Com integrantes do Skank e Jammil, Trilho Elétrico aposta em mix de gêneros; leia entrevista

Depois de décadas como baixista do Skank, Lelo Zaneti resolveu embarcar em um novo desafio musical com a banda Trilho Elétrico. O grupo, que mistura influências de MPB, rock, reggae e pop, reúne músicos experientes de diferentes vertentes, como integrantes do Jammil e da cena do reggae baiano. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Lelo falou sobre a formação da banda, a sonoridade e os planos para o futuro. Formada pelos mineiros Lelo e Rodrigo Borges (herdeiro e atual representante do Clube da Esquina) e os baianos Manno Góes (Jammil e Uma Noites) e Lutte (ex-vocalista da Mosiah), a banda Trilho Elétrico tem como objetivo criar um som que transite em diferente gêneros. Até o momento já lançou um álbum (homônimo, de 2023) e alguns singles. “Acho que tem algumas pontas que se conectam. Por exemplo, quando ensaiamos músicas do Jammil para um show, percebi que a condução do baixo poderia remeter a algo meio Paralamas do Sucesso. Esse ensaio nos levou a resultados muito interessantes, onde você se pergunta: ‘Isso é Jammil, Paralamas ou Skank?’. São linguagens que acabam se aproximando naturalmente”, explicou o baixista. A forte conexão da banda com a cena musical da Bahia também é um diferencial. Segundo Lelo, o Skank já participou de muitos eventos de axé e sempre teve afinidade com o ritmo. Além disso, o Trilho Elétrico tem integrantes que vêm do reggae baiano, como Lutte, da Mosiah, um fenômeno local. “A Bahia é um celeiro musical muito poderoso. Lá, a gente vê o brilho nos olhos das crianças quando elas enxergam algo relacionado à música. Tocamos no Carnaval de rua e nas praças do Pelourinho, onde há uma circulação forte de estrangeiros e do público jovem. Então, houve toda uma pesquisa e experimentação para chegarmos na identidade do Trilho Elétrico.” “Plot Twist” e a nova fase da Trilho Elétrico O primeiro single do Trilho Elétrico em 2025, Plot Twist, já começou a ganhar destaque, entrando em playlists editoriais do Spotify. A canção traz uma mescla de pop, reggae e MPB, refletindo a diversidade sonora do grupo. “O arranjo da música foi feito com muito cuidado. Gravamos no estúdio do Chico Neves, que trabalhou com Paralamas, Skank e até Peter Gabriel. Ele conseguiu tirar um som incrível. No final, percebemos que Plot Twist nasceu de forma muito natural, parecia que já estava dentro de nós”, contou Lelo. A estratégia da banda para os próximos lançamentos segue uma tendência do mercado digital: em vez de lançar um álbum completo de uma vez, o grupo pretende soltar singles ao longo do ano. “A leitura do digital hoje é essa: lançar quatro ou cinco singles por ano. Isso mantém o público sempre com novidades e favorece o engajamento nas plataformas. Nos anos 60, os Beatles impulsionaram o formato de singles. Depois, o Led Zeppelin veio e resgatou a força dos álbuns. Agora, voltamos a uma era onde os singles dominam de novo. A música precisa se adaptar ao tempo”, refletiu. Com uma forte presença em festivais e no circuito independente, o Trilho Elétrico quer expandir ainda mais seu alcance. Segundo Lelo, um dos objetivos é entrar em circuitos como o do Sesc, que oferece estrutura e visibilidade para artistas de diversos gêneros. “A gente tem que entrar em circuitos que mostram o trabalho para um outro público. O Sesc, por exemplo, é um espaço que permite um amadurecimento do som. O Emicida fez isso muito bem. É um projeto de longo prazo, mas estamos no caminho certo”, afirmou. Enquanto isso, o Trilho Elétrico já está de olho nos próximos lançamentos e até em colaborações especiais. “Estamos prospectando convidados para o próximo single e a ideia é seguir nessa linha do Plot Twist, algo que o brasileiro tem na veia. O primeiro disco teve um som mais aberto, com participações de Daniela Mercury, Tony Garrido e Luiz Caldas. Agora, queremos consolidar essa identidade pop rock e seguir lançando novas faixas ao longo do ano.”

Entrevista | Ziggy Alberts – “É realmente sobre ir e dedicar mais tempo ao ar livre e à natureza”

