Entrevista | Banda 365 – “A música São Paulo virou um hino porque fala da vida real de quem mora na cidade”

A banda 365 construiu uma trajetória sólida dentro do punk e rock nacional desde sua formação nos anos 80, marcada por uma relação direta com a cidade de São Paulo. Lançada originalmente em 1987, no álbum de estreia do grupo, a música São Paulo atravessou décadas e foi eleita como a canção que melhor representa a capital paulista, tornando-se um hino informal da cidade. A faixa sintetiza o cotidiano, as contradições e o afeto de quem cresceu e vive na metrópole, ajudando a consolidar o 365 como uma banda de estrada, ativa e em constante diálogo com seu público ao longo de mais de 40 anos de carreira. Hoje, a canção ganhou uma nova roupagem em um relançamento especial com a participação de Dinho Ouro Preto, celebrando os 472 anos da cidade. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Miro de Melo, fundador da banda, fala sobre o relançamento de São Paulo como homenagem à capital, a longevidade do 365 no cenário do rock brasileiro e a forte ligação da banda com Santos e a efervescência cultural dos anos 80, período que marcou a consolidação do grupo e de toda uma geração do rock nacional. A música São Paulo foi eleita o hino informal da cidade e agora está sendo relançada com uma nova versão com outra lenda do rock. Fale um pouco sobre esse lançamento. Ela foi lançada em 87, no primeiro disco do 365, e se tornou um clássico. É uma das três maiores músicas em homenagem a São Paulo. Uma vez a gente ganhou na Kiss FM em primeiro lugar com essa música e, recentemente, mais ou menos em julho, a gente começou a gravar com a participação do Dinho Ouro Preto. É uma homenagem à cidade de São Paulo, aos 472 anos, uma homenagem do 365 para a cidade onde a gente cresceu, vive, ri, chora, mas ama. Muitas bandas dos anos 80 acabaram ficando alheias ao tempo. Como você vê a nova geração em relação à história do rock nacional dessa época? O 365 está fazendo quatro décadas e mais dois anos, 42 anos. A gente sempre foi uma banda de estrada e continua sendo. Viemos de bairros distantes e, naquele boom do rock dos anos 80, a gente tinha uma música boa e um repertório legal. A gente nunca parou, porque ama fazer isso, ama fazer rock and roll. Muitas bandas regravaram nossas músicas, como os Inocentes. A gente continuou na estrada e, a cada dia, se reinventa com a própria música e com a própria história. Você tem uma relação forte com Santos. Como foi essa fase da banda por aqui? Foi um auge da carreira. Antes do disco, tocamos no Heavy Metal e depois conhecemos o empresário do Legião, o Rafael Borges, que fazia shows no Caiçara. Ele é um grande manager do rock and roll. A gente veio para Santos, lotou o Caiçara, estava em turnê do primeiro disco. Foi muito bacana. Cada vez que a gente vem para cá é maravilhoso. Como você descreve a Santos nos anos 80? Fervia rock and roll. Estava tudo novo, bandas novas, surgimento de muitas bandas do Sul, de Brasília, nós em São Paulo, Ira, 365, Inocentes. Acho que tudo isso está sendo resgatado. Claro que o novo tem que vir, a gente precisa reciclar, mas estamos de passagem fazendo música e amando fazer rock and roll. Para encerrar, alguma história de bastidores marcante aqui em Santos? Com o primeiro disco, tinha o disco single, com duas faixas, uma de cada lado, a gente chegou no Caiçara e lotou. A gente pensou: “é isso mesmo?” Tinha lambe-lambe na cidade inteira, era isso que estava acontecendo com a gente. A gente tinha uma banda para tocar, qualquer palco era palco. De repente, estava estourado, com toda a receptividade da época, e de lá para cá estamos aí, há 42 anos.
Entrevista | Ye Vagabonds – “Da coxinha ao café, aqui em Dublin somos muito conectados com o Brasil”

O Ye Vagabonds se prepara para lançar All Tied Together no próximo dia 30. O álbum aprofunda a relação da dupla irlandesa com o folk contemporâneo e aposta em gravações ao vivo, arranjos mais encorpados e uma abordagem direta tanto no som quanto nas narrativas. O disco do Ye Vagabonds amplia o alcance artístico dos irmãos Brían e Diarmuid Mac Gloinn, equilibrando intimismo, força coletiva e temas sociais que dialogam com o presente, como a crise habitacional e o sentido de comunidade em tempos instáveis. Em entrevista ao Blog N’ Roll, a dupla Ye Vagabonds falou sobre o processo de gravação ao vivo do novo álbum, as experiências ao dividir a estrada com artistas como Boygenius e I’m With Her, além da relação entre folk, comunidade e a forte conexão que sentem com o Brasil. Como foi a decisão de gravar ao vivo e evitar overdubs, moldando o som final do álbum em comparação com os trabalhos anteriores do Ye Vagabonds? Foi definitivamente uma decisão importante no processo de fazer o álbum. Quando estávamos escrevendo as músicas, queríamos que elas fossem o mais diretas possível e que o disco fosse muito claro na forma como as histórias são apresentadas. A ideia era que fossem íntimas e imediatas ao mesmo tempo. Quanto menos coisas colocássemos no caminho entre nós, a história e o público, melhor. Para nós, o lugar onde isso sempre funcionou melhor foi no ambiente ao vivo. Então, se pudéssemos recriar o melhor dessa experiência ao vivo, mas com a energia e a atmosfera colaborativa de um estúdio, era exatamente isso que queríamos tentar. E acho que funcionou. Foi muito divertido. A abordagem mais sólida deste disco foi uma escolha consciente ou uma evolução natural depois de excursionar com o I’m With Her? Na verdade, o disco já estava pronto antes da turnê com o I’m With Her. Mas todas as experiências de estrada acabam influenciando. Já tínhamos excursionado