Entrevista | Air Supply – “Geralmente ouvimos ‘nós nos casamos com uma de suas músicas'”

O tempo parece não passar para as baladas que definiram gerações. O duo australiano Air Supply, formado por Graham Russell e Russell Hitchcock, desembarca no Brasil em maio para uma apresentação única no Vibra São Paulo, no dia 10. O show faz parte da turnê comemorativa de 50 anos de carreira, um marco raríssimo na indústria fonográfica que prova a resiliência do soft rock e o poder de hits que se tornaram hinos atemporais. Desde que se conheceram nos ensaios de Jesus Christ Superstar na Austrália, em 1975, Graham e Russell construíram um império baseado em melodias perfeitas e harmonias vocais impecáveis. Com mais de 100 milhões de discos vendidos, a dupla é responsável por clássicos que dominam as rádios e as trilhas sonoras de casamentos ao redor do mundo, como Lost in Love, All Out of Love e Making Love Out of Nothing At All. Entrevista exclusiva com Air Supply Nesta entrevista exclusiva para o Blog n’ Roll, conversamos com Graham Russell diretamente da Filadélfia, nos Estados Unidos. O compositor e violonista do duo, hoje com 75 anos, revelou detalhes sobre a nova dinâmica do show, que agora conta com a adição de violoncelos para dar um toque orquestral às apresentações, e comentou sobre a dificuldade, e o privilégio de selecionar um repertório entre tantos sucessos acumulados em cinco décadas. Graham também demonstrou um carinho especial pelo público brasileiro, que descreveu como “expressivo e sem medo de sentir”. Para ele, os fãs no Brasil possuem uma conexão visceral com as letras do Air Supply, criando uma troca de energia que torna cada vinda ao país uma experiência emocional tanto para a plateia quanto para os músicos no palco. Um dos momentos mais curiosos da conversa foi quando Graham explicou o segredo da longevidade da parceria: a ausência total de discussões e egos. Enquanto muitos grupos se dissolvem por conflitos criativos, o Air Supply encontrou o equilíbrio perfeito onde Russell brilha nos vocais e Graham se dedica à criação das composições, mantendo a amizade intacta mesmo após 50 anos de estrada. Confira abaixo a entrevista na íntegra. Vocês estão celebrando 50 anos de carreira com esta nova turnê. Como é olhar para trás e medir o alcance mundial que a música do Air Supply teve nessas cinco décadas? É bem impactante quando paramos para pensar nisso. Sabe, é uma vida inteira para se olhar. E nós tivemos uma vida ótima. Fomos muito afortunados por poder fazer o que amamos, que é tocar e criar música que as pessoas amam. Temos uma vida ótima, um trabalho ótimo e amamos cada momento. É incrível, 50 anos… Eu sei que existem muitos artistas que estão aí há tanto tempo, mas quando você pensa nisso, é realmente impressionante. Você vive um sonho, certo? Sim, é um sonho. Quando eu tinha 9 ou 10 anos, era isso que eu sempre quis fazer. E aqui estou eu. É incrível. Mas a vida é assim, sonhos podem se tornar realidade. Graham, o show do Air Supply no Vibra São Paulo está marcado para 10 de maio. Como tem sido o processo de montar um setlist para uma turnê de aniversário tão extensa? É difícil para nós. Temos que ser muito seletivos porque queremos tocar todos os grandes hits, e são muitos, mas tocamos todos. Isso deixa pouco tempo para coisas novas, mas encontramos espaço. Tocaremos algumas músicas inéditas do nosso novo álbum, mas a maioria do show serão os grandes sucessos, que é o que as pessoas querem ouvir. Além disso, acabamos de adicionar dois violoncelos à nossa banda, então o som está bem orquestral agora. Estamos muito felizes com o resultado, soa incrível. O público brasileiro sempre demonstrou muito carinho pelas músicas do Air Supply. O que você mais lembra das suas visitas anteriores e quais são as expectativas para esta apresentação? Viemos ao Brasil pela primeira vez em 1982 para dois programas de TV, um no Rio e outro em São Paulo. Ficamos impressionados com a resposta do povo brasileiro. Não tínhamos ideia! Desde então, voltamos para tocar muitas vezes. Temos muitos amigos brasileiros. É sempre ótimo ir aí porque as pessoas não são apenas românticas, elas se expressam de imediato. Não guardam nada para si. Elas amam cantar, rir e chorar conosco. É isso que amamos na nossa música: ela alcança as pessoas. E os brasileiros não têm medo de demonstrar isso. Algumas pessoas são reservadas, mas não os brasileiros. De jeito nenhum. Seus amigos brasileiros são músicos? Não. Ao longo dos anos, as pessoas nos param na rua, dizem que foram aos shows muitas vezes e acabamos virando amigos. Mantemos contato com alguns, mas não são músicos. São pessoas comuns, como nós. É muito legal ter amigos que não são necessariamente músicos. É incrível que vocês façam amigos assim. Sim, podemos estar em um restaurante e as pessoas na mesa ao lado dizem: “Oh, vamos ao seu show hoje à noite”. Começamos uma conversa, descobrimos que a pessoa é médico ou advogado, vemos que temos coisas em comum e mantemos contato. Não com todos, mas temos muitos amigos e sempre ansiosos para revê-los. E eles geralmente dizem: “Ah, eu pedi minha esposa em casamento com a sua música” ou algo assim? Sim! Geralmente é “nós nos casamos com uma de suas músicas”. Então nossa música se torna parte da vida deles. Você se torna parte da história deles sem perceber. Eles dizem que casaram ouvindo Two Less Lonely People ou que All Out of Love foi a primeira dança do casamento. Você se torna parte deles de uma forma pequena. Isso acontece muito e é algo maravilhoso de se ouvir e compartilhar. Graham, durante sua última visita a São Paulo em 2024, você recitou um poema escrito para a cidade, “The Best for Last”. Podemos esperar surpresas semelhantes no próximo show do Air Supply aqui? Ah, sim! Eu sempre escrevo um poema à tarde para a cidade onde estamos, sobre como estou me sentindo em relação às pessoas dali. Nunca sei como
Entrevista | Crazy Lixx – “Acho que o rock evoluiu na direção errada nos últimos vinte anos”

