Adrian Younge redefine o encontro entre Orquestra e Hip Hop em novo álbum

Existem artistas que fazem música e existem artistas que constroem mundos. Adrian Younge pertence ao segundo grupo. O compositor, produtor e multi-instrumentista de Los Angeles acaba de lançar sua obra definitiva: o álbum Younge. O disco é uma afirmação instrumental audaciosa que posiciona o artista como o elo perdido entre os grandes compositores de trilhas sonoras dos anos 70 e os produtores de hip hop contemporâneos. O álbum é uma homenagem consciente a gênios como Ennio Morricone, Lalo Schifrin e David Axelrod, visionários que criaram músicas cinematográficas que seriam, décadas depois, “escavadas” por produtores de rap para criar batidas atemporais. Em Younge, Adrian não apenas utiliza essas influências; ele as reconstrói do zero. Orquestra para o sample Diferente de uma orquestra clássica tradicional, as composições em Younge são modulares. Elas foram escritas com a mentalidade de um produtor que entende de sampling. São arranjos construídos sobre textura, tensão e espaço, convidando à reinterpretação. Tudo no álbum foi gravado de forma 100% analógica, em fita, no Linear Labs (estúdio de Younge em LA). Esse compromisso com o som “sujo” e quente da fita garante que o disco soe, ao mesmo tempo, como uma raridade descoberta em um sebo de 1972 e como algo futurista e inevitável. Legado Jazz Is Dead Adrian Younge também é conhecido por ser o cofundador do selo Jazz Is Dead, onde produz álbuns inéditos ao lado de lendas vivas do jazz. Essa experiência de “curadoria viva” transparece em seu novo trabalho solo, onde a sofisticação harmônica se encontra com o peso rítmico do hip hop. Ele é o compositor que pensa como produtor e o produtor que escreve como maestro.

O Boto apresenta o single solar “Jah Eu (Um Pouco de Sol)”

A banda paulistana O Boto deu mais um passo importante em direção ao seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Diferente de Ninguém. O grupo lançou na última sexta-feira (17) o single Jah Eu (Um Pouco de Sol), uma faixa que funde com precisão o rock alternativo ao groove do reggae, completa com arranjos de metais que dão um brilho especial à composição. A letra, escrita pelo vocalista João Pedro Rydlewski, mergulha nas complexidades das relações contemporâneas, usando a natureza como metáfora para a instabilidade e os ciclos de entrega entre duas pessoas. “A música vem desse lugar de se dar por inteiro enquanto o outro muda o tempo todo”, revela o cantor. Simplicidade e pequenos gestos no trabalho de O Boto Um dos destaques da canção é a sua capacidade de encontrar poesia no cotidiano. Versos como “Eu só preciso te lembrar de beber água, porque flor que nem você não precisa de mais nada” traduzem o cuidado nos pequenos detalhes, enquanto o refrão aponta para o essencial: o sol e o afeto. O quarteto, formado por João Pedro (voz), Lucas Benez (guitarra), Felipe Troccoli (baixo) e Gabriel Brantes (bateria), consolida uma identidade que bebe de fontes sagradas da música brasileira e internacional, como Jorge Ben Jor, Red Hot Chili Peppers e Lagum.

Mari Romano explora a zamba argentina no single “Sentimento e Nada”

