Entrevista | Gogol Bordello – “Esse álbum é a minha vingança pós-punk contra mim mesmo”

O Gogol Bordello lançou, na última sexta-feira (13), o álbum We Mean It, Man!, um trabalho que reafirma a identidade combativa e multicultural da banda formada em Nova York no fim dos anos 1990. O disco amplia a sonoridade do grupo ao mergulhar ainda mais em sintetizadores, camadas eletrônicas e influências pós-punk, sem abandonar as raízes ciganas, latinas e do hardcore que consolidaram o chamado gypsy punk. O álbum carrega senso de urgência e posicionamento político, mas também mantém o espírito festivo que transformou o Gogol Bordello em uma das bandas mais intensas ao vivo da cena alternativa. A produção aposta em texturas mais eletrônicas e uma abordagem moderna, reforçando a ideia de que o grupo nunca foi preso a um purismo acústico, mas sempre dialogou com tecnologia, experimentação e cultura urbana global. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Eugene Hütz, vocalista do Gogol Bordello, falou sobre o simbolismo do lançamento do álbum e do selo, a proposta sonora mais eletrônica do novo álbum e a relação histórica e afetiva da banda com o Brasil. O álbum foi lançado na sexta-feira 13. A data teve algum simbolismo especial para a banda ou foi coincidência? Eu não acho que existia nenhum simbolismo antes. Mas agora existe. Porque não foi apenas o lançamento de um álbum. Nós também começamos nosso próprio selo. Então essa data virou o nascimento oficial do nosso selo e das bandas que fazem parte dele, como Puzzled Panther, Greatest Berger, Pons e nós. Eu estou produzindo várias bandas de Nova York agora. Então, a partir deste momento, essa data se tornou simbólica. Como você descreveria a essência desse novo álbum? É a minha vingança pós-punk contra mim mesmo. Algumas pessoas passaram a enxergar o Gogol Bordello como uma banda que cortou ligações com o resto do mundo musical, como se fôssemos anti-tecnologia ou neo-primitivistas. Isso nunca foi verdade. Antes mesmo da banda, eu já tocava com sintetizadores e experimentava com sons eletrônicos. Sempre usamos eletrônicos. Até Immigrant Punk é totalmente programada com loops e samples. Esse álbum deixa isso claro. É post-punk, post-hardcore, com mais sintetizadores. É sobre avançar, não sobre voltar para a montanha com um violão. Quando ouço o disco, sinto uma grande fusão entre punk, eletrônico e ritmos globais. É isso. Exatamente. Fusão é a palavra. Existe uma faixa que represente melhor o espírito do álbum? São as 11 faixas. Se alguma não representasse, não estaria no álbum. Eu não conseguiria eliminar nada. Há muita vida ali, muitas influências de Nova York, de Manchester psicodélica, da música cigana e da América Latina. Temos integrantes latino-americanos na banda, inclusive um baixista de Minas Gerais, Gil Alexandre, que, aliás, é especialista em cachaça. E quais foram as selecionadas para entrar no setlist dos shows? Todas. Fizemos uma grande turnê na Europa tocando basicamente o álbum inteiro. É raro quando músicas novas se tornam imediatamente destaques do show. Mas está acontecendo. O clima político e social atual dos Estados Unidos influenciou o álbum? Por que limitar aos Estados Unidos? O mundo inteiro está perdendo a cabeça. O ponto central é a perda do pensamento crítico. O pensamento crítico era essencial para o punk rock. Hoje, muita gente faz qualquer coisa por seguidores e publicidade e chama isso de punk. Isso não é punk. O espírito original era quase o oposto disso. Há planos para trazer essa nova turnê ao Brasil? Esperamos que sim. Eu amo o Brasil. É um dos meus lugares favoritos no mundo. Pessoas incríveis, cultura incrível. Passei muito tempo aí e penso nisso todos os dias. O que faz o Brasil diferente de outros lugares? No Brasil as pessoas, na maior parte do tempo, estão de bom humor. Em outros lugares, você precisa quase levantar peso para sentir essa energia, como se tivesse que puxar as pessoas pelo cabelo. Eu amo a cultura do Nordeste. Já estive no Carnaval em Recife e Olinda várias vezes. Me aproximei quase como um antropólogo cultural. Qual foi o show mais marcante da banda no Brasil? Acho que foi o Lollapalooza em São Paulo, com Gogol Bordello. Foi um momento muito forte para a banda. Mas eu também vivi muitas experiências especiais no Brasil fora dos nossos próprios shows. Durante o Carnaval, fiz participações com Mundo Livre, DJ Dolores, Nação Zumbi e uma Orquestra de Frevo. Toquei e convivi com Seu Jorge, Otto e Lenine. Com Lenine, fizemos inclusive uma apresentação longa no Rock in Rio, algo como 30 minutos juntos, com músicos ciganos do Rio de Janeiro. Também toquei como DJ em cidades como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Tenho amigos aí, como o pessoal do Comunidade Ninjitsu, especialmente o Freddy Chernobyl. Então é difícil escolher um único momento, porque minha relação com o Brasil vai muito além de um show específico. Álbum novo e independência com o selo. Como você enxerga o futuro do Gogol Bordello? Você planeja um tempo para lançar um trabalho novo? Nós agora existimos no nosso próprio tempo. Não temos uma grande gravadora dizendo quando lançar algo. Às vezes um álbum vem em um ano e meio, às vezes leva três anos. Não dependemos do ciclo da indústria. Claro que quando saímos em turnê existe um ciclo, mas temos liberdade. Há muito trabalho envolvido, mas estamos acostumados. Além do Gogol Bordello, eu tenho outra banda chamada Puzzle Panther, com o Brian Chase, do Yeah Yeah Yeahs, e músicos mais jovens de Nova York que estão começando a deixar sua marca. É uma formação diferente, mais voltada para um dance punk psicodélico. O Brian e eu nos conhecemos antes de existir Yeah Yeah Yeahs, antes de existir Gogol Bordello, antes de existir Interpol, The Strokes, Liars. Era só um grupo de pessoas fumando e bebendo juntas, imaginando que um dia começariam bandas. E então, entre 1999 e 2000, todas essas bandas explodiram. Depois disso, a gente só se via em festivais, no catering, uma vez a cada cinco anos. Agora está tudo um pouco mais organizado. Todo mundo tem a própria vida

Entrevista | The Hives – “Ouvir AC/DC é uma experiência formativa”