A banda sueca Crazy Lixx retorna ao Brasil para sua maior apresentação no Brasil no dia 26 de abril no Bangers Open Air, em São Paulo. O grupo é um dos principais nomes do revival do hard rock escandinavo e construiu sua reputação apostando em refrões marcantes, guitarras afiadas e uma forte estética inspirada na cultura pop de filmes de terror dos anos 80. A passagem pelo festival marca um momento especial para a banda, que já realizou shows em casas menores no país e agora terá a oportunidade de apresentar seu repertório para um público ainda maior. Formado em 2002 na cidade de Malmö, na Suécia, o Crazy Lixx ajudou a consolidar uma nova geração de bandas que resgatou o espírito do glam metal e do hard rock clássico. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, o grupo liderado pelo vocalista Danny Rexon lançou uma série de álbuns que reforçam essa identidade sonora, mantendo viva a influência de bandas como Kiss, Def Leppard e Skid Row. A mistura entre nostalgia oitentista e produção moderna transformou o Crazy Lixx em um nome respeitado dentro da cena hard rock contemporânea. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Danny Rexon falou sobre a relação da banda com os fãs brasileiros, o processo criativo por trás das novas músicas e a influência da cultura pop dos anos 80 em sua carreira. Não tinha melhor dia para falar contigo do que numa sexta-feira 13, né? Como você descreveria a relação do Crazy Lixx com os fãs brasileiros? É isso (risos), verdade. É um bom dia. Já estivemos no Brasil algumas vezes e fizemos alguns shows em casas menores. Até agora não tínhamos tocado em um festival por aí, então isso vai ser muito legal. Sempre nos divertimos muito no país. Acho que os fãs brasileiros são um público particularmente bom para tocar. Eles são muito receptivos, muito gratos e extremamente energéticos e entusiasmados durante os shows e também depois deles. Normalmente encontramos muitas pessoas querendo interagir com a banda, tirar fotos, pedir autógrafos e conversar. Então eu diria que temos lembranças muito positivas dos fãs brasileiros e das interações que tivemos até agora. Muitos artistas internacionais dizem que o público brasileiro é mais barulhento e apaixonado do que em qualquer outro lugar. O que mais te surpreendeu quando tocaram aqui? A primeira vez que tocamos aí fiquei surpreso com a quantidade de fãs que apareceram, não só no show, mas também em um evento de autógrafos que fizemos em uma loja de discos antes da apresentação. E depois do show também, com pessoas querendo tirar selfies, pegar autógrafos e conversar com a gente. Em muitos lugares você pode ter um bom público durante o show, mas as pessoas simplesmente vão embora quando termina. Já os fãs brasileiros querem interagir com a banda antes e depois da apresentação. Eles também compram bastante merchandising e demonstram muita paixão pelo evento como um todo. Isso é algo realmente muito legal. E o que passa pela sua mente quando sabe que vai tocar em um grande festival de rock como o Bangers Open Air? É uma grande oportunidade para nós. Como eu disse, só tocamos em clubes no Brasil até agora, então esse será nosso primeiro festival no país. Na verdade, já estávamos tentando conseguir um festival por aí há algum tempo, então estamos muito animados por finalmente ter dado certo. É um festival grande, com muita gente que naturalmente vai para ver outras bandas, então é uma ótima oportunidade de mostrar o que podemos fazer para pessoas que talvez não estejam lá especificamente para ver o Crazy Lixx. Vai ser um festival muito empolgante e também uma boa forma de ampliar nosso público. Espero conseguir aproveitar o evento antes e depois do nosso show também. Vi, por exemplo, que Rick Springfield toca no evento. Espero conseguir assistir antes de voltarmos para casa. Parece ser um festival muito legal e acho que o público vai se divertir bastante. Falando sobre o último álbum, Thrill of the Bite, ele mostra uma banda muito confiante. O que mudou no seu processo criativo ao longo dos anos? Eu diria que hoje trazemos muito mais da produção para dentro da própria banda. Não trabalhamos mais com produtores externos. Esse foi o primeiro álbum que eu mesmo mixei do começo ao fim. Também fazemos todas as gravações por conta própria. Acho que crescemos bastante como produtores e aprendemos melhor o que precisamos fazer para alcançar o resultado que queremos. Hoje em dia os músicos também precisam aprender esse tipo de habilidade, porque não existe mais tanto dinheiro na indústria como antigamente para contratar pessoas externas para fazer todo o trabalho. Além disso, a visão artística de quem está na banda costuma ser a melhor para definir onde você quer chegar. Então o melhor caminho é aprender as técnicas e desenvolver essas habilidades por conta própria. Essa é uma grande diferença em comparação com dez ou quinze anos atrás. Compor em casa em vez de compor em sala de ensaio teve um grande impacto nas novas músicas? E hoje você escreve grande parte das músicas da banda, isso traz mais liberdade criativa ou mais pressão? Eu diria que um pouco das duas coisas. Alguns anos atrás eu escrevia ainda mais músicas sozinho. No último álbum tivemos uma divisão um pouco melhor entre os compositores do que no passado. Eu ainda escrevo a maioria das músicas, mas há contribuições do nosso baixista Jens e do guitarrista Chrisse, além de duas colaborações com compositores externos. Então está um pouco mais equilibrado agora. Por um lado, isso é positivo, porque como produtor posso pensar no que o álbum precisa. Talvez falte uma balada ou algum tipo específico de música para deixar o disco mais equilibrado. Mas também existe pressão, porque esperam que eu entregue a maior parte das músicas. Quando chega o momento de reunir as demos para um álbum, existe naturalmente a expectativa de que eu apresente muitas ideias. E suas músicas têm refrões
Entrevista | The Sophs – “Percebi minha tendência a buscar validação e culpar o mundo”

O cenário indie rock norte-americano ganha um novo fôlego com a ascensão meteórica da banda The Sophs. O grupo, que recentemente chamou a atenção da lendária gravadora Rough Trade, carrega uma mistura audaciosa de pop punk, funk e blues, consolidando uma sonoridade que foge do óbvio. O que começou como demos caseiras enviadas despretensiosamente por Ethan Ramon, o frontman, transformou-se em um dos lançamentos mais aguardados do ano, provando que a convicção artística ainda é a melhor moeda de troca na indústria musical. O álbum de estreia, Goldstar, que chegou hoje às plataformas de música digital, gravado inteiramente antes mesmo da assinatura do contrato, preserva a urgência e a espontaneidade das primeiras tomadas. Essa energia crua é o fio condutor de um trabalho que explora temas profundos, como a busca incessante por validação externa e a linha tênue entre a bondade genuína e a encenada. Musicalmente, a banda não tem medo de “roubar” referências, indo de cânticos eslavos a estéticas country, criando um mosaico sonoro que soa coeso graças à narrativa afiada de suas letras. Experimentações no som do The Sophs Um dos grandes destaques do disco é a experimentação estética. Faixas como Goldstar revelam influências latinas inesperadas, bebendo da fonte do rock argentino de Pescado Rabioso