Na abertura para The Adicts, Supla promove festa de karaokê punk com hits e reencontro com Clemente

Dando continuidade à noite histórica no Carioca Club, o palco foi tomado pelo “Papito” mais famoso do Brasil. Supla entregou um show de exatos 50 minutos que, embora seguisse a estrutura da apresentação realizada no final do ano passado na abertura para Billy Idol (Vibra SP), reafirmou por que ele continua sendo um dos maiores showmen do país. Entre hits autorais e versões inusitadas A performance começou com a enérgica Charada Brasileiro. Em um momento de descontração que já é marca registrada de sua personalidade imprevisível, Supla arriscou alguns toques em um trompete. Embora a execução tenha sido tecnicamente “desastrada”, o gesto serviu para inflamar o público, que entende o punk de Supla como uma celebração da atitude sobre a perfeição técnica. O setlist seguiu com uma sequência matadora de clássicos que moldaram sua carreira solo: Além dos hits, o show funcionou como um verdadeiro “karaokê punk”. Com sua banda afiada, Supla apresentou versões personalizadas de ícones globais, indo do clássico John Lennon e Billy Idol ao punk visceral dos Ramones, chegando até ao pop contemporâneo de Harry Styles. Essa mistura eclética é o que garante ao Supla um público multigeracional. Reencontro de Supla com Clemente Nascimento O ponto alto da noite, e certamente o mais emocionante, foi a participação especial de Clemente Nascimento (líder dos Inocentes e guitarrista do Plebe Rude). Após o susto recente que o levou à internação por problemas cardiológicos, Clemente subiu ao palco visivelmente recuperado e com a energia renovada. O que deveria ser apenas uma participação em Humanos acabou se estendendo. Atendendo ao clamor da pista e à sintonia com o anfitrião, Clemente permaneceu no palco para o hino Garota de Berlim. Ver dois ícones da fundação do rock e do punk brasileiro dividindo o microfone em 2026 foi, sem dúvida, o momento memorável que justificou o ingresso para muitos fãs presentes.

Lixomania abre noite no Carioca Club com punk raiz e nostálgico

Lixomania

A noite da última quarta-feira (18) transformou o Carioca Club, em São Paulo, em um verdadeiro epicentro do punk rock mundial. Antes das performances de Supla e da lendária banda inglesa The Adicts, quem ditou o tom da urgência e do inconformismo foi o Lixomania. Como uma das pioneiras do movimento no Brasil, a banda carregou para o palco o peso de ser uma das 20 participantes do histórico festival O Começo do Fim do Mundo (1982). O que se viu no palco não foi apenas um show de abertura, mas uma aula de história viva ministrada pelo vocalista Moreno. Moreno, o elo com a geração de 1980 Único remanescente da formação clássica, Moreno provou que o tempo não abrandou sua entrega. Entre discursos afiados e uma performance vocal vigorosa, ele conectou o público à essência da cena de 1982. O setlist foi um deleite para os puristas, focado no emblemático EP triplo Violência e Sobrevivência. Clássicos como a faixa-título, O Punk Rock não Morreu e a melódica (à moda punk) Os Punks Também Amam ressoaram com a mesma relevância de décadas atrás. Mosh pit e crítica social A energia na pista do Carioca Club atingiu o ápice quando o grupo apresentou Buracos Suburbanos, cover do Psykóze, e a explosiva Presidente. Esta última foi precedida por um discurso contundente de Moreno, que não poupou críticas a nenhum ocupante da cadeira máxima da República, do passado ao atual governo, reforçando o pilar anárquico e apartidário do punk. O público respondeu à altura: o mosh pit (a famosa “roda punk”) foi constante, unindo veteranos de jaqueta de couro a novos admiradores em uma celebração de resistência urbana. Por que o show do Lixomania é relevante hoje? Assistir ao Lixomania em 2026 é entender as raízes da música marginal brasileira. Enquanto o The Adicts trouxe o espetáculo visual e o “Clockwork Punk”, o Lixomania entregou o punk paulistano bruto, aquele forjado na periferia e na luta por espaço cultural. Destaques do show

