Resenha | Richie Sambora no Bush Hall, em Londres

Sem nenhuma postagem em seu perfil no Instagram desde 2018, pouquíssimas postagens no Facebook e com uma conta de Twitter um pouco mais movimentada, Richie Sambora pegou todos de surpresa quando anunciou um show intimista no Bush Hall, em Londres, na última segunda-feira (20). Como ele mesmo disse: “um show surpresa como nós costumávamos fazer as coisas”. O show foi organizado pela We Are Family Foundation (WAFF), organização sem fins lucrativos fundada pelo icônico Nile Rodgers. Aliás, a WAFF faz um lindo trabalho criando e apoiando programas que promovem a diversidade cultural. Após todo o buzz em torno dessa apresentação, Sambora apresentou algumas surpresas, como a audição de cinco faixas que vão compor o seu novo álbum, previsto para 2022. Elas foram tocadas antes mesmo do show. Aliás, a pedido do próprio Sambora. Em resumo, podemos dizer que são músicas que remetem bastante ao início da carreira dele com o Bon Jovi. Outra curiosidade é que Sambora veio sem a banda. No palco, os músicos que deram apoio foram os mesmos que acompanham Nile Rodgers em seus shows. Tal atitude deixou a apresentação ainda mais intimista, com uma atmosfera de jam session. Logo depois, as mesmas faixas tocadas antes do show, voltaram a dar as caras na apresentação. Porém, com a adição de canções da carreira solo e clássicos da época do Bon Jovi. Entre as que mais empolgaram estiveram uma versão à capela de Stranger in This Town, a belíssima All That Really Matters, além de versões acústicas de It’s My Life, Livin’ on a Prayer e Dead or Alive, que fechou o set list de um show quase exclusivo.
Resenha | The Wildhearts no Electric Ballroom, em Londres

Dias antes do lançamento do álbum 21st Century Love Songs, The Wildhearts caiu na estrada para promover o novo trabalho. A tour já havia sido anunciada meses antes, assim como o lançamento do disco. No período de lockdown, a banda fez uma “live” e anunciou o álbum. Aliás, logo nos apresentou Splitter, faixa que também já entrou no setlist da banda. O fato curioso é que o álbum foi gravado sem sessões de ensaios em grupo, foi feito totalmente com os integrantes trocando o material e se encontrando somente em estúdio para as gravações. Portanto, isso reflete no atual setlist, no qual as músicas seriam introduzidas gradativamente e ensaiadas nas passagens de som. Bem, o show deles é basicamente uma reunião familiar. Imaginem centenas de primos e primas juntos, todos no melhor astral possível. Em resumo, é essa a atmosfera dentro da casa, tudo estava encaminhado para mais um show perfeito. Abertura clássica, cantada uníssono no Electric Ballroom, em Londres, na última quinta-feira (9)… Banda no palco, primeiros acordes de Diagnosis, seguida de TV Tan e fechando a trinca inicial, a maravilhosa Sick of Drugs. Logo depois, foi só administrar o jogo. Aliás, já estava ganho antes de começar. Eles conseguem fazer isso. Uma das grandes surpresas do show está em um medley que estão fazendo logo no início do segundo bloco, mesclando Remember These Days, Turn American, Schizophrenic, Girlfriend Clothes, If Live is Like a Lovebank I Want a Overdraft Bank, e finalizando com Splatermania. Sem dúvida, um dos pontos altos do show, algumas dessas não entravam no setlist desde os anos 1990. Surpresas e mais clássicos do Wildhearts Após isso, clássicos atrás de clássicos. Contudo, mais uma bela surpresa iria rolar na sequência. O set todo funciona muito bem ao vivo e o link entre as músicas flui naturalmente. A banda deixa nítido que o habitat natural deles é em cima do palco, de frente aos seus fãs. Caffeine Bomb vira a casa de cabeça para baixo, enquanto Let Em’ Go nos remete a um estádio de futebol. Aliás, a primeira parte se encerra com Caprice. Em resumo, muitas cartas na manga em apenas 45 minutos, não? Pausa rápida para a última trinca, com Inglorious, Suckerpunch, além do clássico dos clássicos I Wanna Go Where the People Go, que encerra o set apoteótico. A alegria e a vontade de tocar do The Wildhearts é sempre exalada show após show. Contudo é fácil de entender o porque deles estarem sempre na estrada. Uma banda que foi moldada na porrada, literalmente, subiu, desceu, se auto sabotou, parou e voltou. E, após todos esses anos, nos mostra que a sua relevância merece todos os aplausos do mundo. Que venham os próximos, pois se pudesse assistiria eles todos mês. Quem já assistiu sabe o que estou falando. Quem nunca, por favor, faça esse favor a você mesmo.
