Entrevista | Tom Zé: “Não faço música com facilidade”

Em 1969, o cantor, compositor e arranjador baiano Tom Zé já despertava o interesse do Brasil todo com o seu jeito criativo e inovador. No ano anterior, além de vencer o 4o. Festival de Música Popular Brasileira com a canção São São Paulo Meu Amor, ele marcou presença no icônico álbum Tropicália ou Panis et Circencis, gravado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes, além dos poetas Capinam e Torquato Neto, e do maestro Rogério Duprat. Diante de tais acontecimentos, que incluiu ainda o lançamento do seu primeiro álbum solo, a trajetória de Tom Zé estava pavimentada. E foi entre 1969 e 1976 que o artista conseguiu mostrar que era um artista que havia chegado para ficar. Agora, mais de 50 anos depois, Tom Zé tem suas joias sonoras reunidas no álbum Raridades (Warner Music Brasil). Raridades reúne 14 canções dos catálogos dos selos Continental e RGE. Entre os destaques do repertório, estão raras versões alternativas de canções conhecidas de Tom Zé, como Senhor Cidadão e Augusta, Angélica e Consolação, além das músicas que ele gravou para a novela Xeque-Mate, da extinta TV Tupi. “Até pra mim esse disco foi uma verdadeira revelação. O Renato Vieira (jornalista responsável pela curadoria), por sorte, descobriu atos e fatos inumeráveis da minha vida”, comenta Tom Zé, que conversou com A Tribuna por telefone. Relíquias de Tom Zé Entre os achados, o baiano destaca Você Gosta, faixa que abre o álbum, uma parceria com o poeta e compositor gaúcho Hermes Aquino, um raro representante do tropicalismo gaúcho. “O Hermes Aquino fez muito sucesso com uma música chamada Nuvem Passageira, mas naquela época ele morava aqui (São Paulo) e passou um tempo tentando a vida por esses lados”, relembra Tom Zé, ao falar do hit que foi tema da novela O Casarão, da Rede Globo (1976). Outra preciosidade encontrada por Renato, segundo o baiano, foram os arranjos especiais do argentino Hector Lagna Fietta. “O Enrique Lebendiger, da RGE, trouxe o Lagna Fietta, que era um nome forte do bolero e tango. Quando vi esse arranjo fiquei admirado de como ele era bem feito, fácil de cantar. A introdução chamava o cantor a cantar. Eu não tinha hábito de ler arranjos, mas Jeitinho Dela tem isso”, justificou o artista ao falar da terceira faixa do álbum. Durante a nossa conversa, Tom Zé estava empolgado, disposto a fazer um faixa a faixa do disco, tamanha a felicidade com o repertório resgatado por Renato Vieira. Parou assim que o telefone tocou. “Esse telefone tá doido. Preciso até não ser demorado nas respostas porque gosto de contar histórias, mas acaba engavetando e atraso os outros compromissos”, comentou, aos risos. Para resumir o que faltou do álbum, Tom Zé voltou a elogiar a participação de Lagna Fietta. “Quase todos os arranjos foram dele. Ele era um craque de arranjador. Depois, o Lagna Fietta participou das últimas músicas de Vinicius com Toquinho. O Toquinho viu o que ele fez comigo e chamou”. Sem parar Mas enquanto celebra a redescoberta de seus tesouros, Tom Zé também segue ativo no seu processo de criação. Entre lives e conversas com os amigos, diz que segue acordando às 4h da manhã para escrever novas canções. “Sempre trabalhei muito dentro de casa porque não faço música com facilidade. É uma batalha muito grande”. No momento, Tom Zé afirma que tem se dedicado a compor mais faixas para o musical Língua Brasileira, de Felipe Hirsch. “Era um musical sobre meu disco da Tropicália, mas ele viu a música Língua Brasileira (do álbum Imprensa Cantada, de 2003) e disse que queria mudar. Agora estou dia e noite aproveitando a quarentena para fazer músicas que ele vai me passando de diversas possibilidades na peça”.
