Antes de show com Linkin Park no Morumbis, Poppy entrega apresentação marcante no Cine Joia

Atração de abertura dos três shows do Linkin Park no Brasil, a cantora norte-americana Poppy lotou o Cine Joia, em São Paulo, na quinta-feira (6), com uma apresentação focada nos seus dois últimos álbuns, Negative Spaces (2024) e I Disagree (2020). Aliás, o guitarrista do Linkin Park, Alex Feder, acompanhou o show na pista da casa. O set curto, com 1h05 de duração e 15 músicas, teve momentos de destaque, principalmente com I Disagree, Concrete, They’re All Around Us e New Way Out, que fechou a apresentação. Poppy, que iniciou a carreira como youtuber e depois migrou para a área musical lançando dois álbuns com uma pegada mais pop, não foi muito comunicativa no palco. Emendou um som atrás do outro, com breves pausas para se hidratar. A falta de interação, no entanto, não incomoda nem um pouco o público, em sua maioria bem jovem, que respondeu com gritos de “Poppy, eu te amo”. Acompanhada de músicos mascarados, Poppy faz uso de pré-gravados no palco, mas não chega a ser algo tão ostensivo a ponto de transformar a experiência em algo negativo. É nítido o potencial que ela tem, provavelmente se soltará mais nas próximas turnês. Ou não. Pode ser que isso seja apenas parte de sua persona quase robótica. Combinando elementos de dark pop, metal e música eletrônica no seu som, Moriah Rose Pereira, a Poppy, tem um repertório consistente, capaz de colocar muito marmanjo para se acabar em mosh pits, como orientou em vários momentos. Para quem quiser se preparar para o show de sábado, no Morumbis, em São Paulo, quando abrirá para o Linkin Park, recomendo os dois álbuns mais presentes na fase atual: Negative Spaces e I Disagree. Mesmo fora do atual momento, o EP de estreia, Bubblebath (2016), é uma indicação legal para ver o quão diferente está Poppy. Nesse trabalho, a cantora mistura ska, punk e reggae. Enquanto o álbum de estreia, Poppy.Computer (2017), já possui uma pegada mais eletropop. Setlist Have You Had Enough? Bloodmoney V.A.N (Bad Omens) The Cost of Giving Up Anything Like Me Crystallized From Me To U (Babymetal) The Center’s Falling Out Scary Mask I Disagree Bite Your Teeth Concrete Surviving On Defiance They’re All Around Us New Way Out
Geordie Greep faz show antológico e intimista em São Paulo

Alguns shows se fazem antológicos pelo seu escopo. De exemplos a história da música está cheia: os Beatles no Shea Stadium, o Queen no Live Aid, o Nirvana no Reading, ou, se quisermos nos aproximar na linha do tempo e na geografia, o mar de sinalizadores no System of a Down em Interlagos ou os milhões que lotaram Copacabana para ver a Lady Gaga. Outros se fazem antológicos pelo completo oposto. São aqueles que capturam artistas em ascensão tocando em lugares que logo vão se tornar impossíveis para eles devido ao seu tamanho. São momentos fugazes, dos que devem gerar discussões em bares até os dias de hoje: “tudo bem que você viu eles tocarem pra meio mundo em um estádio, eu vi quando eram umas 50 pessoas em um boteco”. Com apenas um disco de estúdio lançado em carreira solo, o britânico Geordie Greep não parece interessado em alcançar o patamar de nenhuma das bandas citadas. Ao mesmo tempo, o álbum The New Sound, do ano passado, já o alçou, no mínimo, ao lugar que a sua antiga banda, o black midi, ocupava no panorama da música alternativa contemporânea. Um lugar que supera, por muito, a capacidade de cerca de 80 pessoas do Bar Alto, onde fez a sua estreia brasileira na última quarta-feira (5). >> Confira entrevista com Geordie Greep Sideshow do Balaclava Fest, que ocupará o Tokio Marine Hall no próximo domingo (9), a apresentação com ingressos esgotados teve clima daqueles shows que, por muito tempo, só se ouvia falar aqui pelo Hemisfério Sul: os dos artistas que resolvem encolher por uma noite para uma ocasião mais intimista voltada aos fãs. Isso se fez notar desde o começo, seja com os músicos, Greep incluso, abrindo caminho pela pista do local para chegar ao palco, seja nos backing vocals da competente banda de apoio, cantados em parte sem o auxílio dos microfones. A banda Foi com Holy, Holy nas caixas de som que Greep subiu ao palco. “É estranho entrar ao som da sua