergrupos podem ter alma Quando as luzes do Morumbi se apagaram para a abertura, a sensação não era de um “show de aquecimento”, mas de um evento principal paralelo. O Velvet Revolver subiu ao palco trazendo a mística de ser a “banda mais perigosa do mundo” naquele momento. Scott Weiland, magro e com movimentos serpentinos que lembravam um lagarto elétrico, comandava a frente, enquanto a silhueta inconfundível de cartola e Gibson Les Paul à esquerda arrancava gritos de “Slash” da plateia. A chuva que caía não esfriou a recepção. A abertura com Let It Roll e a pesada Do It for the Kids mostrou que, apesar da acústica do Morumbi engolir um pouco a guitarra base de Dave Kushner, o entrosamento entre baixo (Duff) e bateria (Matt Sorum) continuava sendo uma parede de concreto. A banda sabia o que o público queria. Embora as músicas autorais como Sucker Train Blues fossem bem recebidas, o estádio veio abaixo quando o passado foi invocado. Os covers do Stone Temple Pilots, Vasoline e Interstate Love Song, serviram para lembrar a todos que Weiland era uma das maiores vozes dos anos 90. Sua performance era errática e hipnótica, contrastando com a solidez da banda instrumental. Mas foi o legado do Guns N’ Roses que gerou a catarse. It’s So Easy (com Duff nos vocais rasgados) e Mr. Brownstone transformaram o Morumbi em uma máquina do tempo. Ver Slash tocando esses riffs ao lado de Duff novamente foi, para muitos, o fechamento de um ciclo aberto desde 1993. Além da nostalgia O mérito do show, no entanto, foi provar que o Velvet Revolver tinha vida própria. Fall to Pieces foi o momento “isqueiros para o alto” (ou celulares, na época começando a dominar). O solo melódico de Slash sob a garoa fina foi uma daquelas cenas cinematográficas que só estádios proporcionam. A banda também testou material novo com She Builds Quick Machines (do disco Libertad, que sairia meses depois), mostrando que ainda havia gasolina no tanque criativo. O encerramento com Slither foi a prova definitiva de força. Com seu riff arrastado e refrão explosivo, a música já soava como um clássico instantâneo, equiparando-se aos covers tocados anteriormente. Scott Weiland, regendo a massa com seu megafone, saiu de cena deixando a impressão de que tínhamos visto uma das últimas grandes encarnações do rock and roll perigoso e visceral. O Aerosmith, que veio na sequência, teve trabalho para superar aquela energia. Edit this setlist | More Velvet Revolver setlists

Oasis em São Paulo: dezesseis anos de espera e um show que vai ficar na memória para sempre