Durante sua vivência na Argentina, a artista Mari Romano descobriu que o samba deles não é como o nosso, nem se escreve igual. A zamba, ritmo do folclore rural argentino popularizado por ícones como Mercedes Sosa, tornou-se o alicerce para Sentimento e Nada, o novo single da cantora e produtora que antecipa o álbum Além da Pele. Diferente do balanço do samba brasileiro, a zamba traz uma percussão mais terrosa e cadenciada. Mari utilizou essa base para refletir sobre a modernidade, inspirada pelos documentários de Adam Curtis, criando uma faixa que equilibra o orgânico e o sofisticado. Poder dos sopros e o “Sway” instrumental O grande destaque de Sentimento e Nada é o seu desfecho. A música se expande em um longo trecho instrumental, construído em camadas progressivas de sax tenor, trompete, trombone, clarinete e flauta transversa. Mari Romano assina todos os arranjos de sopro, que foram interpretados pelo experiente trio Copacabana Horns (Marlon Sette, Diogo Gomes e Jorge Continentino) e pela flautista Aline Gonçalves. “Eu sempre imaginei esse final como um ‘sway’, um balanço que vai de um lado para o outro. Quando você entra nessa sensação, dá vontade de ficar ali, nesse fluxo, sem pressa de terminar”, revela Mari. Mosaico de experiências O novo single dá continuidade à narrativa aberta por lançamentos anteriores como Mosquito, Maluco da Retronoia e Tudo Errado. O álbum Além da Pele se desenha como um mosaico emocional e polirrítmico, contando com um time de músicos de elite, incluindo Jeremy Gustin (bateria), Guilherme Lirio (baixo) e Thomas Jagoda (sintetizadores).

Jeza da Pedra e Mexitapi celebram o universo dos Bate-Bolas em novo EP

Quem já passou pelo subúrbio do Rio de Janeiro durante o Carnaval conhece a energia magnética (e o susto provocado pelo barulho das bexigas no chão) dos bate-bolas. Essa estética vibrante e cheia de mistério agora ganha uma narrativa sonora contemporânea no EP Parangolé Bate-Bola, uma colaboração entre o artista Jeza da Pedra e a banda Mexitapi. O trabalho, lançado via LAB 344, reúne cinco faixas que funcionam como um corpo único. O som é um choque entre tradição e reinvenção, misturando as rimas do rap com o balanço do dub, o peso do funk e beats eletrônicos que emulam a energia coletiva dos cortejos suburbanos. Do palco para o fone O projeto nasceu originalmente como um espetáculo que estreou em 2025. Agora no formato fonográfico, Jeza da Pedra e Mexitapi aprofundam a pesquisa sobre os códigos de rua e as memórias afetivas do território. Para isso, contaram com a colaboração da Turma Superação, de Ricardo de Albuquerque, um dos baluartes da tradição bate-bolista. A produção musical, assinada por Bruno Muniz, Diogo Furieri, Marcelo Tapajós e Pedro Tie, equilibra bases eletrônicas com instrumentos orgânicos como guitarra e trombone, criando a atmosfera sensorial perfeita para as letras poéticas e intensas de Jeza. Identidade e periferia no projeto do Jeza da Pedra e Mexitapi Parangolé Bate-Bola reafirma que a cultura periférica não é estática. Ao transformar o excesso visual das fantasias em experimentação sonora, o duo ocupa novos espaços e convida o ouvinte a uma imersão sensorial no imaginário carioca.

Cayarí lança Floresta, primeiro single do EP “Território Vivo”