Bryan Adams transforma Vibra SP em imenso karaokê com maratona de hits, baladas e muito carisma

Aos 66 anos, Bryan Adams sabe exatamente como prender a atenção de uma casa lotada logo no primeiro acorde. Na noite deste sábado (7), com o Vibra SP completamente lotado, o astro canadense escolheu iniciar as 2h10 ininterruptas de show de uma forma surpreendentemente intimista. Acompanhado apenas de violão e gaita, Adams surgiu em um palco secundário, bem próximo ao público das cadeiras inferiores. Foi ali que ele abriu a noite com uma trinca acústica de peso: Can’t Stop This Thing We Started, Straight From the Heart e Let’s Make a Night to Remember. A conexão foi instantânea. Carismático, ele brincou com a plateia do setor, perguntando se poderia, afinal, ir para o palco principal, sob diversos pedidos bem-humorados para que continuasse onde estava. ‘Punch’ elétrico e a máquina de hits de Bryan Adams Quando a banda completa assumiu seus postos (guitarra, bateria e teclado), com Bryan Adams fazendo as vezes de baixista, o show ganhou sua voltagem elétrica com Kick Ass. A partir daí, a pegada rock and roll tomou conta do Vibra. Run to You manteve a energia lá no alto, enquanto Somebody provocou o primeiro grande coro generalizado da noite. A Roll With the Punches Tour faz jus ao nome não apenas pela música, mas pelo espetáculo visual. Durante a faixa-título, uma luva de boxe gigante e inflável sobrevoou a pista, dando um tom lúdico à apresentação. Mais tarde, na ensolarada So Happy It Hurts, a cena se repetiu: desta vez, um carro inflável idêntico ao do videoclipe flutuou sobre as cabeças dos fãs. Humor, dança e um mar de luzes Entre uma música e outra, Adams provou ser um anfitrião formidável. Antes de tocar This Time (faixa de 1983), o telão exibiu o clipe original da canção. O cantor não perdeu a chance de fazer piada consigo mesmo, pedindo aos fãs que não rissem do seu cabelo da época, arrancando gargalhadas do público ao confirmar que o vídeo era antigo, mas a execução ali seria muito viva. A diversão continuou em You Belong to Me. O canadense propôs um desafio: o cinegrafista focaria nos fãs que estivessem dançando, transformando o telão num videoclipe improvisado ao vivo. “Dancem! Se não souberem, batam o pezinho. Por fim, se nem isso conseguirem, tirem a camisa e rodem o máximo que puderem”, brincou. Para coroar o momento descontraído, ele emendou trechos de Blue Suede Shoes (de Carl Perkins) e a clássica Twist and Shout, elevando a temperatura da pista. O visual também foi um espetáculo à parte. Durante a execução de Shine a Light, o público, munido de pulseiras iluminadas no melhor estilo das apresentações do Coldplay, transformou o Vibra SP em uma galáxia cintilante, criando a atmosfera perfeita para a noite. A reta final com o encerramento perfeito A habilidade de Adams em intercalar rock de arena (18 Til I Die) e baladas rasgadas (Please Forgive Me, Heaven) fez com que o longo setlist passasse voando. Sem pausas ou o tradicional intervalo para o “bis”, a reta final foi uma verdadeira surra de clássicos absolutos. A sequência matadora com (Everything I Do) I Do It for You, Back to You e Summer of ’69 quase colocou o teto do Vibra abaixo, com o público cantando forte e vibrando do início ao fim. Após Cuts Like a Knife, Adams apresentou sua banda, que deixou o palco sob fortes aplausos. Sozinho novamente, sob a luz de um refletor, o canadense encerrou a noite do mesmo jeito que começou: na voz e no violão, embalando os corações paulistanos com a emocionante All for Love. Uma verdadeira aula de rock, nostalgia e entretenimento. Agora, Bryan Adams segue para mais dois shows no Brasil: Curitiba (Live Curitiba, na segunda-feira) e Porto Alegre (Auditório Araújo Vianna, na quarta-feira). Setlist – Bryan Adams no Vibra SP (07/03/2026)