Entrevista | Rodrigo Santoro – “A preservação vem da admiração e respeito”

Após um ano de espera, desde a estreia nos Estados Unidos, a plataforma de streaming Disney+, enfim, chega ao Brasil. Em sua base, disponível a partir desta terça-feira (17), um grande acervo da Disney, Pixar, National Geographic, Marvel e Star Wars. Uma das estreias é Sobrevoando, da National Geographic, que traz o ator Rodrigo Santoro como dublador. Em resumo, a docu-série explora a geografia, história e cultura de oito regiões deslumbrantes da América Latina vistas de cima, com imagens em alta definição, histórias desconhecidas e curiosidades sobre a diversidade natural e cultura de cada uma das regiões. O ator e dublador Rodrigo Santoro conversou com o Blog n’ Roll sobre a produção, além do desafio de dublar algo tão diferente. No primeiro episódio de Sobrevoando, a Península de Yucatán, que abrange México, Belize e Guatemala, é o destaque. Você chegou a viajar para lá? Eu já estive em uma cidadezinha na Península de Yucatán há uns cinco ou seis anos atrás, talvez mais até. Fiz um filme lá, num lugar que tinha umas locações incríveis, não esqueço. Quando vi o nome do lugar na lista do programa, fiquei bem empolgado. A ideia dessas tomadas aéreas me dá uma dimensão muito interessante do nosso tamanho nesse planeta. Você entende melhor o quão é poderoso, potente, as paisagens, esculturas. É uma união interessante com as paisagens, fauna, flora, vegetação, mas você tem também a cultura, os pescadores, um recorte que mistura de maneira muito feliz essa mistura de história, geografia, costumes, línguas, dá uma noção muito interessante desses lugares. Você vai precisar ir lá para conhecer o lugar, mas é um belo de um teaser. Algo que chama muita a atenção nessa produção é a preservação dos patrimônios históricos e naturais. Visto do alto, isso fica muito mais evidente. É uma questão, felizmente, cada vez mais discutida. Você preservar a biodiversidade é você respeitar todos os mecanismo que favorecem a existência humana. É quase matemática. Se você não preservar… A preservação vem da admiração e respeito. Acho importante despertar, o programa presta esse serviço, ele deslumbra o telespectador, convida a mergulhar nas riquezas desse lugar, logo isso vai gerar uma empatia, admiração para que isso continue existindo. Você tem o hábito de pesquisar bastante sobre os lugares quando realiza suas viagens pessoais ou busca o descanso? Quando viajo para descansar, procuro seguir esse objetivo. Afortunadamente viajo bastante a trabalho. E nunca é só trabalho. Sempre tenho tempo livre e sou essa pessoa que quer conhecer as particularidades históricas, culturais e ter a oportunidade de ter a experiência de estar naquele local. Eu prefiro escolher e conhecer um lugar a fotografar os pontos turísticos. Prefiro ir no boteco e conversar com um local. O artista é um observador de conhecimento. Quais as principais diferenças entre dublar uma docu-série e um personagem de animação, como você fez em Rio e Rio 2? A única semelhança é trabalhar tendo como veículo de expressão apenas a voz. As animações que fiz, por exemplo, participei do começo, quando você é gravado. A animação é feita inspirada nos seus movimentos. Você, em conjunto, cria o personagem. É diferente. Num trabalho de voz over, trazer a voz para narrar um espetáculo, um atrás do outro, riquezas, particularidades,são movimentos que a voz tem que acompanhar. Às vezes é mais intimista, às vezes tem um escopo maior, você estava vendo uma natureza gigante, o mar, o rio que corre, o trabalho é muito guiado pelo o que você está vendo. O personagem é a natureza. Basicamente é uma adequação, deixo que a imagem fale. Não quero impor um ritmo ou uma forma de fazer. Mas teve algum desafio com Sobrevoando? Teve um desafio linguístico. Existem alguns dialetos e tive todo o prazer do mundo de falar. São palavras preservadas, dialetos, relíquias históricas. Muito interessante. Até para falar, o tom da voz muda. Por exemplo, quando vou falar espanhol, um tom de voz é uma, inglês é outro, português idem. A embocadura tem que se adaptar à musicalidade da língua. É o material que manda.