Crítica | The Wildhearts – 21st Century Love Songs

Com uma capa que remete aos filmes de terror e um videoclipe no melhor estilo “gore” para a faixa Sleepaway, The Wildhearts está de volta. O retorno acontece dois anos após o seu último álbum de estúdio, o aclamado Renaissance Men. No filme Pânico 2, o personagem Randy Meeks (Jamie Kennedy) apresenta uma teoria sobre as três regras das sequências de filmes, onde segundo ele: “a contagem de corpos é sempre maior, as cenas de morte são mais elaboradas e com muito mais sangue. E nunca, nunca, sob quaisquer circunstâncias, presuma que o assassino está morto”. Contudo, se aplicarmos essa teoria ao disco novo dos Wildhearts, dá para se ter uma boa ideia sobre o que os caras aprontaram nesse que é o décimo disco da carreira da banda, 21st Century Love Songs, lançado pela Graphite Records. As músicas nunca soaram tão complexas, com passagens alucinadas que vão do metal ao punk, passando pelo rockabilly e desembocando em refrãos extremamente pop, com uma naturalidade que só mesmo o Wildhearts sabe produzir. Os temas seguem tratando sobre o cotidiano e a eterna batalha pela sanidade mental, ainda mais em um mundo devastado pelo covid. No entanto, algumas músicas trazem uma mensagem um tanto positiva e isso, por si só, já é uma grata surpresa. Surpresas nas mais complexas Por mais que músicas como A Physical Exorcism e You do You sigam uma linha um pouco mais convencional de hits e soam amigáveis aos ouvidos logo na primeira audição, são nas mais complexas que a banda surpreende e nos presenteia com músicas, que são verdadeiros passeios turísticos pela mente criativa do vocalista Ginger. Sleepaway, Directions e Institutional Submission, que começa tão feroz quanto uma música do Discharge, mas mesmo assim ainda consegue encontrar curvas que a levam a um refrão mais power pop. Um disco impecável, indicado para fãs de música rock, sem preconceitos. Guitarras altas, vocais berrados, bateria e baixo pulsantes protegendo belíssimas melodias. Aliás, funcionam como prêmios a todos os bem aventurados dispostos a desbravar esse mar de riffs e refrões até o fim. Seguindo a lógica da teoria do Randy e transportando ela para a discografia da banda, está tudo aí, incluindo a terceira regra. “Nunca presuma que o assassino está morto”. Por fim, a julgar por esse disco, os Wildhearts estão bem longe de estarem mortos. Ainda bem!