com Hozier, Phoebe Bridgers e feito alguns shows com a Boygenius. Fazer shows de abertura é uma experiência muito valiosa, porque você toca para um público diferente e passa a ouvir suas próprias músicas de outra forma. Quando você toca para pessoas que talvez estejam mais acostumadas com um certo tipo de composição, elas respondem de maneira diferente, e você sente isso. Esse retorno ensina coisas novas sobre suas próprias músicas. Sempre que tocamos para públicos diferentes, isso influencia o que fazemos a partir dali. A turnê com o I’m With Her foi incrível nesse sentido, porque o público escutava com muita atenção, reagia às letras em tempo real. Isso te deixa mais presente no momento. Além disso, elas são artistas incríveis, extremamente profissionais, grandes compositoras e musicistas. Foi uma experiência muito bonita. A colaboração com a Boygenius ajudou a expandir ainda mais o alcance de vocês. Como foram os bastidores desse encontro? No começo, quando tocamos com a Phoebe Bridgers, ainda era período de Covid, então foi tudo meio estranho. Não havia muita interação nos bastidores, exceto conversas rápidas, mantendo distância. Já na época da Boygenius, conseguimos nos aproximar mais. A Phoebe é extremamente generosa, focada, inteligente e muito clara nas ideias que tem sobre música. Foi ótimo poder interagir mais e entender um pouco do processo dela. Algo muito especial nessa colaboração foi que, normalmente, quando somos convidados para colaborar, querem nossas vozes. Mas a Boygenius queria o som da nossa banda, a atmosfera que criamos, com cello, contrabaixo e todos os arranjos. Foi a primeira vez que alguém reconheceu isso de forma tão direta, e foi muito especial. E com quem vocês gostariam de colaborar no futuro? Temos muitos amigos incríveis. Na Irlanda, gostaríamos muito de trabalhar com Joshua Burnside e Laura Quirke, da banda Lemoncello. Também começamos colaborações em um festival em Cork focado justamente nisso, e dali surgiram trabalhos com artistas como Memorial e Neve Reid. Gostaríamos muito de fazer mais coisas com Sam Amidon, somos grandes fãs de Big Thief, Adrianne Lenker e Buck Meek. E, honestamente, adoraríamos trabalhar de novo com a Phoebe em algum momento. A música The Flood aborda a crise habitacional. Você acredita que o folk tem o papel de documentar esses problemas sociais? Eu não diria que a música folk tem um dever de documentar questões sociais, mas acho que isso acaba sendo uma consequência natural de escrever sobre a vida real. Muitas experiências humanas intensas são negativas e estão ligadas a estruturas sociais. Então é natural que essas músicas tenham um elemento político. A política não vem primeiro, vem a experiência emocional e humana. Ser completamente apolítico é, muitas vezes, uma posição de privilégio. Para nós, a música folk está muito ligada à ideia de comunidade. Em irlandês, a palavra para música folk significa literalmente música comunitária. E se você está falando sobre comunidade, inevitavelmente está falando de política, porque tudo o que afeta uma comunidade é político. O título All Tied Together sugere união, mas também pode indicar aprisionamento. Que sentimento o Ye Vagabonds quer que prevaleça para o ouvinte? Existe sempre uma tensão entre comunidade e liberdade pessoal. Não acho que seja papel da arte responder isso de forma definitiva, mas sim oferecer espaço para reflexão. Queríamos chamar atenção para a ideia de que tudo está conectado e que a comunidade está no centro de tudo. É algo muito poderoso. Ao mesmo tempo, comunidade pode significar muitas coisas diferentes. Para quem vive viajando, como nós, o conceito muda. Pode ser uma rede mais espalhada, menos fixa. Parte do mais empolgante de lançar um álbum é justamente ver como as pessoas interpretam isso e o que o disco se torna para elas. Há planos de shows no Brasil? O nosso país tem uma conexão forte com o mar e com a natureza. Eu, por exemplo, pratico canoagem havaiana e sinto que a música de vocês combina muito com o oceano e também com a comunidade do surf. Vocês já tiveram contato com a música brasileira? Nós adoraríamos fazer uma turnê pela América do Sul. Nossa relação
Entrevista | Jéssica Falchi – “Subir ao palco com o Tool me deu a certeza de que tocar guitarra é o que eu quero fazer da vida”

A guitarrista Jéssica Falchi vive um momento de afirmação artística com o lançamento de seu primeiro EP instrumental, que marca uma nova fase da carreira após anos de estrada em bandas e projetos de destaque no metal. Conhecida pela técnica apurada e pela versatilidade, ela apresenta um trabalho autoral que transita entre o metal moderno, o progressivo e influências clássicas do rock instrumental, apostando em atmosferas diversas e identidade própria. Mas, apesar de usar seu sobrenome no projeto, ela deixa bem claro: “Nós somos uma banda”. O EP reúne quatro faixas que refletem diferentes facetas da guitarrista, incluindo uma participação especial de Aaron Marshall, da banda canadense Intervals, uma das maiores referências do metal instrumental. O lançamento também impulsiona uma nova etapa nos palcos, com shows já realizados e outros confirmados, além de ações internacionais, como a presença no NAMM Show, nos Estados Unidos. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Jéssica Falchi fala sobre o nascimento do projeto solo, os desafios da música instrumental e momentos marcantes da carreira, como o convite para tocar com o Tool e os perrengues da estrada. Seu projeto solo, com o lançamento do EP, marca uma nova fase. O que motivou a decisão de seguir esse caminho? Nunca foi minha intenção ter algo solo. Tanto que o projeto leva só o meu sobrenome, não é “Jéssica Falchi”, porque pensei que as pessoas que não me conhecem poderiam entender como o nome de uma banda, e não associar diretamente a uma pessoa. No começo do ano passado, eu fui convidada para participar de um podcast da MG, que é um dos meus patrocinadores, e achei que seria interessante levar uma música instrumental. Só que eu não tinha nada pronto, apenas uma demo com algumas ideias. Comentei isso com o Jean Patton, e ele sugeriu que produzisse a música comigo. Quando a gente se reuniu para finalizar a composição, a nossa vibe bateu muito. Foi algo muito natural. Quando a música ficou pronta, a gente simplesmente continuou compondo. No fim, nem cheguei a ir ao podcast, porque voltei para tocar no Lollapalooza, mas acabei lançando um EP inteiro. Foi um processo muito orgânico. Não era algo que eu almejava desde sempre. A experiência de compor, pensar no conceito e chamar amigos para participar foi tão legal que pensei em lançar tudo da melhor forma possível. E por que sustentar o trabalho instrumental, em vez de uma banda “tradicional”? Quando comecei a tocar guitarra, cresci tocando música instrumental. Meu professor tinha uma banda cover de Joe Satriani e sempre me passava esse tipo de repertório. Depois descobri esse universo mais a fundo e virei consumidora do gênero. Steve Vai, Liquid Tension (projeto com membros do Dream Theater) Experiment, Intervals, Plini, Night Verses são coisas que eu escuto muito. Então faz total sentido ser instrumental, porque é algo que eu realmente consumo e gosto de ouvir. Agora com o EP lançado, quais são as principais expectativas? Quero continuar compondo, agora com a banda completa. No começo era só eu e o Jean, mas hoje tenho músicos incríveis comigo. O Luigi, o João Pedro, com quem já toquei anos atrás, e o Guilherme, guitarrista do Mystifier. A ideia é trazer eles cada vez mais para perto, porque isso traz novas influências e ideias. Também queremos tocar bastante. Já temos um show anunciado com o Katatonia e outras coisas fechadas que ainda não foram divulgadas. No ano passado tocamos no Amplifica Fest, do Rafael Bittencourt, e ali tive a certeza de que a vibe bateu muito. Tocar ao vivo é completamente diferente de só lançar música. A gente gosta dessa energia de palco e até dos perrengues, porque tocar também é isso. Falando em perrengue, como foi passar por um furacão nos Estados Unidos? Foi péssimo. Uma experiência muito estranha. Você nunca imagina que algo assim vai acontecer. O trailer da banda foi destruído, mas ninguém se machucou. Mesmo assim, a turnê não parou, porque o prejuízo financeiro seria enorme. Como todo mundo estava bem, seguimos em frente. Foi terrível, mas também mostrou o quanto a estrada exige resiliência. Com um EP de quatro faixas, como funciona o repertório ao vivo? Geralmente o tempo de set é curto, cerca de meia hora. Minha vontade é não tocar covers, quero tocar o EP inteiro, o que dá mais ou menos 20 minutos. Existe uma música nova em forma de demo que talvez entre no repertório, olha, em primeira mão, viu? Mas isso ainda está sendo decidido. E qual sua expectativa do público brasileiro a um show instrumental? Era um receio real, porque não temos tantas bandas instrumentais de metal no Brasil. Mas fui surpreendida positivamente. As pessoas abraçaram a ideia e estão apoiando bastante. Muita gente brinca dizendo “solta um vocal”, mas, no geral, a recepção foi muito boa. Acho que é mais uma questão de costume. Lá fora, bandas instrumentais fazem turnês e festivais o tempo todo. Aqui o metal já é um gênero mais de nicho, e o instrumental é ainda mais específico. Como está sendo o planejamento e estratégia de divulgação do EP, especialmente no exterior com a participação no NAMM? Lanço o EP no dia 23 e no dia 24 tenho uma sessão de autógrafos na Richter, que é a marca de correias que me patrocina. Vou fazer um meet and greet no estande deles no NAMM Show mesmo. Vou levar CDs físicos, algo que me deixa muito feliz, porque sempre quis ver esse trabalho materializado. Queria muito fazer um vinil de 10 polegadas, mas ainda estou procurando uma empresa que viabilize isso. Por enquanto, fica no CD mesmo. Quatro músicas, quatro filhos, né? Existe um filho favorito nesse EP? É muito difícil escolher, porque todas são muito diferentes entre si. “Moonlace” tem uma pegada mais moderna, flertando com bandas como Vola. A segunda faixa é mais progressiva, com influência de Pink Floyd. A terceira é mais thrash. E a próxima, com a participação do Aaron Marshall, é completamente diferente de todas. Cada música representa uma
Entrevista | Frank Turner – “Vou visitar o Brasil só porque toco guitarra. Sinto que tenho o dever de aproveitar isso ao máximo”

Frank Turner vem ao Brasil no final deste mês como parte de sua aguardada turnê pela América Latina, com shows confirmados em São Paulo, Brasília e Curitiba. A passagem pelo país marca a estreia do cantor britânico em palcos sul-americanos e acontece em um momento especialmente simbólico de sua trajetória, após mais de duas décadas de estrada. Conhecido pela intensidade de suas apresentações e pela conexão direta com a audiência, Turner chega acompanhado de Dave Hause e da banda Katacombs, reforçando o caráter especial dessa primeira visita musical a região. Desde a saída do Million Dead, Frank Turner construiu uma das carreiras mais consistentes do folk punk contemporâneo, somando mais de 3.000 shows ao redor do mundo, dez álbuns de estúdio e presença constante nos principais festivais europeus. Suas músicas transitam entre relatos pessoais, reflexões sociais e a defesa da cena independente, valores que também se manifestam fora do palco, como na maratona de shows que o levou ao Guinness World Records e nas ações de apoio a casas de shows durante a pandemia. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Frank Turner falou sobre a expectativa de shows na América do Sul, a relação com o Brasil, país no qual já passou férias, os bastidores do recorde no Guinness e até mesmo seu split com o NOFX. Esta será sua primeira turnê na América do Sul. O que você espera da audiência da região e o que mais desperta sua curiosidade nesses shows? A primeira coisa que quero dizer é que estive no Brasil uma vez, em férias, há alguns anos, e tive uma experiência incrível. Fui ao Rio de Janeiro e a Paraty. Foi há dois ou três anos, acho. Foi insano. O Rio simplesmente explodiu minha cabeça, foi algo realmente impressionante. Fiquei até me sentindo mal por ter passado mais de 40 anos da minha vida sem nunca ter vindo à América do Sul e, mais especificamente, ao Brasil. É um lugar tão intenso, tão vivo. E percebi que não falo português, então peço desculpas por isso. Mas eu amei estar aí. E finalmente vai atender aos tantos pedidos de “Come To Brazil”, né? Principalmente após os shows cancelados na época da pandemia… Existe esse clichê sobre vir ao Brasil nas redes sociais, e eu vivi isso. Acho bonito, acho incrível. É algo muito louco para mim pensar que existem pessoas do outro lado do mundo, em um país onde eu nunca tinha estado, que sabem quem eu sou e que se importam com minha música. Isso é maravilhoso. De forma mais ampla, os fãs brasileiros e sul-americanos têm a reputação de serem muito apaixonados, e eu acho isso algo de que vocês deveriam se orgulhar. É lindo. Se você me fizer escolher, eu sempre fico com pessoas apaixonadas. Eu moro em Londres, e lá as pessoas podem ser muito irônicas, distantes às vezes. É uma relação diferente com a arte. Eu sempre prefiro a intensidade, a entrega. Em muitos sentidos, eu não sei exatamente o que esperar dessa turnê, e isso é justamente o que a torna tão empolgante. Estou realmente muito animado para finalmente vir. Eu tinha uma turnê pela América do Sul marcada para 2020, que acabou não acontecendo por razões óbvias. Eu estava muito empolgado naquela época, então fico ainda mais feliz que agora isso finalmente esteja acontecendo. E você veio ao Brasil somente de férias para descansar ou também teve tempo de estudar e conhecer bandas locais e a cena punk brasileira? Não tive a oportunidade de conferir a cena punk brasileira naquela viagem. Dito isso, agora vou ser péssimo e não lembrar nomes, mas tenho amigos brasileiros há muitos anos. Posso dizer que cresci ouvindo Sepultura e amo essa banda, é algo gigantesco para mim. Tenho consciência de que existe uma cena de rock e punk muito forte no Brasil e espero que, dessa vez, enquanto estiver aí, eu consiga aprender mais sobre ela. Depois de mais de 20 anos na estrada e mais de 3.000 shows realizados, o que ainda te motiva a continuar tocando com a mesma intensidade? A primeira coisa que eu diria é que a intensidade é diferente. Eu não toco tão pesado quanto quando tinha 20 ou 30 anos, simplesmente porque meu corpo não aguenta mais. Já fiz turnês de 13 meses sem voltar para casa, e isso é ridículo. Ninguém precisa fazer isso, especialmente quando chega aos 40. Mas eu amo o que faço. É a única coisa no mundo em que sinto que sou realmente bom e que sei fazer. É um privilégio enorme. Muitas pessoas tentam viver de música e não conseguem, muitas vezes por razões totalmente fora do controle delas. Eu fui uma dessas pessoas raras que conseguiu fazer isso funcionar por muito tempo, e me sinto extremamente privilegiado. Quero honrar isso. Quero sentir que estou fazendo jus a essa sorte. Vou visitar países que nunca estive antes por causa de uma guitarra, sabe? Vou tocar no Chile, na Argentina e no Brasil porque eu toco guitarra. Isso é loucura. Que tipo de sorte é essa? Sinto que tenho o dever de aproveitar isso ao máximo, de abraçar tudo. Se eu estivesse tocando mais um show em Manchester, onde já toquei centenas de vezes, seria diferente. Eu amo Manchester, mas não é novidade para mim. Essa turnê é especial justamente porque é tudo novo, e isso me deixa muito empolgado. Desde o início da sua carreira solo, você lança algo novo praticamente todos os anos. Isso é estratégia ou impulso criativo constante? Seria generoso chamar isso de estratégia. Acho que é simplesmente quem eu sou. No começo, eu escrevia discos muito rapidamente. Hoje levo mais tempo, o que tem a ver com experiência e idade. Gosto da ideia de ter coisas disponíveis, sejam compilações de raridades, discos ao vivo ou projetos paralelos. Não espero que todo mundo ouça tudo, mas é legal que isso exista. Também é assim que eu ganho a vida: tocando e lançando discos. Se isso virou uma estratégia
Entrevista | Bruno Graveto – “O Chorão me deu carta branca para gravar as baterias”

