Entrevista | Michale Graves – “Me reencontrei no Brasil”

Em outubro, o Brasil volta a receber um dos nomes mais icônicos da história recente do punk: Michale Graves, ex-vocalista do Misfits e figura central na fase mais melódica e cinematográfica da banda. Entre 1995 e 2000, ele ajudou a revitalizar o grupo com os álbuns American Psycho e Famous Monsters, entregando clássicos como Dig Up Her Bones e Scream, este último com videoclipe dirigido pelo mestre do horror George A. Romero. Agora, Michale Graves retorna ao país para uma série de shows que prometem celebrar essa era e ainda reservar surpresas no setlist. No Brasil, Michale Graves se apresenta em São Paulo (22/10 em formato acústico e 01/11 com banda completa), Brasília (23/10), Goiânia (24/10), Belo Horizonte (25/10), Rio de Janeiro (26/10), Porto Alegre (29/10), Florianópolis (30/10) e Curitiba (31/10). Michale Graves assumiu os vocais dos Misfits aos 20 anos, sucedendo Glenn Danzig, e encarou a missão com autoconfiança. Para ele, não se tratava de ocupar o lugar de outra pessoa, mas de escrever um novo capítulo para a banda. Com um olhar atento à cultura pop e influências que iam do horror punk ao britpop, Michale Graves imprimiu sua marca em um repertório que permanece vivo nas vozes dos fãs até hoje. Surfista de longa data, Michale Graves se diz encantado pelas praias e pela paixão do público nacional. “O Brasil me reencontrou”, resume, lembrando que muitas das conexões feitas no país atravessaram décadas. Para os fãs, essa proximidade se reflete em apresentações sempre energéticas, carregadas de emoção e histórias. Na entrevista ao Blog n’ Roll, Michale Graves falou sobre a responsabilidade de assumir os vocais dos Misfits, as influências que moldaram sua carreira, sua relação com o público brasileiro e a expectativa para esta nova passagem pelo país. Você entrou para o Misfits antes mesmo de completar 20 anos. Como foi encarar a responsabilidade de substituir Glenn Danzig e ainda assim conseguir marcar uma nova era para a banda? Sabia que era uma grande responsabilidade, mas nunca senti isso como um peso esmagador. Nunca foi algo do tipo “meu Deus, como vou conseguir?”. Porque sabia exatamente como iria conseguir. E tinha tanta confiança de que era a pessoa certa, fui colocado neste mundo para isso. Tudo na minha vida me levou até aquele momento. Então não perdi tempo pensando “meu Deus, essa é a banda do Glenn Danzig”. Eu só pensei: “vocês estão em boas mãos. Vamos fazer isso”. Tinha muita confiança. Dediquei meu tempo e energia a criar aquela música, pensar nas palavras, nas cores que usaria para pintar musicalmente. Ouvi todas as gravações do Misfits que já tinham existido na face da Terra. Conhecia cada detalhe. Conseguia ouvir as pessoas respirando nas faixas. Me tornei um verdadeiro professor daquilo tudo. E criei a partir disso, a partir de todos os sentimentos que tinha na época, com 20 anos. Quando gravamos, eu tinha 21. Mas tinha acabado de sair do ensino médio. Então estava muito conectado com a cultura. Sabia o que estava acontecendo. Os caras da banda eram mais velhos, tinham uns 31 anos quando entrei, e eu tinha 20. Então realmente tinha o dedo no pulso da cultura. E estava muito, muito confiante. Sabia que poderíamos ser incríveis. E acho que fomos. Na verdade, sei que fomos. Faria algo diferente? Onde errei foi na minha imaturidade emocional, por ser tão jovem. Quando se tratava de negócios, era muito difícil para mim ser objetivo e, às vezes, razoável. Porque era movido pela emoção. Tudo era guiado pelas emoções. E não tinha ninguém ao meu redor para conter isso e dizer: “ei, calma, agora você está agindo com emoção demais”. E eu precisava disso.  Minhas emoções foram despejadas na música, é isso que me tornava forte. Mas em outras áreas, como negócios ou relacionamentos… ser extremamente emocional nem sempre é o melhor caminho para a objetividade ou a razão. Com 20 anos, isso ainda é difícil. Eu entendo, super compreensível. Sim, e de repente estava em um mundo em que o Marilyn Manson estava ali do lado, o Rob Zombie estava ali, e os caras do Metallica entravam na sala, e o James Hetfield me pedia para cantar músicas, e lá estavam os caras do Alice in Chains, do Soundgarden… e eu pensava: “o que está acontecendo?”. Estava sobrecarregado, mas foi demais! As faixas Dig Up Her Bones e Scream marcaram uma geração, inclusive com videoclipes dirigidos por George A. Romero. O que essas músicas representam para você hoje? Uau… Dig Up Her Bones, especialmente… acabei de completar 50 anos. Escrevi essa música quando tinha 16. Então ela é praticamente um retrato da minha juventude. Há um jovem Michael naquela música que… é difícil expressar o quanto ela significa pra mim e o quanto está entrelaçada à minha vida. É absolutamente incrível que, depois de todos esses anos, eu ainda subo no palco, chego no refrão, aponto o microfone pro público e escuto todo mundo cantando. E sei o quanto essa música também significa para os outros. É indescritível. É o mais perto do céu que já cheguei. Está tudo ali: minha juventude, amor, perdas, meus filhos, minha família… tudo está naquela música. E Scream… é louco, porque escrevi essa música não necessariamente para o George Romero, ele veio depois, mas lembro de escrevê-la sendo muito fã do Peter Murphy. E o sucesso dessa música, e o fato de ter sido conectada ao Romero, ao mundo do horror, e ganhar uma nova vida… no fundo, só queria criar um riff vocal diferente, mostrar algo novo com a minha voz. É uma música simples. Nem tem muitas palavras. Mas foi muito especial. E sua fase no Misfits também coincidiu com a era de ouro do wrestling na TV, com participações semanais na WWE. Como foi viver ao mesmo tempo o universo do punk e do pop naquela época? Mais uma vez, foi um sonho realizado. Eu fui criado nos anos 80, então era um grande fã de luta livre. E estar num espaço criativo com caras