própria música”, comentou, em uma de suas poucas falas da noite. A partir daí, o britânico se comunicou de outras formas. Acompanhado para a turnê brasileira por um time de músicos locais, o show focou totalmente no repertório do disco, deixando de fora apenas duas faixas e abrindo espaço para muito improviso e experimentação. No papel, foram nove músicas tocadas, na prática, a apresentação chegou na marca de uma hora e meia de duração. A escolha da banda não foi por acaso. Parte dos músicos participou das sessões do disco, gravado parcialmente em São Paulo durante a primeira e última (se não houver uma reunião) passagem do black midi por aqui. A influência da música brasileira é notável em The New Sound, o que, ao vivo, fica ainda mais aparente. Além da estreia de sua carreira solo no país, a noite também marcou a primeira vez que a formação tocou junta ao vivo. Pelo palco, era possível ver folhas de partituras e anotações para auxiliar os músicos nas canções que não são lá as coisas mais simples do mundo. Sem querer menosprezar o valor de um bom apoio, o fato é que os olhos da experiente banda raramente se demoraram no escrito, sempre buscando os seus companheiros para executar as passagens. Assim, Greep atua não só como maestro, dando instruções através de gestos e, por vezes, falando, mas também como público, visivelmente empolgado com diversas das construções da banda. A cozinha, formada pelo baterista Vitor Cabral e o baixista Fábio Sá, dá a sustentação necessária com os andamentos tortos típicos do jazz fusion, sendo que nos momentos mais intensos a batida na caixa chega a ensurdecer. O guitarrista Filipe Coimbra alterna entre as paisagens melódicas e fortes distorções, buscando feedbacks grudando a guitarra em seu amplificador. O trabalho do percussionista Daniel Conceição, que chega a bater em uma garrafa de vidro com as baquetas, realça a brasilidade das músicas e, por fim, o tecladista Chicão Montorfano toca como se estivesse possuído, arrancando olhares de alegre euforia de Greep. Quanto ao cantor, ele reveza entre fazer somente o vocal e tocar junto a guitarra. Quando pega o instrumento, ele debulha, dando a impressão de ter passado os seus 26 anos em um conservatório. Quando só canta, no melhor estilo crooner, a voz grave alcança notas impressionantes. Improviso O black midi primava pela desconstrução das suas canções ao vivo. Muitas vezes, era difícil identificar o que eles estavam tocando mesmo para quem conhecia o repertório. Sozinho, o cantor e compositor não é tão hermético. Todas as músicas são reconhecíveis para quem está familiarizado com o disco, porém, a grande maioria delas se estende e se expande. A primeira vez que isso é mais perceptível é durante a terceira música do set, a instrumental The New Sound, que dá nome ao disco e vem após uma sequência matadora formada por Walk Up e pela brasileiríssima Terra. É após a canção alongada que ocorre o único deslize aparente, no começo de Through a War, facilmente contornado após o reinício da música. Fora isso, tudo parece fluir em sintonia, apesar de muito parecer vir do improviso. E o improviso é essencial e por vezes emociona mais do que as próprias canções. É fácil falar que Holy, Holy, por exemplo, foi um dos pontos altos da noite. Realmente foi. Difícil é explicar que a longa jam que veio em seguida e desembocou em Bongo Season – que em estúdio tem meros 2 minutos e 35 – foi tão espetacular quanto. Não existe um segundo desperdiçado no show do Geordie Greep Antológico Provavelmente, o show no Bar Alto não enfeitará as páginas da história da música como os citados no começo deste texto. Ele se destina a um outro tipo de história, a que existe na memória de quem estava presente e de onde não deve sair tão cedo. Com o tempo, pode até integrar o vasto folclore dos shows em solo nacional, naquela categoria dos que mais se ouvem
Weezer rouba a cena com show curto, mas repleto de hits na estreia do Índigo, no Ibirapuera