O cantor e compositor australiano Ziggy Alberts lançou, recentemente, seu sétimo álbum de estúdio, New Love, um trabalho que reflete sua evolução musical e pessoal. Conhecido por sua sonoridade minimalista e letras introspectivas, Ziggy Alberts continua explorando temas como amor, conexão com a natureza e segundas chances. Em entrevista ao Blog n’ Roll, ele compartilhou detalhes sobre o novo disco e sua relação com a música e a escrita. O single I’m With You é um dos destaques do álbum e aborda a magia do amor e sua capacidade de nos reconectar com nós mesmos. Para Ziggy Alberts, o amor funciona como uma energia universal que nos revitaliza e fortalece nossas relações. Ele cita o livro A Profecia Celestina, de James Redfield, como uma inspiração para essa perspectiva, destacando que expressar amor nos torna mais vivos e presentes no mundo. Outro aspecto central na música de Ziggy Alberts é sua relação com a natureza. O artista acredita que o contato com o meio ambiente é essencial para seu processo criativo e para manter sua energia equilibrada. Em I’m With You, ele canta sobre “dar o coração ao mar novamente”, uma analogia à sua busca por reconexão com a natureza e suas raízes. Para ele, a vida na cidade é necessária, mas o contato com o ar livre é fundamental para manter sua essência. Além da música, Ziggy Alberts também se dedica à escrita e recentemente lançou seu segundo livro de poesia. Ele enxerga a poesia e a música como expressões complementares: enquanto a poesia representa um processo mais introspectivo, a música é uma forma de se comunicar com o mundo. O artista também tem integrado seus poemas aos shows, criando experiências mais imersivas para o público. Com milhões de ouvintes em plataformas de streaming, Ziggy Alberts tem expandido sua carreira internacionalmente e recentemente colaborou com o brasileiro Vitor Kley. Durante a entrevista ao Blog n’ Roll, ele expressou seu desejo de retornar ao Brasil para divulgar New Love e incentivou os fãs a compartilharem suas músicas para ajudar a viabilizar uma turnê pelo país. I’m With You é um single que fala sobre a magia do amor e segundas chances. Como você acredita que o amor tem o poder de nos reconectar com nós mesmos?  Estava lendo um livro recentemente chamado A Profecia Celestina (James Redfield). Não sei se você já ouviu falar dele antes, mas é dos anos 90. Acho que provavelmente essa coisa que chamamos de amor é algo como a energia universal do mundo. E nos sentimos vivos quando expressamos isso em nós mesmos. Acho que quando fazemos isso, temos mais energia, nossos relacionamentos são melhores. E é um desafio porque nem sempre sentimos isso. Mas acho que se percebermos que podemos obter esse sentimento de tantas pessoas, podemos obter esse sentimento nos relacionamentos. Também temos que ter esse sentimento em nós mesmos e podemos obtê-lo da natureza. Sim, é como se toda a nossa vida parecesse mais energizada. Você acha que está se reconectando com a Mãe Natureza? Sim, acho que sim. E é disso que essa música fala no refrão. Ela diz que estou pronto para dar meu coração ao mar novamente. Isso é como dizer que talvez quando criança, eu estava realmente conectado a isso, como na minha criação. Então talvez você goste de se afastar. Estou trabalhando muito na cidade, o que é bom porque a cidade também é linda. Mas é como uma analogia sobre segundas chances. É realmente sobre ir e dedicar mais tempo ao ar livre e à natureza. E fazer isso de novo, porque então me sinto muito vivo. É uma boa maneira de dizer que vou me comprometer com algo novamente, como se disséssemos uma analogia. Como a Mãe Natureza influencia sua música e sua arte?  Na natureza há coisas que são verdadeiras. Se você cuidar do solo, a árvore cresce e a comida cresce. Mas se você não tem um bom solo ou se não tem água, então as coisas não crescem. Se você cavar um buraco no chão e colocar uma árvore lá, sem mais nada, então ela não vai, ela vai morrer. Acho que gosto de usar os exemplos da natureza ao meu redor como um exemplo para falar da humanidade. Olho para isso quando penso: ‘isso é verdade? Isso pode ser verdade para mim? Estou cuidando da minha raiz?’ E a razão pela qual acho que é importante é porque quando você faz isso como um exemplo na natureza, é como um guia porque é realmente óbvio. E então gosto de usar o exemplo da natureza para também dizer algo sobre a emoção ou a interação humana.  O que o álbum New Love traz de diferente na comparação com os seus últimos trabalhos? Este álbum é muito parecido, muito minimalista. Acho que a música I’m With You é realmente otimista. Nós colocamos o bumbo da forma mais rápida que conseguimos tocar, foi muito divertido. Talvez as pessoas ouçam este álbum e pensem talvez em meus álbuns de três anos atrás ou meus álbuns de dez anos atrás. Isso foi de propósito. Queria fazer algo que fosse a continuação do meu álbum Lapse Around the Sun. Mas ele foi lançado em 2018, esta é talvez a minha resposta para esse álbum. Em 2024, você teve um ano muito ocupado lançando singles e fazendo shows, além de ter publicado seu segundo livro de poesia. Como você equilibra sua carreira musical com sua escrita?  Basicamente, eu não tenho equilíbrio. Às vezes é intenso. Mas a poesia sou eu entrando, enquanto a música sou eu saindo. Um é para dentro e um está indo, um é que tenho algo a dizer. E a poesia é como se algo viesse a mim como um exemplo. E há uma conexão entre sua poesia e música?  Sim. Agora, estava inicialmente as separando mais, mas estou até colocando meus poemas nos shows. Talvez tenhamos um piano ou um sintetizador para acompanhar os poemas, uns sons de trovão ou chuva.  Enquanto estou

Entrevista | Ezra Collective – “Os brasileiros dançam como se ninguém estivesse olhando”