A artista indígena Cayarí iniciou um novo momento em sua trajetória com o lançamento do EP Território Vivo. A primeira faixa, Floresta, foi lançada nesta quinta-feira (16), dando início a uma série de quatro lançamentos mensais. O projeto independente marca uma transformação estética e sonora em sua carreira. Conhecida por integrar elementos da cultura Pataxó à música contemporânea, a cantora amplia sua identidade artística ao incorporar influências do rock, especialmente do subgênero new metal, sem abrir mão de suas raízes ancestrais. Para Cayarí, o EP Território Vivo se configura como um manifesto artístico e político, indo além de um simples lançamento musical. Nesta nova fase, a artista aposta em uma sonoridade mais intensa e visceral. “Quero construir uma experiência onde o som, a identidade e a narrativa se entrelacem, propondo reflexões sobre pertencimento, reconexão com a terra e consciência coletiva. No single Floresta, canto sobre a proteção dos nossos biomas e da responsabilidade que temos para evitar um colapso climático ainda maior. Porque acredito que quando a floresta cai, caímos juntos”, declarou. A fusão entre reggae, rock e elementos do new metal cria uma atmosfera potente, marcada por guitarras intensas, batidas densas e vocais expressivos que dialogam com espiritualidade, resistência cultural e consciência ambiental. A estética visual do EP acompanha essa transformação, trazendo uma imagem mais dark, introspectiva e ousada, transitando entre o urbano, o ancestral e o contemporâneo. Com Território Vivo, Cayarí se firma como uma das vozes emergentes da cena independente, estabelecendo uma ponte entre tradição e inovação e convidando o público à reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. Conexões internacionais e estética O novo trabalho de Cayarí também é atravessado por conexões relevantes dentro da cena internacional. Durante o processo, a artista trocou experiências com o baterista Iggor Cavalera, referência global no metal, e encontrou Sonny Sandoval, vocalista da banda P.O.D., uma de suas principais influências. Além disso, o encontro com Julian Marley amplia ainda mais o diálogo entre reggae e rock em sua trajetória. Essas conexões evidenciam a construção de uma artista que transita com fluidez entre diferentes vertentes sonoras, incorporando o peso do new metal, a essência do reggae e suas raízes ancestrais, sempre alinhadas a uma mensagem socioambiental consistente. Somando-se à sonoridade, Cayarí também constrói uma identidade visual marcante. Seu estilo é influenciado pela estética rock dos anos 2000, com o uso de correntes, botas e bucket hats, além de referências diretas de artistas como Avril Lavigne, Poppy e Amy Lee. Essa construção estética se integra à sua essência ancestral, criando uma imagem que une atitude, espiritualidade e contemporaneidade. Trajetória de Cayarí Nascida em Vitória da Conquista, Bahia, Cayarí é cantora, compositora, atriz e apresentadora indígena da etnia Pataxó. Sua trajetória musical teve início aos nove anos de idade e, desde então, vem sendo marcada por uma expressiva diversidade artística. Suas composições transitam entre o português, inglês e Patxohã — língua ancestral do povo Pataxó — revelando um profundo compromisso com suas raízes e com a valorização da cultura originária. Em 2018, mudou-se para São Paulo, onde rapidamente se destacou na cena musical alternativa, participando de pocket shows e batalhas de rima. No ano seguinte, iniciou colaborações com nomes relevantes da música paulistana, ampliando sua atuação e consolidando seu espaço na capital cultural do país. Durante a pandemia de 2020, Cayarí encontrou novos caminhos de expressão: realizou lives musicais e criou um programa semanal de entrevistas em seu Instagram, dando visibilidade a representantes da etnia Pataxó e promovendo reflexões sobre identidade e resistência indígena. Entre 2022 e 2023, sua carreira ganhou novos contornos. Suas músicas passaram a integrar trilhas sonoras de filmes e peças de teatro, e ela expandiu sua atuação como atriz. No final de 2023, lançou o EP Afluir, consolidando sua identidade artística plural. Em julho de 2023, Cayarí foi nomeada embaixadora da octaEra, organização que atua na proteção das florestas e no fortalecimento das culturas originárias. Em 2024, aproximou-se do universo reggae, gravando músicas do gênero e participando de shows ao lado de artistas consagrados. Fez história ao se tornar a primeira apresentadora indígena e nordestina de um Festival de Reggae no Brasil. Sua trajetória também a levou a experiências marcantes, como o convite da equipe de Julian Marley (filho de Bob Marley) para acompanhar seu show na Virada Cultural de São Paulo, consolidando a sonoridade que viria a marcar seus próximos trabalhos, em uma fusão autêntica de reggae, rock e rap. Além disso, apresentou-se musicalmente no Pré-Carnaval de Salvador, foi narradora do audiolivro bilíngue “Vamos Passear na Floresta”, na língua indígena Maraguá e em português, realizou um show autoral no Festival Indígena de Osasco e apresentou o espetáculo musical autoral “Afluir” no Teatro Alfredo Mesquita. O ano de 2025 marca um novo ciclo na carreira de Cayarí, quando passa a nomear sua linguagem musical como Reggae’n’Roll nativo, conceito que sintetiza a fusão entre reggae, rock/new metal e ancestralidade indígena. Entre suas participações recentes, destacam-se o show autoral com banda no Festival São Paulo Rocknation, a narração de audiodescrição no projeto Men Am Nim, na Ocupação Ailton Krenak do Itaú Cultural, e o show autoral no FSB – Festival Suíça Bahiana. Em 2026, a artista lança o EP Território Vivo, consolidando sua nova fase estética e sonora. O projeto reúne quatro faixas que aprofundam sua proposta de fusão entre reggae, rock e influências do new metal, enquanto reafirma seu compromisso com a ancestralidade, a preservação ambiental e a valorização das culturas originárias.