Entrevista | A Olívia – “Houve uma curadoria consciente das músicas”

A Olívia lançou recentemente o álbum Obrigado Por Perguntar, trabalho que marca um novo momento na trajetória do grupo paulistano. Com 13 faixas que transitam entre o rock, reggae, punk, indie e referências da música brasileira, o disco é resultado de um processo coletivo, diverso e reflexivo. Ideia Maluca, uma das faixas em destaque do novo álbum, ganhou um videoclipe internacional gravado em Buenos Aires. Aproveitando sua primeira turnê fora do país, A Olívia registrou todos os momentos que antecederam os shows na capital da Argentina em junho passado. O clipe passa por alguns dos principais bairros de CABA (Cidade Autônoma de Buenos Aires) e foca na arte de rua, nos museus, nas paisagens inusitadas e nos personagens da cultura pop que unem o universo latino americano. Em entrevista ao Blog n’ Roll, o vocalista e guitarrista Louis Vidall e o baixista Pedro Tiepolo falaram sobre as temáticas do álbum, o processo criativo, a experiência de gravação, a parceria com a ForMusic e os discos que mais os influenciaram. Confira abaixo. O novo álbum reflete bastante o momento atual do mundo. Como as inquietações globais influenciaram o processo criativo? Louis: A gente tenta soar atual, tanto na sonoridade quanto nas letras. Duas músicas centrais do disco, Boa Tarde e Insustentável, foram escritas em 2017 e continuam atuais. Isso mostra como temas como guerra e sustentabilidade sempre voltam. A rotina traz essas questões pra perto, mesmo sem a gente querer. Mesmo compostas anos atrás, as letras ainda soam atuais. Como vocês enxergam isso depois da pandemia? Louis: Muitas faixas vieram de antes, mas a pandemia trouxe um olhar mais introspectivo. Quando entrei na banda, passamos a falar de temas mais amplos e, no álbum, conseguimos amarrar tudo em um conceito claro. Pela primeira vez houve uma curadoria consciente das músicas que realmente fariam sentido juntas. Como surgiu o título Obrigado Por Perguntar? Louis: Foi uma síntese das letras e intenções. É reflexivo e desabafo, mas também tem ironia: ninguém perguntou, mas a gente quis falar. A frase vem de Boa Tarde e traduz essa ideia de desabafar quando alguém pergunta se está tudo bem. O pano de fundo é a empatia, esse espaço de conversa que a capa do disco também simboliza. A sonoridade é bastante diversa. Isso é planejado ou acontece naturalmente? Louis: Os dois. Temos influências variadas e fomos encontrando o som da Olívia ao longo dos EPs. No álbum, mais da metade das músicas foram feitas em 2023, e a diversidade veio de forma intuitiva: ora reggae, ora mais pesado, sempre lapidando até soar como Olívia. Não seguimos uma lista de estilos. A ideia é justamente não ter preconceito com os caminhos sonoros. Quais as influências mais presentes no som da banda? Louis: Trago muito do indie mais atual, mas também gosto dos clássicos. O Pedrão é mais ligado ao rock clássico e jazz, o Murilo vem do hardcore, o Marcelo puxa pro Deep Purple e solos de guitarra. Todos têm pontos em comum: Beatles, Talking Heads, Red Hot Chili Peppers, Clube da Esquina. Entre as nacionais, Titãs e Paralamas são referências diretas, inclusive já tocamos cover deles. O disco teve parte da gravação na Serra da Cantareira. Como foi essa experiência? Louis: Gravamos bateria e baixo na Da House, vozes no Flap Studios e as guitarras na Serra. Eu cresci lá, então fez sentido. Como eram muitas guitarras, seria inviável pagar horas de estúdio. Na Serra tivemos tempo, tranquilidade e até a companhia da cachorra, que ajudava a aliviar a tensão. Isso deixou o processo mais leve. O que representa a parceria com a ForMusic? Pedro: Foi natural, até porque já trabalho lá. Sempre existiu essa possibilidade, mas quisemos esperar o momento certo. Agora a banda cresceu e precisava desse apoio. Estar com a ForMusic dá corpo ao projeto. Saímos da lógica de adiar decisões para um compromisso real, com mais profissionais envolvidos. Isso fortalece a banda. Quais os três discos que mais influenciaram vocês? Louis: Cabeça de Dinossauro (Titãs), London Calling (The Clash) e a coletânea azul dos Beatles. Pedro: Speaking in Tongues (Talking Heads), Vamos Pra Rua (Maglore) e Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (Arctic Monkeys).

Entrevista | André Rossi – “Essa experiência me moldou e acabou aparecendo nas letras”