Com exceção do King Gizzard & the Lizard Wizard, nenhuma banda de médio ou grande porte tem a produção mais ativa que o Weezer no mundo. A banda norte-americana, responsável por fechar a primeira edição do Índigo, no domingo (2), no Parque Ibirapuera, em São Paulo, lançou 15 álbuns e nove EPs em 30 anos de carreira. Aliás, quatro desses EPs apenas em 2022. Dito isso, o Weezer teria condições de fechar seu próprio festival tocando sua infinidade de hits por horas, mas eles conseguem fazer uma curadoria acertada e entregaram um pouco de tudo em 1h10 de show. Sim, provavelmente um dos menores shows de headliner da história recente de festivais no Brasil. Nada disso, porém, desanimou o público. Celebrando os 30 anos do Blue Album, o disco de estreia, River Cuomos e companhia tocaram oito das dez faixas do debute. Sem respeitar a ordem das canções, a banda intercalou seus primeiros hits com sucessos de outros trabalhos, garantindo surpresas e reações efusivas na plateia. Na pista, muita gente reclamava do som baixo ou abafado, mas nitidamente foi uma escolha da banda, com o objetivo de deixar tudo audível. E realmente conseguiram. My Name Is Jonas, do Blue Album, abriu a noite. Telão e iluminação avisaram o público quando faixas do disco de estreia seriam tocadas. A predominância azul não deixou ninguém com dúvidas nesses momentos. River Cuomos não é muito de falar, prefere aproveitar o tempo empilhando hits. Incluiu Dope Nose, Perfect Situation, Hash Pipe, Beverly Hills e Island in the Sun, só para citar alguns dos principais sucessos. Nos poucos momentos que se comunicou com os fãs, Cuomos ainda tentou arriscar o português, disparando um “bom dia”, que arrancou gargalhadas do público. Uma curiosidade da formação que veio ao Brasil estava na bateria. Josh Freese, ex-Foo Fighters e atual Nine Inch Nails, reassumiu as baquetas, enquanto o antigo dono da posição, Patrick Wilson, voltou para a guitarra. Confesso que essa mudança de última hora me deu esperança de ouvir faixas do álbum Raditude (2009), sempre esquecido pela banda nos shows. Mas seguiu sendo ignorado. Só para informação, Josh Freese gravou algumas das canções desse disco, que reúne clássicos como (If You’re Wondering If I Want You To) I Want You To, I’m Your Daddy e Put Me Back Together. A curta duração do show, que teve apenas uma canção no bis, Buddy Holly, não frustrou o público, mas deixou um gostinho de quero mais. Se o Weezer batesse cartão anualmente por aqui, o público entenderia que o próximo show seria bem diferente. Mas a realidade é outra. Vamos ver se muda, apoio do público não faltou. Setlist BLOC PARTY Dezessete anos se passaram desde a fatídica última vez do Bloc Party no Brasil. Em 2008, o grupo havia deixado uma péssima imagem depois de uma apresentação desastrosa no VMB, com direito a playback descarado. Pouco mais de um mês depois desse episódio, ainda retornou para o Planeta Terra, mas ainda enfrentava reflexos da resistência pós pataquada no evento da MTV Brasil. Agora, o cenário é completamente diferente. O vocalista Kele Okereke, um dos poucos frontmen negros do rock alternativo assumidamente gay, está em ótima fase, super empenhado em entregar o seu melhor e cantando bem (sem playback). Focou o repertório no excelente Silent Alarm (2005), álbum de estreia do Bloc Party, enfileirando hit atrás de hit. Aproveitando o fato de estar com o público na mão, dançando e cantando os maiores sucessos, Kele ainda incluiu Traps, faixa do álbum mais recente da banda, Alpha Games (2022). MOGWAI Veterana do post-rock, a banda escocesa Mogwai usou seu álbum mais recente, The Bad Fire (2025), como base para o show no Índigo. A apresentação foi morna, mas deixou o público completamente vidrado no palco. O guitarrista e vocalista, Stuart Braithwaite, e o guitarrista e pianista, Barry Burns, comandaram as ações no palco. Apesar do set ser quase todo instrumental, como boa parte da discografia da banda, Stuart incluiu alguns sons com vocais. Com uma bandeira da Palestina fixada em um dos amplis, atrás de Stuart, o Mogwai tocou por quase 50 minutos e foi a banda que mais concentrou público na frente do palco até o fim da tarde no Índigo. JUDELINE Um peixe fora d’água. Dessa forma podemos resumir a apresentação de Judeline no Índigo. A cantora e compositora espanhola, de 22 anos, casaria perfeitamente com o lineup do Primavera Sound, mas ficou um pouco deslocada entre as atrações da primeira edição do Índigo. Com uma sonoridade pop misturada com influências de