O The Hives está no Brasil como banda de abertura dos shows do My Chemical Romance, acompanhando a turnê que marca o retorno do grupo norte-americano aos palcos do país. Mas, não são uma simples abertura. Conhecidos pela energia explosiva ao vivo e pela postura provocadora, os suecos reforçam sua conexão com o público brasileiro em apresentações que têm atraído atenção tanto dos fãs mais antigos quanto de uma nova geração. Além da turnê, a banda vive um momento criativo celebrado pela crítica. Lançado no ano passado, The Hives Is Forever, Forever The Hives foi recebido com entusiasmo e reafirma a identidade do grupo, unindo urgência punk, riffs diretos e o humor ácido que sempre definiu sua trajetória. O disco também marca uma fase de maturidade, sem abrir mão da intensidade que transformou o The Hives em um dos nomes mais reconhecíveis do rock dos anos 2000. O Blog N’ Roll esteve ontem (4) na Casa Rockambole, em São Paulo, conversando com o The Hives sobre as principais influências que moldaram o som da banda, passando por nomes fundamentais do punk e do rock clássico, além de histórias pessoais que ajudam a entender a construção dessa identidade barulhenta, direta e sem concessões que segue ecoando nos palcos ao redor do mundo. Ramones Pelle Almqvist – Os Ramones foram muito importantes para nós. Mas, curiosamente, os Ramones que mais nos marcaram foram os do período mais tardio, como os discos lançados quando éramos jovens, tipo Mondo Bizarro e Brain Drain. Nós gostávamos muito dessa fase. Acho que nenhum de nós chegou a ver os Ramones ao vivo. Eu, pelo menos, não vi. Eles influenciaram a gente, mas talvez de uma forma ainda maior, influenciaram praticamente todas as bandas que a gente gostava. É quase uma influência de segunda mão. Eles fizeram com que o que fazemos hoje pudesse existir. Com músicas como Blitzkrieg Bop, fica claro como eles ajudaram a definir uma linguagem inteira do rock. Se fosse apenas essa música no disco, já teria sido suficiente. É um clássico absoluto. AC/DC Pelle Almqvist – Antes mesmo dos Ramones, o AC/DC foi fundamental para nós. Quando eu e o Niklas éramos crianças (Pelle, vocalista e Niklas, guitarrista são irmãos), morávamos na mesma casa e o AC/DC foi a primeira banda que gostamos por conta própria. Niklas Almqvist – A gente ouvia o que os garotos mais velhos da rua ouviam, e esse disco estava sempre tocando. Eu nem sabia os nomes das músicas, só colocava o vinil e ouvia tudo. Ouvir AC/DC é uma experiência formativa. Back in Black é um clássico absoluto e tem uma das melhores introduções da história do rock pesado. Hells Bells é icônica. Eles começam com sinos e depois você fica pensando: o que eles vão fazer depois disso? Curiosamente, Hells Bells virou a música de entrada do São Paulo Futebol Clube, porque o goleiro Rogério era um grande fã do AC/DC… Pelle Almqvist – Também é tema de vários eventos esportivos. Sempre que começa, dá uma sensação de boas notícias. Você mora em Santos, mas torce para o São Paulo? Não dá problema? De jeito nenhum, é bem comum (risos). Agora falem um pouco sobre outra lenda punk, os Misfits Pelle Almqvist – Misfits é sempre complicado, porque existem muitas fases e muitos discos diferentes. Eu acabo ouvindo mais as coletâneas. Tem músicas incríveis como Attitude, Bullet e Some Kind of Hate. Essa última é uma das minhas favoritas. Ela lembra Teenage Kicks, mas mais suja, mais agressiva. Eles foram uma influência enorme para nós. Com certeza estão no nosso top 5 de bandas punk, talvez top 3, talvez até top 1. É uma música feita “errada” em muitos aspectos técnicos, mas ainda assim é a melhor música já gravada. Isso é o punk em sua essência. Mantendo o punk, vamos falar sobre Dead Kennedys Pelle Almqvist – Somos muito influenciados pelo Dead Kennedys, especialmente no primeiro álbum do The Hives, Barely Legal. Há muita coisa de guitarra inspirada neles. Sempre adoramos a guitarra do East Bay Ray. Eles são uma banda incrível, ainda que um pouco irregular. Existe uma diferença grande entre as melhores e as piores músicas, mas, mesmo assim, estão entre as maiores influências punk para nós. Niklas Almqvist – Muitas dessas bandas, na verdade, eu só fui ter os discos em vinil bem mais tarde, talvez com 22 ou 25 anos. Antes disso, era tudo em fita cassete. E eu trouxe um vinil do Millencolin para representar a cena da Suécia. Como é a relação entre vocês? Pelle Almqvist – Essas bandas suecas estavam por perto quando começamos. Estávamos no mesmo selo, vinham de cidades próximas, mais ou menos uma hora de distância. Eles eram dois ou três anos mais velhos do que nós e já estavam começando a fazer sucesso. Eram uma das melhores bandas que você podia ver ao vivo na região onde crescemos. Foi a primeira banda do nosso universo a alcançar um sucesso mais mainstream. Isso foi importante, porque mostrava que era possível. Hoje em dia, somos amigos e sempre é divertido dividir o palco com eles. E qual a expectativa para os shows no Allianz? Pelle Almqvist – Nós já fizemos alguns shows em estádios na América do Sul e foi incrível. Não achamos que dessa vez será diferente. É o mesmo que quando perguntam o que as pessoas devem esperar dos nossos shows. A resposta é nada, além do melhor absoluto. Com o público brasileiro é a mesma coisa. Não esperamos nada além do melhor absoluto. E esperamos que tudo seja ainda maior.