Resenha | Punk in Drublic em Hatfield: Nofx, Frank Turner, Anti-Flag, Alkaline Trio e muito mais

Em 2019, quando foi anunciado o line-up para a edição do Slam Dunk foi uma surpresa enorme, pois também incluíram a tour Punk in Drublic dentro da programação. A tour basicamente fez diversos shows pela Europa e entrou no cronograma britânico com duas apresentações, uma no norte e uma no sul do país. Vamos lá, após o sucesso da primeira edição da Punk in Drublic, obviamente, já para o ano seguinte anunciaram novamente. Claro, expectativa lá em cima, diversos nomes de peso…e nem precisa dizer o resto: covid-19, cancelamentos, remarcações, e tudo que já era da nossa rotina nesses últimos 18 meses. Agora falando um pouco do Slam Dunk, o festival acontece em um final de semana, com a primeira perna em Leeds e a segunda em Hatfield, cidadezinha muito próxima a Londres, meia hora de trem praticamente. Desde abril/maio, quando começaram os relaxamentos das restrições, ficou uma incerteza muito grande sobre o retorno da música ao vivo. Aliás, isso afetou grande parte do line-up do festival e, consequentemente, a Punk in Drublic. Punk in Drublic com baixas Em resumo, o Punk in Drublic é um festival dentro de um festival, creio que seja a forma mais fácil de explicar. O line-up infelizmente sofreu diversas alterações nesse tempo. Infelizmente, bandas como Reel Big Fish, Me First and the Gimme Gimmes, The Vandals, Pennywise, Face to Face e Days n’ Daze não se apresentaram, praticamente todo o line-up anunciado no final de 2019. Porém, elas foram sofrendo as baixas durante os anúncios que eram feitos durante o período, tanto que o Pennywise cancelou faltando dez dias para o festival rolar. Enfim, vamos voltar ao começo. Moro no sudeste de Londres, ou seja para ir ao festival precisaria ao menos de uma hora e quarenta para chegar, porém os trens aos domingos sofrem alterações nos horários e quetais, então isso demandou mais tempo, mas o problema não seria a ida, mas a volta… Chegando ao parque de Hatfield, a primeira missão foi entrar. Em 2019, o credenciamento era bem na entrada, tudo mais fácil, mas esse ano devido às restrições (?) foi um pouco mais burocrático. Porém, nada que meia hora a mais tudo fosse resolvido. Os shows do Punk in Drublic Primeira banda a se apresentar foi The Baboon Show, um quarteto sueco, que faz um rock n’ roll na linha Hellacopters, AC/DC. Uma pedida excelente para abrir o dia e iniciar os shows no palco Punk In Drublic. As bandas iniciam os shows cedo. O The Baboon Show começou a tocar às 11:45, com um set de meia hora. Foi ótimo para ter uma ideia do som da banda. Aliás, deixou uma grande brecha para ir a fundo no trabalho da banda. Pausa rápida, pegar um bebida e voltar para a segunda banda: os ingleses do Buster Shuffle. Uma abordagem totalmente oposta à primeira banda, porém com uma acidez enorme no discurso. Eles fizeram um show dançante e muito divertido, com o piano ditando a levada do som, deixa tudo mais gostoso de ouvir. Contudo, não faltou “elogios” ao primeiro-ministro Boris Johnson. “He is a cunt isn’t“, dizia Jet, do Buster Shuffle. Terceira banda, prata da casa, os ingleses do Snuff. Banda clássica que lá nos anos 1990 foi do cast da Fat Wreck. Dispensa apresentações, jogo ganho, público em peso e só estava na terceira banda… O festival ofereceu uma grande variedade para comer, então isso não foi um problema. Uma coisa que até então estava funcionando muito bem eram as máquinas para pagamento em cartão. Isso foi excelente, pois na edição anterior não foi lá essas coisas. No entanto, o serviço de wi-fi funcionou até um período e o celular, enfim, não funcionou para poder ver os shows e não ficar preso a ele. Velhos conhecidos do Slam Dunk Quarta banda, mais uma inglesa e velha conhecida do Slam Dunk, o Capdown voltou ao palco do festival. Dez anos atrás eles fizeram um show de reunião e foi mais um ótima pedida para as reposições do festival. Dando sequência, outra banda que já passou pelo Slam Dunk algumas vezes, a Zebrahead. Como em todos os shows deles, foi uma festa do início ao fim. Também foram os dois primeiros shows por aqui com o novo integrante, o guitarrista e vocalista Adrian Estrella, que também toca no Mest. Enfim, um excelente show como de costume. Mais uma banda inglesa e outra velha conhecida do festival, o The Skints subiu ao palco e com um clima perfeito foi fácil para eles deixarem o público na mão deles. Eles, definitivamente, foram o divisor de águas no meio dos shows. Poderia dizer que foi meu show favorito do dia facilmente. Porém, só estava na metade e, agora em diante, todos os shows eram jogos ganhos. Daí por diante, Anti-Flag veio com todo o seu discurso. Chris 2 abusando dos pulos, hit atrás de hit e o público em cima. This Is the End (For You My Friend), Hate Conquers All e Brandenburg Gate marcaram presença no set. Deixou o caminho livre para o Alkaline Trio. Os headliners O Alkaline Trio deu um frescor e uma leveza. E nem preciso dizer que o set foi um greatest hits. Público cantando