flamenco e sons árabes, Judeline contou com a participação de um bailarino durante todo o show. Aliás, o dançarino estava em uma sintonia, Judeline em outra. Um dos momentos mais interessantes da apresentação foi no dueto com a mineira MC Morena em Tú Et Moi, que conta com um batidão de funk carioca. Antes de convidar a brasileira para o palco, Judeline falou com muito carinho sobre a MPB, destacando Gal Costa e Caetano Veloso como influências. OTOBOKE BEAVER O Otoboke Beaver foi a mais grata surpresa da temporada. O grupo japonês tem uma energia incrível no palco e conquistou o público rapidamente com o seu punk fofo e cheio de mensagens importantes. Natural de Kyoto, o Otoboke já havia feito um show de alto nível no Cine Joia, dois dias antes, arrancando elogios do público, imprensa e artistas. Vale destacar que elas já foram elogiadas publicamente por Jack White, Dave Grohl, Eddie Vedder e Slash. Super Champon (2022), álbum mais recente do quarteto, foi a base do show, que teve presenças destacadas da vocalista Accorinrin e da guitarrista Yoyoyoshie, ambas conversando com bastante frequência com o público. Em um dos momentos, pediram ajuda dos fãs para aprender a falar “tarado” em português, mas não tiveram sucesso na tentativa. Com vestidos floridos e caprichando nas caras e bocas, as integrantes mostraram que o rock japonês está muito bem representado. Vamos torcer por mais visitas por aqui. Foi a banda que mais levou fãs para a
“Springsteen: Salve-me do Desconhecido” e o ciclo de vida de uma criação

Os discos, assim como os filmes, têm vida própria. Ou pelo menos é nisso que o público, que os consome e, às vezes, os venera, acredita quando tem o contato com a obra final, lapidada e definida. Para o artista, que trabalha incansavelmente em algum projeto, no entanto, o que ocorre é um processo de transferência de ideias que se somam ou se separam durante uma transição de momentos, que podem resultar em uma turnê em larga escala ou um mergulho individual na zona criativa e deprimida que habita o semblante e o interior de um músico deprimido. O filme Springsteen: Salve-me do Desconhecido, do nem sempre inspirado diretor Scott Cooper, opera nesse universo de indecisões com prazo de validade. Bruce Springsteen precisou de apenas duas semanas enfiado dentro de um quarto que o aproximava de memórias dolorosas e também de notícias de crimes reais, para gravar seu disco mais aclamado pela crítica, mas o preço da libertação máxima das convenções, do manual de como “seguir a fórmula do sucesso” quase foi muito alto para sustentar a profundidade de sua visão. Com 31 anos de idade no início dessa jornada, Bruce viveu o ciclo todo de um ano, e passou a ter 32, quando o álbum finalmente foi lançado. Partindo desse princípio, de um confinamento de expectativas substituídas pela insistência e teimosia de um cara que sabia exatamente o que queria de sua música, Springsteen: Salve-Me do Desconhecido é muito mais um recorte de uma história com múltiplas narrativas do que uma série de ações sequenciadas para ter cadência de cinema. O filme de Scott Cooper, acostumado a um certo “refinamento técnico”, que ilude mais do que convence (como pôde ser visto em outro filme com fundo musical, o esforçado Coração Louco), mais uma vez conta muito com a eficiência (e, por vezes, o brilho, mesmo) de seu elenco, tanto de Jeremy Allen White transmitindo o mistério e a rebeldia imponente de Bruce desfilando com seus casacos de couro, cara de poucos amigos e mãos nos bolsos, quanto de Jeremy Strong, no papel de Jon Landau, produtor, empresário e até conselheiro afetivo do cantor. As personagens precisavam umas das outras para se ampararem na indústria e nos caminhos da vida, e os dois atores nasceram para atuar juntos. As soluções para retratar o dilema que Bruce enfrentava, de como transformar gravações caseiras, com voz, gaita, violão e uma sonoridade caseira, lo-fi, com ecos nas vozes estão todas ali, em cena: Bruce vai ao estúdio, e, de repente, Bruce vai ao parque, e Bruce volta ao estúdio (com uma banda, com o empresário, com um violão, com um canal de gravação, com… sua voz, no fim das contas), com um amor de fachada, mas sempre com muitas lembranças que parecem bater na