Black Label Society enfrenta problemas de som em show emotivo

O Black Label Society entregou no palco do Bangers Open Air uma performance tipicamente pautada na estética do “guitar hero”, ancorada inteiramente na figura de seu líder e mentor, Zakk Wylde. O músico, mundialmente celebrado por sua trajetória de décadas como braço direito de Ozzy Osbourne, trouxe para o Memorial da América Latina a mistura característica de southern rock com o peso do metal tradicional que define sua banda autoral. A apresentação, contudo, enfrentou obstáculos técnicos em sua sonorização. O áudio foi prejudicado por uma predominância excessiva de frequências graves, o que resultou em uma falta de definição e “punch” nos instrumentos. Essa falha tornou-se mais evidente durante a execução de composições mais lentas e cadenciadas, como a emocionante In This River, dedicada aos falecidos irmãos Dimebag Darrell e Vinnie Paul, pilares do Pantera. No repertório, Wylde não focou exclusivamente na promoção de material recente, selecionando apenas duas faixas do álbum Engines of Demolition, lançado este ano. Em vez disso, o setlist abriu espaço para extensos duelos e solos de guitarra, nos quais Wylde contou com o suporte técnico de Dario Lorina, o outro guitarrista da formação. O show também se destacou por apresentar duas das poucas baladas de todo o primeiro dia do evento. Além da homenagem aos irmãos Abbott, o grupo executou Ozzy’s Song, que foi acompanhada por projeções de Ozzy Osbourne nos telões, imagens que permaneceram em exibição até o encerramento do set. A influência do “Príncipe das Trevas” é onipresente: basta ouvir o timbre e a impostação vocal de Wylde por alguns segundos para identificar, mesmo sem qualquer contexto prévio, a origem de sua técnica e escola interpretativa. >> ENTREVISTA COM BLACK LABEL SOCIETY O ápice dessa reverência ocorreu com a execução de No More Tears, clássico da carreira solo de Ozzy gravado originalmente com as guitarras de Zakk. O momento transformou o local em um grande coro de “ole, ole, ole, ole, Ozzy, Ozzy”, incentivado ativamente pelo próprio Wylde. O clima geral da apresentação foi de uma profunda homenagem, o tributo de um discípulo que parece processar a ausência de seu mestre diante de um público que reconhece em Ozzy uma de suas maiores e mais insubstituíveis referências. Edit this setlist | More Black Label Society setlists
Mesmo após “hiato”, Killswitch Engage demonstra vigor e entrosamento no Ice Stage

Contando com uma legião de fãs dedicados, muitos dos quais se deslocaram até o Memorial da América Latina com o objetivo exclusivo de prestigiar o grupo, o Killswitch Engage foi responsável por entregar o primeiro dos sets mais extensos da programação do dia. Ao longo de 70 minutos de apresentação, a banda norte-americana priorizou uma performance enérgica que evidencia suas raízes e influências do hardcore/metalcore. O fluxo do show foi marcado por poucas interrupções, salvo pelas tradicionais intervenções do guitarrista Adam Dutkiewicz, que trouxe momentos de descontração com piadas no estilo “besteirol estadunidense” sobre o consumo de cerveja, uma marca registrada de sua postura de palco. Confesso que não sou grande fã do Killswitch Engage, mas é inegável que eles entregam muito no palco. O espetáculo visual e performático começou logo na entrada, com Dutkiewicz surgindo no palco aos saltos, utilizando uma bandeira do Brasil como capa. No entanto, o foco central das atenções divide-se com o vocalista Jesse Leach. O frontman demonstrou uma mobilidade constante, percorrendo o palco em toda a sua extensão e culminando sua participação em um contato direto com o público, ao descer para cantar em meio aos fãs durante o encerramento da apresentação. Um detalhe relevante compartilhado pelo guitarrista durante o set foi que a data em São Paulo marcou o primeiro show da banda em um intervalo de quatro meses. Em tom de brincadeira, ele sugeriu que o público teria que lidar com possíveis imperfeições decorrentes desse hiato. Se ele não tivesse falado, seria difícil adivinhar que a banda, que estava bem afiada, voltava de férias. O conjunto mostrou-se extremamente afiado e com um entrosamento que não denunciava o retorno de um período de férias. A apresentação, provavelmente, também angariou alguns novos fãs e foi encerrada com uma versão metalcore de Holy Diver, do Dio. Edit this setlist | More Killswitch Engage setlists
Banda ucraniana Jinjer confirma status de destaque no metal atual