Entrevista | Lúcio Maia – “A confiança do Chico Science foi decisiva para que eu continuasse”

Lúcio Maia abre um novo capítulo da carreira solo com o lançamento de seu segundo álbum, disponibilizado nesta quinta-feira (16). O fundador e ex-guitarrista da Nação Zumbi apresenta um trabalho instrumental que mergulha em psicodelia, futurismo e diferentes atmosferas sonoras, ampliando ainda mais a identidade que construiu ao longo de décadas na música brasileira. O disco traz faixas como “Cogumelo de Vidro”, “Qítara”, “Fetish Motel” e “Tábua das Horas”, combinando texturas eletrônicas, riffs densos e uma abordagem cinematográfica. Em alguns momentos, o álbum flerta com o noir sessentista; em outros, aproxima baião, funk e ambiências psicodélicas, reforçando a proposta de um trabalho que se move entre tradição e futuro. Produzido pelo próprio Lúcio Maia, o álbum conta com mixagem de Mario Caldato Jr. e Daniel Ganjaman, além da participação de Arquétipo Rafa, Marco Gerez e Pedro Regada. O resultado é um disco que evidencia não apenas a assinatura de sua guitarra, reconhecível desde os tempos do manguebeat, mas também a inquietação artística de um músico que segue explorando novos territórios sonoros. Na história, o guitarrista foi um dos arquitetos da sonoridade que ajudou a projetar o manguebeat para o mundo. Sua guitarra foi peça central em discos fundamentais como Da Lama ao Caos e Afrociberdelia, obras que redefiniram os limites entre rock, maracatu, dub, funk e música eletrônica nos anos 1990, mesmo que o reconhecimento tenha sido tardio, como ele lembra. Além da trajetória com a banda, o músico também consolidou uma carreira paralela em projetos solo, trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão, passando por trabalhos como Baile Perfumado, Amarelo Manga e Linha de Passe. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Lúcio Maia falou sobre o lançamento do novo álbum, a evolução de seu timbre ao longo das décadas, o motivo da saída da Nação Zumbi e a expansão de sua carreira para o cinema e as trilhas sonoras. É a primeira vez que eu falo com um artista que está lançando o álbum no dia. Como são essas primeiras horas e as primeiras impressões? Cara, eu acho que devo ter lançado uns 15, 20 discos na vida. Na real, para mim, o dia do lançamento é mais como um nascimento. A história começa a ser contada dali para frente. Então, falar do disco no dia em que ele já está nascido, com a criança já no mundo, é mais legal porque as pessoas podem ir ouvir imediatamente. Com a internet trazendo informação freneticamente 24 horas por dia, você avisa que vai lançar um disco e, no dia seguinte, muita gente já esqueceu. Por isso, eu prefiro falar quando ele já está na plataforma. A pessoa ouve e a conversa acontece no mesmo instante. O álbum traz uma fusão que vai de Pink Floyd ao baião. Como foi construir essa mistura e quais são seus objetivos de carreira neste momento? Isso nunca foi planejado. A música sempre flui de forma natural para mim. Eu nasci em Recife, cresci ouvindo a música pernambucana