porta, querendo levar a tristeza embora, mas aí você percebe que Nebraska não é um álbum sobre acerto de contas com o pai, com a família ou sobre aquele momento que não aconteceu. Nebraska representa um limbo, onde assassinos ganham a forma de fantasmas e saem impunes, onde pais amam os filhos sem usufruir do amor, onde fantasias de cinema importam mais do que a realidade concreta do dia-a-dia. Mas nada disso tem cor, e nem é muito claro. O preto e branco da capa é quase negativo. Se não tem vida, não tem julgamento. Essa não é a mesma narrativa de The River, 1980, ou Born in the U.S.A., de 1984, os avassaladores sucessos que antecederam e sucederam, respectivamente, o “patinho feio” de 82. Não há vilões e mocinhos, não há o Romeu que quer impressionar a Julieta e morrer em seus braços, tampouco. Nebraska é apenas um pedacinho de poeira dentro do porta-luvas de um carro onde estão guardadas algumas canções em uma fita-cassete bem velha. Acho que o filme poderia ser um pouco mais errático e menos didático se quisesse traduzir com exatidão o sentimento descrito, mas, além do elenco principal, há um elenco de apoio fantástico, com aparições de Stephen Graham, Gaby Hoffman e Paul Walter Hauser que ajudam bastante um diretor aquém da demanda a trabalhar melhor e fazer o filme funcionar um pouco mais do que eu esperava, mas ainda menos do que deveria. Springsteen: Salve-me do Desconhecido é uma pretensa biografia musical, em um primeiro momento, se mostrando muito mais uma ruminação pessoal de memórias, sobre um artista se recuperando de um período de cansaço físico e emocional, se colocando como protagonista, pela primeira vez em muito tempo, de sua história, ao mesmo tempo que é personagem de tantas outras, de mocinhos e mocinhas procurando seu lugar na América.
Guns n’ Roses entrega melhor show em uma década com surpresas e emoção

Atrasado? Gordo? Nervosinho? Cantando mal? Os críticos de plantão tiveram que aguentar Axl Rose em plena forma, pontual, feliz e entregando o melhor show do Guns n’ Roses em São Paulo desde 2016. A apresentação no Allianz Parque, no sábado (25), foi a melhor resposta possível para quem adora malhar um dos maiores vocalistas da história do rock. “Porque o que você quer e o que você obtém são duas coisas completamente diferentes” (Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things). O nome da atual turnê do Guns não poderia ser melhor, são várias interpretações que podem ser feitas. Seja pela “torcida” dos críticos por falhas do Axl ou pela alteração constante nos sets. Em tempos de repertórios decoradinhos do primeiro ao último show, o Guns quebra essa roda e surpreende com ótimos achados. Mas vamos voltar ao Axl Rose. É impressionante o trabalho de recuperação do artista desde o retorno de Slash e Duff, em 2016. Foram muitos percalços e dramas até chegar no nível atual. Da falta de ritmo à insegurança, que teve seu auge em Londres, em 2022, quando chegou a dormir no estádio do Tottenham após uma crise de ansiedade depois de uma das apresentações. Axl está com 63 anos e por muitos anos gastou sua voz com um alcance vocal poderoso. Óbvio que a conta chega, chega para todos. Steven Tyler (Aerosmith) precisou parar, Bon Jovi pausou a carreira, só para citar alguns exemplos. O líder do Guns n’ Roses se recusou a parar. E mais do que isso, não quer entregar qualquer coisa para os fãs, foram 3h10 de show. Fica a pergunta: qual banda ou cantor(a) faz isso hoje em dia? Mas os cornetinhas sempre vão achar um jeito de querer provocar ou falar besteira. Se o desempenho de Axl melhorou, “vamos caçar novos problemas”… Tentaram criar um desentendimento entre o vocalista e o novo baterista, Isaac Carpenter, após um problema técnico no retorno do som, na Argentina, algo que foi desmentido pela banda nas redes sociais. Sem o menor cabimento, aliás. Isaac tem uma performance impressionante, toca muito e esbanja carisma no banquinho. O que resta? Falar do repertório. Sim, também reclamam das escolhas para o set. Alguns choram pelo “excesso de covers”, outros pela falta de “novidades”. Não podemos esquecer que estamos falando de uma banda com 40 anos de história. É impossível fazer um set predominante com b-sides ou faixas novas. Não é assim com