Entrevista | Mike Kerr (Royal Blood) – “Estávamos livres para trabalhar”

Em 2014, logo após lançar o seu álbum de estreia, homônimo, o duo britânico Royal Blood foi festejado por grandes nomes do rock. Dave Grohl, Tom Morello, Metallica e o guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page, enalteceram o poder sonoro da dupla. Mas foi o comentário do último deles que mais combina com o atual momento de Ben Thatcher e Mike Kerr. “Eles são grandes músicos. O álbum deles elevou o nível do gênero musical”, comentou Page, em entrevista ao site britânico NME, logo após assistir a um show do Royal Blood em Nova Iorque. Agora, prestes a lançar o terceiro álbum de estúdio, ainda sem nome definido e previsto para 2021, o Royal Blood mostra que seguirá elevando o nível do rock sem amarras ou seguindo fórmulas batidas. Trouble’s Coming, divulgada recentemente, traz grooves inspirados por Daft Punk, Justice e Phillipe Zdar. “Acho que essa música é um reflexo do álbum inteiro. Para nós, a influência veio de tudo que amamos. Nos primeiros álbuns, estávamos nervosos em expor essas influências. Nesse álbum, permitimos que essas influências se tornassem mais óbvias. Fomos influenciados por diferentes músicas francesas dançantes, além de músicas dos anos 1970, como o Bee Gees. Ficamos empolgados em fazer música dançante que, ao mesmo tempo, tivesse riffs de rock. É uma combinação bem legal”, comenta o vocalista e baixista, Mike Kerr, que conversou com o Blog n’ Roll via Zoom. O músico revela que não costumava ler comentários sobre o seu trabalho, mas passou a fazer isso recentemente pois acredita ser a melhor forma de interagir com os fãs. “Acho que tem sido uma resposta muito positiva ao single. As pessoas parecem estar animadas. Não sabia que já tínhamos passado de 6 milhões (streams). É muita gente”. Videoclipe de Trouble’s Coming Trouble’s Coming ganhou um videoclipe no último dia 23. Segundo Kerr, a dupla precisou esperar bastante para registrar a produção. “Gravamos com uma equipe bem menor do que o comum, com muito mais segurança. Tudo foi feito em um estúdio também. Tivemos limitações, mas isso nem sempre é algum ruim”. O trabalho audiovisual teve Dir. LX como o responsável por capturar um novo toque em seu estilo visual. O diretor, mais conhecido por seu trabalho em ícones do rap e do grime do Reino Unido, como Dave, Bugzy Malone e Kojo Funds, seguiu as pistas das letras misteriosas de Kerr para criar um vídeo que pulsa com uma atmosfera sinistra e um toque cinematográfico neo-noir. Produção caseira de Mike Kerr e Ben Thatcher Se nos dois primeiros álbuns a dupla dividiu a produção dos discos com Tom Dalgety e Jolyon Thomas, agora é quase 100% independente. A exceção é uma das canções. “Foi uma experiência diferente, porque estávamos livres para trabalhar. Parecia que nossos pais tinham viajado e a gente pôde dar uma festa. Deram uma Mercedes na nossa mão sem limite de velocidade. Foi uma experiência bem divertida, diferentemente de outros álbuns que gravamos”. A liberdade, no entanto, não significa a morte da sonoridade marcante dos britânicos. Kerr afirma que isso está mantido. “São as mesmas características, mas em diferentes formas. Algumas têm mais batidas e outras têm mais riffs”. Posteriormente, quando o covid-19 permitir, Mike Kerr já sabe onde quer apresentar suas novas músicas. “Brasil, claro! É o melhor lugar do mundo para tocar. Minha melhor memória é da gente tocando no Lollapalooza (2018). Foi incrível!” *Texto e entrevista por Caíque Stiva e Lucas Krempel
The Bombers completa 25 anos com um Bumerangue em mãos

Poucas bandas de rock autoral da Baixada Santista conseguem carregar uma história sem interrupções por mais de 20 anos. É possível contar nos dedos. Estão nesse pacote nomes como Vulcano e Garage Fuzz, ambas com mais de 30 anos nas costas. Integrante mais nova desse seleto grupo, a The Bombers alcançou os 25 anos em 2020. E não deixou a produção de lado. Bumerangue é o novo EP dos músicos. São seis faixas que passeiam pelo punk rock e hardcore, terminando com um reggae beatbox mais interessante ainda. Segundo o guitarrista e vocalista, Matheus Krempel, fazer com que a banda chegasse à marca nunca foi uma meta. “Apenas aconteceu. Quando mais novo, achava que seria um engravatado e teria um carro voador. Hoje, tenho minha guitarra e o tempo que voa”. Porém, com