Entrevista | Fiddlehead – “A maior influência brasileira na minha vida é Paulo Freire”

Pela primeira vez no Brasil, a Fiddlehead desembarca em São Paulo para um show único que marca a estreia de uma das bandas mais relevantes do rock alternativo contemporâneo. Formado em 2014, em Boston, pelo vocalista Patrick Flynn e o baterista Shawn Costa, ambos ex-Have Heart, o grupo construiu uma identidade própria ao misturar a urgência do hardcore com melodias do rock alternativo dos anos 1990 e a carga emocional do emo. Em álbuns como Death Is Nothing To Us, a banda ampliou ainda mais seu alcance ao unir intensidade sonora, lirismo reflexivo e referências filosóficas pouco comuns no gênero. O show acontece no domingo, 22 de fevereiro de 2026, no Fabrique Club, em São Paulo, e reúne três gerações do rock alternativo e do hardcore. Além da Fiddlehead, o evento conta com o Rival Schools, banda histórica liderada por Walter Schreifels, nome fundamental do hardcore e do pós-hardcore desde os anos 1980, e com duas representantes da cena nacional: o veterano Zander, que apresenta um repertório especial após a turnê de 15 anos do álbum Braza, e a Capote, banda santista formada em 2023 que vem chamando atenção pela fusão entre indie, emo e rock alternativo. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Patrick “Pat” Flynn fala sobre a expectativa para a estreia da Fiddlehead no Brasil, a relação artística com o Rival Schools e os temas centrais de Death Is Nothing To Us, álbum marcado por reflexões sobre vida, morte, educação e esperança. Não é sua primeira vez aqui, porém será a primeira vez da Fiddlehead no Brasil. O que esperar sobre o público brasileiro? A minha antiga banda, Have Heart, tocou no Brasil há cerca de 20 anos, e foi uma das experiências mais intensas que já tive. Tocamos no mundo inteiro, mas o Brasil foi um dos lugares mais caóticos e especiais. Havia uma sensação muito forte de amizade, o que no punk é a melhor combinação possível. Nos últimos anos, muitas pessoas começaram a comentar nas redes pedindo para a Fiddlehead vir para o Brasil. Não existe nada mais motivador do que alguém dizer “venha tocar aqui”. Finalmente conseguimos fazer isso acontecer, mesmo sendo uma banda que não toca tanto, porque todos nós temos nossas vidas fora da música. O som da Fiddlehead mistura de tudo um pouco: hardcore, post-hardcore, alternativo e emo sem soar nostálgico. Como vocês equilibram essas influências e deixam tudo com uma cara mais moderna? Nós simplesmente tentamos escrever músicas que gostamos de ouvir. Não escrevemos pensando no público, mas temos a sorte de que as pessoas se conectaram com isso. Quando você sente que tem essa permissão, fica mais fácil criar algo honesto, que reflete quem você é, tanto liricamente quanto musicalmente. Todos viemos do hardcore, mas amamos várias formas de música punk. Isso nos permite escrever sem ficar presos a um gênero ou a regras específicas. Já que vocês fazem do jeito que gostam, como funciona o processo de gravação da banda? As músicas chegam prontas ao estúdio? É um processo muito colaborativo. Alguém aparece com um riff, manda pelo celular, e se gostarmos, começamos a desenvolver juntos. É raro alguém escrever uma música inteira sozinho. Depois que a estrutura está pronta, eu levo a música comigo por um tempo, e aí fica mais fácil escrever as letras. No estúdio, todo mundo está aberto a mudar direções, desde que faça sentido para a banda. O hardcore nasceu com a força da juventude, amadureceu e mudou com o passar dos anos. O que daquela época você vê como essencial hoje? Acho que o hardcore está em um momento muito positivo. Bandas como Turnstile ajudaram a mostrar para o mundo o que o hardcore tem de melhor: criatividade, juventude e energia positiva. O foco precisa continuar sendo esse, manter o gênero útil, criativo e relevante. Vocês vão dividir o palco com o Rival Schools. Como você enxerga essa conexão entre as bandas? O Walter Schreifels é uma lenda. Toda a banda é, de alguma forma, produto do trabalho dele. Somos grandes fãs do Rival Schools, então foi uma surpresa incrível tocar com eles no ano passado. Criamos uma relação muito boa, conversamos bastante sobre música. Quando soubemos que poderíamos repetir isso na América Latina, foi ainda mais especial. Em Death Is Nothing To Us, as letras falam muito sobre morte, mas nunca de forma negativa. Como foi trabalhar essa abordagem? Existe uma frase do filósofo Cornel West que sempre me marcou: “Eu não sou um otimista, mas sou escravo da esperança”. Isso define muito como eu vejo a vida. Perder pais e amigos é algo profundamente doloroso, mas eu fiz a escolha de procurar essas pessoas na minha vida, mesmo sem a presença física delas. Essa mentalidade me ajudou a atravessar muitos momentos difíceis e chegar a um lugar de felicidade real. Já que você mencionou a filosofia, referências como Lucrécio e Jean Améry são incomuns no hardcore. Como isso entra na sua escrita? Eu sou professor de História e filho de um professor de poesia. Cresci cercado por palavras e pelo poder delas. Não leio poesia o tempo todo, mas tento enxergá-la na vida cotidiana. Quando encontro escritores ou filósofos que me ajudam a ver beleza e significado nas coisas comuns, eu mergulho fundo neles. Isso acaba se refletindo naturalmente nas letras. Existe alguma história de bastidor importante por trás de Death Is Nothing To Us? O título surgiu de forma curiosa. Eu estava escrevendo as letras enquanto participava de uma troca de livros no trabalho. O livro que peguei citava Lucrécio e a ideia de que a morte não é nada para nós, no sentido de não ficarmos obcecados por ela, mas focarmos na importância da vida. Isso acabou conectando tudo o que eu vinha escrevendo desde os discos anteriores. Quando escreve sobre temas sensíveis como morte, você sente vontade de ir para um lado mais leve ou continuar explorando temas profundos? Um pouco dos dois. Eu amo rir, me divertir com amigos, mas a vida não

Entrevista | Ash – “Foi uma emoção enorme descobrir que tínhamos fãs apaixonados que sabiam cada palavra das letras”