nenhuma grande banda com longa jornada, como o Guns, mas a implicância é sempre maior com eles. Parece um trauma vitalício decorrente da cadeira arremessada por Axl nos jornalistas, no Maksoud Plaza, em São Paulo, em 1992. Por falar em “novidades”, Hard Skool, Absurd, The General e Perhaps são canções relativamente recentes. Mas é impossível esperar um show do Guns sem protagonismo dos álbuns Appetite for Destruction e Use Your Illusion I e II, os maiores sucessos comerciais. Mas mesmo dentro desse universo, o grupo faz suas alterações. Patience saiu do set em São Paulo, Don’t Cry voltou. Yesterday foi resgatada. Duff também modifica sua participação no vocal, no Allianz Parque optou por Thunder and Lightning, do Thin Lizzy. Por falar em covers, que linda homenagem prestada ao gigante Ozzy Osbourne, com Sabbath Bloody Sabbath e Never Say Die, ambas do Black Sabbath, acompanhada de uma linda imagem do finado vocalista no telão. Human Being, do New York Dolls, que também perdeu seu vocalista, David Johansen, em março, foi outro momento memorável e inesperado. Em 3h10 de show, Axl e companhia emocionaram, divertiram e colocaram mais de 45 mil pessoas para cantar do início ao fim. E isso tudo com Slash desfilando solos e riffs marcantes da história do rock, quase todos com a sua assinatura, inclusive com um momento blues sensacional, antes de Sweet Child O’ Mine. O guitarrista Richard Fortus, com mais de 20 anos de banda, já está consolidado na formação. Se Izzy ou Gilby quiserem voltar, certamente terão que pegar uma terceira guitarra. O tecladista Dizzy Reed, desde 1990 no Guns, é um porto seguro para garantir que Axl, Slash e Duff tenham o protagonismo compartilhado na linha de frente. E todos parecem estar bem com suas posições. Axl distribui sorrisos, conversa com o público e até agradece com o bom e velho português “obrigado”. Sobrou algo para os cornetinhas? Que o Guns n’ Roses retorne muitas outras vezes ao Brasil, com ou sem álbum novo. Isso é um mero detalhe. Setlist Welcome to the Jungle Bad Obsession Chinese Democracy Pretty Tied Up Mr. Brownstone It’s So Easy The General Perhaps Slither (Velvet Revolver) Live and Let Die (Wings) Hard Skool Wichita Lineman (Jimmy Webb) Sabbath Bloody Sabbath (Black Sabbath) Never Say Die (Black Sabbath) Estranged Yesterdays Double Talkin’ Jive Don’t Cry Thunder and Lightning (Thin Lizzy) Absurd Rocket Queen Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan) You Could Be Mine Slash Guitar Solo Sweet Child o’ Mine Civil War November Rain This I Love Human Being (New York Dolls) Nightrain Paradise City
Codeine envolve público de São Paulo entre a calmaria e a explosão

Matheus Degásperi Ojea Quem só escutasse o som do show dos nova iorquinos do Codeine no último sábado (11) no City Lights Hall, em São Paulo, poderia chutar que tinha mais do que três pessoas no palco. O cultuado trio nova iorquino fez a sua estreia no Brasil com alguns anos de atraso, mas fez valer a espera de muita gente que talvez nem acreditasse que um dia a banda viria, com um show bonito e ensurdecedor Daquelas bandas ao mesmo tempo influentes e desconhecidas do público em geral, o Codeine é um expoente do slowcore, gênero de ‘rock triste’ que aposta no andamento mais lento para construir as suas paisagens sonoras sempre com altas doses de distorções. Tecnicamente, a banda durou de 1989 até 1994, tendo se reunido uma vez em 2012 e uma segunda em 2023, retorno que dura até hoje. Durante este ano, eles só tocaram ao vivo três vezes, incluindo o show de São Paulo. Pelo histórico, fica fácil de entender porque a frase que mais se repetia entre os presentes que encheram a casa de shows era algo do tipo ‘não acredito que esses caras estão aqui’, sentimento ecoado inclusive pelo vocalista Stephen Immerwahr no palco e em conversas com quem o abordava após o show. Imersão Foi nesse clima de deslumbramento que o público recebeu a porrada sonora que a banda deu por pouco mais de uma hora. Alternando momentos de calmaria e intensidade, o som do Codeine se traduziu muito bem ao vivo e deixou claro o ponto forte tanto do grupo como do estilo que eles ajudaram a criar: o de gerar atmosferas imersivas capazes de transportar a audiência e envolver o ambiente