e Luiz Gonzaga. Depois vieram Iron Maiden, Black Sabbath, Led Zeppelin, James Brown, Isaac Hayes, drum and bass, house. Tudo isso vai entrando espontaneamente. Na hora de compor, as coisas se encaixam. Eu nunca sentei para pensar “agora vai virar baião” ou “agora vai soar reggae”. Vai acontecendo. Para mim, inclusive, reggae e baião têm uma sensação muito próxima, quase a mesma pulsação. Sua guitarra tem uma identidade muito marcante. Como você enxerga a evolução do seu timbre desde os anos 1990? Eu vejo isso como a minha digital musical, meu RG. É uma dádiva você ter uma identidade própria. Desde as demos que gravei ainda adolescente em Recife, isso já estava ali. Hoje, claro, com mais recursos e equipamentos, o timbre evoluiu, mas o DNA continua o mesmo. Eu nunca fui um cara preocupado em imitar alguém. Sempre preferi seguir meu instinto e preservar essa assinatura. Você comentou sobre seguir o seu instinto ao longo da carreira. Em algum momento do início você imaginava que se tornaria um dos guitarristas mais premiados da música brasileira? De forma alguma. Quando comecei a tocar, ali com 14, 15, 16 anos, eu nunca me enxerguei como alguém que fosse me profissionalizar. Na verdade, eu nem me achava um grande guitarrista. Sempre me considerei um músico regular, e não alguém tecnicamente impressionante. Quem teve um papel fundamental nisso foi o Chico. Ele sempre me incentivou muito e dizia que eu tinha alguma coisa diferente. Eu respondia que não sabia exatamente o que era, e ele dizia que isso não importava, que eu precisava seguir esse feeling. Essa confiança dele foi decisiva para que eu continuasse. A vida inteira eu fui muito movido por instinto e sensibilidade. Nunca foi sobre virtuosismo ou técnica pela técnica. Foi sempre sobre identidade, sobre ter uma voz própria na guitarra. Acho que, olhando para trás, uma das coisas mais certas que fiz foi confiar nisso. Muitos guitarristas estão abandonando amplificadores e migrando para setups em linha ao vivo. Como está o seu equipamento hoje? Eu sempre fui muito ligado ao analógico e ainda sou um cara do amplificador. Prefiro gravar com ampli. Mas a tecnologia evoluiu demais. Hoje uso bastante impulse response porque consigo levar para o palco praticamente o mesmo som do estúdio, sem depender da estrutura do lugar. Para quem toca no circuito alternativo, isso é uma liberdade enorme. Você comentou que, durante a pandemia, ampliou sua atuação para trilhas, teatro e outros projetos. Em que momento veio a decisão de sair da Nação Zumbi e buscar esse novo formato de carreira? Isso aconteceu muito durante a pandemia. Eu dei uma desencanada de viajar e estava de saco cheio de turnê, de ficar esperando empresário arrumar show, de depender dessa engrenagem toda. Também estava cansado da dinâmica de banda, de precisar conciliar agenda, negociar datas, esperar um ou outro poder viajar. Depois de 30 anos fazendo a mesma coisa, aquilo começou a me tolher criativamente. Chegou um momento em que eu percebi que não queria mais viver nessa dependência. Eu sempre fui

