Entrevista | Metric – “Temos que tocar no Lollapalooza”

Com mais de duas décadas de estrada, o Metric consolidou-se como um dos pilares da independência artística no rock alternativo. No fim de abril, a banda liderada por Emily Haines alcançou a marca histórica de dez álbuns de estúdio com o lançamento de Romanticize the Dive. Mais do que um novo capítulo, o disco representa um acerto de contas com o passado e um abraço à maturidade que só o tempo permite. O cenário para essa nova jornada não poderia ser mais emblemático: o Electric Lady Studios, em Nova York. Ao retornar ao local onde gravaram clássicos do início da carreira, Emily e o guitarrista Jimmy Shaw reencontraram os “fantasmas” de suas versões mais jovens. Entre as paredes que já ecoaram as vozes de ícones como Jimi Hendrix e o mentor da banda, Lou Reed, o grupo buscou resgatar a urgência sonora dos discos Fantasies e Synthetica. Nesta entrevista ao Blog n’ Roll, Emily Haines refletiu sobre o processo de “destruição do ego” sob a tutela do produtor Gavin Brown. Ela revelou como a Metric busca despir as composições de metáforas complexas para atingir um estado de vulnerabilidade absoluta, transformando o estúdio em um espaço de cura e introspecção filosófica. Um dos pontos altos da conversa é a discussão sobre o papel da “mulher durona” na indústria musical atual. Emily compartilha sua visão sobre o amadurecimento e a transição de quem antes estava na linha de frente para uma posição de mentoria, como uma “irmã mais velha” que observa a nova geração enquanto aprecia um chá de camomila nos bastidores da própria história. Encerrando o papo com um olhar carinhoso para o público sul-americano, Emily não esconde o desejo de trazer a nova turnê para o Brasil. Entre reflexões sobre o desapego e a celebração da trajetória percorrida, a artista nos convida a deixar o rancor de lado e “ficar no alto”, uma mensagem que define perfeitamente o espírito de Romanticize the Dive. Oi, Emily, como você está?  Ótima, obrigada! Onde você está agora? Em casa?  Estou de volta ao estúdio. Acabamos de encerrar nossa turnê de imprensa na Europa e o lançamento do álbum em Nova York. Estou feliz por entrar agora no “modo ensaio”. Tem sido muito corrido. Imagino! Romanticize the Dive marca o 10º álbum da Metric e um retorno ao Electric Lady Studios, em Nova York. Como foi entrar naquele estúdio em 2026 e confrontar a “fome” da sua juventude, de quando vocês começaram no início dos anos 2000?  Foi como entrar em uma casa mal-assombrada onde alguns dos fantasmas eram versões mais jovens de nós mesmos. E outros eram pessoas com quem gravamos lá, como o Lou Reed.  Também conhecemos todos os álbuns que foram feitos ali, Patti Smith, D’Angelo, Jimi Hendrix. O Jimmy (Shaw) e eu sempre dizemos que aquele lugar é como ter um “grupo de foco”: quando damos o play em uma música na sala, recebemos informações sobre se ela é boa ou não sem precisar de ninguém lá, porque as paredes guardam essa história para nós. Vocês trabalharam novamente com o produtor Gavin Brown. O que ele traz ao som do Metric que ajuda a capturar o caos e as possibilidades de antes, mas com a maturidade que vocês têm hoje?  