Show do Booze & Glory tem celebração de suor, ska e street punk no Hangar 110

Após um hiato de nove anos, o solo paulistano voltou a sentir o peso do Booze & Glory. No último sábado, a ND Productions transformou o mítico Hangar 110 no epicentro da cultura skinhead e punk, entregando uma noite onde a nostalgia e o vigor se encontraram no mosh pit. Aquecimento de respeito: Faca Preta e 88 Não! Com mais de dez anos de carreira, o Faca Preta que lançou recentemente o EP Fogo no Sistema (Repetente Records) apresentou um show energético e com boa parte do público presente cantando junto canções como São Paulo e Cães de Rua. Mostrando muita garra, entrosamento e uma ótima presença de palco, brindaram o público com We’re Coming Back, do Cock Sparrer, e encerraram com a já clássica Lutando de Braços Cruzados, que contou com a participação do Breno, filho do vocalista Fabiano, nos vocais. Sem deixar o ritmo cair, os mauaenses do 88 Não! assumiram o palco atacando com a clássica Bairro Pobre. A grande surpresa da noite ficou por conta de um naipe de metais que elevou o som da banda em um bloco de ska de tirar o fôlego. Entre covers certeiros de Garotos Podres (Rock de Subúrbio) e Attaque 77 (Espadas e Serpentes), a banda preparou o terreno com maestria, encerrando com Beber diante de uma casa já completamente lotada e fervente. É revigorante ver curadorias que respeitam o público: Faca Preta e 88 Não! não foram apenas “bandas de abertura”, mas a prova viva de que o street punk nacional respira com pulmões de aço. Booze & Glory Quando as notas épicas de The Ecstasy of Gold, de Ennio Morricone, ecoaram pelos PAs, o clima de “final de campeonato” tomou conta. O Booze & Glory subiu ao palco e, de cara, soltou The Day I’m in My Grave. O resultado? O Hangar 110 veio abaixo. Mesmo com uma formação renovada em relação à segunda visita ao país, a banda mostrou um entrosamento cirúrgico. O repertório foi um presente aos fãs, equilibrando hinos antigos como Leave the Kids Alone e Raising the Roof com faixas recentes, a exemplo de Boys Will Be Boys, recebida com o mesmo entusiasmo dos clássicos. O ápice da catarse aconteceu em London Skinhead Crew. O que se viu foi o puro espírito do punk: uma invasão de palco pacífica, onde banda e público se tornaram um só, entoando o refrão com a força de uma arquibancada de estádio. Para fechar a conta, ainda sobrou fôlego para a debochada Only Fools Get Caught. Ao final, o cenário era o melhor possível: público e banda exaustos, sorridentes e devidamente batizados em cerveja e suor. Mais do que um show, foi uma celebração de uma cultura que nasceu em 1969 e que, contra todas as previsões, segue pulsante, barulhenta e mais unida do que nunca.