O cantor e compositor André Rossi vem colhendo bons frutos com o single Ska Punk, faixa que antecipa seu primeiro álbum de estúdio, Errado é Não Correr o Risco, que deve ter mais um som revelado em breve. Com fortes influências de Charlie Brown Jr., NOFX e nomes do pop punk californiano, Rossi mistura energia, crítica social e sonoridades que vão do ska ao hardcore. Em entrevista ao Blog n’ Roll, ele falou sobre a parceria com a banda DuPont, a cena underground, o conceito do novo disco e os álbuns que marcaram sua trajetória. Como foi misturar ska e punk no seu novo single? Tem tudo a ver com Charlie Brown Jr., mas também com Nofx. Essa mistura já existe há anos, mas sempre me fascinou porque são origens muito diferentes: o ska vem do reggae jamaicano, o punk nasceu como movimento na Inglaterra. Juntos, eles criam um choque de ritmos e de ideologias. No single, tentei trazer o ska, o punk e o ska punk em si, somando ainda influências de Blink-182 e Offspring. Você disse que a música é um grito contra as amarras sociais. O que te inspirou? Na verdade, é um reflexo pessoal. Saí de casa aos 16 anos e passei por muitas situações de indiferença e frieza. Vindo do interior de Minas, onde tudo é mais caloroso, foi um choque. Essa experiência me moldou e acabou aparecendo nas letras. O single nasceu também da conexão com a Dupoint, banda que se tornou minha família nessa caminhada. E essa parceria com a Dupoint? Vocês já trabalharam juntos antes? É natural. Somos amigos e dividimos referências. A música foi mostrada ao Thiago e ele já topou gravar. Não é algo comercial, é verdade. O mesmo acontece com outras bandas próximas, como Navala e Banana Kush. Criamos um movimento baseado em amizade e troca real, não em business. Quais bandas da cena atual você tem acompanhado? No Brasil, cito Dupoint, Banana Kush, Navala, Lil House e Frizz, além do Piedro, novo artista lançado pela Base. De fora, gosto de Jack Kays e The Paradox, ligados ao Travis Barker, e também artistas como Yungblud. Tem muita coisa nova surgindo. O que pode adiantar do álbum Errado é Não Correr o Risco? O nome resume minha trajetória: sair de uma cidade de 20 mil habitantes para tentar a sorte em São Paulo. O disco tem 11 faixas produzidas pela Base Company, cada uma com uma sonoridade diferente, ska, hard rock, pop punk. Depois de Ska Punk, o próximo single será Fodas, mais leve e divertido, mas ainda com pegada de protesto. A ideia é lançar cerca de quatro faixas antes de liberar o álbum inteiro ainda este ano. Quais três álbuns mais te influenciaram?

Entrevista | Firefriend – “As bandas brasileiras não ficam devendo nada para as de fora”

A Firefriend, banda paulistana que há mais de duas décadas carrega a tocha do rock psicodélico underground, acaba de expandir sua discografia com dois novos álbuns: o explosivo Fuzz e o hipnótico Blue Radiation. Os trabalhos chegam em um momento simbólico, pouco antes de a banda embarcar em mais uma turnê pelo Reino Unido, país que tradicionalmente respira a psicodelia e tem recebido o grupo com entusiasmo crescente. Gravado em apenas quatro dias de dezembro de 2024, em São Paulo, Fuzz ganhou corpo definitivo após meses de pós-produção e contou com colaborações de músicos da cena paulistana. O disco mantém a estética que consolidou a identidade do Firefriend: baixos pulsantes, guitarras saturadas de fuzz e os vocais sussurrados de Julia Grassetti e Yury Hermuche, que criam atmosferas densas e imersivas. Entre os destaques estão “Spearhead” e “Hologram”, faixa que condensa em cinco minutos e meio o caos criativo da banda, atravessando camadas de sintetizadores, incursões de free jazz e guitarras barulhentas, com participações de Cuca Ferreira (sax) e Daniel Verano (trompete). Já Blue Radiation mostra outra faceta do grupo. Gravado durante a pandemia, em uma São Paulo silenciosa e suspensa pelo isolamento, o álbum aposta na força das atmosferas instrumentais. São dez faixas, nove delas totalmente instrumentais, que funcionam como paisagens sonoras etéreas, espectrais e distorcidas. Ao lado de Grassetti, Hermuche, Ricardo Cifas (bateria) e Pinhead (synths e teclados), o Firefriend reafirma sua posição como um dos nomes mais consistentes do underground global, evocando influências que vão de Velvet Underground e Spacemen 3 a Sonic Youth e The Brian Jonestown Massacre. Em bate papo com o Blog N’Roll, Julia Grassetti e Yury