Entrevista | Chloe Stroll – “O segredo é ter 100% de confiança, mesmo sem saber qual será o resultado”

A imagem de uma flor delicada rompendo a dureza de um vidro quebrado não é apenas a capa de um disco, é a síntese da jornada de Chloe Stroll. Em seu álbum de estreia, Bloom in the Break, a cantora e compositora canadense mergulha em um pop confessional que equilibra a elegância das divas clássicas com a crueza das emoções contemporâneas. O trabalho, que chega após um rigoroso processo de seleção entre mais de 70 composições, marca o nascimento oficial de uma voz que não tem medo de expor suas cicatrizes para se conectar com o público. O disco não economiza no peso dos bastidores. Gravado em estúdios icônicos ao redor do mundo, Stroll contou com a mentoria de gigantes como Walter Afanasieff (o nome por trás de sucessos de Mariah Carey) e Swagg R’Celious. Em conversa exclusiva com o Blog n’ Roll, Chloe revelou que a maior lição aprendida com esses mestres não foi técnica, mas sim emocional: a coragem de não se segurar. Para ela, o estúdio deixou de ser um lugar de intimidação para se tornar um espaço de confiança absoluta, onde até os erros podem se transformar em arte. Um dos pontos mais sensíveis da obra é o single Home, uma declaração de amor ao marido e medalhista olímpico, o snowboarder australiano Scotty James. Chloe descreve a faixa como um retrato de sua própria segurança emocional, a ideia de que o “lar” não é um lugar físico, mas sim onde a pessoa amada está. A vulnerabilidade de transformar sentimentos tão íntimos em canções universais é um desafio que a artista encara com resiliência, acreditando que a autenticidade é o único caminho para criar algo atemporal, assim como fizeram suas grandes inspirações, Adele e Whitney Houston. Durante a entrevista, um momento de profunda conexão surgiu quando Chloe relembrou a fase final das gravações em Londres. Grávida de oito meses e impossibilitada de voar para os Estados Unidos, ela se viu em um estúdio carregado de simbolismo, chorando ao perceber que, enquanto finalizava uma música sobre seu lar e família, ela estava, literalmente, gerando o futuro dessa mesma família. Esse ciclo de vida e criação é o que dá o tom de “cura” que ela espera transmitir aos ouvintes brasileiros e do mundo. Além das baladas românticas, o álbum traz a força de faixas como I Stood My Ground, onde Chloe aborda o “muro” mais difícil de sua carreira: a autoconfiança. Para uma artista que coloca 100% de suas experiências, inclusive a perda de entes queridos, em cada verso, a estreia é mais do que um lançamento comercial, é um exorcismo emocional e um posicionamento firme no cenário musical global. Para os fãs brasileiros, a notícia é animadora. Embora ainda sem datas confirmadas, Chloe garantiu ao Blog n’ Roll que levar o show de Bloom in the Break para o Brasil está nos planos da equipe para um futuro próximo. O título do seu álbum de estreia, Bloom in the Break, evoca uma imagem poderosa de crescimento e adversidade. Em que momento da produção você percebeu que uma flor brotando no vidro quebrado era a metáfora perfeita para este disco? Acho que percebi isso mais para o final, o que parece estranho, porque as músicas estavam ganhando forma e eu voltava sempre para essa imagem enquanto tentava encontrar a mensagem e o que realmente queria transmitir. Eu ficava imaginando essa flor através de um vidro quebrado, algo que é tão bonito, mas ao mesmo tempo frágil, cheio de admiração e intriga. Então, diria que foi mais perto do fim do que imaginava. E você escreveu mais de 70 músicas para chegar às 12 faixas finais. Como foi esse processo de desapego? Difícil, foi estranho. Sabe, você passa tanto tempo escrevendo e despejando suas emoções nas coisas… Algumas músicas eram muito óbvias que não pertenciam a este disco. Não que eu não tivesse orgulho delas ou não gostasse, mas simplesmente não se encaixavam no que eu queria dizer. E outras eram tão óbvias que pertenciam ao álbum, e outras ainda precisavam ser escritas. Houve discussões sobre certas faixas, quando chegamos às 20 finais, foi uma boa batalha para ver quem ficaria. Imagino. A música precisava “merecer” estar no álbum de estreia, certo? Com certeza. Foi um trabalho duro. Chloe, trabalhar com nomes como Walter Afanasieff e Swagg R’Celious coloca você ao lado de profissionais que moldaram o som de ícones como Mariah Carey e H.E.R. Qual foi a maior lição que você aprendeu no estúdio com eles? Nossa, aprendi tanto. Mas acho que a coisa mais importante foi: não se segure. Não tenha vergonha. No começo, era fácil ficar intimidada pelo nome e pelo currículo deles, e era uma honra estar ali. Mas foi muito divertido. Quando baixei a guarda e começamos a nos conhecer, era como conversar com grandes amigos. Aprendi que não existem respostas erradas quando você está compondo ou produzindo. Vale a pena tentar tudo. Se você cometer um erro, ele pode acabar virando uma música incrível, isso aconteceu várias vezes comigo. Então, o segredo é ter 100% de confiança, mesmo que você não saiba 100% qual será o resultado. O single Home é uma declaração direta ao seu marido. Você disse que espera que vire trilha de casamentos. Como é para você transformar um sentimento tão íntimo em algo que agora pertence ao mundo? Assustador, porque você nunca sabe como as pessoas vão reagir. Fiquei muito feliz com a recepção, mas foi intimidante ser vulnerável e dizer a verdade sobre o que eu sentia, especialmente porque estávamos em um momento de mudança de vida na nossa família. Assustador, mas valeu 100% a pena. Em I Stood My Ground, ouvimos um lado seu muito resiliente. Qual foi o “muro” mais difícil que você enfrentou para se estabelecer como artista? Uau, ótimas perguntas! O mais difícil? Acho que foi acreditar em mim mesma e acreditar que eu conseguiria. Compor e cantar é algo muito vulnerável. Eu entrego 100% das minhas emoções na música, trago minha família,