Bruno Graveto foi peça-chave na fase final do Charlie Brown Jr., período marcado por intensa produção criativa, grandes turnês e reconhecimento internacional. Baterista experiente, ele esteve diretamente envolvido nos últimos trabalhos de estúdio da banda, incluindo o álbum Camisa 10, vencedor do Grammy Latino, além de, claro, dividir o palco com Chorão em alguns dos shows mais emblemáticos da trajetória do grupo. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Graveto relembra como foi o processo de criação ao lado de Chorão, fala sobre a liberdade criativa que recebeu dentro da banda, recorda apresentações históricas do Charlie Brown Jr. e destaca shows marcantes de outros projetos que fizeram parte de sua carreira, como a passagem pelo Capital Inicial. Graveto, você foi responsável pelos últimos trabalhos do Charlie Brown Jr. e sempre existe a curiosidade sobre como era esse processo. Como foi entrar em estúdio para gravar as baterias e como era o nível de exigência do Chorão nesse trabalho todo? Primeiro, prazer estar aqui trocando essa ideia com você. Na verdade, ele me facilitou muito. Quando eu entrei na banda, foi no meio de uma turnê, e a gente começou a criar o que viria a ser o Camisa 10. Inclusive, a gente ganhou o Grammy com esse álbum. Nesse projeto, no momento da composição, ele chegou pra mim e falou: “Cara, você está aqui por merecimento. É carta branca. Você bota a sua cara no som. Se a gente achar que é muito, a gente olha. Se achar que é pouco, a gente troca ideia. Mas a gente precisa de você trabalhando”. Isso te tranquilizou de certa forma né? Isso me deu muito gás, porque não era aquela coisa de seguir uma cartilha. Acho que isso me travaria mais. Esse lance de “segue isso aqui, é assim que tem que ser” não rolou. Ele falou: “É carta branca, faz, a gente ouve e vê como fica”. Isso fez fluir muito melhor. Talvez eu ficasse mais receoso se ele tivesse imposto um caminho fechado. No fim das contas, essa liberdade me ajudou demais. Graveto, quando você pensa nas turnês do Charlie Brown Jr., qual é o show inesquecível que vem primeiro à cabeça? Teve um muito especial em Campo Grande, no Mato Grosso. Foi um show aberto ao público, só nosso, gratuito. A gente vinha de outro show, tocou, e depois apareceram a Polícia Militar, o pessoal da organização, da prefeitura, e falaram que o recorde da cidade era do Jota Quest, com 92 mil pessoas. Disseram que a gente tinha colocado 100 mil. Aquilo ficou muito marcado pra nós. A gente só ficou sabendo depois do show. Claro que dava pra ver um mar de gente, mas você nunca sabe os números, como a cidade funciona. Quando contaram tudo isso, e falaram que o Jota Quest, que é uma banda gigante, tinha levado 92 mil e a gente 100 mil, aquilo ficou gravado na nossa história. Para encerrar, fora do Charlie Brown Jr., você participou de várias bandas e projetos. Tirando o Charlie Brown, qual foi o show do coração, pode ser com Strike, Surto, Cali ou qualquer outro projeto? Você citou Strike, Cali, Surto, projetos que eu toquei, e poderia ser qualquer um deles. Mas teve algo muito especial que nem todo mundo sabe. Eu toquei com o Capital Inicial em 2014, fiz três shows com eles. Foi um final de semana muito mágico pra mim. Teve muita correria, muita responsabilidade, mas eu consegui segurar a onda e fazer bons shows. Esse registro ficou muito forte na minha cabeça. Tem vídeo no YouTube, tem em vários lugares. Eu coloco esses shows como algo muito especial. Foi intenso, deu tudo certo e foi uma experiência irada. Obrigado, meu irmão. Foi demais. Foto: Murilo @murilosts777
Entrevista | Planta e Raiz – “Para 2026, temos um projeto chamado Tranquilize”

O Encontro 013 voltou a ocupar espaço na agenda cultural de Santos na última sexta-feira (26), reafirmando sua origem e propósito. Criado inicialmente como uma reunião de amigos na praia logo após a morte de Chorão, o encontro cresceu ao longo dos anos, ganhou estrutura e se transformou em um evento que mantém como tradição o tributo ao Charlie Brown Junior, banda símbolo da cidade. No último evento do ano, no Arena Club, Soulshine, Skasu, DZ Rock e Planta e Raiz se apresentaram. A edição teve início com as apresentações de Soulshine e Skasu, preparando o clima para a noite. Na sequência, a DZ Rock assumiu o palco com um tributo ao Charlie Brown Junior, conectando o público diretamente com a essência do evento e reforçando a relação afetiva entre Santos e o legado deixado por Chorão e sua geração. Encerrando a noite, o Planta e Raiz entregou um show que equilibrou bem seus principais sucessos com novidades. A banda apresentou ao público o novo setlist da turnê do álbum Flor de Fogo, lançado em outubro, e encontrou uma resposta imediata da plateia, que cantou, agitou e pediu bis ao final da apresentação. Atendendo ao pedido de forma improvisada, o grupo voltou ao palco e surpreendeu com versões de Bob Marley e do clássico “Estou a dois passos”, da Blitz, encerrando o Encontro 013 em clima de celebração, comunhão e respeito às raízes que deram origem ao evento. Em bate papo com o Blog N’ Roll, o vocalista do Planta e Raiz, Zeider, contou sua ligação com Chorão e revelou em primeira mão que lançará um novo álbum de versões no início do ano. Em homenagem ao Chorão, vocês têm “Ghetto do Universo”, que vocês tocaram juntos. Queria saber um pouco dos bastidores, tanto do Chorão cantando com vocês no DVD quanto alguma história bacana desse encontro. Zeider – A primeira impressão que tivemos do Chorão foi muito marcante. Quando nos encontramos pela primeira vez, ele chegou extremamente caloroso e acolhedor com a gente. Éramos mais novos, uma geração que vinha logo depois, e parecia mesmo que ele estava abençoando a nossa caminhada. Quando mostramos a música para ele, “Ghetto do Universo” ainda era inédita. Assim que terminamos de tocar, ele continuou a canção, e disse que tinha uma do Charlie Brown, mas que queria colocar ela na nossa música também. Foi um gesto de muita generosidade. Nota da redação: A música em questão era Dias de Luta, Dias de Glória E tem alguma história curiosa nesses bastidores? Zeider – No dia da gravação do DVD ele tinha se machucado andando de skate, bateu a cabeça e estava no hospital, mas deu um jeito de sair de lá para participar. Ele representou, eternizou aquele momento. É um cara que mora no nosso coração, um ídolo, quase como um irmão mais velho para nós. Hoje fica a vibração