e fundindo-as com a batida clássica dos Rolling Stones. Essa versatilidade técnica é fruto da paixão individual de cada membro por seus instrumentos, permitindo que a banda transite entre o silêncio contido e explosões sonoras que prometem dominar os palcos dos grandes festivais ao redor do mundo. Em entrevista ao Blog n’ Roll, os integrantes Ethan Ramon (vocalista), Sam Yuh (tecladista) e Cole Bobbitt (baixista) revelaram que a turnê de 2026 já está confirmada para a Europa e os Estados Unidos, mas os olhos (e o coração) estão voltados para o Hemisfério Sul. Demonstrando entusiasmo com a cultura brasileira, mencionaram desde as praias, Pelé até pontos icônicos como o Cristo Redentor. A curiosidade sobre o Brasil é evidente, e a banda parece pronta para levar sua performance intensa para o público sul-americano assim que a oportunidade surgir. Ethan, você enviou suas demos diretamente para os diretores da Rough Trade. De onde veio essa confiança e você realmente esperava uma resposta tão imediata para o The Sophs? Ethan: Eu simplesmente acreditava muito na minha música. Com a ajuda do meu diretor criativo, Eric, montamos um material completo: cinco músicas, fotos para a imprensa e um manual da marca com todas as referências. Enviei para 30 gravadoras independentes sem esperar nada, mas sabendo que o material era bom. Recebi a resposta da Rough Trade no dia seguinte. Tem sido surreal, mas não acho que seja desmerecido, temos trabalhado duro por muito tempo. Como o The Sophs conseguiu manter a urgência e a energia espontânea das demos ao gravar o álbum final em estúdio? Ethan: Na verdade, o álbum final foi gravado antes de assinarmos o contrato. A maior parte do que você ouve são gravações de primeira tomada, feitas no mesmo dia. Queríamos manter aquela energia impulsiva do começo ao fim, sem perder o frescor das ideias originais. A música Goldstar fala sobre a busca por validação externa. É uma crítica à necessidade moderna de aprovação ou algo mais pessoal? Ethan: É um pouco dos dois. É uma versão dramatizada de mim mesmo. Percebi minha tendência a buscar validação e culpar o mundo em vez de assumir a responsabilidade. Escrevi a partir dessa perspectiva, mas acho que acabo falando sobre a maioria das pessoas, porque no fundo não somos tão diferentes assim. Vocês mencionaram a ideia de “roubar” e plagiarizar artisticamente. Qual foi a coisa mais inusitada que vocês pegaram emprestado para este disco? Ethan: A estética country em Sweetiepie é bem singular, usamos até uma harpa de boca para criar aquele som. E o final de Blitzed Again tem um canto eslavo completo. Ter essas duas coisas no mesmo disco mostra a nossa versatilidade. O som de vocês varia do pop punk ao funk e blues. Qual é o segredo do The Sophs para essa mistura não parecer desconexa? Sam: O fator principal que une tudo é a narrativa das letras do Ethan. Como ela é consistente, nos permite explorar gêneros como o blues de 12 compassos ou melodias eslavas sem perder o foco. Além disso, somos nós que tocamos tudo, então cada música tem nosso toque pessoal, o que garante a coesão. De onde vieram as influências latinas e os toques de flamenco na faixa Goldstar? Ethan: Eu estava ouvindo muito o álbum Artaud, do Pescado Rabioso (projeto do argentino Luis Alberto Spinetta). Ao mesmo tempo, eu e o Sam estávamos ouvindo Paint It Black, dos Rolling Stones. Sam: Decidimos colocar aquele padrão de dedilhado em cima da batida dos Stones e criou algo dinâmico que nunca tínhamos ouvido antes. Como vocês traduzem a dinâmica entre o silêncio e a explosão para os palcos de grandes festivais? Ethan: Muito volume! (risos). Mas, sério, todos na banda têm um conhecimento profundo da parte técnica e de engenharia de som. Sabemos quais pedais e instrumentos funcionam melhor em cada contexto. É o resultado de sermos apaixonados pelos nossos instrumentos, o que nos permite ter bom gosto e criar o show perfeito. O álbum questiona se ser uma boa pessoa pelos motivos errados diminui nossa bondade. Você já encontrou essa resposta? Ethan: Ainda não. Escrevi um álbum inteiro sobre isso e não consegui uma resposta definitiva. Espero que, quando o mundo ouvir, talvez alguém me dê essa resposta. Com a turnê de 2026 confirmada, existem planos para o Brasil? E o que vem à mente quando pensam no país? Ethan: Adoraríamos ir ao Brasil! Assim que tivermos a oportunidade, ficaremos muito felizes em nos apresentar aí. Cole: Pensamos em praias bonitas, clima bom, futebol, Pelé, e, claro, o Cristo Redentor. Eu sou de Santos, a cidade onde o Pelé surgiu para o mundo. Aqui tem um museu dele, vocês precisam conhecer. Cole: Eu irei, com certeza! Para fechar, quais os três álbuns que mais influenciaram
Entrevista | Black Label Society – “Usei a The Grail em Ozzy’s Song. Foi a primeira guitarra que gravei com ele”

O Black Label Society retorna ao Brasil como uma das atrações do Bangers Open Air, com show marcado para o dia 25 de abril. Liderada pelo guitarrista e vocalista Zakk Wylde, a banda é conhecida por misturar riffs pesados, grooves inspirados no heavy metal clássico e uma forte identidade sonora construída ao longo de mais de duas décadas. O grupo se consolidou como um dos projetos mais consistentes do metal moderno, com uma base de fãs fiel em todo o mundo e uma relação histórica com o público brasileiro. A apresentação acontece poucas semanas após o lançamento de Engines of Demolition, novo álbum de estúdio da banda, previsto para 27 de março. O disco marca o primeiro trabalho inédito do grupo em alguns anos e reúne músicas escritas ao longo de diferentes períodos de turnê. Segundo Wylde, o tempo maior entre gravações acabou permitindo que ele continuasse desenvolvendo riffs e ideias até chegar a um resultado que o deixou plenamente satisfeito. A trajetória de Zakk Wylde também ajuda a explicar o peso do nome Black Label Society no cenário do rock. O guitarrista ganhou projeção mundial ao integrar a banda de Ozzy Osbourne no fim dos anos 1980, participando de discos clássicos e se tornando um dos músicos mais associados ao vocalista. Ao longo da carreira, Wylde também se envolveu em diversos projetos paralelos, incluindo o tributo Zakk Sabbath e a atual turnê de celebração do Pantera, tocando as músicas do amigo e guitarrista Dimebag Darrell. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Zakk Wylde falou sobre o novo álbum Engines of Demolition, sua relação com o público brasileiro e as histórias envolvendo Ozzy Osbourne ao longo da carreira. Ele confirmou que o “Madman” queria gravar mais um álbum. Você está mais animado para ver o público brasileiro do palco ou para ir a uma churrascaria por aqui? Eu adoro comida brasileira, cara. Não tem como perder isso, é a melhor coisa. Acho que estamos aqui agora na estrada e mais tarde vamos acabar indo em uma churrascaria brasileira. E quando chegarmos mais ao sul provavelmente vamos fazer isso de novo. O público brasileiro é conhecido por ser um dos mais intensos do mundo. Você sente essa diferença quando toca aqui? Eu acho que sempre que tocamos na América do Sul as pessoas têm uma paixão enorme pela vida em geral. Sabe o que quero dizer? E isso acaba se refletindo no amor pela música e simplesmente no amor pela vida. Você gosta da ideia de tocar músicas novas do Black Label Society em um festival como o Bangers, onde o público é bem diverso? É uma boa forma de testar a reação das pessoas? Para mim isso realmente não faz diferença. Nós apenas subimos no palco e fazemos o nosso trabalho da melhor forma possível. Quando você vem ao Brasil, além das churrascarias, o que costuma tentar fazer fora dos shows? Na maioria das vezes não temos muito tempo livre porque geralmente é um dia de viagem, então você acaba não vendo muita coisa. Mas quando temos um dia de folga tentamos sair pela cidade, ir até a praia ou algo assim. Só relaxar, curtir um pouco e passar um bom tempo. As pessoas aqui são sempre ótimas, todo mundo é muito positivo. Falando sobre o novo álbum do Black Label Society, ele chega depois de alguns anos. O que você acha que define esse disco? Esse foi o primeiro álbum do Black Label Society em que tivemos tanto tempo entre um disco e outro. Normalmente tudo acontece muito rápido. A gente grava, os caras saem em turnê e pronto. Mas dessa vez gravamos algumas coisas, depois saímos para a celebração do Pantera, voltamos para casa, saímos de novo. Isso durou uns três anos e meio. Então eu pensei que simplesmente continuaria escrevendo. Em vez de lançar um disco e não poder sair em turnê com ele, eu só continuei compondo. No final fiquei muito feliz com o resultado. Quais são suas expectativas para a reação do público ao novo álbum? Você ainda fica nervoso antes de um lançamento? Hoje em dia não mais. No passado você sempre esperava que todo mundo gostasse, mas acho que você não pode pensar assim. Você precisa fazer o disco que ama fazer. Não importa se é a sua banda ou se é Led Zeppelin, Black Sabbath, Elton John ou Billy Joel. Você tem que fazer aquilo que te deixa feliz. Se você está satisfeito com o resultado, é isso que importa. Depois é só esperar que as pessoas embarquem na viagem com você. Muitas músicas foram escritas ao longo de vários anos. Você acha que isso deixa o álbum mais diverso? Não necessariamente. Quando tocamos músicas como Stillborn ou Suicide Messiah, que foram escritas lá atrás, elas ainda têm impacto hoje. Se uma música funciona e as pessoas gostam, não importa quando ela foi escrita. A música Name in Blood foi um dos singles escolhidos para divulgação e já é uma das minhas favoritas do Black Label Society. Existe alguma história por trás da letra? Que bacana. Bom, isso significa compromisso total com o projeto. É como quando você tem uma namorada e decide dar o próximo passo e casar. Você está comprometido com aquilo. É disso que Name in Blood fala. Esse é seu momento romântico então? Com certeza, cara. Com certeza. E quando você escreve um riff, já imagina como ele vai soar ao vivo? Não, nunca penso nisso. Tudo começa com o riff, principalmente nas músicas mais pesadas. Se o riff está naquele código de Sabbath, Zeppelin ou Deep Purple, que para mim são o Monte Rushmore dos riffs, então estamos no caminho certo. Depois disso geralmente surge a melodia e, por último, a letra. Muita gente pergunta sobre guitarras, mas quais foram suas inspirações para cantar? Meus cantores favoritos sempre foram Ozzy e Gregg Allman. Essas são provavelmente minhas duas maiores influências vocais. Mas também adoro Joe Cocker, Paul Rodgers, Elton John e Neil Young. Ainda ouço esses
Entrevista | Felipe Andreoli (Angra) – “Não é um renascimento, é um reencontro”

O ano de 2026 já está marcado como um dos mais importantes na cronologia do metal brasileiro. Após 19 anos de espera, o Angra confirmou o que muitos julgavam impossível: o reencontro da icônica formação “Nova Era”. Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester dividirão o palco novamente para celebrar os 25 anos de Rebirth, o álbum que não apenas salvou a banda em um momento de incertezas, mas redefiniu o power metal mundial no início dos anos 2000. O reencontro terá dois capítulos monumentais. O primeiro acontece no domingo, 26 de abril, como um dos grandes headliners do Bangers Open Air, no Memorial da América Latina. O segundo, um sideshow estendido e exclusivo, será realizado no Espaço Unimed, no dia 29 de abril. Esta apresentação em São Paulo promete ser ainda mais imersiva, com a execução na íntegra do disco Rebirth e um setlist que abraça todas as fases do grupo, contando inclusive com a participação dos atuais integrantes, Alírio Netto, Marcelo Barbosa e Bruno Valverde, em um verdadeiro “encontro de eras”. Para entender os bastidores dessa união, o Blog n’ Roll conversou com o baixista Felipe Andreoli. No papo, ele revela como está o clima entre os músicos, a responsabilidade de revisitar clássicos com a maturidade de hoje e o que esperar dessas apresentações que prometem ser únicas. Como foi o primeiro contato entre vocês cinco (Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Aquiles Priester e você) para selar esse reencontro após quase 20 anos? Na verdade, o reencontro físico dos cinco ainda não aconteceu, vai rolar na semana do festival, quando vamos ensaiar. Mas temos nos falado muito para combinar tudo. Foi um processo muito tranquilo. Sinto que todos compartilham o sentimento de que isso é legal e bom para todo mundo. Esse projeto coloca no passado qualquer problema que tenhamos tido. Vejo todos muito a fim de que dê certo e de que a gente saia de lá com uma sensação boa. Como anfitriões, nós do Angra puxamos a responsabilidade de criar esse ambiente seguro e confortável para que todos tenham suas necessidades atendidas. O Rebirth foi o álbum que te introduziu ao Angra. Qual é o sentimento pessoal de, hoje como um pilar da banda, revisitar esse repertório com os companheiros que dividiram aquele “renascimento” com você em 2001? É sempre muito legal, porque essa época foi de muita transformação, aprendizado e crescimento na minha vida. Fizemos o Rebirth na íntegra em 2022, na volta da pandemia, e foi incrível. Nunca tínhamos tocado o disco inteiro antes, Visions Prelude, que encerra o álbum, jamais tinha sido tocada ao vivo. Mas acho que será ainda mais especial com os membros