Hermuche contam sobre a expectativa para a turnê na Inglaterra e os dois álbuns lançados simultaneamente. Vocês estão indo para Londres, que é a cidade onde mais ouvem Firefriend, e o Reino Unido sempre teve uma cena psicodélica muito forte. Sentem que o público de lá entende mais a proposta da banda do que no Brasil? Firefriend: Com certeza. Na Inglaterra existe uma tradição que atravessa gerações. Eles fazem isso há 50, 60 anos. O rock psicodélico nunca parou de acontecer. No Brasil, sentimos que existem gaps geracionais, e a cena precisa ser sempre reinventada para levantar festivais e casas. Isso é uma dificuldade para toda banda underground daqui. Já na Europa e nos Estados Unidos, por conta da tradição, existe público constante e espaços para circular. Por outro lado, eles acham muito interessante ver uma banda brasileira usando elementos do rock inglês e americano, mas com outros temperos. O som de vocês mistura influências diversas, de Joy Division, post punk a experimentações instrumentais. Qual é a diferença para vocês entre músicas com vocal e faixas instrumentais? Firefriend: A maior parte dos nossos discos é feita de canções compostas e produzidas ao longo de um ou dois anos. Mas muita coisa vem das jams que gravamos em ensaios, no nosso antigo porão-estúdio. Para o público pode parecer diferente, mas para nós é parte do mesmo processo. O álbum The Creation Facts, por exemplo, trouxe faixas diretamente dessas jams. Apesar de lançarmos mais músicas com vocais, os instrumentais são parte essencial. O Blue Radiation veio justamente para mostrar esse outro lado. Qual foi a maior surpresa que vocês já tiveram em turnês fora do Brasil? Firefriend: A recepção do público. Chegar em Londres e ter gente levando capa de disco e camiseta para autografar foi inesperado. Alguns fãs viajaram para assistir a vários shows seguidos. Também já tocamos às três da manhã em festival grande com a casa lotada. Outra surpresa foi perceber que as bandas brasileiras não ficam devendo nada para as de fora e, ao mesmo tempo, ver de perto uma cena estável em contraste com o Brasil. Vocês planejam registrar essa nova turnê em áudio ou vídeo? Firefriend: Sim. Vamos gravar o áudio e estamos vendo como viabilizar o vídeo. Na última turnê lançamos o Live in London, um show bem registrado, e queremos repetir essa experiência. O vinil voltou com força e vocês já têm 12 LPs lançados. Como tem sido essa experiência? Firefriend: Fantástica. Ouvir um vinil é um ritual. Quem compra, ouve com atenção e se conecta mais profundamente com a música. Desde que nossos discos começaram a sair nos Estados Unidos e na Inglaterra, vimos como os amantes do formato físico criam uma relação especial com a banda. Hoje temos 12 LPs lançados desde 2017, e muitos fãs acompanham cada lançamento. É um sonho realizado. Falando do álbum Fuzz, como foi o processo de gravação? Firefriend: Passamos dois anos compondo, testando em shows e turnês. Decidimos gravar ao vivo, os três juntos no estúdio, o que trouxe mais calor e energia. Depois fizemos alguns overdubs, mas a base é toda ao vivo. Apesar de a gravação ter levado cerca de uma semana, o processo de criação foi longo e detalhado. A faixa “Hologram” chama atenção por misturar jazz, rock distorcido e caos organizado. Como chegaram a esse resultado? Firefriend: Cada integrante traz um conjunto de referências, e ao arranjar a música colocamos essas perspectivas em choque. O resultado pode soar caótico, mas faz sentido dentro da soma de influências. Um ouvinte chegou a dizer que esse aspecto caótico é uma tradução perfeita do mundo atual, e achamos uma leitura muito interessante. Vocês já comentaram que a turbulência política influencia o som da banda. Como isso acontece? Firefriend: Totalmente. Vivemos um momento violento, perigoso e surreal. Isso se reflete na música. Alguns artistas tentam escapar da realidade, mas para nós é importante tocá-la de frente. A música ajuda a sobreviver a esse caos e conecta pessoas que buscam a mesma energia. O rock hoje não é só rebeldia juvenil, mas resistência em qualquer idade. O Blue Radiation foi criado durante a pandemia. Como foi esse processo? Firefriend: Gravamos centenas de horas de jams e selecionamos trechos que achamos interessantes para compor o disco. Paralelamente produzimos o Fuzz, e o selo inglês decidiu lançar os dois juntos. As faixas do Blue Radiation são