Como mencionado anteriormente, o sábado (25) registrou temperaturas elevadas, atingindo marcas térmicas rigorosas no Memorial da América Latina. Dentre todos os artistas que se apresentaram no intervalo entre o meio-dia e as 18h, é provável que quem mais tenha sentido o impacto do calor tenha sido Tatiana Shmayluk, a vocalista da banda ucraniana Jinjer. A combinação de um figurino elaborado com a exigência física de sua performance tornou a temperatura um desafio visível durante o set. Entretanto, as condições climáticas não impediram que a frontwoman entregasse uma performance absoluta no palco do festival. Reconhecida mundialmente por sua versatilidade vocal, que transita com naturalidade entre passagens melódicas e guturais profundos, Tatiana domina o palco com uma presença cênica singular. Essa entrega justifica o status do Jinjer como um dos nomes mais relevantes e acompanhados do metal contemporâneo, conseguindo extrapolar as bolhas do gênero e atrair um público diversificado pela complexidade de sua proposta. Enquanto Tatiana concentra os holofotes, seus companheiros de banda adotam uma postura mais discreta, embora tecnicamente impecável. O baterista Vladyslav Ulasevych, utilizando um setup de bateria no mínimo incomum para os padrões do metal, executa partes complexas com uma fluidez que faz o difícil parecer simples. O mesmo rigor técnico aplica-se ao baixista Eugene Abdukhanov, cujas linhas de baixo trazem frases nitidamente inspiradas no jazz, e ao guitarrista Roman Ibramkhalilov, responsável por alternar entre riffs pesados e a criação de paisagens sonoras tranquilas que oferecem respiro em meio ao caos rítmico. Este foi, sem dúvida, um dos shows mais aguardados da edição e confirmou-se como um dos pontos altos da programação. No intervalo entre as canções, era possível observar a vocalista, visivelmente encharcada de suor, buscando recuperar o fôlego e trocando olhares que provavelmente queriam dizer “tá quente pra porra aqui” aos seus companheiros. No entanto, assim que a contagem para a próxima música iniciava, qualquer sinal de fadiga era suprimido: lá estava ela novamente dançando e se esgoelando pelo palco. Grande profissional, grande banda. Edit this setlist | More Jinjer setlists
Violator leva o “show de bueiro” e discurso político ao palco do Bangers Open Air

Por volta das 14h, o fluxo de pessoas no Memorial da América Latina já indicava um aumento considerável de público. Esse preenchimento do espaço tornou o deslocamento entre os palcos principais e o Sun Stage um exercício de paciência maior para os presentes. O trajeto, realizado obrigatoriamente através de uma ponte que conecta as áreas do Bangers Open Air, ficou mais congestionado, embora o percurso ainda pudesse ser completado em um intervalo inferior a dez minutos, permitindo o trânsito entre as atrações sem grandes prejuízos ao cronograma dos fãs. O palco secundário recebeu um contingente grande de espectadores para a apresentação dos brasilienses do Violator, que protagonizaram um dos momentos de maior destaque de todo o primeiro dia do festival. “O underground chegou no Bangers”, anunciou o vocalista e baixista Pedro Arcanjo, dando início a uma sequência de composições de thrash metal “direto e reto”, estilo que o grupo refina há duas décadas. A sonoridade técnica e veloz da banda serviu como uma demonstração da vitalidade do metal nacional dentro de um line-up repleto de nomes estrangeiros. Além da parte musical, o Violator não se furtou de reforçar seu histórico posicionamento político. A apresentação foi permeada por mensagens explícitas, que incluíram desde a exposição de uma bandeira da Palestina no palco até uma dedicatória direta, antes da canção False Messiah (Falso Messias), ao ex-presidente brasileiro investigado e preso por tentativa de golpe de Estado. Tais intervenções trouxeram uma camada de protesto social ao evento, característica intrínseca à trajetória do grupo. O público respondeu à altura, não apenas ocupando todo o espaço disponível, mas também organizando intensas rodas de mosh, o que evidenciou a força do cenário underground. Para a parcela minoritária que demonstrou incômodo com os discursos, o recado de Arcanjo foi enfático: “Foda-se, não estamos nem aí”. Nas palavras do próprio vocalista, foi um “show de bueiro” transportado para o palco do maior festival do gênero na América Latina. Foi lindo!
Com substituição na bateria, Evergrey abre sequência de peso nos palcos principais