em que eles tocam. A qualidade impecável do som durante a noite também foi essencial para que tudo funcionasse da maneira certa. Além de Immerwahr, que também é baixista, o trio é formado por John Engle na guitarra e pelo baterista Chris Brokaw, que toca baixo em músicas que não contam com percussão, como Pea, Summer Dresses e Broken-Hearted Wine. A banda tocou colocando pressão no som aparentemente sem fazer muito esforço, com a tranquilidade de quem sabe o que está fazendo mesmo com os intervalos na carreira e os shows mais escassos. A apresentação começou logo com uma das favoritas dos fãs, a música D, que também abre o clássico Frigid Stars LP, disco que emprestou 6 das 16 músicas do setlist. A plateia acompanhou tudo quase como se estivesse prestando reverência ao grupo. Não houveram grandes coros ou danças na pista, que, com exceção de algumas pessoas berrando nomes de música entre uma canção e outra, acompanhou tudo com atenção, na mesma sintonia da viagem que a banda propunha no palco. Guandu Vale mencionar que a produção do show foi do selo independente Balaclava Records, que vem trazendo alguns nomes destes que pareciam meio impossíveis de vir tocar aqui, como foi o Karate no ano passado, banda com um histórico semelhante com o do Codeine. Para a abertura do show de sábado, as redes sociais do selo publicaram pedidos de indicação de artistas e os escolhidos foram os paulistanos do Guandu. O show do trio formado por Caique Lima, Cleozinhu e João Corte foi uma grata surpresa para mim, que não conhecia a banda antes. Claramente influenciado pelo pessoal do Codeine, que viu o show da pista, o grupo apostou em um repertório com várias músicas ainda não lançadas, além de um cover de Morrer, do Ratos de Porão, em versão slowcore, surpreendentemente bom. Para algumas músicas, o show teve participação da cantora Marina Mole, que casou muito bem com o som e parecia fazer parte da banda. No geral, foi uma escolha certeira para começar os trabalhos da noite. SETLIST – CODEINE D Cigarette Machine Barely Real Loss Leader Median Washed Up Tom Jr Sea Pickup Song Atmosphere (cover do Joy Division) Pea BIS: Cave-In Promise of Love (cover do MX-80 Sound) Summer Dresses Broken-Hearted Wine
Upchuck lança I’m Nice Now, punk cru que transforma raiva em música

O Upchuck lança I’m Nice Now, seu terceiro álbum, com uma explosão de punk cru e visceral que transforma raiva em força e resistência. Produzido por Ty Segall, o disco aborda temas urgentes como racismo, sexismo e lutas diárias, mantendo a energia crua que tornou a banda referência do cenário atual. O Blog’n’Roll entrevistou recentemente a banda e, no bate papo, a vocalista Kaila “KT” Thompson afirmou: “Nunca houve um momento em que eu não tivesse raiva. Neste mundo de distrações constantes e estressores, é importante manter seu corpo e espírito sãos o suficiente para continuar nesta luta aparentemente interminável.” Essa raiva se traduz em músicas como Tired, faixa de abertura que soa como um grito coletivo contra injustiças, e Forgotten Token, escrita após a perda da irmã de KT, que aborda luto, racismo e desumanização: “Eu só sinto / Porque sou negra / Isso está empilhado / Em um armário perdido” O álbum também se destaca pela diversidade de vozes e idiomas, com o baterista Chris Salado assumindo os vocais em espanhol nas faixas Un Momento e Homenaje, trazendo uma perspectiva multicultural que amplia os limites do punk tradicional. “Para mim é natural. Meu pai e meu avô me ensinaram a tocar cumbia desde criança. Já toquei em banda de cumbia. Quando entro no estúdio, faço freestyle, vou gravando partes e guardo o que gosto. Punk e cumbia andam juntos”, confessa. A produção de Ty Segall mantém a intensidade das guitarras distorcidas e do baixo pulsante, equilibrando momentos de groove mais suaves em Slow Down e New Case com explosões sonoras em Nowhere, faixa que encerra o álbum com força e emoção. “Nós amamos o Ty. Gravamos no Sonic Ranch, em dez dias, e ele trouxe uma vibe muito boa. É um cara relaxado, que nos dá liberdade, mas também direciona em alguns pontos. Depois do último álbum com ele, foi natural voltar”, conta KT. I’m Nice Now, do Upchuck, é um manifesto sonoro de resistência e sobrevivência.