os olhos no futuro, o vocalista reflete que está “mais preocupado em comemorar os 50 anos do que os 25”. Os 25 anos da banda renderam os álbuns 7 Songs, Democracia Chinesa, All About Love e Embracing The Sun, o último lançado em 2017, além de quatro EPs, singles e participações em diversas coletâneas nacionais e internacionais. Livro em breve Foram várias mudanças no line-up ao longo da trajetória. A primeira formação durou 13 anos, com conquistas e também com uma pequena taxa de ingenuidade. “Ao menos da minha parte”, diz Matheus. “Escrevi um livro sobre essa fase e espero lançar logo. Não Vencer, Não é Perder (nome da obra) retrata todo o deslumbramento das primeiras conquistas até a grande decepção que foi chegar próximo da realização dos sonhos”, pontua. A decepção, à qual o vocalista se refere, rolou no início da década passada, logo após o lançamento do Democracia Chinesa, primeiro trabalho totalmente em português. Entre 2003 e 2007, o grupo precisou se reinventar para dar o passo seguinte. De algo sem compromisso, gerou novas músicas. Assim surgiu All About Love, de 2014, que fala sobre o amor pela música e a vida. “Esse disco foi o responsável por conseguirmos uma segunda chance na carreira. A partir dele, nunca mais vacilamos e viramos uma verdadeira máquina de produção. Me orgulho muito de termos lançado mais de 40 músicas nos últimos seis anos”. Em tempos de covid-19, a máquina de produção do Bombers não parou mesmo. Já havia um álbum de inéditas pronto quando o isolamento social acabou estourando, em março. “Estávamos com toda a bateria pronta. Com isso, acabamos segurando a gravação do álbum e começamos a focar em criar um novo projeto, que se tornou o Bumerangue”. Estreia no Juntos Pela Vila Gilda De início, o grupo já havia divulgado as faixas O Que Passou, Passou, Ardendo em Chamas e Livre! durante a primeira edição do Juntos Pela Vila Gilda, que aconteceu no canal do Blog n’ Roll no YouTube. Assim, com a pandemia desafiando o projeto, o grupo ousou nas limitações. “Mostramos para nós mesmos que é possível manter a máquina funcionando, mesmo com tantas adversidades”. Desse modo, foi no meio de uma pandemia, regada a versões de Ramones, Spy vs. Spy e o santista Bruno Thadeu, que a banda recebeu uma luz de aprendizado, dando forma à celebração da sua trajetória, olhando para o seu próximo passo. “Odiaria sermos aquele estereótipo da banda que segue no automático e que comemora 25 anos lançando um álbum ao vivo ou coletânea”, diz Matheus. “Assim, ainda temos muita coisa para dizer e o Bumerangue é sobre isso”. Novidades na formação O álbum marca o retorno de Estefan Ferreira e a entrada de Raul Signorini. Para Matheus, a sonoridade da banda nunca soou tão firme e coesa como agora. “Estefan trouxe de volta o seu estilo de tocar, o que ajuda a compor a sonoridade clássica dos primeiros anos do Bombers, enquanto o Raul apresentou uma visão mais moderna sobre o rock em geral”, avalia o vocalista. Apesar de todos os contratempos e mudanças, o Bombers entrega um EP genial, forte, confiante, já sendo um clássico na discografia da banda. O bumerangue já foi lançado, e prepare-se que, na volta, já terá um álbum novo e com gravações inéditas.
Entrevista | Gabriel Braga Nunes – “Esse é um projeto que pode até ser vitalício”

Quem pensa nas obras mais conhecidas do dramaturgo inglês Willian Shakespeare (1564-1616), como Romeu e Julieta ou Hamlet, nem imagina que O Bardo, como era chamado o autor, também escrevia sonetos. E fica mais difícil imaginar que essa poética, escrita em um inglês arcaico, pode servir de letra para um rock. Mas é nessa mistura inusitada que Gabriel Braga Nunes aposta para trilhar um novo caminho profissional. O artista, conhecido por trabalhos em novelas da Globo e Record, preparou uma série de singles em que música e sonetos shakespeareanos se harmonizam. Dez composições já estão prontas e, destas, quatro estão disponíveis nas plataformas digitais. “A ideia surgiu da minha dificuldade de escrever boas letras. Sempre tive mais facilidade em compor a música e me parecia que as minhas letras diminuíam as músicas que eu tinha feito. Os sonetos são uma parte mais desconhecida de Shakespeare e achei esses 154 sonetos que ele deixou, que achei que combinavam perfeitamente com o rock, com alegria, plenitude e desespero”, conta Nunes. Métrica e rima de Gabriel Braga