e a energia. Santos tem essa força muito particular. É uma cidade que a gente frequenta desde o começo da nossa caminhada e sempre sentiu essa energia se perpetuando, passando de geração em geração, muito por causa do Charlie Brown Junior e de toda aquela galera, Marcão, Thiagão e tantos outros. É algo sensacional. Somos muito felizes por fazer parte dessa família. Vocês gravaram um novo álbum ao vivo em Noronha, lançaram álbum novo. Tem espaço para novidades em 2026? Zeider – Para 2026, temos um projeto chamado Tranquilize, que traz versões de músicas clássicas brasileiras, com uma pegada mais raiz. Ele deve chegar no começo do ano. Paralelamente, seguimos na estrada com a turnê do álbum Flor de Fogo, lançado em outubro de 2025, então estamos sempre rodando e produzindo. Além do Tranquilize, em breve devemos apresentar músicas inéditas. Elas já vêm sendo compostas há algum tempo, vão se acumulando, e chega um momento em que é preciso colocar tudo para fora.
Entrevista | Bullet For My Valentine – “Ele ainda é muito relevante, muito próximo aos nossos corações”

Vinte anos após o lançamento de The Poison, o Bullet For My Valentine encerrou um ciclo histórico em solo brasileiro. No último dia 20, pouco antes de subirem ao palco do Allianz Parque, em São Paulo, para abrir o show do Limp Bizkit, Michael Paget, Jason Bowld e Jamie Mathias conversaram sobre o peso do legado que carregam e a conexão renovada com uma nova geração de fãs. O Bullet For My Valentine, que ajudou a moldar o metalcore mundial, refletiu sobre a experiência de tocar seu álbum de estreia na íntegra pela última vez. Em um clima de celebração e respeito mútuo entre gerações do metal, os músicos destacaram a importância de manter a essência focada nas guitarras e a honra de dividir o palco com ídolos que foram cruciais para suas próprias formações musicais. >> Confira como foi o show em São Paulo Nesta entrevista, o trio abriu o jogo sobre o futuro sonoro do grupo, a “bênção” que foi o sucesso repentino nos anos 2000 e revela os discos fundamentais que definiram suas trajetórias. Confira abaixo o bate-papo completo. Qual é a sensação de ver um álbum como The Poison, que foi lançado há duas décadas, ainda ser a porta de entrada para tantos fãs? Michael Paget: É incrível, sabe? Aquele álbum se conectou com tanta gente 20 anos atrás e poder tocá-lo 20 anos depois, vendo todos esses novos fãs mais jovens aparecendo e aceitando o disco, tem sido maravilhoso. Ele ainda é muito relevante, é muito próximo aos nossos corações e temos muito orgulho dele porque fez muito pelas pessoas, a forma como ele se comunica e se conecta com elas. É muito importante para nós. Além disso, tocá-lo o ano todo em alguns dos locais onde tocamos pelo mundo e ir a lugares onde nunca estivemos antes também foi animal. Hoje é o último show, a última vez que o tocaremos na íntegra, então vai ser um estouro. Jason Bowld: É, a última vez tocando o The Poison. Vou sentir falta… até daqui a dez anos. O álbum mais recente é o homônimo (Bullet For My Valentine, de 2021)… esse som mais agressivo definitivamente combina mais com a banda? Jason Bowld: Ih, eu estaria revelando segredos, isso seria… Top secret? Jason Bowld: É, segredo absoluto. Eu não gosto de falar muito sobre como será o próximo álbum porque… Estou me referindo ao mais recente, de 2021. Michael Paget: Ah, o mais recente? Achei que era o próximo. O último foi o autointitulado (Self-titled), então o próximo vai ser ainda mais agressivo. Vai ser sempre pesado e sempre terá… vai ser simplesmente Bullet, é tudo o que gostaria de dizer, na verdade. Vai ser a cara do Bullet. O nu metal está tendo um retorno enorme. Como uma banda de metalcore, como vocês se sentem dividindo o palco com o Limp Bizkit hoje à noite? Michael Paget: Ah, é bom pra caralho, cara. Somos fãs de longa data do Limp Bizkit. Eles mudaram nossas vidas anos atrás, da mesma forma que o The Poison mudou a vida de tanta gente para nós. Ser convidado para vir e abrir para eles na América do Sul tem sido um sonho realizado. É loucura! Jason Bowld: É, muita loucura. Lugares enormes também, tem sido incrível! A energia da multidão é… não me lembro de ter visto uma banda gerar tanta energia com o público, sabe? E eles são classe pura. Pessoas de classe, músicos incríveis e, sim, eles ainda são relevantes. Mas, sabe, essa coisa do retorno do nu metal… não sei, talvez seja um retorno com algumas reviravoltas, mas na minha visão você não consegue replicar estilos que já passaram sem que pareça algo forçado. Vocês ficaram encantados com o apoio incrível e radical dos fãs brasileiros. Qual é o segredo para manter o respeito dessas lendas e, ao mesmo tempo, continuar relevante para a geração mais jovem? Michael Paget: Essa talvez seja uma pergunta para você responder, mas… acho que para nós, lá no começo, a gente explodiu muito rápido. De novo, acho que foi por causa do The Poison e de como tocamos em algo que conectou com muita gente. Não sei o que foi, mas foi uma “bênção disfarçada” para nós. Simplesmente aconteceu do dia para a noite. E acho que talvez seja porque somos focados nas guitarras; Metallica e Iron Maiden são influências muito grandes na banda também. Então acho que o encaixe foi certo e nós éramos aquela banda nova que as pessoas queriam levar em turnê. Já realizamos muita coisa, a nossa lista de desejos está bem cheia no momento, mas estamos no caminho. Só uma última pergunta: cada um de vocês poderia dizer um álbum que mais influenciou na carreira? Jason Bowld: Steal This Album!, do System Of A Down. Jamie Mathias: Master of Puppets, do Metallica. Michael Paget: Cowboys From Hell, do Pantera.