Entrevista | Upchuck – “O mundo precisa ouvir nosso álbum”

A banda norte-americana Upchuck chega ao seu terceiro álbum sem aliviar o peso nem buscar suavizar a própria fúria. Tivemos a oportunidade de ouvir I’m Nice Now, produzido por Ty Segall e com lançamento marcado para 3 de outubro. É um registro explosivo e autêntico que mistura punk, estilos latinos, como cumbia e crítica social em doses explosivas. Aliás, o disco abre com o single Tired, faixa lançada recentemente e que resume bem o espírito da obra: um grito contra o cansaço diante da injustiça diária, transformando raiva em combustível artístico. Em entrevista ao Blog n’ Roll, a vocalista KT e o baterista Chris Salado falaram sobre a escolha do título, a importância da autopreservação e o papel da raiva como força criativa da Upchuck. A conversa também trouxe reflexões sobre identidade, a cena punk de Atlanta e o desejo de um dia se apresentar no Brasil. Ouvi I’m Nice Now, é um álbum muito bom, mas o título me chamou a atenção. Por que escolheram esse nome? Vocês não são uma banda “boazinha”, têm um som agressivo… KT: É irônico, mas também uma questão de autopreservação. Tem muita coisa acontecendo no mundo, parece que nunca acaba, e existe essa pressão para nos quebrar, nos fazer sentir derrotados. Mas para continuar é preciso cuidar da sanidade e da saúde mental. I’m Nice Now é um jeito de dizer: em vez de estar sempre irritado e reativo, em vez de gritar o tempo todo, eu escolhi me preservar. O álbum realmente fala muito sobre autopreservação. Em que momento vocês perceberam que isso seria o tema central? KT: Foi natural. Quando demos o nome I’m Nice Now, percebi depois que tudo fazia sentido e se conectava. É sempre assim: só quando olho para trás e ouço de novo percebo que existe um fio condutor. Como foi trabalhar com Ty Segall como produtor? KT: Foi ótimo. Nós amamos o Ty. Gravamos no Sonic Ranch, em dez dias, e ele trouxe uma vibe muito boa. É um cara relaxado, que nos dá liberdade, mas também direciona em alguns pontos. Depois do último álbum com ele, foi natural voltar. O que mudou com a parceria da Upchuck com a Domino Records? KT: Tudo. Eu estou ansiosa para que o álbum saia logo. O mundo precisa ouvir nosso álbum. A equipe da Domino é incrível, muito parceira, comparece nos nossos shows em Londres e até fora. São muito presentes. Vamos falar de Forgotta Talking. É uma faixa intensa. Como foi transformar a dor em música? KT: Não sei exatamente, acho que é natural para mim. Eu começo a escrever e as coisas simplesmente saem. Tenho muito a dizer, mesmo que não consiga expressar em voz alta. O videoclipe também fala sobre gentrificação. Por que era importante mostrar isso visualmente? KT: Ser preto ou POC nos Estados Unidos é viver sob constante vigilância, até por parte da polícia. Somos mortos à esquerda e à direita, e depois tratam como se fosse só mais um. Isso é criminoso. A música transmite esse sentimento: já morri um dia, podem esquecer de mim, só mais um corpo perdido. Nota da redação: Na década de 70, o termo POC era utilizado de maneira pejorativa na comunidade LGBTQIA+. Hoje é uma maneira carinhosa e bem humorada dos gays chamarem uns aos outros nos EUA. A música El Momento mistura punk e cumbia. Como essa rota cultural entrou no som da Upchuck? Chris Salado: Para mim é natural. Meu pai e meu avô me ensinaram a tocar cumbia desde criança. Já toquei em banda de cumbia. Quando entro no estúdio, faço freestyle, vou gravando partes e guardo o que gosto. Punk e cumbia andam juntos. Existem cumbias rápidas e lentas, mas eu sempre toquei as rápidas, então a conexão com o punk foi imediata. O som da Upchuck já foi descrito como “punk Beastie Boys”. Como vocês veem essas comparações? Vocês acham que se encaixam em algum rótulo? KT: Recebemos de tudo: Bad Brains, Rage Against the Machine, Beastie Boys. Está tudo bem, mas não pensamos muito nisso. Não nos prendemos a rótulos. Como a cena punk de Atlanta influenciou a identidade da banda? KT: Atlanta é diversa e cheia de música boa acontecendo ao mesmo tempo. Isso se reflete em nós. Parece que representamos esse caldeirão cultural. Vocês são conhecidos pela energia ao vivo. Como traduziram isso para o estúdio? E o que mudou no processo criativo do primeiro álbum para este? KT: Não mudamos quase nada. Apenas ficamos mais velhos, o que muda um pouco a perspectiva das coisas. O fato de tocarmos juntos ajuda muito. Parece que estamos em um show. Claro que no estúdio buscamos perfeição, mas a energia vem desse coletivo. Teve alguma faixa que surgiu de improviso? KT: Plastic. Nem deveria estar no álbum, mas o Ty perguntou se tínhamos algo mais. O Basics começou um riff, eu escrevi em cima e tudo se encaixou. Vocês recebem muitas mensagens de fãs brasileiros pedindo para virem? Gostariam de deixar uma mensagem aqui para o Brasil? KT: Sim, direto. Estamos ansiosos para ir ao Brasil. Não conhecemos muito da vida no país, então é difícil mandar uma mensagem específica. Mas diria para manter a cabeça aberta e continuar fortes. Foto de capa: Michael Tyrone Delaney