Ao mover o foco para a área que abriga os dois palcos principais do festival, os suecos do Evergrey iniciaram sua apresentação. Esta, inclusive, não será a última menção a músicos da Suécia ao longo desta cobertura, dada a forte presença do país no line-up do dia. O grupo apresentou um repertório fundamentado no equilíbrio entre o peso característico do gênero e a complexidade do metal progressivo, estabelecendo o tom para a sequência de composições rítmicas e variações técnicas que marcariam as horas seguintes do evento. A banda demonstrou entrosamento no palco, incluindo a participação do norueguês Simen Sandness, que assumiu as baquetas em substituição ao baterista Jonas Ekdahl. Durante a execução do setlist, o grupo intercalou composições recentes com os temas mais consolidados de sua discografia. O público presente no Memorial da América Latina acompanhou a performance de forma participativa, especialmente nos momentos de maior notoriedade da banda, nos quais era possível notar parte expressiva da plateia entoando as letras em uníssono. >> LEIA ENTREVISTA COM EVERGREY Um ponto de observação negativa, embora com baixo impacto no resultado estritamente musical, diz respeito às projeções exibidas nos telões de LED. As imagens apresentaram uma estética considerada simplória ou, em termos mais diretos, “tosca”, destoando da complexidade sonora do grupo. Este aspecto visual, contudo, é um tópico que transcende a apresentação do Evergrey, tendo sido observado em outros momentos do festival. O episódio reforça a máxima de que, em cenários de grandes produções, muitas vezes a simplicidade pode ser mais eficaz que recursos visuais mal executados. Edit this setlist | More Evergrey setlists
Lucifer abre os trabalhos no Sun Stage sob calor intenso

O Sun Stage do Bangers Open Air nunca ostentou um nome tão apropriado quanto no último sábado (25), talvez, em termos de sensação térmica, só não tenha sido mais literal que o próprio Hot Stage. O astro-rei resolveu comparecer com força total para prestigiar os primeiros acordes da tarde, transformando o asfalto do Memorial da América Latina, em São Paulo, em uma verdadeira prova de resistência para os “camisas pretas” mais fervorosos. Nesse cenário de calor implacável, o grupo alemão radicado na Suécia Lucifer ficou responsável por abrir os trabalhos no palco secundário do evento. Apesar do nome carregado de simbolismo ocultista e “trevoso”, a sonoridade da banda revelou-se curiosamente solar e refrescante. O som praticado por eles dialoga muito mais com a estética dos verões californianos dos anos 70, evocando o espírito do rock clássico e do proto-metal, do que com qualquer facção escandinava “queimadora de igrejas”. É um som de estrada, de amplificadores valvulados e de uma nostalgia assumida. >> LEIA ENTREVISTA COM LUCIFER Por conceito, a proposta do Lucifer já nasceu datada, mas isso não é um demérito no contexto do Bangers Open Air. A banda convence pela execução impecável e, sobretudo, pela performance magnética da vocalista Johanna Sadonis. Dona de uma voz potente e um timbre que corta a mixagem com facilidade, ela dominou o palco com um carisma que equilibra elegância e crueza rock ‘n’ roll. Entre um riff e outro, Johanna demonstrou sincera gratidão pela recepção calorosa (em todos os sentidos), agradecendo ao público por “ter acordado cedo para vir nos ver”, reconhecendo o esforço dos fãs que ignoraram o meio-dia escaldante. Na próxima quarta-feira (29), a partir das 19h, o Lucifer faz mais um show em São Paulo, no Hangar 110. Ainda há ingressos disponíveis. Edit this setlist | More Lucifer setlists
Per Gessle e Lena Philipsson celebram legado do Roxette com casa cheia em São Paulo