uníssono. Incrível! Com Matt Skiba, também integrante do blink-182, no comando de tudo, o Alkaline Trio desfilou as queridinhas do público Mercy Me, Private Eye, Armageddon e We’ve Had Enough. Penúltimo show, mais uma figurinha carimbada, um dos caras mais boa praça da atualidade: Frank Turner & The Sleeping Souls. No palco, ele fez o serviço da melhor forma possível, jogo ganho obviamente. Set list na medida, com direito à uma versão acústica de Linoleum, do Nofx. Deixou aberta as portas aos donos do festival, para encerrar o dia da melhor forma possível. Nofx no palco, dancinhas, falatório descompensado, uma avalanche sonora, mais falatório, mais música, piadas, palhaçadas e isso tudo que já estamos calejados nos shows deles. Se Dinosaurs Will Die já deu a prévia do que viria pela frente logo
Com dois brasileiros na formação, Popes of Chillitown mostra força em Londres

Com a retomada dos shows em Londres, a bola da vez foi o Popes of Chillitown, que fez uma apresentação perfeita para começar o final de semana, na última sexta-feira (20). A venue da vez foi o New Cross Inn, no sudeste de Londres, uma casa muito legal e aconchegante para um show. Som alto e cerveja gelada dão o tom da noite. Em sua formação, o Popes of Chillitown conta com dois brasileiros. Aliás, isso torna ainda mais interessante a química da banda que em sua sonoridade mescla diversos estilos e resulta em um belo mix. O show serviu como aquecimento para o Slamdunk, que vai acontecer em duas semanas. Voltando um pouco a falar sobre os brasileiros, um deles é o Trosso , sax e vocal no Abraskadabra. Recentemente, ele também lançou um álbum solo, ambos com estilos diferentes. No entanto, com uma qualidade impecável, realmente vale muito a pena ir atrás dos dois e conferir. Primeiramente, o show caótico do Popes está mantido. Logo de início, eles deixaram todos boquiabertos com a dobradinha de abertura do álbum Work Hard, Play Hard, See You In the Graveyard, com as músicas Prang e Get Off/Get On. A apresentação seguiu nesse ritmo, com a troca de beat e tempo nas músicas, assim como as trocas de vozes. Aliás, os sopros dão um charme extra na sonoridade, deixando uma massa sonora cheia de texturas e nuances. Passeio pela discografia do Popes of Chillitown O set passeou pelos três discos lançados pela banda. Blame Game, do A Word to the Wise, fechou o primeiro bloco. Posteriormente, com o jogo ganho, o resto do show foi se desenrolando sem muitas pausas. Contudo, posso citar diversos destaques da apresentação. Músicas como Winsdom Teeth, Vamos a La Luna, Opoom, entre outras consolidam o Popes of Chillitown como uma das grandes bandas do seu estilo. Certamente merecem um grande destaque. Aliás, a cena independente de Londres é muito rica. Vale muito a pena falar sobre algumas delas por aqui… Logo mais tem mais.
Em Londres, Yungblud celebra retomada dos shows com público

Creio que antes de falarmos sobre o Yungblud, devo exaltar que os shows estão voltando a acontecer em Londres. Aliás, isso nos dá uma grande motivação e alegria, pois aos poucos estamos conseguindo virar essa página. Bem, foi quase um ano e meio sem atividades musicais por aqui, diversos cancelamentos, alterações de datas, prejuízos, trabalhos perdidos e uma série de coisas nesse tempo. Gradativamente, as coisas estão se encaminhando para a normalidade. Porém, algumas regras são claras e básicas a serem seguidas. A principal delas é a vacina: se foi vacinado, entra no show. Caso contrário, vai ficar de fora. Bem, com quatro noites de sold out no O2 Forum Kentish Town, em Londres, ficou muito fácil de entender todo o buzz em cima do Yungblud. Dominic Richard Harrison, nome de batismo desse britânico de 24 anos, é um artista com uma abordagem muito peculiar. Ele mescla diversas referências e isso o torna muito especial. Em resumo, sua música passeia entre o rock, levadas de ska, pitadas de hip hop, tudo isso somado com um visual forte, além de um carisma único. Com uma produção impecável, fãs levados na palma da mão, além de hit atrás de hit, ficou fácil entender a popularidade e o sucesso por trás da persona Yungblud. Sinergia perfeita de Yungblud com os fãs A interação entre o artista e o público é linda, emocionante. Em diversos momentos fica nítida a felicidade de Yungblud em estar em cima do palco, com os refrões cantados a todo pulmão pela plateia inúmeras vezes. Aliás, os músicos esboçavam sorrisos e olhares felizes entre eles. Com uma fanbase jovem, o discurso é super forte por parte do frontman. Temas como racismo e sexismo são abordados nos intervalos das músicas. Contudo, todos os elementos do show promovem uma linda estética, deixando diversas atmosferas diferentes em um único espaço. Como já falado anteriormente, os hits estavam lá: I Love You, Will You Marry Me, Anarchist, Weird!, além também da inclusão de um single novo, Fleabag. Por fim, um releitura de I Think I’m Okay, de Machine Gun Kelly. Enfim, um grande show de um artista de uma expressão artística enorme, uma cara nova em um período onde é necessário a reciclagem.