Entrevista | Neil Turbin – “Minha maior contribuição foi ajudar a colocar o Anthrax no mapa”

Pioneiro do thrash metal, Neil Turbin retorna ao Brasil para celebrar os 40 anos do clássico Armed and Dangerous, álbum que compôs para o Anthrax. O único show da turnê no país acontece em 21 de setembro, no Manifesto Bar, em São Paulo, e terá abertura da banda Selvageria. A passagem faz parte da turnê Fistful 40, que já levou o vocalista a países da América Latina e contará ainda com apresentações no Canadá. Reconhecido por dividir o palco com nomes como Tim Ripper Owens (Judas Priest), Jeff Scott Soto (Yngwie Malmsteen) e Simon Wright (AC/DC), Turbin mantém viva sua conexão com o metal. Neste ano, ele se apresentou no Mortalfest, no México, e no Rock for Ronnie James Dio, evento beneficente da Dio Foundation. Os ingressos para o show em São Paulo já estão disponíveis pelo Clube do Ingresso e nas redes do Manifesto Bar. Antes do Anthrax você já era experiente na cena e tem muitas histórias. Estou muito curioso sobre suas lembranças do CBGB. Como foi tocar em um local tão histórico? Neil Turbin: Eu toquei no CBGB com a minha primeira banda, The New Race, nos anos 1970. Eu tinha 15 anos. O CBGB era parte da cidade, um bar que acabou se tornando uma instituição, um marco para o punk rock, hard rock, heavy metal e hardcore punk. Quando entrei lá pela primeira vez eu era ingênuo e inexperiente. Ficamos animados para tocar, mas o lugar era muito sujo, especialmente os banheiros. Ainda assim, era um palco clássico. Na época, alguns álbuns ao vivo já tinham sido gravados lá e eu estava empolgado por ter essa chance, mesmo sendo de uma banda iniciante. Depois dessa experiência, nunca mais toquei lá. Com o Anthrax, chegamos a tocar no Great Gildersleeves, que era um pouco melhor estruturado, com palco maior, mas tinha problemas acústicos por causa das paredes de pedra. Também havia outros clubes em Nova York, como o Max’s Kansas City, que eu adorava. Naquela época você já tinha noção da importância histórica do CBGB? Neil Turbin: Sim. Eu me lembro bem, até da camiseta branca com letras vermelhas e pretas. O CBGB ficava perto de locais icônicos, como o St. Mark’s Place e os estúdios Electric Lady. Era uma área movimentada, cheia de clubes e bares. Para nós, tocar ali foi uma experiência marcante, mesmo sendo apenas uma vez. Você celebra até hoje suas músicas e sua fase no Anthrax. Sei que você estudou com o Scott Ian e que colocou um anúncio procurando uma banda. Como foi a sua contribuição para a história inicial da banda? Neil Turbin: Eu fui o primeiro vocalista oficial. Gravei três demos com a banda e participei da construção do som que se tornaria o Anthrax. Na primeira demo eles ainda tentavam soar como Iron Maiden ou Judas Priest, mas ajudei a desenvolver um estilo mais original. No álbum Fistful of Metal, escrevi “Metal Thrashing Mad” e também criei o título Armed and Dangerous. A música “Gung-Ho” também é minha. No processo de composição, Dan Lilker, Greg Walls e outros membros escreviam bastante, mas eu contribuía com letras, melodias e até riffs de guitarra, mesmo sem tocar guitarra nos ensaios. Eu levava as fitas para casa e trabalhava sozinho nos arranjos. Nos shows da primeira turnê, cantávamos quase todo o Fistful of Metal e algumas faixas novas. Tocamos com Raven e Metallica, que já tinham um nível impressionante de composição. Minha maior contribuição foi ajudar a colocar o Anthrax no mapa e a construir o que viria a ser o thrash metal, parte do que depois se chamou Big Four. Na época você tinha consciência de estar participando da criação de um novo estilo, o thrash metal? Neil Turbin: Nova York nos anos 70 e 80 era bruta, perigosa, mas cheia de energia. Era como viver dentro do filme The Warriors. Essa atmosfera dava a sensação de indestrutibilidade, algo que moldou a música e a atitude. Eu sentia que fazíamos parte de algo novo, mesmo sem rotular. O Fistful of Metal sempre foi comparado com Judas Priest. Como você vê a evolução desse disco para os temas e sonoridade posteriores? Neil Turbin: O Fistful of Metal veio após as demos, e logo lançamos o single “Soldiers of Metal” em 1983. Isso nos levou a shows maiores, como abrir para o Crocus em Massachusetts. Já havíamos tocado com o Metallica, que impressionava pelo peso dos riffs e pela qualidade da composição. Alguns membros da banda queriam soar como eles, assim como antes queriam soar como Iron Maiden. Eu admirava a Metallica, era amigo do Cliff Burton, do James, do Lars e do Kirk, mas minhas influências iam além: Accept, Saxon, Riot, Sortilège, Warning. Daí nasceu a energia de “Metal Thrashing Mad”. Minha ideia era capturar a essência daquela época: velocidade, agressividade e autenticidade. Enquanto outros buscavam copiar, eu tentava canalizar essa sensação única que vinha da mistura de várias influências e da cena underground mundial. Minha busca sempre foi capturar a essência do que o metal me fazia sentir. Era como dirigir com as janelas abertas, ouvindo Saxon – Wheels of Steel, 747 (Strangers in the Night). Eu queria compartilhar essa sensação com as pessoas. Cada membro da banda tinha suas influências. Dan Lilker, por exemplo, trazia muito de Angel Witch e bandas obscuras que ele adorava. Nós frequentávamos lojas de discos como a Rock and Roll Heaven, do John Zazula (produtor responsável pelos primeiros álbuns do Metallica e Anthrax), e a Bleecker Bob’s, sempre atrás de importados e novidades. Essas influências moldaram o Anthrax. Muitas vezes dizem que eu trouxe o visual inspirado no Judas Priest para o Anthrax, mas, na verdade, eles já usavam roupas de palco antes de eu entrar. Sempre achei a imagem do Unleashed in the East, Hell Bent for Leather, ou os Tokyo Tapes do Scorpions incríveis para o heavy metal. Para mim, esse era o espírito: Black Sabbath com Dio, Ozzy solo, e depois a New Wave of British Heavy Metal, que