Nunes O músico afirma que além da métrica e da rima colaborarem com as músicas, os sonetos não têm um personagem principal. São feitos na forma de um testemunho do autor, em primeira pessoa, com dramaticidade muito forte. O primeiro lançado foi All in War, que apresenta o Soneto 15. Nele são abordados temas como a decadência e a ação do tempo sobre nossas vidas. O autor sofre ao perceber a finitude na pessoa amada e a proximidade da morte. Em uma tentativa de repor o que foi roubado, o poeta escreve em guerra com o tempo e devolve em versos a vitalidade do amor. A segunda canção do projeto, Antique Song, tem uma participação especial: a filha de Nunes, Maria, de 6 anos, canta ao seu lado. A música, baseada no Soneto 17, oferece a poesia como uma forma de eternidade. A beleza e as qualidades são tão sublimes, que o autor teme ser desacreditado no futuro. Mas mesmo assim, escreve, tentando conceber em versos o tamanho de seu amor. A terceira faixa é Mounted On The Wind, um blues composto a partir do Soneto 51 e inspirado na canção Edelweiss, do musical A Noviça Rebelde, do qual Nunes participou há dois anos. O Soneto 51 aborda a ansiedade do amante em encontrar seu amor, com uma metáfora sobre a velocidade do galope de seu cavalo, que o faz se sentir montado no vento. A faixa mais recente A última faixa, For My Sake, foi uma das primeiras canções compostas para esse projeto, há quatro anos. Em resumo, tinha Alice Cooper e Kiss como referências de estilo. “Interpretei o sujeito do soneto como uma pessoa comum, sem grandes feitos, e que reconhece não ter tido melhores oportunidades. Alguém que enxerga o cuidado e atenção de sua companheira ou companheiro, como um bem precioso na vida”, explica. Com arranjos feitos em parceria com Luíza Lapa (que conheceu fazendo o musical A Noviça Rebelde) e Leo Mayer (com quem tocou na banda Hurricanes), os singles buscam o equilíbrio entre literatura e rock, inspirados em Leonard Cohen, Nick Cave, Lou Reed, entre outros. Mixagem A mixagem do trabalho completo, com dez sonetos, foi feita em fevereiro, antes da pandemia, período em que o artista continuou compondo. “Tem mais sete sonetos prontos para lançar mais para frente. Esse é um projeto em andamento, que pode até ser vitalício”, afirma o músico, que, além de cantar, em algumas faixas toca baixo e guitarra. Até o final do ano, quando nasce sua segunda filha, Nunes pretende continuar em casa, mantendo o isolamento e compondo. Mas para 2021, assim que for possível, ele pretende fazer shows do novo projeto. “A gente não sabe quando vai poder voltar. Mas, até lá, sigo envolvido com os sonetos.”
Entrevista | Matuê – “Foi uma forma de homenagem ao Charlie Brown Jr”

No mês passado, o rapper cearense Matuê, de 27 anos, alcançou números impressionantes com o seu álbum de estreia, Máquina do Tempo, lançado pela Sony Music. No Spotify, o artista conseguiu emplacar as sete faixas do álbum no top 15 da plataforma. Foram 5 milhões de streams no álbum em 24 horas. E se isso tudo não bastasse, no YouTube ainda teve 31 milhões de views do seu álbum em três dias. O artista conta que a criação de um álbum cheio o intimidava bastante no início, ainda mais por ele querer fazer algo com um conceito todo amarrado. No entanto, a ideia avançou e já tem outros frutos por vir. “Há dez meses, notamos que tínhamos um apanhado de músicas que começaram a fazer sentido entre si. Com o passar do tempo, vimos que dava para criar uma história, e foi aí que surgiu a ideia dos elementos audiovisuais. Cada um dos vídeos é como se fosse trechos da história completa. Ainda vamos mostrar isso para o pessoal através do comic book. Falando sobre as teorias, a gente vê várias, e alguns detalhes estão certos, mas outros ainda estão errados. Vamos apresentar isso com nosso gibi em breve”. Matuê nos EUA Na pré-adolescência, muito antes de iniciar a carreira musical, Matuê viveu por três anos em Oakland, nos Estados Unidos. Lá, ele aprendeu o idioma e passou a vivenciar a cultura do hip hop como um todo. Posteriormente, passou a dar aulas de inglês, o que possibilitou investir em equipamentos para gravar o seu trabalho autoral. “Foi uma ferramenta que me ajudou a entrar no meu sonho de fazer música. Essa é a conexão entre os EUA e minha carreira”. Matuê, frequentemente, é comparado com o norte-americano Travis Scott, que seria headliner do