Oasis em São Paulo 2025

Foram 16 anos de espera para poder rever o Oasis, a maior banda de rock dos últimos 30 anos. Sim, isso mesmo que você leu. Concorde ou não, os irmãos Gallagher são os responsáveis por tornar o rock grande mais uma vez e ocupando grandes arenas pelo mundo. E isso foi dito por muitos jornalistas especializados mundo afora e artistas acostumados a lotar estádios em todos os continentes, como Jon Bon Jovi. Na primeira noite no Brasil, no estádio do Morumbis, em São Paulo, o Oasis manteve a receita utilizada nos últimos cinco meses de turnê. O set não muda, as falas são quase iguais, Liam e Noel entram de mãos dadas no palco, o Poznan está presente em Cigarettes and Alcohol. Para não falar que não tem alterações, o homenageado em Live Forever sempre muda. Em São Paulo, o escolhido foi Gary Mani, baixista do Stone Roses, que morreu na sexta-feira (21). Says it’s good to be back, good to be back. Hello abriu o show após um breve vídeo no telão ao som de Fuckin’ in the Bushes, característica mantida das turnês passadas do Oasis. A sequência é arrebatadora do início ao fim. Após Hello, Liam puxou Acquiesce, Morning Glory e Some Might Say, dando o tom do show, quase todo focado em Definitely Maybe e (What’s the Story the Morning Glory). Mas com bom destaque também para The Masterplan e Be Here Now. Aqui cabe uma observação para os críticos amargos de jornalões de São Paulo, que vivem escrevendo que o Oasis só tem quatro álbuns e por isso focam neles nessa turnê. Quais bandas com 30 anos ou mais não fazem o mesmo? Temos algumas exceções, mas priorizar os maiores hits em uma turnê de reunião é a coisa mais comum do mundo. Standing on the Shoulder of Giants, Heathen Chemistry, Don’t Believe the Truth e Dig Out Your Soul, apesar de ignorados (exceções foram Fuckin’ in the Bushes e Little by Little), contam com ótimas canções. Mas o show de 2h05 contemplou muito bem a primeira e mais gloriosa fase da banda. A pesada Bring it on Down aparece na sequência, mas sem tanto apoio na cantoria dos fãs, que passaram a vislumbrar o momento histórico no palco. Aliás, muito legal ver a renovação do público. Muitos que estavam presentes na pista A certamente não eram nascidos na época da separação ou não haviam assistido um show do Oasis até então.  Cigarettes and Alcohol, também do Definitely Maybe, álbum de estreia da banda, foi precedida por um pedido de Liam para todos fazerem o Poznan. E, quem não é fã do Oasis, deve estar se perguntando o que é isso, certo? Fanáticos pelo Manchester City, os irmãos Gallagher se divertem com as comemorações dos torcedores, que se abraçam, viram de costas e pulam. A inspiração da torcida do City, no entanto, veio dos fãs poloneses do Lech Poznan. Em 2010, o Lech Poznan enfrentou o Manchester City no Etihad Stadium, em Manchester, na Inglaterra. Seis mil torcedores poloneses viraram de costas para o campo, entrelaçaram os braços e começaram a pular em sincronia. A ação era um protesto silencioso contra a diretoria do clube, mas também uma demonstração incomum de lealdade: mesmo de costas, eles não deixavam de torcer. A torcida do City adotou tal comemoração para celebrar as vitórias, agora replicada nos shows do Oasis. Fade Away, Supersonic e Roll With It formaram mais uma trinca de respeito no setlist, com Liam no comando do vocal e sempre tentando discursar rapidamente com o seu sotaque carregadíssimo e impossível de entender. Na sequência, Liam deixou o palco para o seu irmão, Noel, assumir o protagonismo: Talk Tonight, Half the World Away e Little by Little vieram em sequência. Muito importante notar aqui a banda de apoio, com trio de metais e piano, que dão um peso generoso no som. Com Liam novamente de protagonista, o Oasis emendou mais uma série maravilhosa: D’You Know What I Mean?, Stand By Me, Cast No Shadow, Slide Away e Whatever. Em um dos momentos mais emocionantes do show, Liam dedicou Live Forever para Gary Mani, que teve seu rosto estampado no telão na parte final da canção. Liam estava visivelmente emocionado, nunca escondeu de ninguém que considera os integrantes do Stone Roses seus verdadeiros heróis. Rock and Roll Star, que já havia sido cantada pelo público durante o comercial de um carro antes do show do Oasis, fechou a apresentação, antes do bis. A volta ao palco foi ainda mais poderosa: The Masterplan, Don’t Look Back in Anger, Wonderwall e Champagne Supernova, que encerrou o set com uma linda queima de fogos e mais afagos entre os irmãos Gallagher no palco.  Hoje tem mais Oasis em São Paulo e o Morumbis certamente vai ferver com mais 70 mil pessoas. Edit this setlist | More Oasis setlists

Richard Ashcroft faz abertura de luxo e transforma Morumbis em um karaoke gigante do The Verve

Antes dos irmãos Gallagher subirem ao palco para reescrever a história, o Morumbis recebeu uma realeza do rock britânico. Richard Ashcroft, eterno vocalista do The Verve e amigo de longa data do Oasis, não encarou a noite como um show de abertura comum. Com a confiança de quem possui alguns dos maiores hinos dos anos 90, ele entregou uma performance que, por si só, já valeria o ingresso. Ashcroft sabe que, em um estádio lotado esperando pela atração principal, não é hora de experimentalismos. O setlist foi um “best of” curto e grosso, desenhado para fazer o público cantar do início ao fim. Richard Ashcroft é a alma do The Verve A apresentação foi dominada pelo legado do Urban Hymns. A abertura com Weeping Willow e Space and Time trouxe a atmosfera psicodélica e emotiva característica de sua ex-banda. A única concessão à sua carreira solo foi a excelente Break the Night With Colour, que, apesar de bem recebida, serviu como uma ponte para a artilharia pesada que viria a seguir. Quando os acordes acústicos de The Drugs Don’t Work ecoaram, o estádio se iluminou com milhares de celulares. Foi o primeiro grande momento de comunhão da noite, seguido pela celebração existencial de Lucky Man e a melancolia pop de Sonnet. Ashcroft, com sua postura xamânica de sempre, comandou a massa com facilidade. Mega hit e homenagem O encerramento não poderia ser outro. Bitter Sweet Symphony, talvez um dos violinos mais reconhecíveis da história da música, colocou o Morumbis abaixo. Mas houve um toque especial de emoção: a introdução contou com um trecho de She Bangs the Drums, do The Stone Roses, dedicada a Gary “Mani” Mounfield. A homenagem conectou as gerações do “Madchester” e do Britpop em um gesto de respeito e luto, elevando a música final a um patamar quase espiritual. Richard Ashcroft saiu de cena deixando o público aquecido, emocionado e pronto para o Oasis. Uma aula de como abrir um show de estádio com dignidade e peso.