Primeira banda de jazz a ganhar o Mercury Prize (concedido ao melhor disco do Reino Unido e Irlanda) por seu álbum de 2022, Where I’m Meant to Be, o quinteto londrino Ezra Collective estreou no Brasil, no último fim de semana, com um show impecável no Cine Joia, em São Paulo. Durante a passagem pela Capital, o baterista Femi Koleoso conversou com o Blog n’ Roll, via Zoom, e falou mais sobre o álbum mais recente, Dance, No One’s Watching, música brasileira, influências, entre outros assuntos. Leia mais abaixo. Formado por Femi Koleoso (bateria), TJ Koleoso (baixo), Joe Armon-Jones (teclados), Dylan Jones (trompete) e James Mollison (saxofone), o Ezra Collective tem expandido os limites do gênero desde sua formação em 2012. A mistura única com outros estilos, como afrobeat, hip-hop e reggae, chamou a atenção da cena musical do Reino Unido e agora está se espalhando por todo o mundo, transmutando as percepções do público sobre a música. * Qual é sua primeira impressão do Brasil?  Eu amo isso aqui. Já comi feijoada, tomei caipirinhas e sambei. Estou confortável, não demorou muito para conseguir isso, é um lugar especial. O Ezra Collective fez história ao ganhar o Mercury Prize com Where I’m Meant To Be. Como esse reconhecimento impactou a banda?  Não mudou a maneira como abordamos a música, nada mudou musicalmente. Foi uma noite muito bonita, uma experiência muito bonita, mas a missão continuou a mesma. Os prêmios são como um presente de Natal. Se eu ganhar um presente de Natal, direi obrigado, sou muito grato, mas isso não mudou minha vida, sabe? E foi mais ou menos assim, mas musicalmente não nos mudou em nada.  Nós escrevemos Dance No One’s Watching antes de ganharmos o Mercury Prize, então o álbum que veio depois, nós já tínhamos escrito antes de ganharmos o Mercury Prize.  Mas, definitivamente, mais pessoas estão cientes do nosso nome, nos reconhecem e essas coisas são muito positivas. Dance No One’s Watching foi descrito como uma documentação da jornada da banda ao redor do mundo. Como essa experiência internacional influenciou seu som?  Acho que foi tudo sobre diferenças e semelhanças. As pistas de dança parecem as mesmas quando são realmente boas, em qualquer lugar do mundo. Você sabe, as pistas de dança em São Paulo parecem pistas de dança em Lagos, parecem pistas de dança em Tóquio, quando é tudo sobre a dança. As pessoas fecham os olhos e apenas balançam e se movem e isso parece similar, mas então as diferenças são como a maneira que chegamos àquele lugar, e a música que você ouve, e o olhar das pessoas, e essas diferenças são preciosas. Então foram apenas essas viagens que realmente nos inspiram de uma forma grande. Como o Ezra Collective equilibra a fusão de jazz com afrobeat, hip-hop e reggae para criar um som tão autêntico?  Autêntico vem de reconhecer que você nunca soará como uma banda de afrobeat perfeita, você nunca soará como uma banda de samba, você nunca soará como um hip-hop perfeito, mas você pode definitivamente fazer um som que faça as pessoas saberem que você o ama, e é isso que o faz parecer autêntico.  Nós nunca estamos tentando ser outra coisa, mas nunca estamos tentando esconder o que amamos, e essa combinação o faz parecer inovador e autêntico. E então você só precisa se manter aberto, você precisa estar aberto todos os dias. Uso o Shazam toda vez que ouço algo que gosto, pego o nome, salvo, baixo ou compro, e estou sempre procurando por novas músicas. Este é um ótimo lugar para música, então estou encontrando o máximo que posso e deixando que isso me inspire. Há uma banda ou artista específico que influencia mais você?  Eu amo o Azymuth e Sergio Mendes. Amo como Sergio Mendes misturou jazz com samba, e essas são apenas algumas das pessoas que realmente amo, mas amo muita música brasileira.  O jazz moderno vem ganhando cada vez mais espaço fora do circuito tradicional de turnês musicais. Você sente que o Ezra Collective está ajudando a definir a percepção do gênero para as novas gerações?  Sim, porque quanto mais a inspiração viaja, mais pessoas vão começar a tocar, e isso só vai criar mais músicas que amo. Então isso é emocionante para mim, sabe? E o título Dance No One’s Watching sugere liberdade e entrega à música.  O que essa ideia significa para você, e como ela reflete na experiência de tocar junto?  Significa apenas que a vida é muito curta e preciosa para se importar com o que as pessoas pensam, e deixar que isso roube o momento. Então seja livre e se expresse. Mas a questão sobre o Brasil é que os brasileiros são especialistas nisso. Os brasileiros dançam como se ninguém estivesse olhando, então hoje à noite (dia do show) estou aqui para aprender a dançar como se ninguém estivesse olhando. Não estou aqui para ensinar ninguém, estou aqui para aprender. Estou ansioso para o público me ensinar como realmente festejar, sabe?  Você topa um jogo rápido? Nomeio alguns artistas e você os descreve em uma palavra ou frase. Jamie Cullum – Cara legal.  Norah Jones – Linda. Gilberto Gil – Icônico.  Bob Marley – Herói. Rihanna – Fofa Quais os três álbuns que tiveram a maior influência na sua carreira e por quê?  Teacher Don’t Teach Me Nonsense, de Fela Kuti, porque esse foi o álbum que me fez me apaixonar pelo Afrobeat. Voodoo, de D’Angelo, para mim, é meu som favorito de álbum. A maneira como flui de música para música influenciou como vejo o conceito do álbum.  Por fim, diria Catch a Fire, de Bob Marley, porque para mim, é uma aula magistral de contar uma história. Então, sim, esses seriam os três álbuns.

Entrevista | Circa Waves – “Conforme você envelhece, se torna sentimental”