Entrevista | Daniel Gnatali – “Separei o álbum em 2 EPs para explorar os conceitos de cada um”

Daniel Gnatali lançou nesta sexta-feira (17) o EP “Antes do sol”, primeiro capítulo de um projeto dividido em duas partes que será concluído ainda este ano com “Manhã de festa”. O novo trabalho apresenta seu lado mais introspectivo, reunindo canções que transitam entre o folk-pop, o rock sessentista e a MPB, em uma atmosfera marcada por delicadeza e mistério. Descrito pelo artista como uma espécie de sonho envolto em névoa, o EP funciona como uma “pré-revelação” de um percurso maior. Faixas como “Ventre a luz do mundo”, que conta com participação especial de Nina Becker, e “Estação”, com sua leveza country-rock, ajudam a construir essa sensação de suspensão. Já “Dear to Me” e “Lady Lo” resgatam composições iniciadas ainda no começo dos anos 2010 e finalizadas agora em estúdio, reforçando a conexão do repertório com referências como The Beatles e The Beach Boys. O encerramento fica por conta de “Quando me mudei”, faixa que funciona como ponte entre os dois EPs. Ancorada no rock brasileiro dos anos 1970, a música aborda a mudança de Gnatali para Visconde de Mauá como metáfora de autoconhecimento e transformação. O artista aponta a canção como elo entre o universo rarefeito de “Antes do sol” e a concretude luminosa que será explorada em “Manhã de festa”, descrito por ele como a “descida da cachoeira para o mar”. Produzido por Antonio Guerra, amigo de infância do compositor, o projeto evidencia a assinatura autoral de Gnatali ao unir folk, samba, forró, rock e balada pop sob uma mesma perspectiva poética. Com influências familiares que passam pela Jovem Guarda, pelos Beatles e pela herança musical do maestro Radamés Gnattali, o músico assume a dualidade como essência criativa. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o músico detalhou o lançamento e o futuro da carreira. Como surgiu a ideia de transformar esse repertório em dois EPs, começando por “Antes do sol”? Foi uma ideia do Kassin. Um pouco antes da mix eu mostrei o disco pra ele e trocamos uma ideia. Eu queria muito lançar em um disco inteiro, só pela sensação de dizer “lancei um disco”. Mas fui conversar com ele justamente pra ter um parecer de quem tem experiência. E a sugestão de dividir o repertório fez muito sentido, pois já mostrava duas estéticas muito marcantes, com boas composições, mas cada uma à sua maneira. Daí entre lançar um disco “duplo” nas plataformas, preferi separar em 2 EPs para explorar os universos e trabalhar melhor os conceitos de cada um. E a dualidade é um conceito que permeia tudo na vida. O que diferencia emocional e musicalmente os dois trabalhos e o que o público pode esperar em “Manhã de festa”? ANTES DO SOL é um início. Ele representa o que ainda não foi revelado, que está em desvelo. As atmosferas das canções são oníricas, sugerindo esse lugar onde o sonho e a realidade se confundem, entre memórias e projeções. Nesse preambulo do despertar, as letras falam de nascimento e pulsão de vida, mas também de nostalgia e resignação, sentimentos que são opostos complementares, como saudade e esperança – por vezes sentidos ao mesmo tempo. Mas entre a dúvida e a sublimação do mistério, os contornos são otimistas, dando ao EP um caráter contemplativo, onde a dor e a alegria convivem em paz. Em MANHÃ DE FESTA o volátil dá lugar à matéria, deixando o campo do sonho e indo para o corpo, a expressão terrena. Enquanto a primeira parte é marcada por uma identidade folk, sessenta e setentista, a segunda parte aterra na MPB com sambas, groove e forró. Como foi o trabalho de produção ao lado de um amigo de infância? Foi mais fácil trabalhar dessa maneira? Foi muito mais fácil e prazeroso. O campo da intimidade pode ajudar ou atrapalhar, mas temos muito respeito um pelo outro e carinho por essa amizade. A arte de estabelecer e aceitar limites sem stress é uma que conseguimos dominar rs. O Antonio é um excelente profissional e um grande amigo. Além dos arranjos fantásticos que ele escreveu, nosso bate-bola (que já era bom desde a escolinha de futebol) deu muito certo. E esses encontros enveredavam também por conversas filosóficas. Eu estava voltando pro Rio depois de morar 4 anos em Visconde de Mauá (onde escrevi “Quando me mudei”) e foi ótimo pra mim ter essa amizade nesse processo. E também, como estreante na música, poder ouvir conselhos de um amigo experiente. Show em Maio Daniel Gnatali sobe ao palco do Fino da Bossa dia 06 de maio com o show “Pássaro Noturno”, proposta que aposta na conexão direta com o público por meio da voz e do violão. O repertório percorre diferentes tradições musicais, do samba e do forró à música anglo-americana, reforçando o diálogo entre o popular brasileiro e a linguagem folk. A apresentação ainda ganha peso com as participações especiais de Lucinha Turnbull, pioneira do rock nacional, e da artista multidisciplinar Anna Sartori, parceira de composição de Gnatali. O espetáculo acontece com início pontual às 20h30, mas a casa abre às 19h, permitindo ao público acompanhar parte da passagem de som e aproveitar o cardápio de comidas e drinks. Os ingressos dão acesso tanto às mesas quanto aos lugares no balcão, no sistema por ordem de chegada, e a casa funciona até as 23h, com consumação mínima por pessoa. O Fina Bossa fica na Av. Brigadeiro Faria Lima, 473 em Pinheiros – São Paulo.