The Bombers relembra a história de Rubin Carter na era dos cancelamentos

Em 1976, Bob Dylan lançava o álbum Desire, o décimo sétimo de sua carreira na época. A faixa de abertura do disco, com oito minutos e meio de duração, traz a história do pugilista Rubin Carter, o furacão, condenado injustamente a prisão perpétua em 1966 pelo crime de triplo homicídio. Rubin era um dos melhores boxeadores peso médio de seu tempo, conhecido popularmente como Hurricane, o mesmo nome da música de Dylan. A prisão tirou a possibilidade de Rubin disputar o título de campeão mundial e o seu caso, até hoje, é uma emblemática demonstração de racismo e de manipulação da justiça americana. O Hurricane ganhou liberdade apenas em 1985, após a anulação do seu julgamento, e quase dez anos depois do lançamento do álbum Desire, considerado um dos melhores de todos os tempos pela revista Rolling Stone, em 2003. A história de Rubin Carter é tão importante que além de livros e música, ele também ganhou uma versão nos cinemas, sendo interpretado pelo ator Denzel Washington no filme The Hurricane, lançado em 1999. Cancelamento No recente EP do grupo santista The Bombers, intitulado Você sabia que Rubin Carter era inocente?, a banda faz menção ao caso e mesmo sem citá-lo diretamente na faixa Mudamento, traz o tema “cancelamento” à tona em clima de ska punk. O estilo, inclusive, é semelhante aos primórdios do grupo com o 7 Songs, primeiro disco da banda e lançado em 1998. No entanto, a faixa também mistura um pouco de Sublime e Goldfinger. Talvez não seja possível comparar musicalmente as canções Hurricane e Mudamento, mas um paralelo histórico diante dos tribunais condenatórios e injustiças faça mais sentido. As redes sociais são vitrines capazes de criar grande comoção, ampliar debates e tornar acertos em exemplos a serem seguidos. Na mesma medida, é muito fácil ser condenado, ter seu nome e trabalho jogado no lixo e considerado um pária diante de uma internet esfomeada por apontar dedos, julgar e condenar tudo aquilo que ela considera errado. Na maioria dos casos, os artistas e personalidades públicas são os principais alvos, à mercê de boicotes e tentativas de apagamento social. É difícil traçar um limite entre os arrojos de uma reação justa e compreensível de outras experiências que buscam apenas o linchamento. A “cultura do cancelamento”, como é nomeada, é um fenômeno alinhado ao pensamento neoliberal em que vivemos, como explica o psicanalista Lucas Liedker, em entrevista ao portal Metrópoles. Segundo o especialista, “pautamos as nossas escolhas pela mentalidade de consumo e da substituição. Assim, as pessoas assumem a posição de objetos, que você pode ir trocando, cancelando, algumas vezes de forma justa e, em outras, implacável”. Desse modo, as consequências do cancelamento são imprevisíveis e os estragos incalculáveis. O cuidado com essa prática define, principalmente, de qual lado da história não queremos fazer parte. Um novo EP com releituras de si mesmo O EP Você sabia que Rubin Carter era inocente? é o quarto lançamento da The Bombers neste ano, divulgado no último dia 7. O trabalho faz parte de uma série de EPs que a banda pretende lançar ao longo de 2021. O intuito do grupo é que o lançamento seja feito na primeira sexta-feira de cada mês, com exclusividade na plataforma do Bandcamp e, dessa forma, comercializar seu trabalho de forma direta com o público. O Bandcamp, desde o ano passado, tem se tornado uma alternativa importante aos músicos, pois a plataforma criou uma política na qual deixa de cobrar sua comissão para ampliar os ganhos dos artistas. Assim, todas as vendas realizadas na plataforma na primeira sexta-feira de cada mês são destinadas de forma integral aos