Death & Love Pt.1, o sexto álbum de estúdio da banda inglesa Circa Waves, já está disponível nas plataformas de streaming. O primeiro volume conta com nove faixas de guitar pop catártico. De acordo com a banda, o disco é um poderoso mecanismo de enfrentamento para processar a experiência de quase morte do vocalista Kieran Shudall. A segunda parte será lançada ainda este ano. No início de 2023, Kieran recebeu uma ligação dos médicos informando que sua artéria principal estava severamente bloqueada. Dois dias depois, ele estava deitado em uma mesa de cirurgia, assistindo um fio ser inserido em seu coração para corrigir o problema. O que se seguiu foi o cancelamento de vários shows do Circa Waves, o ajuste a uma rotina de medicação e, mais crucialmente, a necessidade de aprender a viver de uma nova maneira. E o resultado é simplesmente impressionante. Autoproduzido por Kieran, com engenharia de som de Matt Wiggins (Adele, Lana Del Rey, Glass Animals), as nove faixas de Death & Love Pt.1 exalam nostalgia e remetem aos sons e temas que fizeram Shudall querer pegar uma guitarra pela primeira vez. Shudall conversou com o Blog n’ Roll, via Zoom, sobre o novo álbum, a recuperação após o problema médico, além da possibilidade do Circa Waves vir ao Brasil. Confira abaixo. Death & Love Pt. 1 parece um álbum profundamente pessoal e intenso sobre uma experiência de quase morte. Trouxe uma nova perspectiva para o trabalho da Circa Waves?  Sim, acho que, no final das contas, quando algo louco acontece contigo e você tem emoções intensas, é como se novos tipos de melodias surgissem. Acho que naturalmente temos melodias de amor, medo, ódio ou algo assim como a ideia de desaparecer e ou morrer ou o que quer que seja. Isso criou um novo tipo de melodia que era interessante. O primeiro single que fizemos já transmite uma energia de superação.  Qual foi a inspiração por trás de We Made It e como ela se conecta ao tema geral do álbum? Escrevi sobre um amigo que estava passando por um momento difícil e era eu meio que dizendo: “apesar de todos os momentos difíceis que passamos, ainda estamos aqui, nós conseguimos”. Queria que fosse bem aberto e relacionável para qualquer um, então se você estiver no meio da multidão, você pode sentir que é a pessoa que conseguiu, porque acho que todo mundo já passou por algo difícil, seja um término de relacionamento, perda de emprego ou a morte de um membro da família. Todo mundo precisa sentir esse otimismo de que a vida continua e você consegue.  Isso é algo que você acha que teria escrito antes ou é por causa da sua experiência que começou a pensar mais sobre esses assuntos?  Acho que é como a idade avançada. Conforme você envelhece, se torna sentimental e começa a pensar sobre a vida que você viveu e a mortalidade, além de todos esses tipos de coisas mórbidas. É o processo real de transformar uma experiência tão aterrorizante em um processo de cura através da música, porque você disse que era uma carta para dizer a si mesmo que você sobreviveria. Isso é algo fácil? Como foi a experiência real?  Bem, acho que queria me esforçar para escrever músicas que fossem mais pessoais e que fossem sobre o assunto. Poderia escrever músicas que não fossem sobre isso, mas simplesmente saiu naturalmente.  Senti a necessidade de escrever sobre isso, quase como quando alguém tem um diário e quer escrever sobre algo que o irritou ou algo triste, simplesmente saiu naturalmente e é meu tipo de catarse. Foi o meu jeito de superar isso. Isso ajuda já que escrevi músicas, sinto que é uma terapia para mim. Quais bandas ou artistas do passado mais inspiraram nessas composições? Consegue identificar?  É muito parecido com aquela cena inicial de Nova York, os anos 2000, com o The Walkmen, Yeah Yeah Yeahs, The Strokes, The National e LCD Soundsystem. Essa energia bruta e o tipo de guitarras corajosas com a bateria estridente, os vocais distorcidos e tudo mais. Por algum motivo, sempre fui loucamente apaixonado por esse som, o que realmente não sei por quê. Porque muitas bandas de Liverpool só querem soar como os Beatles, mas sempre fui apaixonado pelos artistas de Nova York.  Você pode mencionar dois ou três álbuns que o inspiraram muito na sua vida?  Bows + Arrows, do The Walkmen, certamente Is This It, do The Strokes, além do Alligator, do The National, que foi uma grande inspiração para mim. E você e a banda têm um histórico de criar música que ressoa fortemente com o público ao vivo. Como você imagina que faixas como Let’s Leave Together e Like You Did Before impactarão os fãs nos shows?  Acho que a letra é um pouco mais direta do que escrevi no passado. Escrevi muito pop ao longo dos anos com vários artistas fora da banda. E há algo sobre a simplicidade de um refrão pop que amo, e a letra é sempre tão direta.  O primeiro disco que fizemos, Young Chasers, era melodicamente bastante pop, mas as letras eram meio vagas. E elas eram um pouco mais misteriosas, acho. Os refrões que escrevi neles ainda são bastante pop, mas acho que a letra é um pouco mais direta e sucinta. Então espero que o público sinta a necessidade de gritar de volta para mim agora. O álbum foi mixado por Matt Wiggins, que trabalhou com artistas como Adele e Glass Animals. Como foi essa colaboração? E o que ele trouxe para o som final do Circa Waves?  Eu amo Matt, ele é simplesmente incrível, um engenheiro incrível. Ele grava as coisas com extrema proficiência. Ele é uma pessoa tão legal, é ótimo para trocar ideias e me deixa meio que “podemos tentar isso? Podemos tentar isso? Podemos tentar isso? E ele responde sempre positivamente. Ele nunca impede a banda de tentar nada. Ele é muito aberto e nos permite ser quem queremos ser. Como você

Entrevista | Ingo Dassen (Lesoir) – “Senti-me compelido a destacar a situação dos refugiados”