AC/DC no Morumbis é o privilégio de testemunhar a história viva do rock and roll

A espera finalmente acabou. Na noite desta terça-feira (24), o Morumbis voltou a ser o epicentro do hard rock mundial com o primeiro dos três shows do AC/DC no Brasil (a banda repete a dose nos dias 28 de fevereiro e 4 de março, todos esgotados nas primeiras horas de venda). Setenta mil pessoas vibraram com a banda durante 2h15 de apresentação. Essa é a quarta passagem do AC/DC pelo país, após as catarses de 1985 (Rock in Rio), 1996 (Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, e Pacaembu, em São Paulo) e 2009 (Morumbis, em São Paulo). Mas o mundo, e a própria banda, mudaram drasticamente desde aquele último encontro há quase duas décadas. Para uma análise honesta sobre o show do AC/DC no Morumbis, é preciso endereçar o inevitável: o tempo passa para todos, até para os deuses do rock. Brian Johnson (78 anos): forçado a abandonar a turnê de 2016 devido a uma severa perda auditiva, o vocalista está de volta com um sorriso indomável. Embora sua voz não alcance mais as notas estridentes dos anos 80 em faixas como High Voltage, sua entrega e carisma compensam qualquer limitação vocal. É uma entrega absurda no palco. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) Angus Young (70 anos): ainda vestindo seu icônico uniforme escolar, Angus apresenta sinais de lentidão em aberturas mais frenéticas, como Thunderstruck. No entanto, ele continua sendo o coração pulsante da banda. Seus solos viscerais, o clássico duckwalk e a energia quase infantil com que percorre o palco provam que sua técnica e resistência continuam formidáveis. O seu solo com mais de dez minutos de duração para encerrar a primeira parte do show, na sequência de Let There Be Rock, é o grande momento desse gênio da guitarra. Apoiando os dois veteranos, a “cozinha” rítmica formada por Stevie Young (guitarrista, sobrinho do saudoso Malcolm Young, falecido em 2017), Chris Chaney (baixo, ex-integrante do Jane’s Addiction) e Matt Laug (baterista, que gravou Jagged Little Pill, de Alanis Morissette e excursionou com o Slash’s Snakepit) entregou uma fundação impecável e pesada, operando com o máximo de eficiência e sem vaidades. Recado aos críticos que “não foram” ver o AC/DC no Morumbis É exatamente por toda essa bagagem que a apresentação desta terça-feira serviu como um choque de realidade para os críticos de sofá. Nas últimas semanas, tornaram-se comuns os comentários desdenhando da voz de Brian Johnson ou apontando a “falta de agilidade” de Angus Young. Vamos direto ao ponto: é uma falta de noção absurda. Não era o momento para encher o saco com exigências de quem espera a performance de atletas olímpicos de 20 anos. Quem foi ao Morumbis com a intenção de avaliar se o alcance vocal de Brian é o mesmo de 1980, deveria ter ficado em casa ouvindo o disco. No Morumbis, o público abraçou a banda do início ao fim. Cantou junto, fez mosh pit, puxou o tradicional olé, olé, olé, AC/DC, além de iluminar o estádio com as luzinhas vermelhas dos chifrinhos, principal item vendido nas redondezas do estádio.  Ver o AC/DC ao vivo em 2026 foi, acima de tudo, um privilégio. Foi a chance de se emocionar vendo dois dos maiores ícones da história da música desfilando o repertório que pavimentou o rock and roll moderno. A entrega, o carisma e os riffs imortais estavam lá. E isso valeu mais do que qualquer nota perfeitamente alcançada. Setlist repleto de clássicos  O show em São Paulo marcou o pontapé inicial da banda em 2026. A rota latino-americana seguirá feroz, passando por Chile (dois shows), Argentina (três) e México (três). O roteiro entregou uma aula de história em mais de 20 músicas, divididas entre Back in Black, Highway to Hell, Dirty Deeds Done Dirt Cheap, Let There Be Rock, Power Up, Powerage, T.N.T., entre outros álbuns. A banda não poupou energia, abrindo o show com o peso de If You Want Blood (You’ve Got It) e emendando imediatamente com Back in Black. O grande trunfo da noite, no entanto, foi o resgate histórico de Jailbreak, faixa que não era tocada ao vivo desde 1991, mas virou parte obrigatória na atual turnê. Outros momentos marcantes Let There Be Rock: com Angus Young sendo elevado em uma plataforma, disparando um solo longo e indulgente, seguido por uma chuva de confetes personalizados do AC/DC. Sin City: Angus fez seu tradicional, porém encurtado, striptease. De forma sensata, o guitarrista poupou o público de ficar apenas de roupas íntimas, usando sua gravata para tocar um solo improvisado. O bis: o encerramento explosivo com T.N.T. e a apoteose com os canhões de fogo em For Those About to Rock (We Salute You), sucedido por uma linda queima de fogos. O AC/DC poderia ter se aposentado anos atrás com seu legado intacto, logo após a morte de Malcolm Young. Porém, ao subir ao palco em 2026, no primeiro show da temporada, eles provaram que a fome de tocar continua viva. Pode não ser a mesma banda de 30 anos atrás, mas a energia bruta, a dedicação e o respeito profundo pelos fãs fazem desta turnê um triunfo inegável. Eles tocaram, e nós os saudamos.