Planet Hemp encerra 30 anos de história com show histórico e politizado no Allianz Parque

O Planet Hemp escreveu seu capítulo final em São Paulo com um show histórico no Allianz Parque. A apresentação da turnê A Última Ponta, que marca o encerramento dos 30 anos de carreira, foi muito mais que um espetáculo musical: virou documento político, resgate histórico e rito de despedida para uma banda que moldou gerações, na música, na cultura e na luta pela legalização da maconha no Brasil. Aula sobre a história da maconha e do Planet Hemp em Allianz Parque Antes mesmo da banda pisar no palco, o público assistiu a um vídeo de mais de 20 minutos relembrando a trajetória da cannabis no Brasil desde os anos 70, com trechos de reportagens, registros policiais, movimentos sociais e aparições do Planet Hemp na mídia. A retrospectiva costurou, com precisão, o papel da banda no debate público, desde 1993, quando surgiu no Rio, até os anos de criminalização, perseguição e prisão, que se tornaram parte da identidade do grupo. A partir daí, o show assumiu tom celebratório e militante. Marcelo D2, BNegão e companhia revisitaram as fases da banda, exaltaram parceiros, lembraram figuras da cena punk, hardcore e hip-hop, e destacaram (várias vezes) a importância da Marcha da Maconha. O clima era de reencontro, libertação e despedida. Show politizado e clima de fim de ciclo A apresentação teve forte carga política. D2 fez discursos sobre descriminalização, encarceramento e liberdade individual. A plateia respondeu fumando, cantando e vibrando, numa cena impensável há duas décadas, quando o grupo foi parar na cadeia por defender abertamente o tema. Havia um claro tom de missão cumprida. A banda sabia que estava fechando um ciclo. O público sabia que estava presenciando um pedaço da história da música brasileira. Convidados, surpresas e emoção à flor da pele O trio de convidados já anunciado, Emicida, Seu Jorge e Pitty, elevou a energia da noite. Pitty trouxe peso, Seu Jorge trouxe groove, enquanto Emicida, emocional como sempre, reforçou o elo de gerações que o Planet Hemp ajudou a abrir. A surpresa ficou por conta de João Gordo, do Ratos de Porão, chamado ao palco como símbolo máximo da ligação da banda com o underground noventista. A galera veio abaixo. Mas nada superou o momento final. Black Alien, presença raríssima, surgiu no fim do show. D2 contou que recebeu a ligação do rapper naquele mesmo dia, avisando que estaria lá. O estádio virou um mar de gritos. Dá pra dizer que ali a banda desmontou, de emoção mesmo. Em seguida, D2 homenageou Formigão, Ganjaman, Pedro, Nobru e DJ Zé Gonzalez. Um adeus para todos os que construíram o Planet Hemp. Memorável! Edit this setlist | More Planet Hemp setlists

Esquenta para o Oasis no Brasil: relembre o dia que o Oasis transformou o Credicard Hall em Woodstock