Responsável por um dos melhores álbuns da temporada passada, Push Back the Horizon, a banda holandesa Lesoir demonstra muita maturidade na hora de experimentar e ousar. O sexto trabalho de estúdio do grupo conta com dez músicas, compostas pelo guitarrista da banda, Ingo Dassen, e letras e linhas vocais escritas pela cantora e multi-instrumentista Maartje Meessen. Ao contrário de Mosaic, o trabalho anterior de Lesoir, Push Back the Horizon é caracterizado principalmente por estruturas musicais tradicionais e melodias cativantes. Com influências de tendências musicais modernas, Push Back the Horizon também é à prova da geração Z e oferece muito para descobrir. Os fãs dos trabalhos anteriores de Lesoir também não ficarão desapontados; rock progressivo e art-rock são abundantes no álbum, embora tocados com uma aparência idiossincrática diferente, mais uma vez inconfundivelmente ‘Lesoir’. Ingo Dassen conversou com o Blog n’ Roll sobre o novo álbum, os planos de turnê, além das letras sempre carregadas de mensagens importantes. Confira abaixo. * Push Back the Horizon marca o sexto álbum da sua carreira. Quais elementos você buscou explorar musicalmente e conceitualmente neste trabalho? Push Back the Horizon mergulha nas complexidades da existência humana, explorando relacionamentos e as complexidades da vida. Nosso objetivo era capturar as nuances da experiência humana, reconhecendo que, embora muitas vezes busquemos o controle, as circunstâncias podem nos levar a um ponto de inflexão coletivo. Musicalmente, nos aventuramos em um som mais rock de arena, colaborando com o produtor John Cornfield e o produtor vocal Paul Reeve para criar composições envolventes e poderosas. Este álbum serve como um instantâneo de histórias relacionáveis, enfatizando o potencial da vida para momentos reflexivos e eventos inesperados que fornecem vislumbres de esperança. O single Under the Stars aborda uma questão muito sensível e atual, que é a situação dos refugiados. Como esse tema se conecta com suas experiências e vivências pessoais? Under the Stars foi inspirado por experiências pessoais e uma profunda empatia pelos refugiados. Refletindo sobre como minha filha encontrou conforto dormindo ao ar livre, percebi o contraste gritante para aqueles que dormem ao ar livre por necessidade, não por escolha. Isso me levou a considerar as dificuldades que os refugiados enfrentam, especialmente crianças que não têm necessidades básicas e segurança. Com base nas histórias do meu avô sobre sobreviver a duas guerras, senti-me compelido a destacar a situação dos refugiados e a necessidade universal de segurança e abrigo. A produção de Push Back the Horizon envolveu grandes nomes como John Cornfield e Paul Reeve. Como foi trabalhar com eles e como essas colaborações influenciaram o resultado do álbum? Colaborar com John Cornfield e Paul Reeve em Push Back the Horizon foi uma experiência transformadora para nós. A vasta experiência de produção de John, principalmente com bandas como Muse e Supergrass, trouxe profundidade e clareza ao nosso som que elevou a qualidade geral do álbum. A experiência de Paul como produtor vocal, particularmente seu trabalho com Matt Bellamy do Muse, foi fundamental para refinar nossas performances vocais, garantindo que elas ressoassem com a emoção e precisão pretendidas. Sua influência combinada não apenas aprimorou os aspectos técnicos do álbum, mas também nos inspirou a explorar novos territórios musicais, resultando em um produto final mais dinâmico e polido. A música Babel, com seus 20 minutos de duração, é um exemplo de sua ousadia como banda. Vocês planejam explorar composições mais longas e experimentais no futuro? Babel foi um marco significativo para nós, permitindo-nos mergulhar em composições estendidas e experimentais. Essa experiência foi desafiadora e gratificante, expandindo nossos limites criativos. Olhando para o futuro, estamos entusiasmados em continuar a explorar peças mais longas e intrincadas que oferecem narrativas mais profundas e paisagens musicais complexas. Nossa jornada com Babel nos inspirou a abraçar e expandir ainda mais essa abordagem em nossos projetos futuros. A pandemia de 2020 trouxe muitos desafios, mas vocês responderam criativamente ao lançar Babel. Quais lições esse período trouxe para vocês como músicos e como banda? A pandemia de 2020 apresentou desafios significativos, mas também nos ofereceu uma oportunidade única de introspecção e criatividade. Durante esse período, criamos Babel, um épico de 20 minutos que se tornou uma prova de nossa resiliência e adaptabilidade. A experiência nos ensinou a importância da flexibilidade e o valor de adotar novos métodos de colaboração, mesmo quando fisicamente separados. Reforçou nossa crença no poder da música para conectar e inspirar, independentemente das circunstâncias externas. Esse período não apenas fortaleceu nosso vínculo como banda, mas também aprofundou nosso compromisso em criar uma arte significativa que ressoe com nosso público. O novo álbum apresenta influências do rock moderno, progressivo, pop e até mesmo música pesada. Como vocês equilibram esses estilos distintos para criar algo tão coeso? Buscamos misturar rock moderno, progressivo, pop e elementos mais pesados ​​em um som coeso. Nossa abordagem envolveu focar em melodias e harmonias fortes, que servem como base da nossa música. Ao integrar diversas influências cuidadosamente, criamos um álbum unificado que reflete nossos variados gostos musicais. A colaboração com os produtores John Cornfield e Paul Reeve refinou ainda mais nosso som, garantindo que cada faixa contribua para a coesão geral do álbum. ⁠Quais são seus planos para 2025? Você planeja fazer uma turnê pela América do Sul? O Lesoir pode tocar no Brasil? Em 2025, o Lesoir deve se apresentar em vários festivais europeus. Embora nossa programação atual se concentre nesses eventos, estamos explorando ativamente oportunidades de fazer uma turnê pela América do Sul, com um interesse particular em nos apresentar no Brasil. Estamos ansiosos para nos conectar com nossos fãs sul-americanos e compartilhar nossa música em novas regiões. Quais três álbuns têm influência você mais em sua carreira? Por quê? Steven Wilson – Hand. Cannot. Erase. Este álbum nos influenciou profundamente com sua narrativa intrincada e profundidade emocional. A habilidade de Steven Wilson de tecer um conceito por meio de elementos progressivos e belas melodias inspira nossa abordagem para criar música que se conecta profundamente com os ouvintes tanto em um nível narrativo quanto emocional. Anathema – Distant Satellites As paisagens sonoras atmosféricas e dinâmicas de

Entrevista | Rô Araújo – “Acho muito importante que a gente se una”