The Pretty Reckless aquece público do AC/DC com hard rock visceral no Morumbis

Para aquecer o Morumbis, a missão ficou a cargo do The Pretty Reckless, que acompanha o AC/DC em toda a turnê latino-americana. Liderada pela carismática Taylor Momsen, a banda trouxe um hard rock visceral e bluseiro que se provou a ponte perfeita para preparar a multidão antes do furacão australiano tomar conta da noite. Em um setlist direto e sem respiros, o grupo nova-iorquino desfilou dez pedradas. A abertura com a faixa-título Death by Rock and Roll já ditou o peso, seguida por Since You’re Gone e Follow Me Down. A banda mesclou muito bem a fase recente com sucessos que furaram a bolha na última década, executando a pesada Only Love Can Save Me Now e a sombria Witches Burn. Entre elas ainda teve espaço para uma estreia, For I Am Death, single lançado no ano passado e que nunca havia sido tocado ao vivo. A reta final da apresentaçãodo The Pretty Reckless foi desenhada para ganhar de vez os fãs da velha guarda que aguardavam ansiosamente pelos donos da casa. Eles enfileiraram os maiores hits da carreira: a clássica Make Me Wanna Die, na qual foi possível ouvir muita gente cantando, a explosiva Going to Hell, o hino de arena Heaven Knows (que sempre rende boa interação) e encerraram os trabalhos com a cadenciada Take Me Down. A banda cumpriu seu papel com maestria, deixando o palco e a plateia do Morumbis devidamente aquecidos.

Overload Beer Fest acerta com line-up focado em bandas nacionais e apresentação do Obituary

