A artista indígena Cayarí iniciou um novo momento em sua trajetória com o lançamento do EP Território Vivo. A primeira faixa, Floresta, foi lançada nesta quinta-feira (16), dando início a uma série de quatro lançamentos mensais.
O projeto independente marca uma transformação estética e sonora em sua carreira. Conhecida por integrar elementos da cultura Pataxó à música contemporânea, a cantora amplia sua identidade artística ao incorporar influências do rock, especialmente do subgênero new metal, sem abrir mão de suas raízes ancestrais.
Para Cayarí, o EP Território Vivo se configura como um manifesto artístico e político, indo além de um simples lançamento musical. Nesta nova fase, a artista aposta em uma sonoridade mais intensa e visceral.
“Quero construir uma experiência onde o som, a identidade e a narrativa se entrelacem, propondo reflexões sobre pertencimento, reconexão com a terra e consciência coletiva. No single Floresta, canto sobre a proteção dos nossos biomas e da responsabilidade que temos para evitar um colapso climático ainda maior. Porque acredito que quando a floresta cai, caímos juntos”, declarou.
A fusão entre reggae, rock e elementos do new metal cria uma atmosfera potente, marcada por guitarras intensas, batidas densas e vocais expressivos que dialogam com espiritualidade, resistência cultural e consciência ambiental.
A estética visual do EP acompanha essa transformação, trazendo uma imagem mais dark, introspectiva e ousada, transitando entre o urbano, o ancestral e o contemporâneo. Com Território Vivo, Cayarí se firma como uma das vozes emergentes da cena independente, estabelecendo uma ponte entre tradição e inovação e convidando o público à reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza.
Conexões internacionais e estética
O novo trabalho de Cayarí também é atravessado por conexões relevantes dentro da cena internacional. Durante o processo, a artista trocou experiências com o baterista Iggor Cavalera, referência global no metal, e encontrou Sonny Sandoval, vocalista da banda P.O.D., uma de suas principais influências.
Além disso, o encontro com Julian Marley amplia ainda mais o diálogo entre reggae e rock em sua trajetória. Essas conexões evidenciam a construção de uma artista que transita com fluidez entre diferentes vertentes sonoras, incorporando o peso do new metal, a essência do reggae e suas raízes ancestrais, sempre alinhadas a uma mensagem socioambiental consistente.
Somando-se à sonoridade, Cayarí também constrói uma identidade visual marcante. Seu estilo é influenciado pela estética rock dos anos 2000, com o uso de correntes, botas e bucket hats, além de referências diretas de artistas como Avril Lavigne, Poppy e Amy Lee.
Essa construção estética se integra à sua essência ancestral, criando uma imagem que une atitude, espiritualidade e contemporaneidade.
Trajetória de Cayarí
Nascida em Vitória da Conquista, Bahia, Cayarí é cantora, compositora, atriz e apresentadora indígena da etnia Pataxó. Sua trajetória musical teve início aos nove anos de idade e, desde então, vem sendo marcada por uma expressiva diversidade artística. Suas composições transitam entre o português, inglês e Patxohã — língua ancestral do povo Pataxó — revelando um profundo compromisso com suas raízes e com a valorização da cultura originária.
Em 2018, mudou-se para São Paulo, onde rapidamente se destacou na cena musical alternativa, participando de pocket shows e batalhas de rima. No ano seguinte, iniciou colaborações com nomes relevantes da música paulistana, ampliando sua atuação e consolidando seu espaço na capital cultural do país.
Durante a pandemia de 2020, Cayarí encontrou novos caminhos de expressão: realizou lives musicais e criou um programa semanal de entrevistas em seu Instagram, dando visibilidade a representantes da etnia Pataxó e promovendo reflexões sobre identidade e resistência indígena.
Entre 2022 e 2023, sua carreira ganhou novos contornos. Suas músicas passaram a integrar trilhas sonoras de filmes e peças de teatro, e ela expandiu sua atuação como atriz. No final de 2023, lançou o EP Afluir, consolidando sua identidade artística plural.
Em julho de 2023, Cayarí foi nomeada embaixadora da octaEra, organização que atua na proteção das florestas e no fortalecimento das culturas originárias.
Em 2024, aproximou-se do universo reggae, gravando músicas do gênero e participando de shows ao lado de artistas consagrados. Fez história ao se tornar a primeira apresentadora indígena e nordestina de um Festival de Reggae no Brasil.
Sua trajetória também a levou a experiências marcantes, como o convite da equipe de Julian Marley (filho de Bob Marley) para acompanhar seu show na Virada Cultural de São Paulo, consolidando a sonoridade que viria a marcar seus próximos trabalhos, em uma fusão autêntica de reggae, rock e rap.
Além disso, apresentou-se musicalmente no Pré-Carnaval de Salvador, foi narradora do audiolivro bilíngue “Vamos Passear na Floresta”, na língua indígena Maraguá e em português, realizou um show autoral no Festival Indígena de Osasco e apresentou o espetáculo musical autoral “Afluir” no Teatro Alfredo Mesquita.
O ano de 2025 marca um novo ciclo na carreira de Cayarí, quando passa a nomear sua linguagem musical como Reggae’n’Roll nativo, conceito que sintetiza a fusão entre reggae, rock/new metal e ancestralidade indígena.
Entre suas participações recentes, destacam-se o show autoral com banda no Festival São Paulo Rocknation, a narração de audiodescrição no projeto Men Am Nim, na Ocupação Ailton Krenak do Itaú Cultural, e o show autoral no FSB – Festival Suíça Bahiana.
Em 2026, a artista lança o EP Território Vivo, consolidando sua nova fase estética e sonora. O projeto reúne quatro faixas que aprofundam sua proposta de fusão entre reggae, rock e influências do new metal, enquanto reafirma seu compromisso com a ancestralidade, a preservação ambiental e a valorização das culturas originárias.