Unindo influências da MPB, do jongo, do funk, da bossa nova e da cumbia, o álbum de estreia da cantora carioca Rô Araujo, Afruturo, é um destaque no cenário musical. O disco aborda temas importantes como liberdade de expressão, ancestralidade e empoderamento feminino. Com 12 faixas que narram histórias marcantes, o álbum conta com as participações especiais das artistas Ananda Jacques, Aiane e Ju Santana, agregando vivências e perspectivas de uma mulher preta suburbana, nascida em Nova Iguaçu. A faixa de abertura, Nesse Som, ganha destaque com um clipe gravado na cidade natal da cantora. O vídeo inclui uma transcrição inédita em Libras e a participação de artistas independentes da Baixada Fluminense, reforçando o compromisso de Rô com a inclusão e a valorização de talentos locais. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Rô Araujo falou sobre o processo de criação do álbum, suas inspirações pessoais, os desafios de ser mulher em uma sociedade desigual e a mensagem por trás do trabalho. Primeiro, queria que você falasse sobre o seu álbum como conceito, o nome Afruturo é bastante simbólico. Qual é o significado por trás dele e como ele reflete as mensagens que você quer transmitir? Esse álbum, na verdade, foi surgindo muito aos poucos. Cheguei a esse conceito quando comecei a juntar as peças do que queria transmitir através das músicas. Acho que é uma visão afrofuturista, tenho trazido esses conceitos, mas no sentido de que a gente poder se permitir projetar um futuro. Claro, que sem rejeitar o nosso passado, entendendo a nossa história. Acho que quando a gente está bem enraizado conseguimos nos posicionar e enxergar novas possibilidades. Então… por isso Afruturo. Que acho que se comunica bem com as músicas que já estava compondo. E aí depois fiz outras que acredito que complementam bem o álbum. Você já tinha mencionado que a ideia de fazer o álbum surgiu de um momento muito difícil da sua vida. Queria saber o que aconteceu, mas, acima de tudo, saber como isso impactou na sua vida pessoal e profissional.  Há quatro meses, mais ou menos, tive uma gravidez ectópica, uma gravidez fora do útero. Então, foi um momento de muitas reflexões. Claro que foi um momento também pesado emocionalmente, mas acho que foi uma virada de chave para perceber outras coisas. Porque corri risco de vida também, por causa da gravidez. Acho que quando a gente está de frente para um momento tão difícil, começamos a nos questionar, né? Se eu morresse hoje, eu já fiz tudo o que queria? Me deu um estalo, assim, também, de pensar o que quero criar, o que quero trazer ao mundo, para além de uma gravidez e um bebê.  Então, pensei, ‘nossa, quero criar músicas, quero colocar no mundo, dar luz às minhas ideias também’. E acho que foi o momento-chave, assim, de pensar em sair desse lugar de ficar o tempo inteiro pensando que sou uma artista independente e que não tenho dinheiro. Vou fazer do jeito que dá para fazer. E coloquei as ideias para frente, então, foi isso que aconteceu, que me deu uma virada de chave. Na verdade, a gente só tem uma chance na vida. Quando a gente leva um susto, acho que as coisas ficam mais claras. É realmente importante, vou levar à frente apesar dos medos, das inseguranças. Já tocando nesse assunto, duas músicas que me chamaram mais atenção foram Todo Mundo Vai Julgar e Egocêntrica, principalmente por abordarem temas como autocuidado e amor próprio. Como você define esses conceitos na sua vida? Na minha vida? É interessante você falar dessas músicas porque estava conversando com a minha mãe sobre elas. Ela disse: “Egocêntrica? Eu poderia ter feito essa música”. Acho que comecei a observar muito. Foi uma música que pensei bastante antes, no conceito, na ideia, no tema. E pensei: “poxa, eu queria tanto uma música que fosse como um mantra para me lembrar de me cuidar, sabe?”. Observo muito isso nas mulheres da minha família e nas minhas amigas, essa queixa e essa sobrecarga, sabe? De estarem sempre de olho nas necessidades dos outros, cuidando dos outros, mas pouco de si mesmas. Então acho que essa música me lembra de me cuidar, de me centrar em mim mesma, sem me sentir culpada por isso. Todo Mundo Vai Julgar reflete um incômodo que tenho. Não é porque escrevi essa música que estou isenta de preocupações estéticas. Acho que ser mulher e viver nesse momento é muito sobre isso: lidar com essas questões. Mas também é sobre o incômodo com as redes sociais, sabe? O fato de todo mundo estar o tempo inteiro usando filtro e o medo de se expor naturalmente. A comparação excessiva, os retoques, as cirurgias… E o quanto tudo isso demanda tempo, energia e dinheiro. Às vezes, vejo amigas jovens, de vinte e poucos anos, preocupadas em gastar dinheiro com essas coisas. Então penso: por quê? Como isso suga a nossa energia, assim como a demanda de cuidar das pessoas. Tudo isso me faz refletir muito. Queria expressar de alguma maneira essas minhas preocupações, questionamentos e incômodos. É isso. Bom, você fez algo totalmente voltado tanto para as mulheres negras quanto para as mulheres em geral. A parceria com outras mulheres no disco é algo muito marcante. Como foi construir esse “porto seguro” com elas? Com essas parceiras, especialmente, foi muito fácil e fluido, apesar de elas estarem envolvidas em outros projetos e, às vezes, não termos tempo para nos encontrar. A maior dificuldade foi mesmo parar e fazer acontecer, sabe? Acho que estamos em um ritmo de muitas demandas e pouco tempo para criar. Mas, quando decidimos tentar e criar, foi muito interessante. Com a Ju Santana, foi super natural. Ela é minha amiga há muitos anos, e há muito tempo queríamos compor juntas. A Yane conheci através do programa Mares, que foi uma residência artística só para mulheres, promovida pelo Movimento das Mulheres Sambistas, e desde então temos composto juntas. A Nanda Jacques conheci em um sarau só de mulheres,

Entrevista | Coisa Nossa – “É uma tentativa de resgate do DNA da MPB”