A última vez que trabalhamos com ele foi no Fantasies (2009) e no Synthetica (2012), que são os discos que tentamos “revisitar” como conceito neste novo álbum. O grande diferencial do Gavin é que ele me desafia como compositora, ele sempre me pede para tirar as camadas e dizer o que realmente sinto.  É difícil, porque prefiro escrever em códigos e me esconder atrás deles. Ele me ajuda a ter coragem de dizer o que realmente quero dizer, em vez de me ocultar. Chamamos esse processo de “destruir o ego”. Crush Forever é descrita como uma carta de amor para “garotas duronas” (tough girls). Em uma indústria que mudou tanto, o que define uma garota durona no contexto atual de 2026?  Acho que uma das mudanças é que, quando começamos, as pessoas eram obcecadas pelo fato de não acreditarem que (o rock) pudesse ser feito por uma mulher. Isso mudou, vimos muitas estrelas massivas surgirem. Mas, nessa música, não escrevo para alguém da indústria, mas sim para uma “irmã mais nova” que tenta descobrir como ser ela mesma, sem medo de causar problemas, de irritar algumas pessoas, de ser forte ou cometer erros.  Falar com essa irmã mais nova me ajudou a encontrar minha voz como irmã mais velha. Entender que talvez tenha que ficar mais nos bastidores agora, ainda estou no bar, mas bebendo chá de camomila. A faixa Tremolo parece ser o coração filosófico do disco, falando sobre aceitar o quão pouco podemos controlar. Compor essa música foi um processo de cura ou de resignação?  Eu diria cura, com certeza. Em qualquer momento da vida, você pode se fixar em grandes decisões passadas ou em coisas pequenas e arbitrárias que te levaram por outro caminho. Você pode gastar todo o seu tempo reimaginando essas coisas, o que é exaustivo e danifica sua capacidade de estar no presente. Espero que a música ajude as pessoas a se libertarem disso. É sobre dizer: “estou aqui, é aqui que quero estar, o resto já aconteceu. E agora?”. O Metric mantém a mesma formação original há duas décadas e sempre priorizou a independência artística com selo próprio. Qual foi o momento mais crítico em que essa independência foi testada? Acho que foi com o Fantasies, em 2009. Recebemos ofertas de grandes gravadoras, como a Interscope, mas não conseguíamos entender como seria se eles fossem donos da nossa música. Nosso empresário na época foi muito corajoso, cuidou de toda a parte legal para nos tirar dos contratos e criar a MMI. Somos donos da nossa música desde então. O fato de aquele ter sido nosso maior álbum tornou tudo mais significativo. Hoje trabalhamos com a Thirty Tigers, que segue a lógica de: “vocês são donos da música, dividimos os lucros e pronto”.