A noite do último sábado (21) ficou marcada para os fãs de música extrema em São Paulo pelo Overload Beer Fest, evento que juntou grandes expoentes do cenário nacional com a apresentação dos norte-americanos e precursores do death metal Obituary. Realizado no Carioca Club, com ingressos esgotados, o evento passou longe de um show de headliner com várias bandas de abertura, mostrando a força da cena brasileira e do metal cantado em português, com as bandas Cemitério, D.E.R., Eskröta e Vulcano. Cemitério Abrindo a noite, o trio liderado por Hugo Golon despejou o seu death metal inspirado em filmes de terror no público que já começava a comparecer no Carioca Club. Com uma boa quantidade de fãs gritando o nome da banda e abrindo as primeiras rodas da noite, a apresentação de cerca de 40 minutos mais do que aqueceu quem estava no local para o que viria a seguir, também deixando muita gente querendo mais. Destaque para a trinca que encerrou a apresentação: Tara Diabólica, Natal Sangrento e Pague Para Entrar, Reze Para Sair, ovacionadas pelo público. D.E.R. No palco do Carioca, o D.E.R. mostrou porque é um dos principais expoentes do grindcore no Brasil. Como pede o estilo, foi a banda mais rápida a tocar no festival em um show direto e sem firulas. As poucas pausas entre uma música e outra serviram tanto para o público quanto para os músicos recuperarem um pouco de ar no local que já começava a ficar bem quente. Destaque para o baterista Barata, que executa primorosamente as milhões de batidas por minuto das músicas da banda enquanto, por vezes, o vocalista Thiago Nascimento parece estar em transe no palco. Eskröta Com a difícil missão de substituir os santistas do Surra, que haviam sido escalados pelo festival, porém cancelaram pouco antes de anunciarem um hiato por tempo indeterminado, a Eskröta apostou não só no som pesado e no setlist baseado principalmente em Blasfêmea, álbum lançado no ano passado, mas também na interação com o público. A mais comunicativa das bandas da noite, principalmente por conta da vocalista Yasmin Amaral, levou até bolas infláveis coloridas para jogar ao público, que respondeu bem e fez coro às falas que reforçaram o posicionamento antifascista e feminista do grupo, já explícito nas músicas apresentadas e em toda a sua discografia. Vulcano Em uma noite que seria coroada com a apresentação de um dos maiores expoentes do death metal norte-americano, nada mais justo do que escalar a banda que é tida como a precursora do metal extremo na América Latina. “Que os portais do inferno se abram”, a icônica frase que marca o início das apresentações dos santistas do Vulcano foi entoada, no sábado, por Angel, o vocalista original que fez participação especial no show, dividindo os vocais com Luiz Carlos Louzada em clássicos como Dominios of Death, Total Destruição e Guerreiros de Satã. A atual formação do Vulcano, sempre ancorada na presença do guitarrista e herói da cena Zhema, fez o show com a segurança de quem já entra com o jogo ganho, focando o setlist nas principais canções da história do grupo, prontamente recebidas por uma casa que já se aproximava da lotação máxima. Obituary encerra o Overload O Carioca Clube ficou lotado e quente para a apresentação dos headliners da noite, que fizeram exatamente o que se esperava deles: um show curto, grosso e brutal. O sempre bom som da casa colaborou para que a as guitarras de Trevor Peres e Kenny Andrews, o baixo de Terry Butler, a bateria de Donald Tardy e, principalmente, os inconfundíveis e agudos guturais do vocalista John Tardy, que ao vivo são adornados por camadas de reverb, batessem no público com a singela força de um acidente de carro. Celebrando 35 anos do seu álbum mais influente, Cause of Death, o setlist não teve diferenças se comparado com o que a banda já vinha tocando na turnê, apresentando uma sucessão de clássicos e deixando de mais ‘recente’ apenas The Wrong Time, do disco Dying of Everything (2023), uma das músicas mais grudentas da banda, se é que existe uma música grudenta no meio da extensa discografia dos floridenses. A apresentação durou cerca de uma hora, o que, no papel, pode parecer pouco, mas é compensado com a intensidade do show. Como ressalva fica a ausência de duas faixas do Cause of Death, que não chegou a ser executado na íntegra, faltando Find the Arise e Memories Remain. Setlist Obituary Redneck StompSentence DayA Lesson in VengeanceThe Wrong TimeInfectedBody BagDyingCause of DeathCircle of the Tyrants (cover do Celtic Frost)Chopped in HalfTurned Inside Out Bis:I’m in PainSlowly We Rot

Michael Monroe lança “Outerstellar”, uma aula de rock de sobrevivência

Em um mundo ideal e justo, Michael Monroe seria uma estrela colossal. Entre 1979 e 1985, como frontman do Hanoi Rocks, ele e seus parceiros finlandeses praticamente inventaram o visual hair metal e o hard rock glamouroso e caótico antes mesmo das bandas americanas dominarem a MTV. O destino, porém, foi cruel: quando o aclamado álbum Two Steps From The Move (1984) prometia o estrelato global, o baterista Razzle morreu em um trágico acidente de carro dirigido por Vince Neil (Mötley Crüe), levando ao fim precoce da banda. Mas Monroe nunca parou. Décadas depois, aos 63 anos, ele nos entrega Outerstellar, um de seus melhores e mais variados trabalhos solo. Uma banda, não apenas músicos de aluguel para acompanhar Michael Monroe Para quem acompanha a carreira solo do finlandês, o nível de excelência não é surpresa. Ele mantém a mesma formação estelar há mais de uma década: os velhos parceiros Sami Yaffa (baixo, ex-Hanoi Rocks) e Steve Conte (guitarra, ex-New York Dolls), além de Rich Jones e Karl Rockvist. Essa coesão fica evidente. A banda se tornou uma unidade muito mais afiada e musculosa com o passar dos anos, criando um som distinto que não se apoia apenas na nostalgia, mas no realismo e na paixão. Destaques de “Outerstellar” Se a performance vocal de Monroe sempre balançou entre a bravura rasgada do punk e a narrativa comovente, a musicalidade de Outerstellar acompanha essa ambição sem nunca soar pedante. Aos 63 anos, ele não tem medo de arriscar:

My Chemical Romance transforma Allianz Parque em manicômio gótico para celebrar The Black Parade

My Chemical Romance - São Paulo - 05/02/2026

Esqueça o conceito tradicional de show de estádio. O que se viu na noite desta quinta-feira (5) no Allianz Parque, em São Paulo, foi uma peça de teatro macabra musicada por uma das bandas mais importantes do século 21. Para celebrar os 20 anos de The Black Parade, o My Chemical Romance não se limitou a tocar o disco, eles construíram um universo. Ao entrarem no palco, transformado em uma espécie de sanatório/prisão distópico sob a vigilância de um olho digital gigante, Gerard Way e companhia deixaram claro que a noite seria dividida entre a ficção do “Mundo de Draag” e a realidade crua dos hits. Teatro de The Black Parade Quando o MCR assumiu o palco, o clima pesou. A execução na íntegra do álbum de 2006 foi marcada pela teatralidade. Cada integrante parecia um paciente tomando sua medicação ao entrar em cena. Musicalmente, a sequência é imbatível. De Dead! a Mama, o público cantou cada verso como se fosse uma oração. Mas o destaque foi a narrativa visual. A presença dos personagens “O Cavalheiro” (o boneco de Gerard) e “O Atendente” criou uma tensão constante. >> SAIBA COMO FOI O SHOW DO THE HIVES O clímax desse primeiro ato foi chocante e inverteu a lógica da turnê de 2025. Durante a reprise de The End, numa versão melancólica de piano e violino, Gerard Way não foi a vítima. Em uma reviravolta sangrenta, o vocalista atacou “O Atendente” em uma cama hospitalar. Enquanto Blood tocava, Way encenou a remoção das entranhas do personagem, com sangue jorrando cenograficamente, um Grand Guignol que deixou a plateia boquiaberta. O público vibrou muito com o plot twist.  Hits e a libertação Passada a carnificina teatral, a banda voltou para o “mundo real” no segundo set. Sem o palco B (usado em outras turnês), eles concentraram a energia na estrutura principal para desfilar o legado. A trinca I’m Not Okay (I Promise), Na Na Na e Helena (no encerramento) serviu para lembrar porque eles lotam duas vezes o Allianz Parque em São Paulo. Foi o momento da catarse coletiva, onde a atuação deu lugar à pura energia do rock. A voz de Gerard, exigida ao extremo por mais de duas horas, funcionou bem demais. The World Is Ugly e Cemetery Drive foram as surpresas da segunda parte do show, ambas estrearam na turnê no primeiro show em São Paulo.  O My Chemical Romance em 2026 é uma entidade complexa. Eles conseguem satisfazer a nostalgia dos fãs de Three Cheers for Sweet Revenge enquanto entregam uma performance artística digna de grandes produções da Broadway. O show no Allianz foi visualmente denso, musicalmente impecável e, acima de tudo, corajoso. Em uma era de apresentações pasteurizadas, ver uma banda “estripar” um personagem no palco principal de um estádio é a prova de que o rock ainda pode (e deve) ser perigoso. Edit this setlist | More My Chemical Romance setlists