O rock alternativo e o power pop devem muito ao Ash. Surgida na Irlanda do Norte no auge do Britpop, a banda liderada por Tim Wheeler conseguiu algo raro: sobreviver a três décadas de mudanças na indústria fonográfica mantendo a mesma energia juvenil que os colocou no topo das paradas em 1996. Prestes a completar 30 anos do lançamento do icônico álbum 1977 (o disco de Girl From Mars e Kung Fu), o trio atualmente percorre o Reino Unido com a Ad Astra Tour, divulgando o elogiado álbum Ad Astra (2025). Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, Wheeler reflete sobre a longevidade do grupo, os planos de celebração para 2026 e a lembrança marcante da única passagem da banda pelo Brasil. Vocês estão prestes a começar a Ad Astra Tour no Reino Unido. Depois de tantos anos na estrada, você ainda sente aquele “frio na barriga” antes da primeira noite? Como sua rotina de preparação mudou desde o início até agora? Fizemos uma turnê bem extensa desse álbum até o Natal do ano passado. Tem sido ótimo dividir a turnê em blocos menores para que possamos realmente aproveitar. Recomeçar depois de algumas semanas em casa pareceu um pouco estranho… até que a música de introdução começou a tocar! Senti aquela mesma descarga de adrenalina de antigamente quando as luzes da casa se apagam. Hoje em dia, sabemos exatamente o que precisamos fazer para entregar um show consistentemente excelente todas as noites. Definitivamente, somos menos caóticos do que éramos nos anos 90! O nome da turnê Ad Astra (“para as estrelas”) se encaixa perfeitamente com a estética de ficção científica que o Ash sempre teve. Existe um conceito ou tema específico por trás desses shows, ou é puramente uma celebração da música? É realmente tudo sobre a música. Estamos apostando mais forte no novo álbum desta vez. É incrível poder tocar nove músicas do Ad Astra em um set de uma hora e meia. Com um catálogo tão grande, parece uma jogada corajosa, mas os fãs estão nos apoiando totalmente, o que é ótimo. Precisamos mencionar um marco enorme: 2026 marca o 30º aniversário do seu álbum de estreia, 1977. Olhando para trás, como você se sente em relação a esse disco hoje? Parece uma vida diferente, ou a energia de músicas como Girl From Mars ainda soa fresca para você? É estranho, mas realmente não parece que faz três décadas que começamos a gravá-lo. Talvez porque muitas daquelas canções estiveram conosco em todos os shows desde então. E sim, elas recebem uma resposta tão enérgica do público que nunca parecem velhas. Acho que momentos assim mantêm a gente e o público conectados àquela época. Talvez isso traga o passado para o presente e encurte a distância entre os dois. Falando sobre 1977, existem planos para celebrar este 30º aniversário especificamente? Talvez um relançamento, um documentário especial ou uma série de shows dedicados no final do ano? Há muitos planos ainda ganhando forma, então tudo o que posso dizer no momento é: fiquem de olho… Com uma discografia tão vasta, de 1977 a Ad Astra, quão difícil é montar o setlist para 2026? Há algum “lado B” ou música obscura que vocês estão trazendo de volta para esta turnê? Tem sido muito divertido. Uma coisa que estamos fazendo nesta turnê é mergulhar mais fundo no catálogo antigo e misturar o setlist todas as noites. Isso nos mantém alertas e faz de cada show uma experiência única. Race the Night (2023), álbum anterior do Ash, também foi muito bem recebido. Agora que as músicas já “viveram” no mundo por um tempo, quais faixas desse álbum se tornaram suas favoritas para tocar ao vivo? Temos um grupo de músicas do Race the Night que costumamos revezar nesta turnê. A faixa-título, Crashed Out Wasted e Braindead são as que costumam aparecer. Se eu tivesse que escolher apenas uma, ficaria com Braindead. Vocês sempre tiveram uma forte conexão com o power pop guiado por guitarras e o indie rock. Como você vê o estado atual da música rock no Reino Unido e no mundo? Alguma banda nova te empolga agora? Acho que a música vai bem. Faz parte do que nos torna humanos e sempre precisaremos dela, não importa o que aconteça na indústria. Tivemos muitas bandas de abertura ótimas recentemente, incluindo Coach Party e Bag of Cans. É ótimo ver o Geese indo tão bem, e também o Big Special. O Brasil tem uma base de fãs do Ash muito apaixonada que interage muito nas redes sociais. Você tem alguma lembrança ou impressão específica dos fãs sul-americanos de interações ou viagens anteriores? Isso é muito legal de ouvir. Tocamos na América do Sul apenas uma vez, em um festival em 2011, em São Paulo (SWU). Sinceramente, não sabíamos o que esperar, mas fomos surpreendidos pela resposta. Foi uma emoção enorme descobrir que tínhamos fãs apaixonados que sabiam cada palavra das letras! Sabemos que a logística pode ser difícil, mas a América do Sul está no radar do Ash para o final de 2026 ou 2027? Os comentários “Come to Brazil” estão em todo o seu Instagram! Com certeza, nós adoraríamos. Estou ligando para o meu agente agora mesmo! Obrigado por nos avisar!

Entrevista | Ladytron – “Vou tentar ser a melhor brasileira de todos os tempos para torcer com ele”