Entrevista | Balance and Composure – “Somos uma banda de rock emocional, nunca nos preocupamos com rótulos”

O Balance and Composure se apresenta no próximo dia 16 de maio, em São Paulo, no Cine Joia, marcando a aguardada estreia da banda no Brasil. A passagem pela capital paulista integra uma turnê pela América Latina que também inclui datas no México, Colômbia, Chile e Argentina. O evento ganhou uma alteração importante na programação após pedidos dos fãs, já que acontece no mesmo dia do show do Korn no Allianz Parque. Com isso, a casa abre às 13h e o show do Balance and Composure foi antecipado para acontecer das 17h às 18h30, permitindo que o público consiga acompanhar ambas as apresentações. Formado em 2007, na Pensilvânia, o Balance and Composure construiu uma trajetória sólida dentro do emo e do post-hardcore, equilibrando peso e melodia em uma discografia que inclui álbuns como Separation e The Things We Think We’re Missing. Após um hiato, a banda retomou as atividades e lançou em 2024 o elogiado álbum With You in Spirit, o primeiro em oito anos, com produção de Will Yip e letras marcadas por reflexões pessoais sobre família, perdas e amadurecimento. O último trabalho reforça a identidade do grupo ao mesmo tempo em que aponta novos caminhos sonoros. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Jon Simmons falou sobre a expectativa para o primeiro show no Brasil, o retorno após anos de pausa e o momento atual da banda. Simmons demonstra entusiasmo ao falar sobre a estreia no país e o contato com os fãs sul-americanos, destacando a energia do público e a longa espera por esse momento. Ao mesmo tempo, ele revisita o passado da banda, apontando o desgaste emocional como principal fator para o hiato, além de refletir sobre a forma como o grupo sempre se manteve distante das pressões da indústria. Por fim, o músico comenta o processo criativo do novo álbum e a fase atual e dá sua opinião sobre quem seria o Big 4 da cena Emo. Como você vê a expectativa para o primeiro show no Brasil? Ouvi dizer que é insano, que os fãs brasileiros são muito energéticos e cheios de amor. Todo mundo que já tocou aí falou que é algo muito especial. Estou muito animado para viver isso. É algo que sempre quisemos fazer e agora finalmente vamos conseguir. A gente sempre tenta levar energia, mas acho que dessa vez vai ter um pouco mais, justamente pela empolgação de estar na América do Sul pela primeira vez. É algo que esperamos há muito tempo. Chegaram a conversar com outras bandas sobre a experiência deles por aqui? Sim, já ouvi de outras bandas que são alguns dos melhores shows que eles já fizeram. Conversei recentemente com o pessoal do Touché Amoré e eles disseram que foi algo de outro mundo. Além disso, os brasileiros comentam nas nossas redes pedindo para irmos ao país desde o começo da banda. O show foi antecipado por conta do Korn e foi a pedido dos fãs que vão fazer um esforço e ver as duas apresentações no mesmo dia. Como vocês reagiram a isso? A gente nem sabia que o Korn ia tocar no mesmo dia, foi coincidência. Mas achei muito legal conseguirmos ajustar o horário para que as pessoas consigam ver os dois shows. Isso é incrível. Os últimos shows de vocês têm sido bem curtos com oito ou nove músicas. O que o público pode esperar do setlist por aqui? Vai ser mais longo do que isso. Como somos headliner, vamos nos divertir mais com o setlist. Vamos tocar bastante coisa antiga e um pouco do novo, mas queremos focar nos clássicos, já que o Brasil nunca teve essa experiência ao vivo. Existe alguma surpresa no setlist ou algo diferente que vocês estão preparando? Sim, estamos pensando em incluir algumas músicas do Separation e também de The Things We Think We’re Missing. Ainda estamos debatendo, mas com certeza teremos algumas surpresas. Vocês olham o Spotify, buscam alguns dados ou decidem vocês mesmos? A gente discute bastante, às vezes até briga por conta disso (risos). Também olhamos os dados de streaming em cada país, mas ao mesmo tempo queremos tocar músicas que gostamos e que já funcionam bem ao vivo. A queda da cena emo e da cena alternativa influenciou o fim da banda ou houve outros fatores? Foi algo mais profundo. Estávamos muito cansados de ficar em turnê, gravar disco e repetir esse ciclo por anos. Isso desgasta muito. Também foi um momento em que cada um precisava cuidar da própria vida e construir suas famílias. Vocês sentiram que já trilhavam um caminho contra a indústria, por conta de investir em uma cena que estava em queda? Sempre. Nunca pensamos muito na indústria. Queremos fazer música para nós mesmos. Se as pessoas gostam, ótimo, mas isso não guia nossas decisões. Como vocês enxergam hoje aquela fase da cena emo? Existe algum show daquela época que marcou vocês? É algo muito bonito de relembrar. Foi um período muito especial nas nossas vidas. Temos ótimas memórias dessa época. O show de lançamento do Floral Green foi incrível. Mais recentemente, tocar no Red Rocks com Turnover e Tigers Jaw foi um momento muito especial. Ver tantas pessoas tantos anos depois foi emocionante. Houve bandas com quem vocês tocaram que eram ídolos? Sim, Manchester Orchestra foi uma delas, foi um sonho realizado. Também fizemos várias turnês com Circa Survive, que era outra banda muito importante para nós. A pandemia teve influência no retorno da banda? Hoje a banda funciona com outra mentalidade? Com certeza. Foi um período de muita reflexão. Ficamos isolados e isso fez a gente sentir falta de criar, de tocar e de estar juntos. Mas, foi algo natural. A gente começou a sentir falta de tocar e de criar juntos durante esse período de isolamento. Agora temos integrantes em regiões diferentes dos Estados Unidos, então trocamos ideias por mensagem e e-mail. Isso mudou o processo, mas também deu mais tempo para desenvolver as ideias. Qual era o estado emocional durante a criação do