originais. O Aquiles saiu em 2007 e o Edu em 2012; já faz 19 anos que os cinco não sobem juntos ao palco. Vai ser muito significativo. O show em São Paulo será a única apresentação dessa formação fora do festival Bangers Open Air. O que o público pode esperar de diferente no setlist do Espaço Unimed em comparação ao festival? O repertório foi muito bem pensado para contemplar toda a carreira da banda e comemorar os 35 anos do Angra. É um ano emblemático: são 25 anos de Rebirth, 30 de Holy Land e 35 da banda. O show do Espaço Unimed terá o Rebirth na íntegra, algo que não acontece no festival, mas ambos vão revisitar todas as nossas fases. “Não é um renascimento, é um reencontro. Temos a flexibilidade de fazer o Angra da maneira como quisermos no momento, seja com os caras ou sem eles.” Além de tocar, quais shows você está mais ansioso para assistir no Bangers Open Air? Quero muito ver o Nevermore com a formação nova. Também quero ver Fear Factory e Arch Enemy. O Nevermore é especial porque os vi há mais de 20 anos, em 2000, quando eles vieram a um festival e eu nem conhecia a banda direito. É como se eu não tivesse visto de verdade, então estou bem ansioso por eles. Tocar o repertório do Rebirth hoje, com a maturidade que você adquiriu, muda a forma como você interpreta aquelas linhas que gravou quando era mais jovem? Não sou fã de mudar o que fiz no passado. Aquilo era o que eu tinha para oferecer na época e quero respeitar quem eu era. Não curto essa coisa “egóica” de querer refazer só porque hoje toco melhor. É claro que, 25 anos depois, o timbre muda, tem novas manias e pegadas, mas o corpo da obra tem que ser executado da maneira que os fãs lembram. Se eu fosse compor hoje, faria diferente, mas ao tocar o que já está gravado, tento respeitar o disco. >> LEIA TAMBÉM ENTREVISTA COM O BATERISTA BRUNO VALVERDE Você e o Rafael Bittencourt são o “núcleo duro” da banda. Qual é o segredo para manter a essência viva após tantas trocas? É muito natural. Eu estou na banda há 25 anos e o Rafa há 35. O que a gente faz é o Angra. Não precisamos de esforço para isso. É divertido porque temos a liberdade de moldar essa essência de acordo com o que vivemos. Do Holy Land para o Fireworks a formação era a mesma, mas os discos são totalmente diferentes. A essência está lá porque é o que nós somos. Para fechar, quais os três álbuns que mais te influenciaram na carreira? SERVIÇO: ANGRA EM SÃO PAULO 1. Bangers Open Air 2026 Angra Reunion: headliner do dia 26 de abril (domingo) Local: Memorial da América Latina – SP Destaques do dia: Within Temptation, Smith/Kotzen, Winger e Nevermore. Ingressos: Clube do Ingresso 2. Sideshow: Angra Reunion (Rebirth) Data: 29 de abril de 2026 (quarta-feira) Local: Espaço Unimed (Rua Tagipuru, 795) Horários: Portões às 19h | Show às 21h Ingressos: Clube do Ingresso
Entrevista | Pennywise – “Muitas pessoas usam Bro Hymn em funerais e nem precisa ser punk para se conectar com ela”

A edição de 2026 da We Are One Tour chega à América do Sul com o Pennywise como um de seus grandes protagonistas. Referência absoluta do skate punk e do hardcore melódico desde os anos 1990, a banda californiana lidera a turnê ao lado do Millencolin e Mute em uma sequência de shows que passa por cinco cidades brasileiras após iniciar a rota em Santiago e Buenos Aires. Em São Paulo, a procura foi tão grande que a primeira apresentação esgotou em apenas três dias, levando ao anúncio de uma data extra na Audio, no dia 31 de março. O line-up ainda conta com a banda paulistana The Mönic na abertura. O Pennywise ainda retorna em maio para o Porão do Rock em Brasília. Formado em 1988 em Hermosa Beach, na Califórnia, o Pennywise se consolidou como uma das forças do skate punk nos anos 1990, ao lado de nomes como Bad Religion, NOFX e The Offspring. Com riffs rápidos, refrões feitos para o coro coletivo e letras que misturam atitude positiva e crítica social, o grupo construiu uma carreira de mais de três décadas. A formação atual reúne Jim Lindberg (vocal), Fletcher Dragge (guitarra), Byron McMackin (bateria) e Randy Bradbury (baixo). Antes da passagem pelo país, o guitarrista Fletcher Dragge conversou com o Blog n’ Roll sobre a evolução do Pennywise desde os primeiros shows em festas de quintal na Califórnia, comentou o peso político do clássico “Fuck Authority” no atual cenário dos Estados Unidos e relembrou o impacto de “Bro Hymn”, homenagem ao baixista Jason Thirsk que se transformou em um dos maiores hinos do punk. A entrevista encerra a série especial do Blog n’ Roll com os headliners da We Are One Tour 2026. Anteriormente falamos com o Mute e o Millencolin. Pennywise tem mais de três décadas de história. Como você vê a evolução da banda de Hermosa Beach para palcos ao redor do mundo? Uau! Sim, muita história. Obviamente começamos em Hermosa Beach, uma pequena cidade da Califórnia. Surfávamos, nadávamos e o punk rock chegou por volta de 1979, 1980. Tínhamos bandas como Black Flag, Red Cross, Descendents e Circle Jerks tocando na nossa cidade, muitas vezes em festas de quintal. Crescer vendo essas bandas nos primeiros anos da nossa adolescência foi muito legal. Quando começamos o Pennywise, também tocávamos em festas de quintal. Depois fomos tocar no Arizona, depois em Tijuana. Ai lançamos nosso disco e alguém disse para irmos para a Europa. Então fomos para a Europa, depois para a Austrália e para a América do Sul. Foi tudo muito rápido, né? Foi louco perceber que nossa música estava indo para fora de Los Angeles. Quando começamos a ver fãs em lugares como Brasil, América do Sul, Austrália, Europa e Japão, graças à Epitaph Records e a bandas como Bad Religion abrindo caminho, foi surreal. Pensar que alguém no Brasil estava ouvindo um disco do Pennywise e dizendo “vocês precisam vir tocar aqui”. Demorou muito tempo para chegarmos ao Brasil, e eu nunca fiquei feliz com essa demora. Sempre havia planos, mas a vida acontecia. Quando finalmente fomos, foi incrível. As pessoas sabiam todas as letras, estavam enlouquecidas. Isso mostra o quanto a música é poderosa. É, o Brasil é muito intenso nos shows… Exatamente. E eu sempre falo que às vezes você pergunta a um garoto qual é sua banda favorita e ele responde Slayer. Aí você pergunta quem é o vice-presidente dos Estados Unidos e ele não sabe. Muitas vezes a música é mais importante para os jovens do que política ou escola. As bandas se tornam parte da identidade deles. Então ter influência no mundo todo, inclusive no Brasil, e ouvir pessoas dizendo que a música ajudou em momentos difíceis da vida, é algo enorme. Quando alguém diz que estava passando por um momento muito duro e que um disco