último Lollapalooza Brasil. Mas isso não o incomoda, principalmente quando o assunto não é sonoridade. “Me inspiro bastante no trabalho do Travis. Acho bem completo. Ele consegue trabalhar a arte dele em várias frentes, não só na questão musical. Isso torna ele uma inspiração bem grande. Musicalmente, não vejo tantas similaridades entre nossos trabalhos. Em termos de sons, fazemos coisas bem diferentes. Mas, a forma como ele embala o produto dele e faz os lançamentos me inspiram bastante. Busco aprender com ele com essas coisas não convencionais e inesperadas”. Homenagem ao Charlie Brown Jr Para os fãs de Charlie Brown Jr, Matuê faz uma homenagem a Chorão na faixa-título do álbum. A canção traz um trecho de Como Tudo Deve Ser, um dos clássicos da banda. “Tenho uma história bem interessante com o Charlie Brown Jr, mais especificamente com o Chorão. Cheguei a conhecer ele em Fortaleza uma vez, com muita sorte. Eu estava andando de skate em uma pista que era muito famosa aqui, e ele me deu um ingresso para poder curtir o show do Charlie Brown. E isso me marcou demais, porque eu era e ainda sou muito fã da banda. Na verdade não foi um sample, mas uma regravação, foi uma forma de homenagem à banda”. Antes de lançar o álbum de estreia, Matuê preparou os fãs com uma série de ações nas ruas de São Paulo. Cartazes foram espalhados pela cidade e um grafite imenso foi preparado na lateral de um prédio na Capital. “O preparo do álbum foi quando a gente buscou fazer um trabalho legal de marketing, com a parede grafitada em São Paulo, e tudo mais”. Matuê conta que está empolgado para começar a fazer os shows de divulgação da Máquina do Tempo, mas respeitando todas as questões de saúde. “Falando de forma mais ampla, gostaria cada vez mais de ser uma força para solidificar o trap como gênero musical entre os mais fortes no Brasil. Quero que isso que a gente faz se torne cada vez mais protagonista na música brasileira. Acho que conseguimos um pouco com esse disco. Espero repetir o feito com mais impacto e mais conexão com quem curte”.
Entrevista | Fantastic Negrito – “Não preciso que ninguém fale que minha vida importa”

Atração da segunda edição do Juntos Pela Vila Gilda 2, que acontece em dezembro, o guitarrista norte-americano Fantastic Negrito é um dos nomes mais expressivos do blues contemporâneo mundial. Nas últimas quatro edições do Grammy, faturou duas vezes o prêmio de melhor álbum de blues contemporâneo: The Last Days of Oakland (2017) e Please Don’t Be Dead (2019). O mais recente capítulo dessa discografia é Have You Lost Your Mind Yet?, lançado em agosto. E como já era de se esperar, Fantastic Negrito segue impressionando com um repertório eclético, envolvente e cheio de técnica. Em entrevista para o Blog n’ Roll, Fantastic Negrito falou sobre o novo álbum, influências, black lives matter e a participação no Juntos Pela Vila Gilda 2. O que você trouxe de influências para compor esse álbum? Eu gosto de me manter informado quando faço meus álbuns. Have You Lost Your Mind Yet? já tem um nome esquisito por conta disso. Eu gosto de fazer comentários sociais. Quando eu comecei, tocando nas ruas, era exatamente isso que fazia. Escrevia sobre o que estava acontecendo ao meu redor. Por isso, o álbum fala das situações atuais do mundo, com esse movimento de extrema direita que vem ganhando força. Tocar sobre essas coisas é algo perigoso, mas é muito bonito ao mesmo tempo. Mostra a força da música. Você perdeu a cabeça muitas vezes enquanto compunha o disco? Quando eu estava escrevendo Have You Lost Your Mind Yet?, fiquei um pouco maluco (risos). E não tem problema nenhum quando isso acontece. Faz parte, somos humanos. Nós, afro-americanos, passamos por muitos desafios. Sempre vivemos dramas que não são novos. E toda essa situação se tornou um novo desafio. Por isso, temos que superar tudo isso para sairmos mais fortes como sociedade. Have You Lost Your Mind Yet? não é um disco de blues. Transita em várias vertentes e traz uma mensagem muito importante sobre saúde mental. Como foi a criação dele? Sempre que faço um álbum, e esse é o meu terceiro, tento fazer algo bem diferente do anterior. Mesmo que tenha sido um sucesso. Eu preciso fazer algo diferente e ótimo ao mesmo tempo. Nesse álbum, trabalhei com alguns vizinhos e amigos que têm um órgão. Coloquei aquilo no estúdio com eles e decidi trabalhar