Entrevista | CPM 22 “Estamos felizes com o Punk no The Town, merecido demais”

O CPM 22 se prepara para celebrar três décadas de estrada em um dos maiores palcos do país. A banda é uma das atrações confirmadas do The Town, festival que transformou São Paulo em ponto de encontro de artistas de peso da música nacional e internacional. Para Badauí, vocalista do grupo, a oportunidade de dividir bastidores e line-up com nomes históricos é mais um marco na trajetória construída desde o underground paulista. A banda está escalada para o palco The One, liderado pelo Iggy Pop. Confira abaixo a programação: Palco The One Ao longo desses 30 anos, o CPM 22 se firmou como referência do hardcore melódico brasileiro, emplacando sucessos que atravessaram gerações e lotaram arenas. A história da banda é também a história de uma cena que saiu do Hangar 110 e chegou aos principais festivais do país. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Badauí relembra momentos marcantes, fala sobre encontros inesquecíveis e adianta detalhes do setlist especial da turnê comemorativa que passará pelo The Town. Vocês tocam no dia 7 de setembro, que muita gente já chama de “dia do punk”. Como é ver esse estilo, que sempre foi underground, ocupar espaço num festival tão grande? Badaui: Acho natural. Na Europa, bandas de punk e hardcore já tocam em grandes festivais há muitos anos. Aqui, o The Town, Rock in Rio e Lollapalooza têm apelo midiático enorme, mas são festivais de música. É hipocrisia dizer que não ficamos felizes em ver Sex Pistols ou Iggy Pop no line-up. Isso fortalece o cenário, porque o Green Day e o CPM22 já vêm de gerações de reciclagens do punk. Mas, cara, são festivais de música, né? Se você for pensar, o Lollapalooza é do Farrel, do Janes Addiction. Ele sempre teve uma veia mais punk, grunge, sabe? Hoje nem dá para separar o que é mainstream ou underground, a internet mudou tudo. Para o discurso punk, quanto mais gente alcançar, melhor. E a visibilidade desses eventos amplifica a mensagem. Merecido demais. Você citou o Iggy Pop, que vai dividir o palco com vocês no The Town. Existe espaço para esses encontros nos bastidores? Badaui: Isso depende de cada artista. Por exemplo, o Foo Fighters no Rock in Rio. Tinha um lounge no backstage, que é um espaço onde ficam os camarins e a galera fazendo social. Eles ficaram lá, então deu pra trocar ideia tranquilo. O System of a Down também, quando a gente tocou juntos em 2015, ficaram lá, tomando uma, foi super de boa. Cara, lembro do Alice Cooper passando ali, eu saindo do camarim depois do show, ele pegou na minha mão até e eu pensando: “Caralho, surreal”. Então depende do artista. Tem uns que são mais reclusos, seja por concentração ou qualquer outro motivo, mas outros têm mais abertura. Esse lounge proporciona esse contato, mas vai de artista pra artista. O Iggy Pop já é um senhor, né? Não sei como vai ser. Talvez ele chegue só na hora do show. Mas, se tiver oportunidade, vou tirar uma foto, certeza. Todo mundo tem essa curiosidade. E já que você falou do Foo Fighters e do System, teve algum encontro em festival que te marcou? Badaui: O Noodles, do Offspring, foi muito gente boa. Não deu pra conversar muito, porque festival é correria, mas foi especial. Eu ouvia Offspring desde 93, eles fizeram parte da minha vida, e de repente estava ali, com minha banda de punk rock em português, que conseguiu ter projeção nacional, graças também a essa geração deles. Rolou de tirar foto, foi rápido, mas marcante. Geralmente bandas de punk rock são muito acessíveis. Os caras do Face to Face, por exemplo, viraram amigos. Quando tocamos com Pennywise, Bad Religion, Mad Caddies, foi sempre foda. O Fletcher, guitarrista do Pennywise, é muito sangue bom, já levei ele até pra rolê. Teve também um episódio engraçado: encontrei o Fat Mike (NOFX) em festival, pedi pra tirar foto, e ele mandou em português: “Brasileiros maconheiros”. Depois, quando eles tocaram em Curitiba, fomos juntos pro bar da Marina, ficamos trocando ideia. Cara super simples. Então é isso: claro que tem gente mais fechada, mas no geral essa galera é acessível, o que torna tudo ainda mais especial. Eu nunca imaginei, nos anos 90, que ia sentar num bar com meus ídolos. Isso a banda proporcionou, mas também é mérito deles, de serem pessoas simples. Sempre aprendo muito com esses encontros. Turnê de 30 anos Agora falando dessa turnê de 30 anos: vocês estão preparando algo especial? Músicas históricas, tipo “Garota da TV”, Hits do “Alguns KM de lugar nenhum”? Badaui: Tem várias músicas antigas, várias do disco Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum. Músicas que a gente não tocava fazia muito tempo, do Cidade Cinza, do Felicidade Instantânea. Tem também um bloco acústico, que dá um diferencial. Mistura o elétrico, vai pro acústico e depois volta pro elétrico. Isso deixa o show com vários momentos diferentes. Fizemos nesse fim de semana e está uma nostalgia forte. Inevitavelmente você vai lembrar, os fãs mais velhos também. E quem for mais novo talvez nunca tenha tido contato com essas músicas, agora vai ter. Tá bem legal o show. Acabou a turnê do EnFrente, agora já é parte da história. Como vocês avaliam daqui pra frente a importância desse álbum para as turnês futuras? Vocês estão cada vez mais pegando uma geração sem rádio, sem televisão, sem aquela penetração que vocês estavam acostumados a ter. Como vocês veem o peso do EnFrente pro futuro e o resultado dele no streaming? Badaui: EnFrente é um disco que eu adorei. A turnê durou um ano porque coincidiu com os 30 anos da banda. Eu adoraria que tivesse durado mais, com certeza. A galera ouviu muito o disco. Foram mais de 7 milhões de plays nas plataformas, um número muito relevante pra nós, uma banda de 30 anos, de outra geração. É louco pensar nisso. No meu Instagram tenho menos de 300 mil seguidores, mas só no Spotify temos 2 milhões de ouvintes

Entrevista | Seafret – “Se pudesse, iria ao Brasil três vezes por ano”

O duo britânico Seafret volta ao Brasil para um show especial no Cine Joia, em São Paulo, neste domingo (24), a primeira apresentação no país em três anos. A dupla formada por Jack Sedman (vocais) e Harry Draper (guitarra) segue divulgando seu novo trabalho, que traz colaborações de peso e reflexões sobre a vida e a carreira. Em entrevista ao Blog n’ Roll, o guitarrista Harry Draper falou sobre o recente single Five More Seconds, fruto de uma sessão espontânea com a cantora KT Tunstall. “Eu cresci ouvindo o primeiro álbum dela. Nós nos conhecemos há uns dez anos, nos EUA, e mantivemos contato pelo Instagram. Quando começamos a trabalhar no novo álbum, queríamos algumas colaborações e, por coincidência, ela estava em Londres. Dois dias depois, já estávamos no estúdio juntos. É uma das minhas músicas novas favoritas”, conta. Five More Seconds, que fala sobre decisões tomadas em instantes e que podem mudar destinos, é algo com que a dupla se identifica. “Pessoalmente, vivo isso o tempo todo. Sempre cometo erros e penso: ‘Se eu tivesse mais cinco segundos, teria feito um pouco diferente’. Acho que é por isso que as pessoas se conectam tanto com a música.” Harry também comentou sobre o ressurgimento inesperado de Atlantis, música lançada há dez anos e que ultrapassou a marca de 1 bilhão de streams após viralizar no TikTok. “Foi insano. Toda vez que entrávamos na plataforma, nossa música estava sendo usada — e ainda está. Isso nos mostrou que, enquanto amarmos o que fazemos, mesmo que a música não se conecte de imediato, em algum momento pode se conectar.” O músico se diz empolgado para rever o público brasileiro. “Se pudesse, iria ao Brasil três vezes por ano. Amo demais. Estamos muito animados para o show do dia 24 de agosto em São Paulo.” Ao falar sobre influências musicais, Harry citou três álbuns marcantes: Solid Air (John Martyn), que o inspirou a tocar violão; Seventeen Going Under (Sam Fender), que influenciou seu trabalho no último ano; e Inside In / Inside Out (The Kooks), trilha sonora de um verão inesquecível em sua adolescência. Os ingressos para o show do Seafret no Cine Joia estão disponíveis no Sympla.