do Pennywise ajudou a seguir em frente, isso é uma evolução gigantesca para nós como músicos. É uma honra saber que pessoas em todo o mundo se conectam com o que fazemos. Vocês sempre trouxeram política para a música. Como é ter o hino “Fuck Authority” em um cenário atual de tendências autoritárias nos Estados Unidos? É incrível, porque você pode subir ao palco e dizer “foda-se essa administração, foda-se Trump, foda-se o ICE” e tocar “Fuck Authority”. O público sabe exatamente o que fazer. Essa música foi escrita sobre um sistema policial abusivo em Los Angeles que estava envolvido em corrupção, assassinatos e tráfico de drogas. Quando isso veio à tona, foi a inspiração para a música. Todos ajudaram a escrever, mas a ideia começou ali. No fim das contas, todos têm alguém abusando de autoridade. Pode ser polícia, pais, professores ou governo. Muitas pessoas usam o poder que têm para explorar os outros, e é disso que a música fala. Agora, com o que está acontecendo nos Estados Unidos, a música parece ainda mais relevante. É como “Killing in the Name”, do Rage Against the Machine. Essas músicas continuam importantes porque sempre haverá pessoas lutando contra abuso de poder. Realmente é muito atual, minha irmã também mora na Califórnia e ela está bem preocupada com a atuação do ICE. Olha, eles falam sobre pegar criminosos e estupradores e toda essa merda. Primeiro de tudo, nem todos são criminosos e nem todos são estupradores. É assim que o Trump tenta classificar todo mundo e isso é besteira. Ninguém vai reclamar se você pegar criminosos. Mas quando você pega o cara que trabalha na construção, o cara que trabalha no restaurante, as mulheres que trabalham em hotéis ou os caras que trabalham no campo, aí estamos falando de pessoas muito trabalhadoras. Eu cresci na construção civil e metade dos trabalhadores comigo eram indocumentados. E eles eram as melhores pessoas: ótimos pais de família, pessoas muito honestas. São trabalhadores muito fortes. Atacar essas pessoas na rua é doentio. É simplesmente doentio. É fascista. Se você vier na minha casa, bater na minha porta usando máscara e sem identificação, vai ter
Entrevista | Kadavar – “Eu só quero ser um som. Não quero ser um personagem público. Prefiro apenas ser um som”

O Kadavar retorna ao Brasil neste mês trazendo no setlist seus dois últimos álbuns lançados no ano passado. Será show único no país, dia 21, no Carioca Club em São Paulo. A realização é da Agência Sobcontrole. Os ingressos estão à venda no Clube do Ingresso. Formada em Berlim em 2010, a banda alemã construiu uma trajetória marcada pelo resgate da estética do rock setentista, combinando riffs pesados, psicodelia e uma abordagem fortemente inspirada na gravação analógica. Com o passar dos anos, porém, o grupo ampliou seu alcance sonoro, incorporando novas texturas e explorando caminhos mais experimentais dentro do rock. Ao longo de mais de uma década de carreira, o Kadavar passou de uma promessa da cena stoner e retrô para um nome consolidado no circuito internacional. Álbuns como Abra Kadavar e Berlin ajudaram a definir a identidade inicial da banda, enquanto trabalhos mais recentes mostram um grupo disposto a expandir suas referências e testar novas direções criativas. Essa evolução também aparece no palco, onde o quarteto costuma equilibrar peso, psicodelia e longas improvisações. Em conversa com o Blog n’ Roll, o guitarrista Jascha Kreft e o baixista Simon Bouteloup falaram sobre o processo que levou à criação de dois discos em sequência, a origem da frase “I Just Want To Be A Sound” e a relação da banda com redes sociais e algoritmos. Acaba de completar quatro meses desde o lançamento do último álbum. Como foi a recepção do público até agora? Foi a reação que vocês esperavam enquanto gravavam o álbum? JASCHA KREFT: Nós estávamos em uma situação muito oportuna de trazer esse álbum com a gente em uma turnê antes do seu verdadeiro lançamento. Tocamos muitas músicas ao vivo, então foi muito legal experimentá-las dessa forma e ver as pessoas segurando o álbum nas mãos antes mesmo de ele estar oficialmente disponível. E eu acho que o público também ficou feliz em levar para casa algo que ainda não estava disponível nos serviços de streaming. Quando vocês perceberam que tinham material suficiente para dois discos diferentes? E por que decidiram lançar separadamente em vez de fazer um álbum duplo? JASCHA KREFT: Nós terminamos o álbum I Just Want To Be A Sound, que levou bastante tempo. Acho que algo como um ano e meio, ou dois anos, trabalhando nela quase constantemente. Depois disso, a máquina da criatividade começou a funcionar e sentimos vontade de continuar. Estávamos em um momento em que ainda havia algumas músicas que sobraram das sessões de I Just Want To Be A Sound. Ao mesmo tempo, continuávamos gravando por conta própria e ficamos surpresos com o quão fluido o processo estava. Então chegamos a um ponto em que percebemos que estávamos praticamente terminando outro álbum. Também tivemos a sorte de ter o apoio do nosso selo para fazer algo assim, o que nem sempre é comum. Eu estou aqui com o autor da frase “I Just Want To Be A Sound”. Essa frase é muito poderosa. Quando ela surgiu e quando você percebeu que poderia virar o título de um álbum? SIMON BOUTELOUP: Acho que essa frase apareceu cerca de dez anos atrás. Um antigo baterista me perguntou por que eu não estava nas redes sociais. E ainda não estou. Eu disse a ele diretamente que, se pudesse escolher, preferiria não estar. Eu só quero ser um som. Não quero ser um personagem público. Prefiro apenas ser um som. Então foi assim que surgiu. Durante o processo do álbum, ela apareceu novamente e naquele momento simplesmente ressoou com todos nós e com o que queríamos fazer com o disco. Ela apareceu dessa forma e todos concordamos com a ideia de que primeiro seria uma música e depois um tema para o álbum. Tem uma frase parecida do Jaron Lanier, que trabalha na Microsoft. Ele disse: “Eu evito as redes sociais assim como evito as drogas”. SIMON BOUTELOUP: Essa é boa. Sim, é verdade. Também pode ser muito viciante. Hoje muitos artistas pensam primeiro em singles e playlists antes de pensar em um álbum. Para vocês, o formato do álbum ainda é essencial para contar uma história? JASCHA KREFT: Definitivamente. Eu acho que escolher qual música será um single ou não é algo secundário. Primeiro existe o álbum, e tudo vem depois. Para nós isso é algo muito natural. Também não fazemos edições de singles para aumentar as chances de entrar em playlists. A maioria dos nossos singles ainda tem quatro minutos ou mais. E, na maioria das vezes, os algoritmos não gostam muito disso. A