em cima desse elemento. Além disso, decidi abordar a questão da saúde mental. Li muito sobre os desafios de cuidar da saúde mental, especialmente em 2020, com a internet e essa proliferação de informações falsas na política, tanto na esquerda quanto na direita. Por isso, o álbum é associado a isso. E, musicalmente, coloquei blues, hip hop, jazz… ah, o blues está em tudo, cara. Eu ouço em todo lugar. Esse álbum é para te fazer ter bons momentos e celebrar, apesar de tudo. Nós nos medicamos com música. Resumindo, o álbum traz essa questão dos problemas de saúde mental causados pelas crises globais e pela internet. Como surgiu essa parceria com o E-40? Eu sempre fui fã do E40, e o conheci quando lancei meu primeiro álbum, em 2016. Ele é um ótimo artista, muito inovador e original. Ele lançou uma música chamada Capitain Save a Hoe há 25 anos, e o chamei para ajustarmos a ideia de sua música para algo voltado para a saúde mental. Por isso, criamos a Searching for Capitain Save a Hoe. Fala sobre temas importantes. Qual é a sua opinião sobre o fortalecimento do Black Lives Matter? Primeiramente, eu sou um homem crescido, e não preciso que ninguém fale que minha vida importa. Eu sempre soube disso. Segundo: esse movimento foi criado porque não houve resposta para a brutalidade policial, que dizimou a vida de afro-americanos. Por isso, agradeço a todos que apoiam o movimento e dão voz ao assunto. A execução de afro-americanos por policiais precisava dessa reação. Se houver esse tipo de reação sempre que essas mortes acontecerem, teremos ferramentas para a polícia mudar sua abordagem. O caso do George Floyd, por exemplo, foi uma clara execução. Não é esse o trabalho da polícia. A polícia é uma agência do Estado que tem de servir e proteger as pessoas. Eles não são juízes para saírem julgando e executando pessoas na rua. Você participará do Juntos Pela Vila Gilda 2 e conheceu a comunidade por meio de um vídeo institucional. Qual mensagem você gostaria de passar para os moradores do Dique da Vila Gilda? Quero dizer aos meus irmãos, irmãs, família e amigos da Vila Gilda, que estou com vocês. E vocês estão comigo. Juntos podemos achar um caminho e uma voz para que, esperançosamente, nós encontremos uma resposta para combater essa opressão. Quero que saibam que meu coração, meu espírito e minha alma estão com vocês no meu novo álbum Have You Lost Your Mind Yet? Quero que toquem o mais alto possível para ecoar pela vizinhança e espalhar positividade. Ouça o último álbum de Fantastic Negrito
Entrevista | Tiê – “Já tenho outras músicas pra lançar logo mais”

A quarentena levou muita gente a fazer reflexões sobre a vida e os próximos caminhos a seguir. Com a cantora paulistana Tiê não foi diferente. O período abriu novas perspectivas sobre o tempo e a vida. E foi a partir dessa experiência que gravou Kudra, um álbum de seis faixas inéditas, lançado no início do mês. O próprio processo de criação do álbum foi completamente inédito na carreira de Tiê. “Foi uma coisa bem de familiar, de ficar num estúdio na casa do meu namorado, só com pessoas que estavam quarentando com a gente. Então, o meu técnico de som, que é o melhor amigo do meu vizinho, o Flávio (Juliano), que também tocou, fez parceria em algumas músicas, além das meninas participando da semana de gravação”. No último sábado (17), Tiê fez uma live no seu canal no YouTube para divulgar Kudra. O evento contou com uma apresentação audiovisual sensorial, com direção de Anna Penteado e fotografia de Fernando Moraes, que abraça as músicas do disco e, após a exibição, a cantora e compositora entrou ao vivo para um bate-papo com os fãs e espectadores. O álbum de Tiê Tiê conta que Kudra tem diversos significados importantes, por isso que decidiu batizar o álbum dessa forma. “Veio de uma das músicas. É um nome que quer dizer amor, tem uma origem árabe, e é também uma cidade na Índia, nome de família, enfim, uma soma de mistérios desse nome. Então achei que valia para um disco, que é diferente, mais curto, tem essa coisa de ser familiar, achei que seria um nome místico”. A música a qual se refere, Kudra, fecha o álbum e conta com a participação especial de Amora, sua caçula. “Foi maravilhoso gravar com ela. Como minhas filhas passaram todo esse tempo comigo, acompanharam o processo, trouxe ainda mais significado para o disco”, reflete a cantora. Participações