Integrantes da Ladytron preparam o lançamento do álbum Paradises

O Ladytron, ícone do electropop e synthpop mundial, está de volta e com os olhos voltados para o Brasil. Em uma conversa exclusiva via Zoom com o Blog n’ Roll, os fundadores Helen Marnie e Daniel Hunt detalharam o processo criativo de Paradises, o oitavo álbum de estúdio da banda, com lançamento confirmado para o dia 20 de março de 2026. Após 25 anos de estrada, o grupo de Liverpool entrega o que descrevem como seu trabalho mais dançante desde o clássico Light & Magic (2002). O disco, que conta com 16 faixas e 73 minutos de duração, marca o retorno da colaboração com o produtor Jim Abbiss (responsável pelo icônico Witching Hour) e traz uma dinâmica vocal renovada, incluindo duetos inéditos entre Helen e Daniel. Para o público brasileiro, o destaque do Ladytron fica por conta de Daniel Hunt. Morador de São Paulo há 12 anos, o músico revelou como a cultura brasileira, de Wagner Moura a influências sutis da MPB, se infiltrou subconscientemente nas novas composições. Confira abaixo a íntegra da entrevista com o Ladytron, onde eles falam sobre a “tropicalização” do som da banda, o caos criativo em estúdio e a promessa de uma turnê pela América do Sul ainda em 2026. Paradises é descrito como o trabalho mais voltado para a pista de dança desde Light & Magic. O que motivou o Ladytron a abraçar essa sonoridade disco tão diretamente agora, após 25 anos? Daniel Hunt: Eu sempre digo que temos esse elemento, sempre estivemos próximos da música dance, mas nunca fomos exatamente “música dance”. Nunca fizemos um álbum disco propriamente dito, mas sentimos vontade e pensamos nisso antes. Acho que, neste álbum, esse elemento ganhou mais destaque. Está mais em foco do que em qualquer momento desde o segundo álbum. Não é que ele tivesse desaparecido, é uma questão de ênfase. É mais dançante no geral, mas ainda somos nós, abraçando nosso lado disco. O single Kingdom of the Undersea apresenta um dueto entre vocês dois. Como surgiu essa dinâmica e o que ela representa no álbum? Helen Marnie: Dani e eu já fizemos duetos algumas vezes, e nossas vozes combinam muito bem. Mas foi o Daniel quem decidiu que seria assim desta vez… Daniel Hunt: Na verdade, nossas vozes funcionam como uma espécie de Nancy Sinatra e Lee Hazlewood. Essa foi nossa inspiração original. Quando fizemos a primeira demo, cantei um vocal guia e percebemos que funcionava. Não foi exatamente uma decisão minha, mas as pessoas que ouviam diziam que eu deveria manter. É a primeira vez que temos as vozes de nós três (eu, Helen e Mira) na mesma faixa em algumas músicas, como For a Life in London. Vocês trabalharam novamente com Jim Abbiss (Witching Hour). De que forma a visão dele ajudou a moldar o som de Paradises? Helen Marnie: O Jim é o mais próximo que temos de um “quinto Beatle”. Ele nos conhece muito bem. Quando gravo um vocal e sei que ele está lá, me sinto confiante porque ele torce por nós. Um bom produtor extrai o melhor do artista. Daniel Hunt: Ele entrou como produtor e mixador adicional. Reservamos duas semanas no estúdio do Tony Visconti (produtor do Bowie) no Soho, em Londres. Foi uma fase caótica. Tínhamos um álbum quase pronto, mas fomos para lá para criar o caos e ver o que funcionaria. Ele traz uma alma e uma compressão analógica maravilhosa para o som. Daniel, você mencionou que o processo foi muito fluido e rápido. A que você atribui essa rapidez criativa? Daniel Hunt: No meu caso, tenho uma filha pequena e percebi que precisava ser super eficiente. Eu entrava no estúdio e sabia que tinha que ter um resultado, porque a qualquer momento ela bateria na porta. Ela até tem créditos em uma das músicas! Começou a improvisar, eu gravei, e agora ela é basicamente nossa empresária (risos). Ela me pressiona todo dia para fazer música nova. O álbum tomou forma entre Londres e São Paulo. Como a cultura brasileira se infiltrou no som do Ladytron? Daniel Hunt: É subconsciente, mas poderoso. É difícil ser estrangeiro, morar aqui há 12 anos e não ser afetado. Algumas pessoas me dizem que o álbum soa brasileiro em certos momentos e eu nem tinha percebido, mas agora não consigo desouvir. Tem uma vibe meio MPB em uma das faixas. Quando você ouvir o álbum inteiro, terá que adivinhar qual é! E como você vê essa sua “tropicalização” pessoal? Daniel Hunt: Meus amigos dizem que sou mais brasileiro que eles. Nas últimas semanas, minhas redes sociais são só trailers de Agente Secreto (filme brasileiro) e vídeos do Wagner Moura. Ano passado, eu estava em Cambridge mixando o álbum, sozinho, assistindo ao Oscar e torcendo pelos brasileiros com uma garrafa de vinho. Este ano, estarei em Liverpool ensaiando para a turnê durante o Oscar, então a Helen prometeu assistir comigo. Helen Marnie: Sim, faremos uma festa do Oscar na minha casa e eu vou tentar ser a melhor brasileira de todos os tempos para torcer com ele! O Ladytron sempre teve um público fiel na América Latina. Como vocês comparam a recepção daqui com a da Europa? Daniel Hunt: Nossa ligação com o Brasil começou muito cedo, lá por volta de 2000. O público na América do Sul é muito mais agitado. Você sai do avião e já tem gente esperando. Helen Marnie: Na Europa é mais contido. Não significa que não gostem, mas não demonstram da mesma forma. No México e no Brasil, eles não têm medo de mostrar apreço. E existe essa competição entre os países para ver quem é o melhor público, os chilenos e argentinos também são ferozes. Daniel Hunt: O Brasil gosta de ganhar em tudo (risos). Se a Argentina fez barulho, os brasileiros querem fazer mais. É como o cachorro-quente ou a pizza no Brasil: vocês pegam algo e aprimoram, deixam exagerado e melhor. Para encerrar, com o lançamento em março, os fãs brasileiros podem esperar uma turnê por aqui em

Entrevista | D.R.I. – “Nunca pensamos em abandonar o punk. Só queríamos usar todas as nossas influências juntas”