O grupo Coisa Nossa, formado por João Mantuano e Paula Raia, a “Raia”, lançou seu álbum de estreia, homônimo, na última sexta-feira (6). O novo disco, com 11 faixas, traz um estilo mais intimista, além de influências de MPB, jazz e rock. Os dois artista já tinham trabalhos solos de destaque antes da junção no Coisa Nossa. João vinha de parceria com Chico Chico em 2021, lançando um álbum que concorreu ao Grammy Latino do mesmo ano. Enquanto isso, Paula lançou um livro de poesias em 2022, além de também ter se apresentado com Chico Chico no mesmo ano com uma música inédita. Em conversa com o Blog n’ Roll, os cantores falaram sobre o processo de produção do álbum, além do começo da relação de amizade dos dois. Aliás, João e Paula chegaram a produzir 40 músicas para o Coisa Nossa e pretendem lançar um novo projeto com essas canções. Como foi o processo de produção desse álbum do Coisa Nossa? João: Pô, foi lindo, inspirador. A gente se conhecendo, eu e a Paulinha entrando no estúdio, em todas essas músicas, me trouxe também muita sabedoria, muita experiência, uma experiência que não tinha como ter sem essa estrutura que a gente tem. Então, deu em resultados que acho que pra um futuro mais longínquo vai vir mais coisas ainda.  Paula: Acho que a gente teve um processo de pré-produção que foi mais uma coisa minha e do João mesmo. Longa, assim, um processo longo e que a gente se conheceu muito, né? A gente criou um vínculo muito forte, de muita intimidade. Quando chegamos no processo de produção, já com o Filipe, com a Constança, com o Álvaro, com os músicos, a gente já sabia muito bem também o que a gente estava fazendo, sabe? Claro que muita coisa a gente descobre no processo do estúdio, mas a gente já tinha o nosso vínculo muito bem estabelecido. Acho que isso facilitou também muita coisa do processo, sabe? E como começou essa relação mais íntima de vocês?  Paula: A gente se conhece não tem muito tempo, né? Eu já acompanhava o trabalho do João à distância. A gente já até chegou a tocar no mesmo festival que aconteceu no Oi Futuro. Não sei nem se você lembra disso, João. Mas a gente já teve vida separadamente. Sempre achei o João um artista incrível. Depois que lancei meu álbum, nós dois individualmente já éramos do selo Toca Discos, do Rodarte e da Constância, e aí o Rodarte sugeriu que a gente fizesse um encontro pra gravar um single. Logo depois, o Rodarte criou um grupo de WhatsApp nosso, a gente foi trocando coisas, mandei poesias do meu livro, ele mandou conceitos que ele tinha também sobre a poesia. A gente viu que ali já tinha alguma coisa em comum entre a gente.  Depois nos encontramos na minha casa, assim, despretensiosamente, no sofá da minha casa pra compor uma primeira música. E foi um encontro longo, onde a gente também, foi se conhecendo aos poucos e a gente fez a nossa primeira música e daí em diante a gente compôs mais… Hoje em dia a gente já deve ter um repertório de mais de 40 canções e por aí. Enfim, de tanto que deu certo isso aí. Vocês transitam entre diversos estilos, quais são suas inspirações? João: A gente, justamente, na conversa ali de como nascer o projeto e como criar, a gente chegou em uma comunhão, eu e a Paulinha, de querer fazer algo brasileiro, né? Pegar essas vertentes mais brasileiras mesmo e conversar com essa área, com essa linguagem. E sempre tive junto. Acho que as compilações dos outros trabalhos, com Chico Chico e Solo, tem uma pegada também de MPB ali, mas vai mais para o rock. Rock e jazz. Então quis pegar músicas populares brasileiras. Aí fui atrás dos gêneros clássicos, além da mistura de gêneros também. Peguei meu violão com uma linguagem folk, isso transpassa nas nossas composições. E essa linguagem folk misturada com um que, assim, brasileiro, seja num forró ou de samba, nas melodias e nas harmonias, essa mistura faz com que tenha essa cara. As nossas referências, influências, acho que vieram através do popular. E aí a gente foi atrás dos nossos ícones, dos nossos ídolos. E aí acabamos chegando nesse resultado de misturas, que a gente pega desde um Macalé, de uma coisa mais misteriosa e de um arranjo mais sofisticado, até um Roberto Carlos. Essa coisa bem simples, de palavras simples, de músicas hits que se aproximem dessa linguagem brasileira geral, MPB.  Paula: É que a música brasileira tem essa característica própria por si só, no DNA dela, de uma mistura muito grande. O brasileiro é isso. É inegável que a nossa mistura é difícil até de definir, enfim, o que é a música popular brasileira. A gente sabe porque a gente sabe, mas não tem uma definição muito clara disso justamente porque vem de muitos lugares. E acho que, bem ou mal, é uma tentativa de um resgate dessa mistura, desse DNA da música popular brasileira. E de trazer esses ícones que o João falou, de certa forma, para a nossa inspiração artística, para a construção da nossa identidade. João: E aí continua uma linha de raciocínio, uma linha histórica, que a gente consiga se inserir nela e conversar com esse meio, com essa linguagem. E além disso, a música popular é muito diversa, brasileira. Muito. Tem milhões de gêneros de raiz, culturas de raiz, tipo o coco, o jongo ou até mesmo o carimbó. Coisas assim são conversáveis e a ideia é trazer sempre mais.  Vocês citaram que têm diversas composições juntos, imagino que nem todas estão no álbum. Qual é a composição favorita de vocês? Paula: Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder, porque acho que essa resposta muda muito a cada dia, a cada semana, a cada mês. Hoje, a minha composição favorita do álbum é Mata Escura, mas já foi Diferentes Semelhanças, que é

Entrevista | Adi Oasis – “Minha criatividade vem da falta de recursos”