especiais O álbum traz nomes interessantes na produção e participações especiais, como André Whoong, Gianni Salles, Adriano Cintra, Filipe Catto e a santista Dani Vellocet, que colaborou na letra da canção Estranhos, que traz uma reflexão sobre o reencontro e readaptação, das possibilidades de estranhamentos. “É uma amiga minha, ela não participa do disco cantando, mas uma das músicas a gente fez juntas. Ela é uma letrista muito boa, uma cantora incrível, tem um trabalho autoral muito bom também. Então, achei maravilhoso que tenha entrado essa canção”. Para quem sentiu falta de mais faixas inéditas, Tiê adianta que já tem outras canções preparadas para lançar em breve. “A gente fica muito preso também a receitas e padrões que podem fazer sucesso ou não, mas acho que não funciona pra todo mundo. O que funciona para os grandes artistas, não funciona para os médios, não funciona para os pequenos. Então, não tem porque muita gente seguir alguns formatos assim. Senti que essas músicas fazem sentido, esse agrupamento, e também já tenho outras músicas pra lançar logo mais”. Tiê afirma que o álbum tem a intenção de “ser um abraço, um carinho”. “Minha função como artista é de acalantar, emocionar. Não é nem de entreter e divertir as pessoas, ou mesmo falar de política. Mesmo que eu fale de política, faço isso nos meus posts. Mas a minha música tem essa intenção, esse talento, esse dom, ela serve mesmo para acalantar e abraçar as pessoas”.
José Gil e Mariá Pinkusfeld são atrações no Som das Palafitas

Um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos, Gilberto Gil influencia grandes artistas há décadas. Em casa, não é diferente. Filhos e netos também investem na música, com resultados cada vez melhores. José Gil, o caçula de 28 anos, além de integrar o Gilsons com João Gil (filho de Nara Gil) e Francisco Gil (filho de Preta Gil), também tem outro projeto interessante com a esposa, Mariá Pinkusfeld. O duo é a segunda atração nacional do Som das Palafitas, que acontece neste sábado (17), às 20h, no Facebook do Arte no Dique. “A parceria foi consequência do nosso namoro. Costumávamos tocar e escutar música juntos, e vimos que tínhamos em comum um amor pela música nordestina, pela nossa ascendência e influências”, comenta Gil. Para o caçula da família Gil, o projeto é genuinamente caseiro e seguirá como paralelo aos trabalhos pessoais que os dois têm. “É um trabalho muito leve. Essa é a maior vantagem. Gostamos muito de tocar um com o outro, admiramos um ao outro. Temos apenas uma composição juntos, mas é uma música especial que sairá no ano que vem. A gente se acostumou à dinâmica de tirar músicas e interpretar coisas que gostamos”. Repertório Com um repertório que transita pela música nordestina do sertão e litoral, dando continuidade ao legado de seus pais, Gilberto Gil e Xangai (o violeiro e cantor baiano é pai de Mariá), o casal apresentará composições de Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Chico César, Paulo César Pinheiro, Djavan, João Silva, entre outros. É uma oportunidade única de acompanhar José Gil e Mariá juntos. Em breve, o casal dará uma pausa no projeto, mas por um bom motivo: serão pais de gêmeos. Antes, no entanto, tem lançamento programado. “Iremos lançar ainda este ano nosso primeiro EP, já está gravado. O nascimento das meninas será um momento de menos trabalho, com certeza”. Interesse pela música O interesse pela música foi natural. José Gil afirma que sempre que possível acompanhava as turnês do pai, além de manter uma relação muito boa, pautada pela música e o futebol. “Cresci nesse universo musical. Gostava de estar no palco desde cedo. Mas profissionalmente comecei tarde. Me formei em Administração e, após a faculdade, tive meu primeiro projeto, onde era baterista na banda Sinara. Desde então a música é a tônica da minha vida”. E o músico acrescenta que carrega muito das “aulas” do pai. “O maior ensinamento que levo dele é a curiosidade por assuntos tão diversos, a visão de mundo, o estilo de vida. É o que levou ele a transitar por tantos gêneros musicais diferentes, tipos de composição tão diversas na carreira”. Programação Nos próximos sábados, o Som das Palafitas receberá Charlie Brown Jr (dia 24), Hamilton de Holanda (dia 31), Moreno Veloso (07/11), Gilmelandia e Luciano Calazans (14/11), Davi Moraes (21/11) e Armandinho Macedo (28/11).