Hayley Williams esgota primeiro show em SP e anuncia data extra

Se havia alguma dúvida sobre o poder de Hayley Williams no Brasil, os últimos minutos de vendas acabaram com ela. A vocalista do lendário Paramore, agora em sua fase solo mais aclamada, traz ao país a turnê The Hayley Williams Show. Em uma realização da 30e, a apresentação do dia 12 de novembro no Espaço Unimed esgotou instantaneamente, o que levou a artista a anunciar uma data extra no dia 13 de novembro. A turnê celebra o estrondoso sucesso de seu terceiro álbum solo, Ego Death At A Bachelorette Party (2025). Lançado de forma independente pelo selo da própria artista, o disco recebeu quatro indicações ao Grammy no último ano e é considerado pela crítica um dos trabalhos mais viscerais e maduros da música alternativa recente. O que esperar de “The Hayley Williams Show”? Diferente das pernas anteriores da tour que focavam apenas no disco novo, a nova fase intitulada The Hayley Williams Show promete ser uma antologia de sua carreira solo. O repertório deve reunir faixas dos álbuns Petals for Armor, FLOWERS for VASES / descansos e, claro, as 20 faixas do novo Ego Death, além de surpresas que podem incluir releituras de seus clássicos. Ícone que define gerações Recentemente eleita pela Billboard como a 13ª maior voz do rock de todos os tempos, Hayley Williams é hoje a maior referência para uma nova safra de estrelas, servindo de inspiração direta para nomes como Billie Eilish, Olivia Rodrigo e Chappell Roan. Sua versatilidade é provada pelas colaborações recentes que vão de Taylor Swift a Turnstile, mostrando que Hayley não apenas pertence ao rock, mas reina sobre ele. Serviço: The Hayley Williams Show em São Paulo

Paulo Miklos anuncia álbum de releituras e divulga single “O Sal da Terra”

Paulo Miklos nunca teve medo de se reinventar. Seja no palco com os Titãs, no cinema ou em sua carreira solo, o artista sempre buscou novas formas de narrar a experiência humana. Agora, ele eleva essa busca a um novo patamar com o projeto Coisas da Vida. Mais do que um álbum de músicas, o trabalho é uma obra audiovisual completa, onde cada faixa é acompanhada por um clipe que compõe um universo surrealista e onírico. O ponto de partida é o single e clipe O Sal da Terra (clássico de Beto Guedes e Ronaldo Bastos). A escolha não é aleatória: a obra funciona como um manifesto íntimo, um chamado às próximas gerações para uma consciência ecológica e existencial. Estética vintage futurista de Miklos Com direção criativa de Carol Barragana e direção de Jorge Daux, o visual de “Coisas da Vida” aposta em um conceito que a banda chama de “vintage futurista”. Imagine as texturas, tecidos e cores vibrantes dos anos 70 misturados a acessórios surrealistas e uma montagem contemporânea. O clipe de O Sal da Terra utiliza imagens de arquivo para diluir a noção de tempo, sugerindo que a memória do mundo é um fluxo constante. “A natureza surge como força contínua, anterior e maior que o homem”, explica o diretor Jorge Daux. O contraste entre a serenidade natural e a engrenagem frenética das ruas cria a tensão perfeita que a voz de Miklos preenche com maestria. Repertório de clássicos reimaginados Além de Beto Guedes, o álbum trará releituras de ícones como Sérgio Sampaio (Ninguém Vive Por Mim), Criolo (Não Existe Amor em SP) e Paulo Diniz (Quero Voltar pra Bahia). Cada vídeo será costurado por sketches e textos que orbitam temas como solidão, afeto e a passagem do tempo.

Melton Sello lança single “Para com Essa Parada”

Se você já se pegou encostado na janela do ônibus, quase pegando no sono, e foi invadido por um pensamento aleatório, seja uma ideia brilhante ou uma lembrança incômoda, você vai se identificar com o novo single da Melton Sello. O quarteto carioca lançou Para com Essa Parada, a primeira faixa do álbum de estreia que chega em julho pela gravadora Deck. A banda, formada por Caio Paranaguá (voz), Bill Dias (bateria), Gabriel Barros (baixo) e Igor d’Alambert (guitarra), já havia chamado a atenção da cena independente com o EP Só Sei Que Foi Assim (2023). O nome do grupo, inclusive, é uma divertida homenagem ao ator Selton Mello, reforçando a identidade brasileira e autêntica do projeto. Inspiração Diferente das letras de protesto ou de amores perdidos comuns ao gênero, Para com Essa Parada nasceu de um gatilho mental involuntário. “Sabe aquele pensamento que invade do nada? Você tá quase dormindo, encostado na janela do ônibus, fecha os olhos e PÁ!”, conta o vocalista Caio Paranaguá. A música deixa em aberto qual é esse pensamento, permitindo que cada f ouvinte projete suas próprias “neuras” ou obsessões. Musicalmente, a faixa mantém o pé no pop punk suave, estilo que a banda vem lapidando com elementos de reggae e até pitadas de country. É uma sonoridade solar, mas que não foge da introspecção característica das bandas que cresceram ouvindo o punk melódico dos anos 2000. Caminho para o primeiro álbum do Melton Sello Para o vocalista, Para com Essa Parada é a ponte perfeita entre o som do primeiro EP e o que o público pode esperar do disco cheio. Embora o álbum prometa uma mistura maior de influências, este single carrega a identidade central da banda: refrões que grudam e uma energia que convida ao “sing-along”.