A cantora franco-caribenha Adi Oasis retornou ao Brasil após sete meses de sua estreia no país. Fez uma série de shows no início do mês nas unidades de São Paulo e Rio de Janeiro do Blue Note. Depois, Adi Oasis esticou a programação com alguns shows surpresas pelo país, além de uma visita com sua filha de um ano pela Bahia. Um pouco antes de uma das apresentações no Blue Note do Rio de Janeiro, Adi Oasis conversou com o Blog n’ Roll sobre suas influências, raízes, importância do baixo, entre outros assuntos. Confira abaixo a entrevista com Adi Oasis A primeira coisa que realmente me deixa curioso é sobre sua rica formação cultural. Como suas raízes influenciam sua arte, não apenas a música, mas seu figurino também? Não faço roupas, mas as monto. É engraçado porque você acabou de dizer sobre minha rica formação cultural, e ia fazer uma piada, uma piada ruim, acho que sou uma comediante. Minha formação é pobre, porque meus pais vêm de origens muito pobres, com muitos irmãos e irmãs. Mas acho que aprendi que a criatividade vem disso, da falta de recursos. Essa é a mãe da criatividade, certo? E acho que muito do que sou vem disso, como não ter a escolha a não ser fazer com o que você tem. Especialmente quando se trata de moda. Comecei a montar figurino quando não tinha dinheiro, não tinha dinheiro para grandes marcas. Eu não tinha na época, especialmente. E isso te força a ser mais criativo. Quando você fala sobre essa formação pobre, você está falando de Toulouse ou da formação caribenha?  Então, minha mãe não é de Toulouse, mas é perto. Toulouse seria a cidade mais próxima de onde ela é, mas nós viemos de uma longa linhagem de fazendeiros. Meus avós e todos os meus tios eram muito pobres. Eles negociavam uma vaca por qualquer coisa. Costumava ir com minha avó para a fazenda ao lado e nós levávamos ovos para eles, enquanto eles nos davam leite. Meu pai é da Martinica. Então, minha mãe é uma de 11, meu pai é um de dez filhos. Meu pai cresceu escalando. Meu pai subia a colina carregando baldes de água sem sapatos. Não cresci assim, mas meus pais cresceram dessa forma. Lotus Glow foi muito bem recebido pelo público e crítica. Você sente alguma pressão agora para lançar algo tão incrível quanto esse álbum?  Quero fazer algo melhor, acho que posso facilmente fazer melhor. Acho que Lotus Glow é a razão pela qual este álbum chegou em um momento em que senti que realmente encontrei meu estilo, encontrei minha personalidade como artista, o pacote está totalmente lá, e agora só pode melhorar. Estou animada para o resto. Só tenho que descobrir que a parte desafiadora é criar com um novo bebê. Quando você descobriu o baixo e como ele influenciou seu processo criativo?  O baixo realmente chegou até mim. O universo simplesmente o colocou em minhas mãos. Comecei a tocar violão quando era adolescente, tinha 15, 16 anos, para compor minhas músicas. Só que nunca me conectei ao violão acústico porque sempre quis me mover no palco e ficar parado e não ter isso, ser capaz de ter uma atitude desagradável não combinava muito com violão clássico, certo? Isso não era minha praia. Isso é mais country.  Há pessoas que fazem isso de forma incrível, mas para mim, não é onde me sinto mais confortável. E montei um grupo quando me mudei para Nova York e nós tínhamos um show agendado. O baixista que contratamos teve que cancelar a participação no último minuto. E os caras ficaram: ‘ei, você toca violão, por que você não toca baixo?’ Foi assim que comecei a tocar baixo. E me apaixonei completamente. Minha vida mudou. Quero fazer um jogo rápido contigo. Topa, Adi? Eu falo alguns artistas e você os define em uma palavra. Erykah Badu – Eu a conheci no Afropunk Bahia. Ela é uma grande influência. Recorro a ela para aprender a realmente confiar em mim mesma. Ela tem um alinhamento total com o universo. Ela está 100% sintonizada. É assim que parece estar totalmente em sintonia consigo mesma. Prince – Prince é meu artista favorito de todos os tempos. Favorito, número um. Ele incorpora tudo o que amo na música. Álbum favorito do Prince? É impossível escolher, porque depende do meu humor. Tenho um álbum do Prince para tudo, mas vou dizer que meu ritual pré-show é Dirty Mind. Coloquei Dirty Mind quando comecei minha maquiagem hoje. Tracy Chapman – Acho que ela é subestimada. Alguém fez um cover da música dela e estou feliz que ela esteja ganhando dinheiro. Espero que você seja rica, Tracy Chapman. Sentada em uma ilha em algum lugar, tomando margaritas e vivendo sua melhor vida. Aretha Franklin – Minha voz favorita, minhas duas cantoras favoritas são Chaka Khan e Aretha Franklin. Eu ainda a ouço todos os dias. Em termos de como posicionar minha voz, aprendi com Aretha. Como você vê o impacto da música francesa na cena internacional? Você sabe, algo está acontecendo. Aya Nakamura é uma das  maiores estrelas do afrobeats, pop R&B. Ela é francesa. E amo essa representação porque tem ela, Izzard, que é uma nova artista também, que está realmente bombando agora, que é da França.  Fico feliz que essas sejam mulheres negras de pele escura. Adoro que agora o que está acontecendo é que essas grandes artistas francesas são essas mulheres negras. É ótimo que a França tenha que lidar com o fato de que somos a representação do país. Também é interessante para a América ver isso porque muitos supremacistas brancos, pessoas de mente fechada na América, adoram se declarar europeias. E eu fico tipo, não, você não é. Sou europeia, e sou negra. E é assim que uma europeia se parece. Por que é tão importante saber sua identidade, saber sua herança? Cresci com duas culturas muito diferentes entre meu pai do Caribe e minha mãe, uma francesa