Horizons/West: Thrice mistura alt-rock e post-hardcore com maestria

Quatro anos após Horizons/East, o Thrice retorna com Horizons/West, um álbum que não apenas dá sequência ao trabalho anterior, mas também expande suas fronteiras sonoras. Enquanto Horizons/East explorava texturas atmosféricas e introspectivas, Horizons/West mergulha em uma sonoridade mais crua, com guitarras distorcidas e um flerte evidente com o alt-rock. O álbum abre com Blackout, uma faixa que mistura elementos de post-punk com uma energia cinematográfica, lembrando trilhas sonoras de filmes de ação. A guitarra de Teppei Teranishi, com riffs pesados e atmosferas densas, é um dos destaques. Faixas como Gnash e Vesper Light apresentam uma agressividade que remete aos primeiros trabalhos da banda, mas com uma maturidade sonora adquirida ao longo dos anos. Albatross surge como uma balada introspectiva, enquanto Undertow traz influências de Radiohead, com uma mistura de folk eletrônico e rock alternativo. O encerramento fica por conta de Unitive/West, uma faixa meditativa que, apesar de sua beleza, pode parecer um pouco anticlimática após os picos de intensidade anteriores. Em 2023, o Thrice revisitou seu clássico The Artist in the Ambulance, álbum que me apresentou a banda, regravando-o com novas interpretações e participações especiais. Essa releitura serviu como um exercício de reflexão sobre sua trajetória, preparando o terreno para a evolução sonora apresentada em Horizons/West. Com este álbum, o Thrice reafirma sua capacidade de se reinventar, mantendo sua essência enquanto explora novas sonoridades. Horizons/West é uma continuação natural de Horizons/East, mas com uma energia renovada e uma direção mais ousada.
AFI retorna aos anos 80 com Silver Bleeds the Black Sun

O AFI se reinventa mais uma vez com Silver Bleeds the Black Sun, mergulhando no post-punk e no gótico dos anos 80, com homenagens explícitas. Você pode se identificar com The Cure, Joy Division, Siouxsie and the Banshees, Bauhaus e Echo & The Bunnymen facilmente, porém tudo com a originalidade do AFI. O Baixo marcante, sintetizadores etéreos e elementos de bateria eletrônica criam uma atmosfera densa e cinematográfica, reafirmando a identidade da banda em seu novo álbum. Entre as faixas, Ash Speck in a Green Eye merece destaque. Com uma batida surpreendentemente animada e quase dançante, ela contrasta com a poesia sombria de Davey Havok, que canta versos como “I’m an ash that burns in beauty’s fire and I fall upon its fragile knife”. A música equilibra energia e melancolia, lembrando Blaqk Audio (projeto eletrônico de Davey Havok e Jade Puget) em alguns momentos, e prova a habilidade do AFI em fundir letras profundas com arranjos eletrônicos sofisticados. É uma faixa que se destaca pelo lirismo e pelo groove envolvente, transformando o peso emocional em movimento quase hipnótico. Davey Havok brilha em todo o álbum, sua voz mais madura e imponente guia o ouvinte por camadas de guitarras, sintetizadores e baixo pulsante. Embora o álbum tenha momentos em que algumas músicas compartilham cadências semelhantes, a intensidade e o refinamento das performances fazem valer cada faixa. Silver Bleeds the Black Sun é uma carta de amor aos anos 80 e um convite para explorar a elegância sombria do AFI.