banda começou muito associada ao revival do rock dos anos 70. Em que momento vocês perceberam que precisavam ir além dessa identidade? JASCHA KREFT: Eu não acho que precisávamos necessariamente ir além disso. A banda também poderia ter continuado fazendo isso e alguns fãs ficariam felizes. Talvez outros fãs também gostassem de ouvir o mesmo álbum repetidamente. Falando sobre o público de rock, ele costuma reagir muito quando uma banda muda de som. Como foi lidar com a recepção de fãs mais conservadores durante essa evolução? JASCHA KREFT: Acho que sempre estivemos muito conscientes de que isso poderia acontecer e de que alguns fãs mais conservadores talvez não gostassem. E acho que isso também é completamente normal. Obviamente você acaba vendo algumas reações ou comentários. Mas eu acho que não há razão para ser rude ou muito agressivo. Às vezes isso acontece, mas faz parte. A última visita da banda ao Brasil foi em 2018. Nessa nova turnê, o setlist vai misturar material clássico com músicas recentes, certo? Vocês podem dar algum spoiler sobre o que os fãs brasileiros podem esperar? SIMON BOUTELOUP: Nós sempre tentamos incorporar todos as fases da banda no setlist, especialmente quando temos tempo para isso. Em um show completo você consegue desenvolver um pouco mais toda a discografia. Com certeza vamos tocar algumas músicas novas, talvez cinco ou seis, mas também as antigas e algumas coisas mais psicodélicas. JASCHA KREFT: Também temos uma versão de 15 minutos de Purple Sage, que fecha o
Entrevista | Story of The Year – “O mais legal é ver os fãs crescendo junto conosco. Essa é uma das coisas mágicas da música”

Duas décadas depois de se firmar como um dos nomes mais marcantes do post-hardcore dos anos 2000, o Story of the Year segue ativo e conectado com sua base de fãs. A banda voltou ao radar do público brasileiro após a passagem pelo país em 2025, quando realizou dois shows em menos de 24 horas em São Paulo: Tokio Marine Hall e I Wanna Be Tour no Allianz Parque. A recepção intensa do público reforçou a relação histórica com os fãs brasileiros. Esse novo momento também acompanha o lançamento de A.R.S.O.N. (All Rage Still Only Numb), álbum que mantém a identidade sonora do Story of the Year ao mesmo tempo em que aprofunda temas como frustração, desgaste emocional e autoconhecimento. O disco marca novamente a parceria com o produtor Colin Brittain, atual baterista do Linkin Park, que já havia trabalhado com a banda no álbum anterior. Entre os primeiros cartões de visita do novo trabalho estão os singles Gasoline e Disconnected, músicas que apresentam o peso, a urgência e o lado emocional que definem a sonoridade da banda. Em entrevista ao Blog n’ Roll, o vocalista Dan Marsala e o guitarrista Ryan Phillips falaram sobre o processo criativo do novo álbum do Story of the Year, a relação da banda com o próprio legado e deixam claro que não devem retornar ao Brasil tão cedo. Qual é a história por trás de A.R.S.O.N. e o que esse título significa para o Story Of The Year? DAN MARSALA: O título surgiu a partir de uma linha da música Gasoline, que abre o álbum. Eu canto “here for the arson” e aquilo ficou na cabeça da gente. Como acontece na maioria das vezes com o Story of the Year, nós só decidimos o nome do disco no final. Primeiro olhamos para a coleção de músicas e tentamos entender qual é a sensação geral daquele conjunto. A palavra ARSON parecia forte e estava muito presente naquele momento. Então voltamos um passo e pensamos no que o acrônimo poderia significar. As palavras Rage e Numb apareceram logo de cara e fizeram muito sentido para todos nós. No fim chegamos a “All Rage Still Only Numb”. Isso resume bem o sentimento do álbum. Existe muita raiva ali, muitas letras introspectivas, sombrias e um pouco caóticas. Pareceu o nome certo para o disco. O disco parece mais intenso e direto em muitos momentos. Essa agressividade foi uma decisão consciente ou algo que aconteceu naturalmente durante a composição? DAN MARSALA: Não houve muito planejamento. A gente simplesmente entra em uma sala, começa a tocar e tenta fazer músicas que realmente gostamos. O objetivo sempre é criar algo que nos empolgue de verdade. Quando percebemos, as músicas já estão tomando forma e seguimos esse caminho. RYAN PHILLIPS: Honestamente, quase nada nesse disco foi planejado. Eu parei de tentar forçar a barra quando estou escrevendo. Não fico pensando “hoje vou fazer uma música pesada” ou “vou escrever algo mais rápido ou mais lento”. Eu simplesmente sento, toco e deixo as ideias fluírem. Quando chega a hora de escrever as letras, o processo é parecido. Foi um fluxo muito natural. As músicas se tornaram o que deveriam ser. Não foi uma decisão consciente de deixar o disco mais agressivo. Foi simplesmente o que saiu da gente naquele momento. No início da carreira vocês falavam muito com adolescentes. Hoje as letras abordam temas da vida adulta, família e responsabilidades. Como foi envelhecer junto com o público? DAN MARSALA: Isso aconteceu de forma muito natural. Nós ficamos mais velhos e nossos fãs também cresceram com a gente. Você escreve sobre aquilo que conhece e sobre o que é pessoal naquele momento da sua vida. Então as letras acabam refletindo isso. O mais legal é ver os fãs crescendo junto conosco. Muitos deles agora têm filhos e levam as crianças para os shows. Nós meio que crescemos juntos. Essa é uma das coisas mágicas da música. RYAN PHILLIPS: Seria muito estranho se ainda estivéssemos escrevendo do ponto de vista de um adolescente (risos). Nós fazemos arte e ela precisa vir de um lugar autêntico. Hoje estamos em um momento completamente diferente da vida. Também é curioso perceber como as letras mudam de significado com o tempo. Às vezes escuto músicas que escrevemos há 20 anos e elas me atingem de uma forma totalmente diferente, quase como se fosse outra banda. Nós mudamos como pessoas e como banda. E é muito legal encontrar fãs que dizem que escutam a banda desde a escola, que se casaram ouvindo nossas músicas ou que tocaram Story of the Year no casamento. Poder fazer isso por tanto tempo é muito especial. Já que vocês falaram sobre autenticidade, a música 3AM aborda temas bem íntimos. Como a vida na estrada, conciliando com família e filhos, impactou essa composição? DAN MARSALA: Acho que, coletivamente, essa é uma das nossas músicas favoritas do disco, principalmente pelas letras. Esse tema é muito real para nós. Eu, o Ryan e o Josh temos filhos e famílias em casa. Sair em turnê por um mês para tocar música é incrível, porque temos a sorte de viver disso, mas ao mesmo tempo é muito difícil deixar os filhos e a família. 3AM nasceu muito dessa sensação. É uma música muito pessoal e provavelmente uma das minhas preferidas do álbum. RYAN PHILLIPS: Para mim também é a melhor música do disco, principalmente por causa da letra. Elas realmente me impactam. Eu sinto algo forte sempre que escuto essa faixa. DAN MARSALA: Nós já tentamos escrever músicas sobre esse tema antes, mas por algum motivo 3AM conseguiu capturar exatamente essa sensação. Existe uma mistura de felicidade, saudade e peso emocional. Essa estranheza caótica de estar feliz com o que faz, mas ao mesmo tempo sentir o peso da distância. Acho que essa música traduz muito bem isso. Relembre aqui a entrevista com o Story of The Year antes da vinda ao Brasil Hoje alguns artistas já não priorizam o YouTube como principal plataforma de lançamento. A