O D.R.I. está de volta ao Brasil. Formado no início dos anos 1980, no Texas, a banda é uma das bandas mais influentes da história do hardcore punk e do thrash metal. Inicialmente associado ao hardcore rápido e direto, o grupo acabou se tornando referência mundial ao fundir esse estilo com elementos mais pesados do metal, ajudando a definir o que viria a ser conhecido como crossover. Ao longo de mais de quatro décadas, o D.R.I. construiu uma trajetória marcada por turnês incessantes, letras críticas e uma ética independente que influenciou gerações de músicos ao redor do mundo. Em entrevista ao Blog N’Roll, o vocalista Kurt Brecht fala sobre a evolução musical do grupo, a criação do termo crossover, a forma como a tecnologia transformou a vida em turnê e o impacto contínuo do D.R.I. tanto nas cenas punk e metal quanto em novas gerações de bandas que ainda hoje se inspiram em sua postura e agressividade, além dos shows no Brasil. O D.R.I. se apresenta no Brasil nas seguintes datas e cidades:São Paulo – 22/03 com o Ratos de Porão no Cine JoiaPorto Alegre/RS – 17/03/2026 no OcidenteCuritiba/PR – 19/03 no Tork n’ RollRio de Janeiro/RJ – 20/03 no Circo VoadorBelo Horizonte/MG – 21/03 no Mister Rock O D.R.I. nasceu de um senso de urgência criativa muito forte nos anos 80. O que daquele pensamento inicial da sua juventude ainda guia a banda hoje? A diferença é que, quando você é jovem, tudo é diferente. Com o tempo, aprendemos muitas coisas sobre turnês, sobre o negócio da música e sobre como tudo funciona. Hoje é muito mais fácil divulgar seus próprios shows usando a internet. Antigamente, para montar uma turnê pelos Estados Unidos ou para vir ao Brasil, era tudo feito por telefone ou cartas, esperando que alguém divulgasse o show e que as pessoas ficassem sabendo. Hoje você consegue garantir que o público tenha informação, e isso facilita muito. O Brasil tem uma relação longa com o D.R.I. O que você mais lembra da primeira vez que tocou aqui? A incerteza, eram outros tempos. Você nunca sabe se tudo vai funcionar, se vai receber pagamento, se o show vai ser bom. Existe muita incerteza quando você toca pela primeira vez em outro país, especialmente. O Brasil tem uma cena punk muito forte. Como você percebe a energia do público brasileiro em comparação com outros países? A América do Sul, em geral, sempre rende shows muito bons e muito enérgicos, e o Brasil está incluído nisso. É sempre muito divertido. Nessa mesma viagem, também tocamos na América Central. Existe algum show do D.R.I. no Brasil que se destaca como o mais intenso ou inesquecível? Existem muitos, mas para destacar um, tocamos uma vez em Belo Horizonte com o Misfits e o Sepultura. Foi em um estádio ao ar livre, fazia muito calor, mas foi um show enorme e muito divertido. Falando sobre a conexão com o Ratos de Porão, em que momento você percebeu que essa relação foi além de apenas dividir o palco? Nós simplesmente nos conectamos com eles. Tocamos muitos shows juntos e continuamos tocando. É sempre a mesma coisa: eles trazem um ótimo público, nós também trazemos pessoas, e juntos funciona muito bem. Acho que os fãs realmente gostam de ver a gente tocando juntos. E depois de tantas visitas ao Brasil, ainda existe algo que te surpreende sempre que você volta? Eu gostaria de tocar aqui todo ano, mas nosso agente prefere que a gente venha uma vez a cada três anos. Às vezes tocamos em cidades diferentes, ou em lugares onde não tocávamos há muito tempo. Mas São Paulo é uma cidade que sempre parece fazer parte da rota. É uma cidade grande, com um grande show, algo que sempre fica marcado na memória. É sempre um show insano. Como surgiu o rótulo “crossover” e como foi a recepção do álbum de mesmo nome quando foi lançado? Na verdade, foram os fãs que começaram a chamar nossa música de crossover por conta da mistura de punk e metal. A gente ouviu as pessoas usando esse termo, e foi assim que soubemos. Não fomos nós que criamos o nome, apenas usamos no álbum. Quando Crossover saiu, alguns punks não gostaram, porque as músicas eram mais lentas e tinham mais influência de metal. Por outro lado, ganhamos muitos fãs do metal. Perdemos alguns fãs e ganhamos outros. Em que ponto você percebeu que era possível evoluir musicalmente sem perder a agressividade e a identidade da banda? Acho que isso acontece com qualquer banda. Você escreve músicas que gosta, e se todo mundo na banda gosta, espera que o resto do mundo goste também. Às vezes funciona, às vezes não. Nós crescemos ouvindo metal pesado, então nunca foi uma questão de abandonar o punk. Queríamos usar todas as nossas influências e juntar tudo em músicas que todos nós gostássemos. As letras do D.R.I. sempre foram diretas e críticas. Como você vê essa abordagem hoje? Acho que minhas letras envelheceram bem. Não escrevo todas as letras da banda, mas recentemente lancei um livro com todas as letras que escrevi, organizado de A a Z, além de poesias. Muitas bandas dizem que fomos uma influência musical e lírica, e até os filhos dessas pessoas estão tentando escrever músicas como o D.R.I., o que é um grande elogio. O hardcore e o metal mudaram muito desde os anos 80. O que ainda chama sua atenção nas bandas mais novas? Muitas bandas novas abrem shows para a gente, e eu vou assistir. Às vezes são bandas de death metal ou misturas estranhas de estilos. Se eu gosto, eu gosto. Gosto de bandas que não param, que vêm com tudo. É isso que me chama a atenção. Existe alguma fase da discografia do D.R.I. que você acha que merece ser redescoberta pelos mais novos? Talvez Crossover, mas Dealing With It! também é muito popular e já mostrava um pouco dessa mistura. O D.R.I. sempre soou um pouco diferente das outras bandas,

Entrevista | Lexie Liu – “Eu quero ser como o Cansei de Ser Sexy: fora da curva, expressiva e com um pouco de loucura”

Lexie Liu dá um passo decisivo em sua trajetória internacional com Teenage Ramble, EP que marca seu primeiro trabalho totalmente cantado em inglês. Conhecida por transitar entre pop, eletrônico e referências alternativas, a artista chinesa aposta agora em um registro mais direto, espontâneo e menos conceitual do que seus projetos anteriores, abrindo espaço para uma escrita mais emocional. O lançamento reforça a busca de Lexie Liu por novos públicos e por uma identidade artística cada vez mais global. Antes mesmo do novo EP, Lexie Liu já vinha ampliando seu alcance fora da Ásia por meio de projetos ligados ao universo de League of Legends. A artista participou de iniciativas musicais da Riot Games, incluindo faixas associadas ao K/DA, um dos projetos mais populares do jogo, o que ajudou a apresentar seu trabalho a uma audiência internacional diversa e conectada à cultura pop, games e música. Essa ponte entre música e entretenimento digital foi fundamental para consolidar seu nome fora do circuito tradicional do pop chinês. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Lexie Liu falou sobre o processo criativo por trás de Teenage Ramble, as influências que vão de Wet Leg ao Cansei de Ser Sexy e os desafios de equilibrar uma carreira internacional sem perder autenticidade, além de comentar seus próximos passos e o desejo de vir ao Brasil. Você lançou Teenage Ramble, seu primeiro álbum totalmente em inglês. Quando você sentiu que era o momento certo para dar esse passo? Eu senti. Acho que nunca foi uma decisão muito pensada. Eu nunca sentei com o meu time para calcular quando deveríamos fazer isso. Mas senti que o tempo era bom porque eu tinha acabado de terminar o meu terceiro álbum, e todos os meus projetos anteriores eram bilíngues. Este ano, eu só quis ver como seria fazer um projeto totalmente em inglês, testar como eu me sentiria e como as pessoas reagiriam. É uma nova experiência. A escrita, a produção e todo o processo criativo são diferentes, porque é no meu segundo idioma, mas isso acabou se tornando muito divertido. Então você sente que sua expressão emocional muda dependendo da língua que você está usando? Eu acredito que sim, definitivamente. Esse trabalho parece mais espontâneo e menos polido. Isso reflete um momento específico da sua vida? Eu acho que sim, de certa forma. Eu não pensei em um grande conceito ou em um longo processo de construção de mundo para este projeto. Ele nasceu mais como o escoamento de um longo tempo criando demos. Eu criei realmente de forma espontânea, para o momento e no momento. Então, você está certo, ele é muito menos polido. Eu quis ver como soaria um projeto mais cru. Desta vez, eu tentei ser o mais genuína e honesta possível, e algumas pessoas podem achar isso bem diferente do que eu fiz antes. O seu trabalho mistura pop, energia alternativa e elementos eletrônicos, eu vejo coisas de divas pop e até um pouco de indie, como do Wet Leg e música alternativa como os brasileiros do Cansei de Ser Sexy. Mas quero saber de você, que artistas lhe influenciam? Tem mais algo brasileiro que você conhece? Você basicamente já citou todos os nomes (risos). Na verdade, eu amo muito o Cansei de Ser Sexy. Nem sabia de onde eles eram no começo, porque encontrei as músicas no modo aleatório do streaming. Eu simplesmente amei a energia deles, e eles se tornaram um dos meus grupos favoritos. Eu quero ser como eles. Eles são tão fora da curva, tão expressivos emocionalmente. Os vocais são meio loucos, mas é o tipo de loucura boa. A loucura que eu gostaria de ser, mas talvez nunca consiga. Eu me identifico muito com isso. E eu também gosto muito de MPB. Acho que nunca falei isso antes em entrevistas. Eu tenho uma playlist inteira só de música brasileira de MPB, de artistas que eu não conheço pessoalmente, mas que eu conheço muito bem através da música. Hoje o pop internacional parece cada vez menos centrado nos Estados Unidos e na Europa. Como você enxerga esse novo cenário global? Essa é uma grande pergunta. Eu acho que é definitivamente uma ótima oportunidade para os artistas se cruzarem. Não só nós indo para outros mercados, mas também artistas brasileiros indo para a Ásia. Apesar de todas as diferenças culturais, de fronteiras e de idioma, nós estamos muito conectados agora. É fácil encontrar pessoas do outro lado do planeta e compartilhar música e paixão. Isso abre muitas possibilidades reais de troca. É um desafio equilibrar as expectativas do público chinês e, ao mesmo tempo, construir uma carreira global? Porque são culturas muito diferentes. Eu acho que é desafiador, sim. É difícil não ser. É algo muito complicado de equilibrar. Mas, ao mesmo tempo, acredito que, quando a minha música é verdadeira para quem eu sou e para o que eu quero expressar, e quando as pessoas sentem isso, muitas expectativas simplesmente desaparecem. Se elas se conectam emocionalmente, isso se torna maior do que qualquer rótulo. Os fãs brasileiros acompanham o seu trabalho e temos muito fãs aqui de LOL e Arcane que com certeza lhe conheceram por lá. Existe a possibilidade de você vir ao Brasil no futuro? Eu adoraria ir ao Brasil, com certeza. Eu sinto que tenho alguns dos fãs mais calorosos e acolhedores aí, o que é muito louco para mim. Para quem ainda não lhe conhece, existe alguma faixa de Teenage Ramble que você considera o coração do EP? Eu diria que é “X”. É a minha música favorita do EP, mesmo que eu esteja um pouco cansada dela agora, porque eu a ouvi muitas vezes desde o primeiro dia em que a fiz. Mesmo sendo uma faixa mais dançante, que talvez não soe tão profunda ou emocional à primeira vista, ela tem uma vibração muito boa. É daquelas músicas que te fazem se sentir renovada, confiante, quase como um personagem caminhando pela rua. Essa energia rápida ilumina o dia, mesmo que por um momento. Ela representa