Entrevista | Supercombo – “Tivemos que acreditar no processo para a turnê começar”

A Supercombo encerrou 2025 em clima de celebração, no último domingo (14), com um show especial na Audio, em São Paulo. A apresentação marcou oficialmente a fase ao vivo do álbum Caranguejo e confirmou o bom momento da banda, que entregou um repertório equilibrado entre músicas novas e faixas já consolidadas da carreira. Com a casa cheia, o público respondeu com intensidade desde os primeiros acordes, acompanhando cada refrão e criando uma atmosfera de conexão constante com o quarteto ao longo da noite. No palco, as músicas de Caranguejo ganharam ainda mais força, reforçando a proposta do disco de resgatar a essência roqueira da Supercombo sem abrir mão das experimentações. Faixas como A Transmissão, Piseiro Black Sabbath e Hoje Eu Tô Zen evidenciaram a versatilidade do grupo, enquanto momentos mais introspectivos, como Testa e Alfaiate, trouxeram contraste e profundidade ao set. O show funcionou como um retrato fiel do álbum e deixou claro que o projeto representa um dos pontos altos da trajetória da banda, além de criar expectativa para os próximos passos já anunciados para 2026. Nossa correspondente e produtora da banda, Fernanda Santana, conversou com a banda representando o Blog N’ Roll. A entrevista encerra um ciclo que começou com um papo exclusivo antes do lançamento de Caranguejo. Qual foi a maior lição que 2025 trouxe para vocês como banda? Léo Ramos – Acreditar no processo. A gente teve a ideia de lançar o disco em duas etapas e segurou um bom tempo de shows para poder fazer o lançamento. Tivemos que acreditar no processo para a turnê começar de fato no meio do ano. O início foi meio caótico, porque é muito ruim para uma banda ficar um tempo sem fazer show, principalmente a gente, que ama tocar e tem muitos lugares para ir. Para mim, o maior aprendizado é confiar no processo e no planejamento e ver as coisas acontecendo à medida que a gente vai fazendo. A turnê foi muito massa esse ano e já estamos ansiosos pela parte dois. E com 2026 chegando, o que o coração de vocês espera que o próximo ano traga, fora do roteiro? Paulo Vaz – Eu imagino que a gente está plantando muito em 2025, com tudo o que está fazendo agora e ainda no processo de 2026. Eu sempre penso que as coisas acabam acontecendo por causa desse plantio. Então, eu creio que o ano que vem vai ser tão bom quanto esse, com coisas novas, com algumas realizações inesperadas e outras esperadas, que esse plantio vai trazer. Festas chegando, qual é a música de Natal favorita de cada um? Carol Navarro – Mariah Carey Paulo Vaz – Do Ivan Lins, “Começar de Novo” Carol Navarro – Uma que eu sempre escuto e fico triste, mas é sempre bom ouvir, é a da Simone. É muito triste, não sei por que colocaram isso no Natal. Léo Ramos – Agora, com a minha filha, a favorita é a do “Acabou o Papel”. Essa é a música do momento lá em casa. André Dea – Minha cabeça está um grande vazio agora, não consigo lembrar de nenhuma. Talvez esteja na hora da Supercombo fazer uma música de Natal… Quem sabe, né? Qual é a idade musical de vocês no Spotify Wrapped? Carol Navarro – A minha é 71.Léo Ramos – A minha foi 19 anos.André Dea – A minha deu 70.Paulo Vaz – A minha foi 82. E o artista e álbum do ano para cada um no Spotify? Carol Navarro – Eu fiquei muito viciada no disco novo da Hayley Williams (Ego Death At a Bachelorette Party). É enorme o nome, nem sei falar direito, mas esse disco é muito foda. Paulo Vaz – Em matéria de álbum, para mim ainda é o Caju, da Liniker. Foi o que mais me surpreendeu nos últimos 20 anos. Léo Ramos – Minha banda mais ouvida do ano foi Badluv, até porque fui tocar com os caras. Então, beijo Badluv. André Dea – O meu disco mais ouvido foi Papota, do Ca7riel & Paco Amoroso. Foi muito massa porque a gente viu esse show aqui mesmo na Audio, de pertinho. Independente de streaming, qual foi o artista revelação do ano para vocês? Léo Ramos – Para mim foi o Sleep Token. Eu já gostava antes, mas o último disco me surpreendeu muito. Eles misturaram pop com metal, quase um R&B metal. Achei muito foda. Carol Navarro, Paulo Vaz e Andre Dea – Eu vou de Ca7riel e Paco Amoroso. Tudo o que eles fazem eu acho foda. Eles fizeram um pop fora do padrão tradicional, algo que ninguém estava fazendo. A história do lançamento, deles na banheira comendo sushi, é inacreditável. O Cara dos Discos e o Blog N’ Roll foram responsáveis pela primeira entrevista de vocês neste novo ciclo, gostaria que você deixasse um recado para a audiência deles: Muito foda. A gente acompanha o trabalho. Obrigada por estar sempre com a gente, falando de tudo, até das fofocas. Oh, o Korn veio ai, ano que vem vai ter Korn. Obrigado pelo espaço sempre. É legal porque ele corre e a gente corre também. Vale tudo sempre. Valeu, Renatão, Cara dos Discos. Ano que vem tem mais.