Entrevista | Story of The Year – “É especial saber que Until The Day I Die inspirou tanta gente”

O Story of the Year retorna ao Brasil após 12 anos para participar do festival I Wanna Be Tour e mais shows paralelos em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. A banda, que marcou os anos 2000 com o álbum Page Avenue, promete reviver a energia que os fãs brasileiros conheceram em sua primeira passagem pelo país. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Dan Marsala, trajado com uma surpreendente camiseta de Britney Spears, revelou que o grupo trabalhou com o produtor Colin Britton para resgatar a mesma intensidade da fase inicial no disco Tear Me to Pieces e que teremos um álbum novo em breve. Marsala destaca ainda a importância de clássicos como Until the Day I Die e Anthem of Our Dying Day, mas também disse estar animado em apresentar músicas novas que já caíram no gosto do público, como War. E, como amante de pizza, espera provar a nossa versão gastronômica dessa vez. Como é para você retornar ao Brasil como parte de um festival que celebra um movimento que você ajudou a criar? Dan Marsala: É ótimo. A última vez que estivemos no Brasil foi em 2013, então já faz 12 anos. Estamos muito animados para voltar em um grande festival com grandes bandas. Sempre tivemos grandes shows no Brasil e mal posso esperar. Você tem alguma história interessante da sua visita anterior ao Brasil? Dan Marsala: Os shows sempre foram ótimos. Os fãs são loucos. Tivemos problemas com os promotores e com pagamento nos últimos anos (risos), mas desta vez tudo está indo bem e estamos animados para voltar. Sempre é uma aventura. Há uma diferença entre tocar em festivais e nos sideshows em São Paulo e no Rio de Janeiro? Dan Marsala: Eu amo os dois tipos de shows. Amo casas menores, onde você sente a energia e fica tudo mais intenso, mas também amo grandes festivais porque você toca para muitas pessoas e divide o palco com bandas diferentes. Ambos têm suas vantagens. Estou animado para os shows menores e para o festival. Vou tocar em qualquer lugar, a qualquer momento. Os sideshows vão ser mais longos? Dan Marsala: Acho que sim, um pouco. O festival deve ter entre algo entre 50 minutos e uma hora. Os sideshows provavelmente serão um pouco mais longos, porque temos mais tempo. No começo vocês foram descritos como uma banda de post-hardcore. Hoje bandas do estilo flertam com metalcore ou modern metal. Como você define o som atual? Dan Marsala: É difícil. Isso mudou ao longo dos anos. Agora todo mundo chama de emo. Quando começamos não nos considerávamos emo, havia post-hardcore, screamo, hardcore, punk… nós apenas misturamos tudo. Eu digo que somos uma banda de rock, com energia alta. Temos elementos de vários gêneros, mas é difícil de rotular. Nos anos 2000 vocês foram parte da explosão do emo e post-hardcore. Como é ver esse movimento se revivendo agora? Dan Marsala: É louco. Nosso primeiro álbum saiu em 2003 e, em 2010, a cena morreu um pouco, principalmente na América. Foi surpreendente ver essa retomada. Acho que acontece com todos os gêneros: você se afasta um tempo, mas mais velho acaba redescobrindo o que amava. Para nós é ótimo, porque quero tocar música o resto da vida. Como você compara a fase atual com o início em Page Avenue? Dan Marsala: Foi um processo parecido. No último álbum, Tear Me to Pieces, o produtor Colin Brittain foi muito importante para capturar a mesma energia dos primeiros dias. Trabalhamos muito para trazer de volta a energia jovem de 20 anos atrás. Gravamos outro álbum com ele, que será lançado em breve, e seguimos o mesmo processo: fazer música que amamos. Isso não mudou. Ser pai mudou a forma como você escreve? Dan Marsala: Não muito. O processo continua o mesmo. Algumas influências externas entram, mas no fim das contas escrevemos músicas que gostamos de ouvir. Trabalhamos em cima disso e esperamos que funcione. Sua música já ajudou muitas pessoas em momentos difíceis e não será surpresa ver alguém com um cartaz “Story of The Year saved my life”. Como você enxerga isso? Dan Marsala: É ótimo ouvir isso. Música é mágica, pode ajudar em qualquer situação. Saber que tivemos impacto positivo na vida das pessoas é incrível. É uma das razões pelas quais gosto de escrever e tocar. Eu sempre trago uma pergunta da caixinha de perguntas do meu Instagram. E temos aqui um fã, o Vinicius, que gostaria de saber se vocês ainda vão girar a guitarra e dar piruetas no palco? Dan Marsala: Não tenho certeza. Provavelmente, sim. Ainda colocamos muita energia em cada show. Claro que somos mais velhos e algumas loucuras não acontecem mais, mas vai ter energia e vai ser divertido. No Instagram você se auto define como um amante de pizza e de música. Já provou a pizza do Brasil? E, aproveitando, já conhece as bandas brasileiras? Dan Marsala: Eu não sei se já comi pizza brasileira. Alguém precisa me trazer uma para eu experimentar desta vez. Eu amo pizza, então tenho certeza que é ótima. Sobre as bandas brasileiras conheço pouco, mas estou ansioso para ouvir algumas. Como você se sente ao ver que músicas como Until the Day I Die marcaram uma geração e ainda são um ponto de entrada para novos fãs? Dan Marsala: É louco. É difícil colocar em perspectiva, porque essa música saiu há 22 anos. Foi enorme para nós e para a cena. Ela continua incrível ao vivo, e ver multidões cantando é ótimo. É especial saber que inspirou tanta gente. Agora, um desafio: Se tivesse que escolher cinco músicas para tocar pelo resto da vida nos shows, quais seriam? Dan Marsala: Until the Day I Die, Anthem of Our Dying Day, War, Is This My Fate? e Tear Me to Pieces. São músicas especiais, que sempre funcionam ao vivo e pelas quais temos muito orgulho. Qual mensagem você deixa para os fãs brasileiros? Dan Marsala: Estamos animados demais para voltar. Vamos