Na noite desta terça-feira (14), o Espaço Unimed, em São Paulo, não foi apenas uma casa de shows, foi uma máquina do tempo. Com casa cheia e um público ávido por nostalgia, o Roxette encerrou sua turnê brasileira com uma apresentação que equilibrou a dor da ausência com o êxtase de um catálogo recheado de hits atemporais. Cérebro e a nova voz do Roxette Assistir a Per Gessle aos 67 anos é entender a engenharia por trás do pop perfeito. Conservado, enérgico e com seus icônicos violões quadriculados, ele provou por que Marie Fredriksson o descrevia em sua biografia como uma “máquina de sucessos”. Gessle não é apenas o guitarrista, ele é o arquiteto de cada melodia que dominou as rádios brasileiras nas últimas décadas. A missão de dividir o palco com ele coube a Lena Philipsson. Aos 60 anos, a cantora (amiga de longa data de Per) foi cirúrgica: não tentou mimetizar Marie. Com um timbre diferente e uma presença de palco autêntica, ela e Per deixaram claro que não há espaço para comparações. “Eu sei que nem todo mundo gosta do fato de eu estar ali no lugar da Marie. Tento fazer justiça às canções e deixá-la orgulhosa”, já havia declarado Lena anteriormente. No palco paulista, essa honestidade se traduziu em respeito. Homenagens que tocam o céu O momento de maior nó na garganta veio antes de It Must Have Been Love. Lena dedicou a canção à antiga parceira de Per: “Esse é para Marie. Vocês sentem muita falta dela e eu também. Talvez ela consiga ouvir no céu”. O público, que já havia ovacionado Lena durante sua apresentação em Dressed for Success, respondeu com lágrimas e aplausos efusivos. Opções técnicas Musicalmente, o show optou por um caminho mais “clean”. A banda, que conta com veteranos da história do grupo como o tecladista Clarence Öfwerman e o guitarrista Jonas Isacsson, priorizou a equalização das melodias radiofônicas. Se por um lado isso destacou os vocais, por outro, tirou um pouco do “punch” rock’n’roll de faixas como Sleeping in My Car e How Do You Do!. Outro ajuste técnico notável foi a transposição de tons. As músicas foram tocadas um tom abaixo para acomodar a extensão vocal de Lena, já que Marie alcançava notas consideravelmente mais agudas. O resultado foi um som confortável e tecnicamente impecável, embora menos explosivo que nos anos 90. Interação e hino nacional Sem telões laterais (por decisão da banda, apenas uma tela de fundo com animações), o foco total foi na performance. Per Gessle assumiu o papel de frontman absoluto, regendo a plateia que cantou diversas faixas à capela. O tempero local ficou por conta do guitarrista Christoffer Lundquist. Vestindo a camisa da Seleção Brasileira, ele tocou o Hino Nacional no meio do set, além de arriscar riffs de Highway to Hell (AC/DC), trazendo a dose de adrenalina que o público roqueiro esperava. Inventário de hits Durante pouco mais de 1h30, o Roxette desfilou por álbuns fundamentais como Look Sharp! e Joyride. Do início vibrante com The Big L. ao encerramento emocionante com Queen of Rain, o que se viu foi a prova de que boas canções são à prova de tempo e luto. Como o próprio Per Gessle mencionou em entrevistas recentes, o Brasil tem uma conexão única com a banda, a ponto de os hits ganharem versões em forró e tecnobrega. No Espaço Unimed, a versão original retomou seu trono, provando que, mesmo com uma formação renovada, o “estilo sueco” de fazer hits segue atemporal. Setlist – Roxette em São Paulo
John Lydon celebra 70 anos com show memorável do Public Image Ltd no Cine Joia

Após um hiato de 34 anos, John Lydon finalmente retornou ao Brasil com o seu Public Image Ltd (PiL). O reencontro, que aconteceu na noite desta quarta-feira (8) no Cine Joia, em São Paulo, provou que o tempo parece não ter diminuído a urgência artística do grupo. Recentemente, a banda desafiou a lógica do mercado fonográfico ao lançar, no fim de março, o disco Alive exclusivamente em formato físico. Essa recusa em ser refém das plataformas de streaming reafirma que o PiL segue sendo uma entidade provocativa, criativa e dona de uma personalidade inabalável. O que se testemunhou no palco foi uma verdadeira aula de rock. A banda apresentou-se vibrante, entregando versões irrepreensíveis de clássicos que moldaram o que convencionalmente chamamos de pós-punk. A abertura veio com a densa Home, do aclamado Album (1986), seguida pela energia de Know Now, extraída de What the World Needs Now… (2015), estabelecendo uma conexão imediata entre o legado oitentista e a produção mais recente. Lydon, nitidamente feliz e à vontade, entregou uma performance hipnótica. Sua presença de palco continua sendo um espetáculo à parte: uma mistura de sarcasmo, autoridade e entrega emocional. Um dos grandes destaques da noite foi a execução de World Destruction. Fruto de uma colaboração histórica entre Lydon e Afrika Bambaataa em 1984, a faixa surgiu em uma versão revigorada, fazendo a ponte perfeita entre o rock e as batidas eletrônicas experimentais. Dançante, intrigante e mantendo aquele DNA anárquico, o show contagiou o público que aguardou décadas por esse momento. Hinos como This Is Not a Love Song, Flowers of Romance e a seminal Public Image foram pontos altos, mas nada se comparou à força de Rise. O maior hit da banda foi entoado a plenos pulmões por todos os presentes, criando um momento de catarse coletiva. No encerramento, o medley old school composto por Annalisa, Attack e Chant sacramentou o show. Aos 70 anos recém-completados, John Lydon prova que ainda é o visionário inquieto de sempre: uma figura ameaçadora e fascinante que não vive apenas de glórias passadas. Apoteótico e caótico na medida exata para incendiar a pista, o retorno do PiL a São Paulo foi, sem dúvidas, memorável. Edit this setlist | More Public Image Ltd setlists
Mac DeMarco reafirma o trono do indie em noite de catarse e irreverência na Audio