Entrevista | Unto Others – “Nós somos relacionados com o gótico, mas somos Heavy Metal”

O Unto Others fará sua primeira apresentação no Brasil no dia 28 de março de 2026, com show único em São Paulo, no Burning House. A estreia marca a chegada de uma das bandas mais comentadas da cena alternativa pesada atual ao país, cercada de expectativa pela intensidade de suas performances e pela conexão que costuma criar com o público ao vivo. Formado em Portland em 2017, o Unto Others surgiu inicialmente sob o nome Idle Hands e rapidamente chamou atenção por sua combinação de heavy metal tradicional com atmosferas sombrias do goth rock, mesmo que não tenham a intenção de pertencer ao movimento. A banda construiu uma identidade própria nesses onze anos, marcada por melodias fortes, clima introspectivo e apresentações intensas. Após se destacar em turnês pelos Estados Unidos e Europa e dividir palco com gigantes do metal como King Diamond, Arch Enemy, Carcass e Behemoth, o Unto Others consolidou seu nome como uma das forças mais interessantes da cena alternativa pesada atual. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Gabriel Franco fala sobre a expectativa para o debute no país, a relação da banda com o rótulo gótico e os aprendizados ao longo da carreira. Esta será sua primeira vez no Brasil. O que você já sabe ou ouviu sobre o público brasileiro antes desse debut em São Paulo? Eu já ouvi um pouco, não apenas sobre o Brasil, mas sobre a América do Sul em geral. Parece que os fãs de metal e rock and roll são completamente loucos. Mas o Brasil, especificamente, tem uma reputação ainda mais intensa. Estamos animados, claro. Nunca estivemos aí. Eu conheço, surpreendentemente, muito pouco sobre o Brasil além da Amazônia e coisas assim. Nos Estados Unidos, a gente não aprende muito sobre o Brasil enquanto cresce. Então estou curioso para provar comidas diferentes, conhecer a cidade, ver a cultura e tudo mais. Você recebe muitas mensagens de fãs brasileiros nas redes sociais falando o famoso “Come To Brazil”? Sim, recebemos. E isso já virou quase uma piada, porque é realmente insano. O Offspring até escreveu uma música chamada Come to Brazil. Isso diz muita coisa. O show será no Burning House, que é um local intimista. Os fãs podem esperar um setlist criado especialmente para essa estreia ou será o mesmo da turnê? Nós vamos tocar basicamente o mesmo setlist da turnê. Normalmente é assim que funciona, porque é um pouco complicado mudar tudo. Mas, se as pessoas pedirem algo especial, às vezes a gente adiciona. Não é um grande problema tocar outra música para nós. Mas, em geral, o setlist é o mesmo todas as noites. Vocês usam dados de plataformas como o Spotify ou outros streamings para definir o repertório? Até certo ponto, sim. Se eu abrir nosso Spotify agora, as músicas que estão no topo são exatamente as que tocamos em todos os shows. Então essas precisam estar no setlist. Hoje temos cerca de nove ou dez músicas que são obrigatórias. Isso já dá uns 30 ou 40 minutos de show. Depois disso, escolhemos a próxima meia hora de forma mais livre, tocando coisas que queremos ou que estamos com vontade de tocar naquele momento. No Brasil, há uma parcela que frequenta shows de rock sem conhecer muito a banda que irá tocar. Para quem ainda não conhece o Unto Others no Brasil, qual música você escolheria para apresentar a banda? Eu provavelmente escolheria uma das nossas músicas mais conhecidas, Give Me to the Night. Ela é rápida, muito divertida e acho que quase qualquer pessoa pode gostar. Outra opção seria Can You Hear the Rain, que eu considero a nossa música mais bem escrita. O Unto Others é frequentemente associado ao goth rock. Como você define o movimento gótico hoje, musical e culturalmente? Eu não sou gótico. Nós somos associados ao goth rock, as pessoas nos chamam assim, e eu não nego. De fato, nos encaixamos ali. Mas, se você ouvir nossa música com atenção, há muitas influências que não são goth rock ou post-punk. Sobre o movimento em si, eu gosto muito do que bandas maiores estão fazendo hoje, como Lebanon Hanover e Twin Tribes. Eu amo essas bandas. Já no underground, eu não acompanho tanto. Eu sempre fui mais um cara do heavy metal e gosto de gritar isso: “Somos uma banda de Heavy Metal”. Desde o começo, eu digo que o Unto Others era uma banda de heavy metal, mas eu canto grave e é porque não consigo cantar agudo. Essa é a minha voz natural. Foi assim que acabamos soando mais góticos e o rótulo veio. Com o tempo, as pessoas começaram a dizer que eu soava como tal ou tal vocalista, e aí fui conhecendo mais bandas. Antes desse rótulo, a única banda gótica que eu realmente conhecia era Sisters of Mercy. Hoje, claro, as influências estão em todo lugar. Eu amo The Smiths, The Cure, Depeche Mode. Estou feliz em fazer parte de qualquer movimento que esteja acontecendo agora. Realmente eu achei vários portais relacionando vocês com Sisters of Mercy e Type O Negative, mas seu som também remete a outras bandas. Quais são suas principais influências? A comparação com Type O Negative foi engraçada, porque aconteceu por muito tempo e eu nunca gostei muito disso. Eu respeito demais o Peter Steele e o Type O Negative. Nunca quis que as pessoas achassem que estávamos tentando copiar a imagem deles. Eles são uma coisa, nós somos outra. Mas, curiosamente, às vezes sinto que tenho coisas em comum com o Peter Steele. Ele trabalhou como funcionário de parques por sete anos em Nova York. Eu também trabalhei como funcionário de parques por sete anos na minha cidade. No começo, eu gostava muito de death metal. Amava Sisters of Mercy e ainda amo. Iron Maiden, Judas Priest, todas as bandas clássicas de metal. Essa é a cena de onde eu vim. Com o tempo, minhas referências se expandiram para The Smiths, Rush, Suicidal Tendencies. Eu gosto de bandas que empurram limites