Megadeth inicia adeus com show poderoso em São Paulo

Na história do heavy metal, as “turnês de despedida” tornaram-se um gênero em si. Muitas vezes vistas com ceticismo pelo mercado, para o Megadeth, o anúncio da turnê This Was Our Life carrega um peso de realidade que transcende o marketing. Na noite do último sábado (2), um Espaço Unimed completamente lotado e com ingressos esgotados há meses foi testemunha do show de número 42 da banda em solo brasileiro. Mas este não foi apenas mais um capítulo, foi o início de um adeus que promete durar anos, mas que já carrega a urgência do fim. Superação no palco Aos 64 anos, Dave Mustaine é uma figura de resiliência. Lutando contra a artrite, a paralisia no nervo radial e as sequelas de um câncer na garganta, o líder do Megadeth subiu ao palco para provar que, embora o corpo sinalize limites, a mente e o espírito thrash continuam imbatíveis. Sua voz, compreensivelmente desgastada pelo tempo e pelas batalhas de saúde, funcionou com uma autoridade que apenas os veteranos possuem, uma rouquidão que hoje serve bem à narrativa sombria de suas letras. Nova dinâmica e o “maestro” finlandês A formação atual é, talvez, uma das mais técnicas da história do grupo. James LoMenzo (baixo) e Dirk Verbeuren (bateria) formam uma cozinha implacável. Verbeuren, em particular, reafirmou sua posição como um dos melhores bateristas que já sentou no banco da banda, trazendo uma precisão cirúrgica a clássicos e músicas novas. No entanto, os olhos estavam voltados para Teemu Mäntysaari. Substituir Kiko Loureiro não é tarefa fácil, mas o finlandês entregou uma performance de altíssimo nível. Em faixas como a nova Let There Be Shred, Teemu e Mustaine duelaram com solos que remeteram aos anos 90, celebrando o virtuosismo técnico que é a marca registrada do grupo. Destaques do setlist do Megadeth O show abriu com o “pé na porta” de Tipping Point, faixa do álbum homônimo, lançado em janeiro passado. Uma canção que mistura a fúria rítmica com uma letra reflexiva de quem olha para trás sem arrependimentos. Logo em seguida, a surpresa da noite, The Conjuring. A inclusão desta faixa é significativa. Por anos, Mustaine evitou tocá-la devido à sua conversão ao cristianismo, mas o retorno dela ao setlist em São Paulo foi recebido como um presente histórico pelos fãs. O material mais recente voltou a marcar presença com I Don’t Care, que trouxe uma energia quase punk ao local, mostrando que o Megadeth ainda tem “contas a acertar com o mundo”. Mas, claro, foram os hinos que transformaram o Espaço Unimed em um caldeirão. Da precisão de Hangar 18 ao coro ensurdecedor em Symphony of Destruction, o público paulista mostrou porque o Brasil é parada obrigatória na rota de Mustaine. A execução de Ride the Lightning (cover do Metallica que tem Mustaine como coautor) foi um momento de catarse e uma piscadela nostálgica para os fãs que acompanham a trajetória de Dave desde o início, quando ainda integrava o outro grande nome do Big Four. Por fim, o encerramento com o combo Peace Sells e Holy Wars… The Punishment Due selou a noite com a perfeição técnica habitual. Longo adeus do Megadeth Embora a turnê seja de despedida, Mustaine já sinalizou que o processo pode durar de três a quatro anos, com a promessa de retornar ao Brasil para visitar mais cidades. A ideia é “sair em alta”, preservando o legado intacto antes que as limitações físicas tornem as apresentações inviáveis. Nota: 9.5/10 Setlist:

Kneecap atinge o ápice com o visceral “Fenian”