músicos. Neste lançamento, seguindo a proposta dos EPs anteriores, a The Bombers traz ao menos uma faixa inédita e releituras de músicas próprias e outros artistas. Entre elas está a versão punk de Baby Can I Hold You, música que foi um dos maiores sucessos da cantora americana Tracy Chapman. Bombers consegue até nos enganar no início da versão, relembrando inicialmente a balada romântica original de Tracy, mas logo ganha contornos mais autênticos e assinatura rock da banda. Emanharado Já na faixa Sonho ou Pesadelo, a história é um pouco diferente. Apesar da letra ser de autoria de Matheus Krempel, vocalista do Bombers, a música faz parte do projeto Emanharado, idealizado pelo jornalista João Pedro Ramos, para o site Crush em Hi-Fi. No álbum, cada participante enviou uma letra inédita, que foi redistribuída pelo site para outra banda ou artista, sem revelar quem a compôs. O desafio de quem recebia a letra era entender a cadência e musicá-la com sua própria personalidade, criando assim uma “parceria oculta”. O resultado deste álbum é bastante interessante. A versão “original” de Sonho ou Pesadelo possui uma carga pós punk bastante introspectiva por parte do duo paulista Antiprisma. Já na versão da The Bombers, a faixa se torna mais emotiva ganhando contornos obscuros e solos de guitarra. Na quarta e ultima faixa do EP, o grupo traz a versão acústica de Jogadas ao Vento, música do disco Democracia Chinesa, de 2007. A nova versão mantém a pegada emotiva, mas ganha nova sonoridade e que sobrepuja em significados, principalmente em tempos de pandemia. O EP é uma produção da própria banda que pretende lançar um álbum com 12 músicas reunindo as faixas preferidas do público, como explica Matheus. “Ao final da publicação dessa série de músicas, realizaremos uma enquete com nossos ouvintes, para decidirmos em conjunto, quais músicas formarão o disco que iremos lançar em formato físico ainda esse ano”, diz. Aliás, para continuar acompanhando as novidades da banda basta seguir o grupo nas redes sociais. Todos os endereços da The Bombers estão disponíveis aqui. Você sabia que Rubin Carter era inocente? by The Bombers
Te Amo Lá Fora: Duda Beat foge da mesmice em novo disco

A artista pernambucana Duda Beat divulgou no fim do mês de abril, seu segundo trabalho em estúdio. A temática de ‘sofrência’ ainda segue muito presente nas músicas da cantora, contudo, o amadurecimento musical de Duda é evidente. O debute da popstar brasileira aconteceu em 2018, com Sinto Muito. Logo após o lançamento, o álbum entrou nas graças do público. Estes três anos em ‘hiato’ fez a artista conseguir experimentar e testar coisas novas em suas canções, e isso é mostrado com maestria no novo disco. Te Amo Lá Fora As raízes nordestinas da cantora está presente logo nos primeiros segundos de Tu e Eu, primeira faixa do disco. E assim o trabalho segue até seu final. Ademais, se engana quem acha que Duda Beat mantém o mesmo estilo durante as 11 canções. A artista faz a transição de forma muito bem elaborada entre o pagode, forró, pop e ritmos nativos… mas claro, sem deixar a sua influência pop apagada. Em resumo, é um trabalho curioso, você nunca sabe o que virá na próxima faixa – a não ser a sofrência nas letras, que também agrada. Destaque fica para Nem um Pouquinho, faixa feita em parceria com o rapper Trevo, que conta com fortes influências baianas. 50 Meninas, com grande inspiração no reggae, também vale ser mencionada. Como já citado, o elo que liga todas as canções são as letras. Em síntese, Duda segue abordando amores não correspondidos e sofrências no seu trabalho, assim como acontece em Sinto Muito. Desde já, A expectativa para um novo trabalho criado pela cantora permanece entre nós.