Mark Hoppus abre o jogo: Câncer, a “sinceridade” de Liam Gallagher e teorias da conspiração

Mark Hoppus

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Mark Hoppus, baixista e vocalista do Blink-182, abriu as portas de sua vida pessoal e carreira, tal como fez durante uma tour para divulgar sua biografia, no ano passado, na qual o Blog n’ Roll acompanhou em Boston. O músico, que se tornou um ícone do pop-punk, mostrou que sua trajetória vai muito além dos palcos: da criação de abelhas no interior da Inglaterra à venda de uma obra de Banksy por estresse, passando pela batalha brutal contra o câncer e memórias impagáveis com o Oasis. Confira os melhores momentos do papo: “Estou surpreso por estar vivo” O momento mais denso da conversa foi sobre sua sobrevivência ao linfoma difuso de grandes células B, diagnosticado há alguns anos. Hoppus não poupou detalhes sobre a dureza do tratamento. “Quando recebi o diagnóstico, meu médico disse… ‘Você só tem 60% de chance de sobreviver a isso’. A quimioterapia é como ser esmagado… Depois, quando eles te dão os medicamentos de verdade, você sente como se eles estivessem queimando as células cancerígenas do seu corpo, como se você estivesse pegando fogo por dentro.” Ele revelou que a última vez que chorou foi no palco, algo que considerou constrangedor, mas que reflete a carga emocional de estar vivo e tocando novamente. Encontro com o Oasis Hoppus confirmou uma lenda antiga sobre um encontro com o Oasis no início da carreira do Blink-182. A história envolve a típica “sinceridade” de Liam Gallagher. “Liam entrou no nosso camarim e disse: ‘Vocês são o Blink-182? Vocês são os melhores que eu já vi na América.’ Tom [DeLonge] disse: ‘Ah, que legal. Você gosta da nossa banda?’ e Liam respondeu: ‘Não, eu não disse que gosto da música de vocês. Eu só acho vocês legais’.” Tom DeLonge e os OVNIs Sobre a obsessão de seu companheiro de banda, Tom DeLonge, por alienígenas, Mark mantém seu ceticismo saudável, mas admite que a busca de Tom é antiga. “Desde que conheci Tom, quando viajávamos em uma van revezando a direção, ele ficava acordado a noite toda olhando para o céu, na esperança de ver um OVNI… Não acredito que a única vida no universo esteja aqui, neste pequeno planeta no meio do nada.” No entanto, Mark traça o limite nas teorias da conspiração sobre a Lua e o assassinato de JFK, que ele considera “absurdas”. Gótico do deserto e baixistas favoritos Relembrando a adolescência, Mark contou que cresceu numa base militar no deserto e se sentia sozinho até encontrar o skate e a música gótica. “Eu era muito fã do The Cure e me vestia de Robert Smith… ia para a escola todo de preto, com o cabelo preso, delineador preto e batom vermelho, o que não era exatamente o visual ideal para o meio do deserto.” E como um bom baixista, ele defendeu a classe (“Somos a cola, a ponte entre o ritmo e a melodia”) e listou seus favoritos: Peter Hook (New Order), Simon Gallup (The Cure) e a dupla de baixistas do Ned’s Atomic Dustbin. Situação atual dos Estados Unidos Questionado sobre o que acha da atual situação política e social dos Estados Unidos, Mark Hoppus disse que está confuso, assim como o mundo inteiro. “Acho que o mundo inteiro está confuso com o que está acontecendo nos EUA agora. Todo cidadão americano, apoiadores, dissidentes, resistentes, estão tipo: que diabos está acontecendo? Você tenta ler para chegar aos fatos reais, mas tudo é isca de cliques agora. São só manchetes feitas para te enfurecer. Estávamos sentados ao lado de um casal inglês tomando café da manhã outro dia e começamos a conversar, e a primeira coisa que eles perguntaram foi: “O que vocês acham do Trump?” Morando aqui na Inglaterra, eu não tinha percebido nenhum sentimento anti-americano ou algo do tipo por causa do nosso sotaque”. Você pode ler a entrevista completa (em inglês) no site do The Guardian.