Dinamite Club quebra hiato de 9 anos com o visceral “Cortisol”

Manter uma banda de rock no Brasil é um exercício de resiliência. Para o Dinamite Club, essa jornada de 16 anos acaba de ganhar seu capítulo mais denso e honesto. O grupo lançou o álbum Cortisol, via Crocante Records, quebrando um jejum de nove anos sem um disco cheio. O trabalho é o primeiro registro da banda como trio, com Bruno Peras (voz/baixo), Márcio Rodrigues (guitarra/voz) e Jaime Xavier (bateria), e funciona como um expurgo sonoro de quase uma década marcada por perdas irreparáveis, burnout, ansiedade e o isolamento da pandemia. Do ensolarado ao confessional Se nos álbuns anteriores, como Nós Somos Tudo o Que Temos (2017), o Dinamite Club flertava com um pop-punk enérgico e por vezes ensolarado, Cortisol segue o caminho oposto. O título não é por acaso: o disco trata do hormônio do estresse e da tentativa de sobreviver a um cotidiano que “acelera e massacra a gente”, como define o guitarrista Márcio Rodrigues. O disco nasceu sob a sombra do luto pela perda de Leon, integrante fundador falecido em 2018, e das profundas transformações psíquicas dos membros. “A gente nunca ia conseguir negligenciar tudo o que passou para continuar falando só sobre coisa boa. Seria desonesto”, explica Márcio. O resultado é um instrumental mais pesado, cadenciado e letras que não escondem o desgaste da vida adulta. Arte e estratégia do Dinamite Club A capa do disco, desenhada à mão pelo baterista Jaime Xavier, ilustra uma cabeça formada por comprimidos — uma referência direta aos tratamentos terapêuticos e medicamentosos que atravessaram o processo criativo. Musicalmente, o álbum foi gravado e mixado por Ali Zaher Jr. (baixista do CPM 22) no Sunrise Studios. A faixa Invisível foi escolhida como foco inicial por servir de ponte entre o passado melódico da banda e o presente mais denso. O disco ainda conta com a participação de Renan Sales (Metade de Mim) na música Hoje, Só Amanhã. Vitória da catarse Para Bruno Peras, o nascimento de Cortisol é uma vitória contra o acúmulo de dificuldades que quase paralisaram o grupo. “Esse disco é fruto de um sentimento contra tudo e contra todos”, resume. Em vez de focar em singles prévios, a banda optou por lançar a obra completa, permitindo que o público mergulhe na narrativa sem interrupções.