Entrevista | Health – “Vivemos no limite entre tentar agradar os outros e ser fiel a nós mesmos”

Antes de se apresentar como atração de abertura do Pierce The Veil no Espaço Unimed, em São Paulo, nesta terça-feira, 16 de dezembro, o Health falou sobre o momento atual da banda. A repórter Mayara Abreu entrevistou o baterista BJ Miller, que falou sobre o momento atual da banda com seu novo álbum. O show marcou mais um capítulo da fase intensa vivida pelo grupo, impulsionada pelo lançamento de seu sexto álbum de estúdio, Conflict DLC, que chega como a consolidação de uma trajetória marcada por peso extremo, experimentação sonora e uma estética que abraça o desconforto como linguagem. Anunciado em setembro, Conflict DLC reúne 12 faixas de metal industrial em alta voltagem e aprofunda os subtextos existenciais que se tornaram marca registrada do Health. O disco transita sem concessões entre ruído eletrônico, industrial pop e estruturas quase dançantes, como nos singles Ordinary Loss, Vibe Cop e Shred Envy, sempre sustentados por riffs massivos, batidas explosivas e um clima melancólico que reflete o caos da vida moderna. Definido pela própria banda como uma coleção de “sad bangers” para o fim dos tempos, o álbum dialoga diretamente com sua base de fãs, uma coalizão de subculturas unida pela intensidade emocional e pela busca de conexão em meio à escuridão. Falando sobre o Health, minha primeira pergunta é sobre o último álbum, Conflict DLC. Eu li que o disco é descrito como uma coleção de “sad bangers”. Esse álbum é mais um espelho desse mundo ou um jeito de escapar dele? Isso é difícil de responder e eu estou tentando responder para todos agora. Certamente está espelhando nossos tempos, mas nós temos intenção de ser um escapamento. Nossos livestreams são sempre bons, esperamos, um espelho e um lançamento do que se tornou, mais ou menos, um monte de ansiedade no mundo. Quando eu estava lendo sobre o Health e ouvindo a banda, percebi que os fãs vêm de diferentes cidades e de diferentes subculturas. Como vocês mantêm o Health verdadeiro a si mesmo enquanto falam com públicos tão diversos? Bem, a gente não consegue agradar todo mundo o tempo todo. Eu odeio citar o Mitch Hedberg, porque vocês já sabem disso, mas ele tem uma frase ótima sobre isso. No fim das contas, todas essas pessoas estão no nosso show. Só que é impossível atender a todas as expectativas. A gente vive constantemente nesse limite entre tentar agradar os outros e ser fiel ao que faz sentido para nós mesmos. Por isso, a decisão quase sempre começa pelos nossos instintos, que é agradar a nós mesmos. Ao mesmo tempo, a gente observa as reações, especialmente o que aparece no Discord, que o John costuma chamar de um tipo de grupo de foco da internet. Tentamos filtrar esses retornos e levar em conta o que o público responde. Muitas vezes isso acontece em tempo real. Tocamos uma música nova, percebemos que não funcionou tão bem, reavaliamos, mudamos a ordem ou voltamos a testá-la em outro momento. Quando tocamos algo e a resposta vem forte, fica claro que aquilo conecta. A ideia é que essa energia seja contagiante. Mesmo que alguém não esteja totalmente convencido no começo, a empolgação de quem está ao lado acaba envolvendo todo mundo. De repente, a pessoa se vê ali, abraçada àquele momento, pensando que, no fim das contas, aquilo faz sentido. Falando especificamente dos shows, eles parecem sempre funcionar como um ritual, não apenas como um concerto comum. O que você quer que as pessoas sintam quando saírem de um show do Health? Você sabe, nós não somos pessoas muito religiosas, e o espiritual não está geralmente no nosso vocabulário, mas eu espero que seja uma experiência espiritual de algum tipo. Para encerrar, uma pergunta rápida. Pop extremo ou industrial clássico? Oh, você disse pop extremo? Sério? Eu não sei, o que é pop extremo? Tipo, super pop? Industrial, sim, eu acho, você sabe, mas nós dois, eu quero dizer, nós dois, nós todos gostamos de ambos, então, sim, aqui estamos. Um show perfeito para você. Um show perfeito para assistir? Tool no ano passado foi bastante incrível. Deus, se eu pudesse ver o Nirvana tocar.. E o novo álbum em uma palavra? Uau! Isso funciona? Foto: Renan-Facciolo