Após um hiato de oito anos, Mac DeMarco retornou a São Paulo no último sábado (4) para o segundo show de sua extensa turnê de nove datas pelo Brasil. Divulgando seu mais recente álbum, Guitar (2025), o canadense provou que a aposta da produtora Balaclava em uma série tão longa de apresentações foi certeira: com ingressos esgotados, a fila que dominava a calçada da Audio já denunciava a ansiedade de um público que chegou cedo para garantir um lugar rente ao palco. “Jizzy Jazzy” em solo brasileiro Qualquer sinal de impaciência pelo leve atraso de 15 minutos evaporou assim que Mac pisou no palco, visivelmente confortável e feliz. Sua marca registrada, o som frequentemente rotulado como “jizzy jazzy”, uma mistura de indie lo-fi com grooves relaxados e guitarras limpas, traduziu-se naturalmente em sua performance corporal. O repertório foi um equilíbrio preciso entre o novo e o clássico. Abrindo com Shining, do disco novo, Mac desfilou hinos de seus 14 anos de carreira, como For The First Time, Salad Days e Ode to Victory, intercalando-as com as recentes Sweeter, Phantom e Rock And Roll. O que se viu na plateia foi uma renovação notável: uma forte presença de um público jovem que canta cada verso, provando que a base de fãs de DeMarco segue em expansão. Conexão com Pedro Martins Um dos grandes trunfos da noite foi a escolha de Pedro Martins para a abertura. Se o brasiliense ainda busca o reconhecimento do grande público nacional, seu currículo já fala por si no exterior, com colaborações com gigantes como Eric Clapton, Thundercat e Tyler, The Creator. A sonoridade de Pedro, uma fusão sofisticada de jazz com a MPB oitentista de Guilherme Arantes e Beto Guedes, preparou o terreno com perfeição. Sua habilidade na guitarra foi um dos pontos altos da noite, não apenas em seu set solo, mas também quando retornou para integrar a banda de apoio de DeMarco, adicionando profundidade e solos pontuais que elevaram as composições do canadense. Dinâmica de palco e virtuosismo Ao vivo, as canções de Mac DeMarco ganham camadas que os discos, por vezes propositalmente secos e “desgastados”, não revelam. A banda que o acompanha nesta turnê é de um calibre absurdo: o baixista Daryl Johns esbanjou groove e carisma, enquanto o baterista Phil Melanson trouxe explosões rítmicas que deram um tom mais rock ‘n’ roll ao show. Mac, sempre bem-humorado, manteve o público na mão. Brincou, fez piadas, plantou bananeira e aceitou presentes dos fãs com a leveza de quem domina o que faz, mas se recusa a levar o “estrelato” a sério. Essa irreverência, somada à competência musical, é o que torna a experiência tão envolvente. Ao longo de 1h40 de apresentação, o vínculo entre Mac DeMarco e o público paulista foi não apenas reafirmado, mas fortalecido. Entre momentos de improviso, jams e um mar de luzes de celulares, ficou claro que a música indie encontrou em DeMarco um de seus guardiões mais autênticos. Ao se despedir com a promessa de voltar em breve, ele deixou a certeza de que o indie segue pulsando forte e encontrando novos ecos a cada passagem por aqui. Edit this setlist | More Mac DeMarco setlists