O motor implacável do trio de Belfast, na Irlanda do Norte, Kneecap ganhou um novo e potente combustível. O grupo lançou seu segundo álbum de estúdio, Fenian (via Heavenly Recordings), consolidando-se não apenas como os provocadores que incendiaram o Glastonbury e o Coachella, mas como artistas operando no auge de sua técnica e sensibilidade. Produzido pelo mestre Dan Carey, o disco equilibra a inteligência mordaz e a energia caótica com uma visão artística mais sombria e confiante. Se nos últimos 12 meses o trio esteve no centro de furacões políticos por defender a liberdade palestina e lotar arenas em Dublin, Fenian prova que eles têm muito mais a dizer sobre a condição humana. “Irish Goodbye” O coração emocional do álbum bate mais forte na faixa Irish Goodbye. Acompanhada por um curta-metragem de 12 minutos dirigido por Thomas James, a música é um relato profundamente pessoal de Móglaí Bap sobre sua falecida mãe, que tirou a própria vida após lutar contra a depressão. A faixa conta com a participação de Kae Tempest, cuja entrega vulnerável adiciona uma camada de urgência poética ao tema. O vídeo não é um grito de raiva, mas um gesto de compaixão. “Não é um problema, eu só quero dizer que senti sua falta”, diz uma das frases centrais, resumindo a saudade das coisas mundanas: as caminhadas no parque e os conselhos do dia a dia. Importância da cura e da terapia em Fenian Em um relato corajoso, Móglaí Bap discute a complexidade do suicídio e a necessidade de quebrar o estigma da vergonha e da culpa. “O suicídio é difícil. Quando alguém morre assim, é difícil lembrar dos bons momentos. Você fica preso nos tempos sombrios”, desabafa o rapper. Para ele, o processo de escrita e a terapia foram fundamentais para “desbloquear” memórias felizes de sua mãe. O Kneecap usa sua plataforma para enviar uma mensagem clara às novas gerações: peça ajuda. “Muitos da geração de nossos pais não acreditam em terapia. Mas nós somos diferentes. Podemos pedir ajuda, devemos pedir ajuda”.

Goiânia Noise 2026 revela horários e line-up histórico

O Goiânia Noise Festival, um dos eventos mais tradicionais e resilientes da cena independente brasileira, chega à sua edição de 2026 com uma curadoria que é pura diversidade. Entre os dias 7 e 10 de maio, a capital goiana se torna o epicentro de todas as tribos musicais. O cardápio deste ano é vasto: da “sofrência pop” de Duda Beat à anarquia britânica do The Varukers; da psicodelia tropicalista de Tom Zé ao flow quente de FBC. O festival mantém sua tradição de misturar o novo metal, o hardcore clássico e a nova MPB em um único território. Confira abaixo a programação completa com horários: Quinta-feira, 07/05 Sexta-feira, 08/05 Sábado, 09/05 Domingo, 10/05 🎫 Serviço: Goiânia Noise Festival 2026

Tori Amos e a mitologia da tesistência em “In Times of Dragons”

Com mais de 35 anos de estrada e uma legião de fãs que a veneram como uma entidade do piano rock, Tori Amos acaba de entregar seu capítulo mais ambicioso. In Times of Dragons não é apenas um álbum, é uma narrativa alegórica que atravessa o coração dos Estados Unidos, transformando a crise política e pessoal em uma fábula de dragões e deuses. O álbum acompanha a fuga de uma mulher de um relacionamento opressor, uma metáfora que se expande para o embate entre a democracia e o que Tori chama de “Demônios Lagarto”, figuras que distorcem o conceito de liberdade para instaurar a tirania. Road trip espiritual de Tori Amos Ao longo das faixas, a protagonista percorre as estradas americanas encontrando aliados improváveis: de clãs de bruxas a gangues de motociclistas. A jornada culmina nos sagrados 23 Peaks, em Montana, onde, sob a proteção do deus celta Lugh, ela descobre que sua transformação não a tornou um monstro, mas sim uma poderosa meio-dragão capaz de enfrentar seus perseguidores. Temas de sangue e identidade Tori Amos mergulha fundo em temas que sempre orbitaram sua obra: a maternidade, a perda de identidade e o sagrado feminino. A sonoridade do disco reflete essa urgência, variando entre baladas etéreas de piano e arranjos mais rústicos e intensos, que emulam a força da natureza e o rugido das feras mitológicas que dão título ao trabalho.