Entrevista | Jayler – “Não esperávamos nada assim por anos”

Poucas bandas conseguem transformar um projeto escolar em uma turnê internacional em apenas três anos, mas o Jayler parece ter pressa. Formado no Reino Unido em 2022, o quarteto chega ao Brasil em abril de 2026 para uma estreia que muitos veteranos levariam décadas para conquistar. O que começou como uma parceria em um open mic agora cruza o oceano para encarar o fanatismo do público brasileiro em três apresentações que prometem ser históricas. A jornada em solo brasileiro começa no dia 2 de abril, em São Paulo, com um show completo na Audio ao lado do Dirty Honey. A prova de fogo, no entanto, acontece no dia 4, quando a banda sobe ao palco do Allianz Parque como uma das atrações do Monsters of Rock. Dividindo o lineup com gigantes como Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd e Extreme, o Jayler terá a chance de mostrar para milhares de pessoas a “energia setentista” que se tornou sua marca registrada. Para encerrar a passagem com chave de ouro, o grupo desce para o Rio de Janeiro no dia 5 de abril. No palco do Qualistage, eles reencontram o Dirty Honey e se juntam às lendas do southern rock, o Lynyrd Skynyrd. Essa sequência de shows não é apenas uma turnê, mas a validação de uma banda que soube usar as redes sociais para criar uma conexão profunda com os fãs brasileiros muito antes de pisar no país. Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, os integrantes James Bartholomew (vocal/guitarra), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ed Evans (baixo) e Ricky Hodgkiss (bateria) revelaram que a surpresa com o convite foi proporcional à empolgação. “Não esperávamos nada assim por anos”, confessa Tyler, lembrando que, até pouco tempo atrás, o grupo ainda se apresentava em pequenos pubs britânicos equilibrando covers e composições autorais. Além da expectativa para os shows, o grupo vive o momento fértil que precede o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Voices Unheard, previsto para o dia 29 de maio. O título do disco é um tributo à própria base de fãs, que eles carinhosamente chamam de “The Voices”, e reforça a filosofia de “paz, amor e união” que a banda tenta resgatar das décadas de 60 e 70 para os dias atuais. Confira abaixo o bate-papo completo sobre essa nova fase. Muitas bandas levam anos para alcançar oportunidades internacionais, e essa turnê brasileira é um salto enorme na carreira de vocês. Como é para uma banda que começou no Reino Unido cruzar o oceano para tocar em estádios brasileiros com nomes como Guns N’ Roses e Extreme? TYLER ARROWSMITH: Cara, é insano. Desde agosto ou setembro do ano passado, começamos a notar todos aqueles comentários de “come to Brazil” e vimos os números subindo por aí. Pensamos: “Meu Deus, esse público brasileiro é fantástico!”, mas é tão difícil conseguir um show no Brasil. Não esperávamos nada assim por anos. Pois é, não tão cedo. TYLER ARROWSMITH: Sim, nem de longe tão cedo! Mas quando recebemos a ligação no final do ano passado falando sobre o Monsters of Rock, o Audio Club e o Qualistage no Rio, o show com o Lynyrd Skynyrd, foi tipo: “Meu Deus!”. Além de estarmos empolgados com os shows, estamos muito felizes por tocar para essa base de fãs brasileira que já está nos apoiando. Como foi a transição de um projeto escolar para uma banda profissional? Em que momento vocês perceberam que o Jayler não era mais apenas um hobby, mas uma carreira de verdade? JAMES BARTHOLOMEW: Acho que foi na turnê com a Kira Mac. O Ricky tinha acabado de entrar e nos ofereceram nossa primeira turnê pelo Reino Unido. Topamos e, naquele período de duas semanas na estrada, pensamos: “É isso”. Foi o meu momento de “é isso que eu quero fazer”. Antes eu sentia que o Jayler poderia chegar em algum lugar, mas a turnê confirmou. TYLER ARROWSMITH: Mas não houve um corte claro; há pouco mais de um ano ainda tocávamos em pubs. Fomos introduzindo nossas músicas autorais aos poucos. Não teve um dia em que dissemos: “Hoje deixamos de ser uma banda de covers de pub para ser profissionais”. Usamos “profissionais” entre aspas, sabe? O que é ser profissional? A gente só toca nossa música. Foi algo que aconteceu com o tempo. O Reino Unido tem uma história lendária de exportar as maiores bandas de rock do mundo. Não contem aos americanos, mas prefiro as bandas britânicas! Como vocês veem a cena atual e vocês se sentem parte de um movimento de “revival” do rock clássico? JAMES BARTHOLOMEW: Tem algumas bandas por aí. A maior no momento provavelmente é o Greta Van Fleet; eles estão fazendo o que nós fazemos, de certa forma. Eles chegaram primeiro nesse “revival”. TYLER ARROWSMITH: Eles sofreram muito preconceito e críticas, o que é uma pena, porque as mesmas pessoas que dizem “tragam o rock clássico de volta” são as que atacam as bandas novas. JAMES BARTHOLOMEW: Também tem o Dirty Honey, com quem vamos dividir o palco no Brasil, o que vai ser incrível. A gente busca aquele movimento de paz, amor e união do final dos anos 60 e início dos 70. Temos músicas pesadas, mas também acústicas e suaves. Não é só “rock and roll agressivo” o tempo todo; temos seções onde realmente nos conectamos com a mensagem. Os críticos sempre destacam a energia de vocês. Quais bandas daquela década mais influenciaram o jeito que vocês tocam e compõem? JAMES BARTHOLOMEW: Tem as óbvias: Led Zeppelin, Deep Purple, The Who. Para composição, eu gravo muito em Bob Dylan e John Denver. Para performance de palco, Queen é uma influência enorme. ED EVANS: Eu e o Rick nos conectamos primeiro através do Jimi Hendrix, antes mesmo de conhecermos o Tyler e o James. Então é uma variedade bem ampla. Toda banda nova luta contra comparações. O que vocês acreditam que o Jayler traz de diferente para esse universo do rock clássico? JAMES BARTHOLOMEW: Verdade, eu acho. Não é apenas o som. Existe um