Madonna anuncia “Confessions II” e retoma uma de suas eras mais icônicas

Madonna está oficialmente de volta às pistas de dança. A artista anunciou, nesta quinta-feira (16), o lançamento de seu novo álbum de estúdio, Confessions II, previsto para chegar às plataformas no dia 3 de julho pela Warner Records. O disco marca a continuação direta do celebrado Confessions on a Dance Floor, lançado em 2005 e considerado um dos trabalhos mais emblemáticos da fase dance-pop da cantora. Antes mesmo da chegada do single principal, Madonna já ofereceu aos fãs a primeira amostra do projeto por meio de um teaser visual de atmosfera hipnótica, reforçando a proposta estética e sonora do novo trabalho. O anúncio também veio acompanhado da abertura do pré-save do álbum e de uma curadoria especial com versões em vinil, CD e cassete, evidenciando a aposta em uma experiência que dialoga tanto com o streaming quanto com o público colecionador. Ao apresentar o conceito do disco, a cantora destacou os versos iniciais da faixa “One Step Away”, defendendo a profundidade da música eletrônica e da cultura de pista. Segundo ela, a dance music vai muito além do entretenimento superficial. “A pista de dança não é apenas um lugar, é um limiar: um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”, afirmou. A declaração reforça a proposta conceitual do álbum, que trata a dança como uma forma de transcendência, comunhão e expressão emocional. Madonna também revelou que o disco nasceu a partir de um manifesto criativo desenvolvido ao lado do produtor Stuart Price, parceiro do álbum original. Para a artista, dançar, celebrar e “rezar com o corpo” são práticas espirituais milenares, e o ato de “ravear” representa uma arte ligada à superação de limites e à conexão coletiva. A expectativa em torno de Confessions II é alta, especialmente por retomar uma das eras mais icônicas de sua discografia e por recolocar a Rainha do Pop no centro do universo clubber contemporâneo.