Chegar ao estacionamento do Credicard Hall na noite de 15 de março de 2006 era uma missão para poucos. São Paulo desabou sob uma tempestade de verão que transformou a pista do show em uma lagoa de água barrenta, batendo na canela e, em alguns pontos, no joelho dos fãs. Mas quando as luzes se apagaram e a fita de introdução Fuckin’ in the Bushes começou a tocar, o perrengue virou combustível. O Oasis subiu ao palco não para tocar, mas para salvar a noite. A abertura com Turn Up the Sun e Lyla foi um ataque frontal. O som estava alto, sujo e, surpreendentemente, muito bem equalizado para um local aberto e improvisado. Liam Gallagher, vestindo sua parka (que dessa vez fazia todo o sentido climático), estava com a voz no auge daquela era: rasgada e arrogante. Mas o motor da banda estava lá trás: Zak Starkey. A presença do filho de Ringo Starr na bateria deu ao Oasis um peso que eles raramente tiveram antes ou depois. Em Bring It On Down e Morning Glory, ele espancou os pratos com uma ferocidade que fez a água do chão tremer junto com o bumbo. Hinos debaixo d’água Existe algo místico em cantar Champagne Supernova debaixo de chuva. Quando Noel Gallagher puxou os acordes, o estacionamento alagado virou um coral de vozes roucas. A banda, sentindo que o público estava “na mão” apesar do desconforto, entregou execuções emocionantes de The Masterplan e Wonderwall. Noel teve seu momento de brilho com The Importance of Being Idle e Little by Little, faixas que, ao vivo, ganharam uma dimensão de hino de estádio, com o guitarrista regendo o público ilhado. Final caótico Para os fãs mais dedicados, a inclusão de Acquiesce (com os irmãos dividindo os vocais no refrão, um milagre de harmonia fraternal na época) e Cigarettes & Alcohol foi o ápice da noite. A atitude punk da banda combinava perfeitamente com o cenário de desastre urbano ao redor. O encerramento não poderia ser outro: My Generation (cover do The Who). Com Zak Starkey honrando o legado de Keith Moon na bateria, a banda terminou o show em uma jam barulhenta e distorcida. Liam jogou o pandeiro, Noel deixou a guitarra apitando no feedback e o público, encharcado, sujo e exausto, saiu dali com a certeza de ter vivido a experiência rock and roll mais visceral dos anos 2000 em São Paulo. Edit this setlist | More Oasis setlists

Esquenta para o Oasis no Brasil: relembre a última passagem da banda por São Paulo

Havia algo no ar do Anhembi, em São Paulo, além da chuva fria e incessante que castigou os fãs naquela noite de sábado (9 de maio de 2009). Quem observava o palco com atenção notava: Liam e Noel Gallagher não eram mais uma banda; eram dois exércitos ocupando o mesmo espaço. Mal se olhavam, não interagiam. Mas, ironicamente, essa tensão explosiva resultou em uma das performances mais barulhentas e viscerais que o Oasis já trouxe ao país. A turnê de Dig Out Your Soul chegou a São Paulo com a missão de provar que o rock britânico ainda respirava. E quando os acordes de Rock ‘n’ Roll Star rasgaram o silêncio, o Anhembi virou um caos de lama e pogo. Liam Gallagher, protegido por sua indefectível parka e com a postura de quem desafia o mundo, estava com a voz rasgada, no limite, mas cheia de atitude. Em faixas novas como The Shock of the Lightning, a banda soou pesada, quase psicodélica, com a bateria de Chris Sharrock preenchendo cada vácuo deixado pela acústica ruim do local. Noel, do outro lado, era a âncora melódica. Sua guitarra conduzia o público com frieza profissional. O setlist foi generoso com os lados B que o Brasil tanto ama: The Masterplan foi cantada como um hino religioso, com milhares de braços erguidos sob a chuva, criando um dos momentos mais bonitos da noite. Clássicos Não importa a fase, quando o Oasis toca os hits, a mágica acontece. Wonderwall e Champagne Supernova foram, previsivelmente, os momentos em que a banda pôde descansar: o público cantou mais alto que o sistema de som. Mas o destaque emocional para os fãs “raíz” foi Slide Away. A faixa, com sua letra sobre amor e perda, ganhou um peso extra considerando o desgaste visível da relação entre os irmãos. Noel, assumindo os vocais em Waiting for the Rapture e na versão acústica de Don’t Look Back in Anger, mostrou por que é o cérebro por trás da alma da banda. Caos final O encerramento não poderia ser outro. I Am the Walrus (cover dos Beatles) fechou a noite com uma parede de distorção e feedback ensurdecedor. Liam saiu do palco sem despedidas calorosas, jogando seu pandeiro para a plateia como quem se livra de um peso. Noel continuou tocando, concentrado, até o último segundo. Três meses depois, o Oasis acabaria. O show do Anhembi ficou marcado na história como o último ato da maior banda do Britpop em solo brasileiro. Foi frio, molhado e tenso. Mas, acima de tudo, foi rock and roll em sua essência: perigoso, imperfeito e inesquecível. Quem foi, viu a história desmoronar e se eternizar ao mesmo tempo. Edit this setlist | More Oasis setlists