Kosmovoid, o krautrock caiçara com cara de trilha sonora de filme de ficção

De tempos em tempos, o cenário musical da Baixada Santista nos surpreende com novidades sonoras. É assim desde os anos 1970, quando o Recordando o Vale das Maçãs marcou época, enquanto Vulcano e Harry chamaram a atenção do mercado europeu na década seguinte. E nem tínhamos Spotify e YouTube para facilitar o alcance a outros países. A boa nova da vez é o Kosmovoid, que transporta o ouvinte para uma viagem pelo mundo com canções “climatizadas”. Com trabalho instrumental de alto nível, a banda parece ter sido criada para fazer trilhas sonoras de filmes cult, de ficção científica e até ação. Impressionante! Formado no ano passado, o grupo não perdeu tempo durante a pandemia e finalizou um material rico que havia sido gravado entre o fim de 2019 e o início de 2020. Em resumo, todo esse conteúdo foi dividido em dois álbuns: Crisálida e Escapismo, com um total de 22 faixas. A divisão dos álbuns “Tínhamos muito material quando entramos em estúdio, em 2019. Durante o processo que foi até fevereiro deste ano, ainda gravamos extras, encerrados às pressas com a explosão da pandemia. Com toda essa loucura de covid-19 e o mundo de pernas para o ar, o sentimento de dúvida de quando iríamos tocar ao vivo nos inspirou a escolher essa estratégia kamikaze de lançar o disco de estreia duplo”, comenta Edu Pereira, sintetizador, guitarrista e vocalista. “As faixas de Crisálida traduzem as fases de transição, nossa transmutação musical e linguagem artística, e se comunica com Escapismo no sentido que antes gestando, no casulo, agora transformado ele tem N possibilidades e liberdade para explorar mundos musicais de estilos distintos e sem regras”, completa Edu. A banda, por sinal, começou como um duo: Eduardo e Enrico Bagnato (bateria, percussão), que já são parceiros na música de longa data. Ambos eram integrantes, anteriormente, da seminal shoegaze guitar band A Sea of Leaves. Em seu início, a Kosmovoid optou por uma formação mais enxuta. Porém, ao longo das gravações e colaborações, Marcelo Garcia (baixo e guitarra barítono), acabou se tornando um membro honorário. O álbum também contou com Mateus Novaes (Erudite Stoner), que já destacamos no Blog n’ Roll, com contribuições no processo de composição e participações especiais na guitarra em algumas das músicas, e Robert Silva, com um spoken-word na faixa Ugatz. Influências Para os já iniciados nas vertentes exploradas pelo Kosmovoid, certamente influências de Tangerine Dream, Kraftwerk, Can, Dead Can Dance, Goblin, Mogwai e John Zorn ficarão mais perceptíveis. Tendo o experimentalismo como seu norte, o Kosmovoid explora gêneros como o krautrock alemão, “kosmisches Musik”/ música cósmica dos anos 70 e a transgressão do rock pós-industrial e gothic das décadas de 1970 e 1980, e estabelece uma comunicação desses gêneros com o minimalismo da música drone e ambient, além de estilos contemporâneos como o post-rock, e shoegaze. “Nossa música traz uma experiência diferente ao ouvinte. Por ser uma banda instrumental, os temas trabalham muito com o imagético, é muito audiovisual, são como trilhas sonoras de filmes. Esse tom cinemático evoca sentimentos de melancolia e poesia, paisagens distópicas e desoladoras, um amalgama de mitologia e folclore de diferentes culturas. É uma viagem cósmica e visitas a mundos desconhecidos”. Repercussão internacional Eduardo conta que a repercussão com os álbuns do Kosmovoid tem sido ótima. “Além do feedback direto que recebemos de fora e dentro do Brasil por meio de nossas mídias sociais e Bandcamp, também tivemos a sorte do nosso selo, Dissenso Records, ser capitaneado pela experiente dupla Erick Cruxen e Muriel Curi, ambos da banda Labirinto. Eles possuem muitos contatos com blogs europeus e americanos. Dessa forma, conseguimos obter ótimas resenhas prévias ao lançamento”.